CATHERINE Anderson 
A Cano do Annie 
Annie's Song (1996) 

ARGUMENTO: 


Alex Montgomery fica horrorizado ao descobrir que seu irmo forou a uma moa indefesa.
Atormentado pela culpa, Alex se casa com ela e pretende criar ao filho que leva em seu ventre.
Ao pouco tempo das bodas, Alex descobre que Annie Trimble, a filha "boba" de um juiz local, 
no sofre nenhuma discapacidad mental, mas sim padece surdez.
Enquanto Alex aprende a comunicar-se com o Annie, acordada uma parte inexplorada da moa 
e lhe descobre o mundo do amor. 


SOBRE A AUTORA: 

Catherine Anderson  uma autora norte-americana nascida em 1947. Vive com seu marido e 
seus Rottweilers, Sam e Sassy, que parecem convencidos de que so caniches e que o 
treinamento da obedincia  para a gente.
O chal do Anderson no topo da montanha  o lugar perfeito para um escritor, de um ponto devista  uma fonte contnua de inspirao. Em seu tempo livre, Catherine passa tempo comseus amigos, seus filhos e noras, e viaja com suas aventuras por todo mundo.
Catherine  uma autora virtualmente desconhecida entre os hispanos, mas tem publicados emingls mais de uma trintena de novelas, to histricas como contemporneas. 

PRLOGO 

Hooperville, Oregn. 
Domingo 6 de abril de 1890. 

Quando Douglas Montgomery estava sbrio, sua companhia era suportvel; mas quando bebia, 
     Alan Dristol lhe tinha medo. Alan no tinha muito claro por que. Que ele soubesse, Douglasnunca lhe tinha feito nada verdadeiramente mau a ningum. Mas mesmo assim pressentia,
sem poder evit-lo, que poderia chegar a faz-lo.
Este era um pensamento perturbador, pois obrigava ao Alan a examinar sua prpriapersonalidade. Se Douglas no lhe resultava de tudo simptico, por que se relacionava comele? E, ainda mais, por que bebia com ele? Eram perguntas que Alan se feito milhares devezes, e a resposta, embora no gostasse de reconhec-lo, era que no se atrevia a lhe dizerque no... Uma palavra to singela como "no"! Mas dizer-lhe a algum como Douglas no eranada singelo. Depois de obrigar a seu cavalo a que afrouxasse o passo, Alan entreabriu osolhos frente ao forte sol matutino para observar as costas dos quatro companheiros quecavalgavam diante dele. Douglas Montgomery, mais alto e largo de costas que outros,
encabeava o grupo. Como querendo pr de relevo sua autoridade, cravava com freqncia asesporas nas garupas do cavalo e sacudia continuamente as rdeas da pobre besta. Alan quasesentiu nuseas ao pensar em semelhante mau trato. Era um cavalo obediente e no havianenhuma necessidade de que Douglas o tratasse com crueldade.
Logo, Alan dirigiu o olhar para o James Radwick, Roddy Simms e Sam Peck, os outros trs 
jovens que foram diante dele. Tinham sido seus melhores amigos desde que tinha memria eacreditava conhec-los quase to bem como a si mesmo. Suspeitava que temiam ao Douglastanto como ele. Que pena davam! A noite anterior esqueceram tudo o que alguma vezaprenderam para seguir ao Douglas como obedientes corderitos, ou como estpidos escravos: 
foram com ele aos bordis e logo afogaram os remorsos em lcool. Mas os fortes dores decabea que naquele momento tinham lhes estavam fazendo pagar cara sua debilidade. Deussanto! Era domingo. Suas famlias deviam estar na igreja naquele preciso momento,
perguntando-se onde se teriam metido. Era possvel que nenhum deles tivesse um pouco defora de vontade? 



Douglas fez que seu cavalo ficasse de lado no meio do caminho para lhes fechar o passo, tirou-
se o chapu de feltro de feltro e se secou o suor da frente com uma manga. Fez uma careta ao 
ver a imundcie que manchou imediatamente seu branco punho. Abril tinha sido inusualmente 
seco, tinha chovido muito pouco nas ltimas duas semanas e o caminho estava poeirento.
-Proponho-lhes que vamos nadar para nos limpar -disse com ar e tom desafiante-. Maricas 

o ltimo! 
As Cataratas Brumosas e sua lacuna favorita estavam perto dali. Alan, incrdulo, dirigiu o olhar 
naquela direo. Ao Douglas adorava fazer loucuras; quanto mais temerrias, melhor. Mas 
propor aquilo justo depois do acontecido a noite anterior, j era muito.
-Que vamos nadar? Tornaste-te louco? Morreremos de frio. 
-Por Deus, Alan,  um menino mimado. Aqui faz mais calor que no muito mesmo inferno.
Estou suando, e voc tambm. 
-Sim, assim vestido e completamente seco... claro que estou suando -reconheceu Alan-.
Mas no ser o mesmo, nem parecido, se me meter nessa lacuna.
-A gua da lacuna  neve derretida das montanhas -assinalou Roddy-. Com toda segurana 
estar desagradablemente fria, Douglas. 
-Desagradablemente fria?  um homem, Rod, ou uma garotinha chor disfarada de homem? 
O rosto do Roddy avermelhou pela humilhao, mas no disse nada para defender suadignidade. Nenhum deles lhe tinha feito frente a Douglas jamais.
Douglas deixou escapar um grunhido de indignao, e esporeou ao cavalo para que sasse docaminho e se metesse na sarjeta que se encontrava junto ao mesmo. Agitando seu chapu defeltro no ar, soltou um chiado enquanto o animal salvava de um salto o aterro. Alan olhou com 
receio a seus trs amigos. De sobra sabia que nenhum deles queria ir nadar. Infelizmente,
tambm sabia que dobrariam a nuca ante o Douglas, pois nenhum tinha guelra para lhe opor 
resistncia. 
-E bem? -perguntou Roddy. 
Sam suspirou.
-s vezes quisesse que estivssemos sozinhos os quatro, como antes; desejaria que nuncanos tivssemos misturado com ele. 
-Estou de acordo com isso -anotou James. 
Alan pensava o mesmo, mas isso parecia irrelevante. O fato era que Douglas no s se uniu aogrupo, mas tambm alm disso tinha tomado o mando. Os quatro fizeram girar seus cavalos e,
a contra gosto, dirigiram-se para as cataratas. Como uma espcie de advertncia, o ventocomeou a soprar com repentina fora, e Alan sentiu seu refrescante impacto no rosto. Sabiabem que aquele mesmo vento, grato agora, pareceria-lhe glacial com a pele molhada.
Em lugar de seguir o atalho j aberto por pisadas em anteriores, Douglas se abriu caminhopelo bosque para chegar  lacuna. Era um terreno acidentado. Um madroo, um louro, um 
carvalho raqutico e um abeto torcido se emaranhavam como os dedos de uma anci artrtica 
para impedir o passo a qualquer; seus troncos slidos e retorcidos se elevavam entre a densamaleza. Era impossvel ver a terra. Temendo que seu cavalo tropeasse com algum obstculo e 
se rompesse uma pata, Alan afrouxou o passo e comeou a avanar com cautela. Seus amigos,
temerosos de que Douglas tomasse com eles se perdiam o tempo, no se permitiram estaliberdade. Alan pensava que no mostravam nenhuma considerao por seus monturas ao as 
obrigar a atravessar um terreno to desigual a semelhante velocidade. Mas ele s era um dos 
vassalos, no era o lder. Todos faziam o que Douglas quisesse, sem fazer perguntas, sem lhesimportar nem seus cavalos nem nenhuma outra coisa. 
Alan chegou o ltimo. Naquele instante ouviu as vozes de seus quatro companheirosdeslizando-se para ele atravs dos pinheiros e os abetos. Gritos e chiados. A pesar do rancor 
que guardava ao Douglas, sorriu ao imaginar ao Sam, Roddy e James saltando nus  gua 
geada. Idiotas insensatos. Poderiam agarrar uma pneumonia, e tudo por seguir a corrente ao 
Montgomery. Malditos sejam os Montgomery! Maldita sua luxuosa casa da colina. Maldito sejaseu dinheiro! Algumas vezes Alan se perguntava se a seu autoproclamado chefe no lhe 
ocorreriam aquelas descabeladas idias com a nica inteno de ver at onde podia pressionlos, 
qual era seu limite.
Ao sair por fim da intrincada arvoredo, ao Alan surpreendeu advertir que ningum tinhaentrado ainda na gua. Ps uma mo cavada sobre seus olhos para tratar de ver que se devia 
todo aquele alvoroo e descobriu que havia cinco pessoas perto da lacuna: seus quatrocompanheiros e uma jovem de compleio magra. Douglas lhe tinha tirado o xale  mulher e otinha na mo fora de seu alcance. Tpico dele. Douglas aproveitava qualquer oportunidade quelhe apresentava para intimidar s pessoas. Embora aquilo incomodava ao Alan, supunha que 
no era mais que uma inocente tomadura de cabelo. 


Em seguida reconheceu a jovem. Annie Trimble, a idiota do povo. Embora quase tinha vinteanos e j fazia muito tempo que tinha deixado de ser uma menina, seu folgado vestido azul, 
suas meias negras e suas botas de cano longo cheios de barro lhe davam um aspecto infantil e 
digno de lstima. Sua me ia com freqncia a casa dos Trimble, e por isso Alan sabia que Edie 
tentava por todos os meios que sua filha estivesse sempre bem arrumada, mas ao Annie 
gostava de percorrer livremente o bosque, de maneira que esta era uma misso impossvelpara a pobre mulher.
Seu corao percebeu a expresso de pnico no pequeno rosto da jovem enquanto tentavadesaforadamente recuperar o xale que lhe pertencia. Posto que Annie esquecia muitas vezes 
seus objetos de vestir no bosque, seus pais eram muito estritos com ela quando no retornavaa casa com todas suas coisas. Alan sabia que a repreenderiam severamente, ou lhe fariamalgo ainda pior, se retornava a casa sem o xale. Seu pai, o juiz, acreditava que a letra com 
sangue entra, e pela enfermidade do Annie, por seu atraso, era muito mais duro com ela doque o tinha sido com as trs filhas maiores.
Alan no criticava ao juiz por assumir esta atitude, nem tampouco pensava que fosse cruel. Eradifcil controlar a uma garota com inteligncia limitada, como Annie, e seus pais eram dignosde elogio por hav-la deixado viver em casa. A maioria das pessoas teriam internado a umamenina como ela em um manicmio. Se no fosse porque os Trimble conseguiam esconder ajovem quando tinham visitas, era muito possvel que a boa sociedade lhes tivesse feito o vazio.
A muitos indivduos parecia muito desagradvel ver algum como Annie. Apesar disso, seus 
pais no a tinham internado em um hospital psiquitrico. Em lugar disso, preferiram ficar a emanter sua existncia na sombra, por assim diz-lo. 
Alan no saberia dizer por que os Trimble se tomavam tantas molstias. O dinheiro no era um 
obstculo para eles. No teriam nenhum problema em pagar para que um estabelecimentopsiquitrico se ocupasse da jovem; e, dadas as aspiraes polticas do juiz, era de sentirsaudades que no o tivessem feito. Embora era bem conhecido que Annie tinha sido uma 
menina de inteligncia normal at que uma febre lhe afetou o crebro, algumas pessoas dopovo ainda rumoreaban a costas dos Trimble que um dos tios do Edie estava louco e que odesequilbrio mental era, portanto, coisa de famlia. Rumores como este poderiam acabar coma credibilidade de qualquer poltico.
Maldita seja! Douglas tinha que haver-se dado conta de que Annie no entendia que ele s 
estava jogando com ela. Isto era evidente em seus desesperados intentos por recuperar o xale. 
A pobre criatura era curta de entendederas, e qualquer poderia dar-se conta disso. Aexpresso de perplexidade de seus grandes olhos azuis a delatava por completo, por nomencionar a maneira to estranha em que inclinava a cabea quando Douglas lhe falava. Erabvio que no entendia o que lhe estava dizendo. 
-No somos j muito majores para andar com este tipo de comportamentos? -Gritou Alan-.
Venha, Douglas, deixa tranqila a essa pobre garota.
-falou so Alan -respondeu Douglas-. Pretende simular que alguma vez te burlaste que ela? 
Tinha pinado na ferida! 
-Todos torturamos ao Annie alguma vez, mas quando fomos meninos. Um homem feito no 
faz algo semelhante.
-Isso  verdade. Venha, Douglas -disse Roddy com tom suplicante-, deixa-a em paz.
Douglas no parecia estar escutando. Inclinando-se para frente, sorriu de brinca a brinca aoAnnie e fez oscilar o xale deixando-o justo fora de seu alcance.
-Qu-lo, carinho? Pois vem por ele.
Enquanto tentava enrol-la para que se aproximasse ainda mais, Douglas deslizava seu olharpelo vestido do Annie, que estava mido, provavelmente por culpa da catarata que se 
encontrava corrente acima. Todos os que viviam no Hooperville ou nas zonas prximas sabiam 
que ao Annie gostava de passear-se ociosa pelas rochas que rodeavam a catarata. S Deussabia por que tinha esta afeio. A neblina de vapor que em todo momento subia da gua quecaa em cascata era terrivelmente fria, mas isto no parecia desanim-la, fizesse o tempo quefizesse. 
O tecido molhado do vestido do Annie, suave de tanto lav-la, lhe pegava ao corpo, deixandover muito mais do que ocultava. As curvas femininas que se adivinhavam sob o vestido eramdeliciosamente generosas... e estavam livres de travas. Pressentindo que haveria problemas,
Alan se desceu do cavalo. Douglas no podia estar pensando o que Alan temia. O solo feito de 
considerar essa idia era uma brutal manifestao de inconscincia. Mas quem havia dito queDouglas tinha conscincia?
Ao ver o Douglas, com seu cabelo leonino bem talhado e seus risonhos olhos castanhos, 
poderia-se pensar que era um jovem educado. Tinha-o tudo: dinheiro, privilgios e uma 



excelente educao em uma exclusiva universidade do Este. Mas nada disto parecia suficiente
para ele, e provavelmente nunca fosse. Parecia sentir uma insacivel sede de poder, uma
necessidade irrefrevel de controlar a outros. 
Esta se tinha manifestado fazia muito tempo com o Alan e seus amigos, e agora se desatava
sobre o Annie. 
Mas, ao contrrio que eles, Annie no era capaz de defender-se.
Alan jogou uma olhada a seus desconcertados olhos azuis e em seguida a empreendeu contra
Douglas.
-Maldio! Ela no est em seu so julgamento, Douglas, e voc sabe. te coloque com algum 
que possa defender-se de tudo o que lhe faa.
-Estar um pouco tocada da cabea, mas o resto de seu corpo est em perfeita forma -
replicou Douglas-. Sagrada revelao! Posso ver suas tetas to claramente como a gua. -
Deixando escapar um dbil assobio que no augurava nada bom para o Annie, adicionou-: Me 
faz a boca gua s as olhando.
Alan se voltou para seus amigos para procurar ajuda. Com as mos metidas nos bolsos, Sam 
agachou a cabea e removeu a terra avermelhada com a ponta de uma de suas botas.
Dissimulava, como se acreditasse de verdade que ignorar a situao a faria desaparecer.
Roddy se Rio pelo baixo, e a cara corada do James ficou de cor escarlate. Apesar de sua
vergonha, nenhum deles parecia poder apartar o olhar do corpete do Annie. A contra gosto,
Alan tambm lhe jogou uma rpida olhada. Era certo que os mamilos ressaltavam sob o tecido. 
E, para piorar ainda mais as coisas, a saia pegava s coxas. Molesto consigo mesmo por haver-
se fixado nisso, Alan apartou imediatamente o olhar do proibido. O temor que sentia pelo Annie 
lhe apertou as tripas, como se um frio punho as espremesse.
-Sua mame est louca, mulher. No deveria te deixar andar pelo campo ao meio vestir -
disse Douglas em voz baixa, sem deixar de fazer oscilar o xale como se se tratasse de uma 
ceva. 
-Sua mente segue sendo a de uma menina, e alm de uma menina no muito inteligente -
lhe recordou Alan em um tom de voz que a ansiedade havia tornado agudo-. Estou seguro de
que sua me a viu desta maneira devido a ela no faz mais que brincar de correr pelo bosque.
Confia na decncia da gente que possa topar-se com ela, e com toda a razo. Ela no  um 
branco de desejo legtimo, Douglas, e sabe. lhe d seu xale e deixa que se v a casa.
-O darei -lhe assegurou Douglas-. Tudo o que tem que fazer  vir a por ele. Anda, carinho.
Vem, te aproxime do Douglas.
Totalmente alheia s perverses carnais da mente de seu torturante, Annie se lanou para 
agarrar o objeto. No momento mesmo em que se aproximou, Douglas a agarrou da cintura. Ela 
no gritou, mas os ofegantes rudos de pnico que emitiu resultaram ainda piores. Ao Alan lhe
revolveu o estmago. No gostava do que estava passando. No gostava absolutamente. A
expresso visvel no rosto do Douglas era diablica. Diablica e cruel. Seus olhos cor usque
despediram um brilho de pecaminosa excitao.
Alan deu um passo adiante. 
-Deixa que a garota parta, Douglas. Digo-o a srio!
-A garota? -Sem soltar sua presa, Douglas se desfez do xale para apertar com uma mo o
delicioso traseiro do Annie. A julgar pela maneira em que os dedos se afundaram na carne, sua 
maneira de agarr-la era intencionadamente cruel-. Est cego, meu amigo. Esta no 
nenhuma garota,  uma mulher que alcanou seu pleno desenvolvimento.
Soltou uma dbil risada e tentou lhe roubar um beijo. Empurrando inutilmente seus ombros,
Annie, com seu cabelo azeviche caindo como um sedoso matagal sobre as magras costas e 
com os olhos nublados pela confuso, conseguiu arquear o corpo e esquivar sua boca. Douglas
se conformou mordiscando-a ao longo da coluna do pescoo. 
-Caramba, que doce ! -A mo do tipo procurava agora o peito com a mesma perversidade
com a que tinha agarrado o traseiro.
A ira invadiu ao Alan. De maneira nenhuma ficaria com os braos cruzados vendo como 
Douglas o fazia machuco a jovem. Aquilo j passava de castanho s escuras. Colheu com uma
mo o musculoso brao do Douglas.
-Disse-te que a deixasse...
Alan no pde terminar o que estava dizendo. O brilho de uma adaga interrompeu suas
palavras. ficou olhando ao stiro com mudo assombro enquanto Douglas soltava ao Annie para 
adotar uma postura de combate e amea-lo com a arma, que pareceu sair de um nada.
-Nunca mais volte a te colocar em meus assuntos -lhe advertiu Douglas com ameaadora 
suavidade. 
Os joelhos do Alan estiveram a ponto de dobrar-se ao pensar na folha daquela adaga lhe 




abrindo o estmago de um talho. Seu nico consolo era que, em meio da fria, Douglaspareceu esquecer-se do Annie. Alan queria lhe gritar que fugisse, mas sabia que, se o fazia,
Douglas recordaria o que tinha estado fazendo e voltaria a lhe emprestar sua luxuriosa 
ateno. S podia esperar que Annie tivesse o suficiente sentido comum para fugir motu 
proprio. 
-Venha, Douglas. Est bbado -observou Alan com voz trmula.
Foge, Annie. te largue daqui! Alan sentiu gotas de suor correndo por suas costas. Com a 
extremidade do olho, viu o Annie tratando desesperadamente de encontrar seu xale. Suarespirao era como ofegos superficiais, uns sons parecidos com os miados de uma gatita. 
Resultava evidente que tinha medo e queria escapar. Mas no estava disposta a partir sem seu 
xale. Com um sentimento de desgosto, Alan compreendeu que, para ela, o xale era de soma 
importncia. Se retornava a casa sem ele, seu pai a castigaria. A pobre menina nocompreendia o verdadeiro alcance do perigo que corria. Isto no lhe surpreendia. Duvidava deque outro homem a tivesse cuidadoso alguma vez com luxria, e muito menos que lhe tivesseposto uma mo em cima. Ela no podia prever algo que no formava parte de sua experincia.
Naquele instante, a definio da palavra inocncia adquiriu um novo significado para o Alan, eAnnie era sua personificao.
Centrando sua ateno no Douglas, Alan decidiu tratar de raciocinar com ele. Ao menospoderia ganhar um pouco de tempo para o Annie, se no obtinha nada mais. 
-te tranqilize, Douglas. No querer cometer um delito, verdade? Se te colocar com uma 
idiota, estar-o fazendo. Ela  a filha do juiz Trimble, pelo amor de Deus! Retirado ou no,
assegurar-se de que lhe pendurem das Pelotas no mastro da rua principal se a toucas.
-Como saber? Ela no pode dizer-lhe recorda?
Dado que era indiscutivelmente certa, a observao fez que ao Alan lhe gelasse o sangue nasveias. Annie no podia falar. Embora os reconhecesse, provavelmente no sabia seus nomes, eno poderia repeti-los se soubesse. Ousou lanar um rpido olhar para onde ela se encontrava,
e a viu atirando de seu xale para tentar desenganchar o da raiz de uma rvore. Por Deus! Seuspais lhe tinham ensinado bem. To bem que estava disposta a jogar o pele antes queabandonar aquele pedao de l que no tinha nenhum valor. Alan sabia que Annie tinha sido 
vtima de brincadeiras cruis durante quase toda sua vida. De maneira nenhuma podia saberque naquela oportunidade era diferente, que Douglas tinha a inteno de fazer muito mais quesimplesmente atorment-la com brincadeiras pesadas. Muitssimo mais.
James, que se tinha sentado em um tronco cansado, ficou de cuclillas. Seus olhos cinzas se 
encheram de incredulidade, e Alan no sabia se isto era por causa da adaga ou da horripilantesugesto do Douglas.
-No pode estar falando a srio, Douglas! -Exclamou James-. Embora ela no possa falar,
ter que considerar o aspecto moral do assunto.
-Que aspecto moral? -Douglas ria-. Olhe que so afetados! No sei por que perco o tempo 
com vs.  muito provvel que se esteja morrendo de vontades. Caray!, esta mulher tem 
dezoito ou dezenove anos, como pouco. A maioria das garotas de sua idade j esto casadas etm um ou dois filhos. Esta pode ser sua grande oportunidade para divertir-se um pouco.
Divertir-se. A palavra ficou flutuando no ar, desagradvel, discordante. Alan rogou por seguirmantendo a ateno do Douglas, embora s fosse um momento. detrs dele, Annie finalmente 
conseguiu desenganchar seu xale. Como se tivesse olhos na parte posterior de sua cabea,
Douglas alargou a mo para trs e a agarrou da boneca no instante mesmo em que a moa se 
voltava para fugir. Ela se cambaleou sob a fora da mo do agressor. Quando viu a adaga que 
blanda, ficou lvida. Alan sups que finalmente seu pouco espabilado crebro tinha 
compreendido que Douglas podia ser um homem realmente perigoso.
Acentuando a advertncia que o fazia ao Alan com a afiada ponta de sua adaga, Douglas 
perguntou:
-Algum de vs quer enfrentar-se comigo? Se for assim, faam como as rs e saltem para ele. 
Nenhum deles era to parvo para fazer algo semelhante. Sabiam que Douglas era capaz dematar. O brilho que havia em seus olhos era prova fehaciente de que nesse momento estava 
disposto a isso. Seguiu agitando a adaga no ar. Aquele frio sorriso prometia tomar represliasse algum deles se atrevia a desafi-lo. Quando esteve seguro de que ningum teria o valor defaz-lo, guardou a arma na capa de seu cinturo e centrou toda sua ateno no Annie, que se 
retorcia em vo, tentando liberar-se das mos daquele homem.
-No pode fazer isso! -gritou Alan.
-Quem me impedir isso?
No seria Annie,  obvio, pois era uma jovem de compleio magra, enquanto que Douglas eraum homem robusto de mais de um metro oitenta de alto. Girando agilmente sobre seus tales, 



jogou-a no cho, levantou-lhe a saia e a violou sem esforo algum, como se se tratasse de umamenina. 

CAPTULO 01 

Elevando o farol para iluminar o caminho, Alex Montgomery percorreu a grandes pernadas ocorredor que atravessava as cavalarias. O fedor acre do esterco fresco se mesclava com opoeirento aroma do feno, para estender-se pesadamente sobre o ar frio da noite. Relinchos de 
bem-vinda chegavam a seus ouvidos procedentes dos escuros compartimentos. Em outras 
circunstncias, Alex possivelmente se deteve, mas no tinha tempo nem vontades de dartorres de acar aos cavalos aquela noite.
As intermitentes mancha de luz dourada do farol e os rpidos movimentos de sua sombrabrincando ao longo das paredes de madeira eram indcios da profundidade de sua ira. Fazia 
chiar os dentes para no bramar de pura fria. Chegou ao final do corredor e abriu de umapatada a porta de pranchas que conduzia ao abrigo onde guardavam os arreios. Tal e como oesperava, seu irmo, Douglas, estava convexo de forma pouco elegante sobre um monto depalha esparramada ao longo de uma das paredes, um de seus lugares favoritos para dormir a 
Mona. 
Tragou saliva antes de pronunciar a primeira palavra, para domin-lo mais possvel. Ao cabode um instante, Alex falou. 
-Desperta, hermanito. Temos que falar.
Com uma garrafa de usque em uma mo e cobrindo seus olhos com a outra, o jovem resacoso 
grunhiu e ficou de barriga para baixo para dar as costas ao Alex. 
-te largue.  meia-noite.
s sete da tarde dificilmente poderia dizer-se que fora meia-noite, e o fato de ver o Douglascom uma garrafa de usque recordou ao Alex que j era hora de que deixasse de considerar aseu irmo de vinte anos um menino. 
-Disse-te que despertasse. -Alex entrou na habitao e pendurou o farol do gancho de uma 
viga-. Tm feito uma acusao muito grave em seu contrrio, jovencito, e quero chegar  
medula de tudo isto. 
Douglas resmungou de novo.
-No podemos falar mais tarde? 
Alex ficou em jarras, desafiante, e elevou o queixo.
-O juiz Trimble acaba de me fazer uma visita. violaram a sua filha, Annie, e Alan Dristol afirma 
que voc o fez.
Isto pareceu atrair a ateno do Douglas, quem em seguida se colocou outra vez de barrigapara cima para olhar com olhos de mope por debaixo de suas mos cavadas. Alex teve umraio de esperana. Mentiras, no eram mais que mentiras. Um horrvel mal-entendido queumas poucas palavras de seu irmo poderiam esclarecer. Nenhum Montgomery se rebaixaria 
at o ponto de obrigar a uma mulher a receber suas cuidados, e muito menos a uma garotato indefesa como Annie Trimble. Alm disso, para que faria Douglas algo assim? Era umjovem arrumado que pertencia a uma famlia enriquecida. Quase todas as mulheres do povorivalizavam para tratar de ganhar seus favores.
Douglas piscou como se estivesse tentando assimilar o que seu irmo acabava de lhe dizer. 
-O que diz que anda contando Alan por a?
depois de um momento fez uma careta de desprezo.
-Maldito bode, delator, traidor! J ver quando o agarrar! 
Como dedos midos e gelados, estas palavras apagaram a ltima fasca de esperana quehavia no Alex. ficou imvel durante um momento, como paralisado pela incredulidade. Nohavia na voz do Douglas sinal alguma de que sentisse compaixo pelo Annie Trimble. E 
tampouco negou a acusao.
O p da palha se elevou no ar, lhe produzindo picor nas janelas do nariz. Uma sensao 
abrasadora se apropriou de seus olhos.
-me diga que no o fez, pelo amor de Deus! -Alex tinha agora a voz quebrada.
Ao tempo que pronunciava estas palavras, notou o timbre de desespero que havia em sua 
prpria voz.
-Eu no o fiz. Mas podemos deixar esta conversao para amanh na manh? 
-No, maldio! No podemos. -Alex se aproximou ainda mais. Seu corpo estava tenso, suastmporas comearam a palpitar com fora-. violaram a uma garota. Como poderamos deixaresta conversao para amanh? O juiz Trimble est fora de si. E como no entend-lo? Quero 
saber a verdade, Douglas, e quero que me diga isso agora. me diga o que aconteceu, Por 



Deus! por que diria Alan algo assim, se no fora certo?
-Porque  um covarde chaquetero, essa  a razo. Bebi muito e perdi o controle. Isso  tudo.
-Isso  tudo? -Ao Alex pareceu que a luz do farol comeava a oscilar: brilhava intensamente 
durante um momento e logo se ia atenuando ligeiramente-. Deus santo, Douglas, essa garota 
foi violada! 
-Mas nem que lhe tivesse feito um dano permanente...
-Um dano permanente? Estamos falando de uma violao, pelo amor de Deus!
-Uma violao! -Douglas o disse em voz baixa, como se se tratasse de uma acusaoabsurda-. Por definio, uma violao tem lugar quando um homem obriga a uma mulher areceber cuidados que ela no deseja. Annie Trimble recebeu exatamente o que andava 
procurando. 
-O que? 
-S tem que te fixar em como se veste e a forma em que se comporta. No leva mais queuma magra regata e cales bombachos sob seu vestido. No fica espartilhos nem anguaspara ocultar sua figura. passa-se os dias perambulando pelo bosque como se fosse uma ninfa,
e sem carabina! esteve provocando a todos os homens do condado do Hooper desde que lhe 
cresceram as tetas. O que devemos fazer os tios? Fingir que estamos to cegos como 
toupeiras? J te hei dito que estava bbado.  impossvel que um homem resista a tentaopor muito tempo. Sua me no deveria permitir que ela ande de um lado para outro vestidadessa maneira, sem que ningum a acompanhe.
Alex parecia cada vez mais consternado.
-Deus santo! Voc o fez, verdade? Voc violou a essa pobre garota.
Ao Douglas tremia o queixo. Cobriu com o antebrao seus olhos castanhos.
- um defensor de causas perdidas, Alex. Annie Trimble ter o crebro afetado, mas do 
pescoo para abaixo est perfeitamente bem. Ela o queria tanto como eu. E, embora no fosse 
assim, o que importa? No pode recordar seu prprio nome, e muito menos o que lheaconteceu faz cinco minutos. Est-te comportando como se me houvesse follado a Amy 
Widlow, a filha do pastor. 
-Amy Widlow ou Annie Trimble, qual  a diferena? Uma violao  uma violao.
Douglas deixou escapar de novo um bufo desdenhoso e zombador. Alex sentiu umas enormesganha de levantar o de um puxo de seu leito de palha e sacudi-lo at que estivessecompletamente sbrio. Mas em lugar de fazer isto, ficou olhando-o fixamente, rogando quetodo aquilo no fora mais que um pesadelo. Douglas sempre tinha sido um demnio; mas,
apesar de toda sua indisciplina, nunca lhe tinha feito mal a ningum. E porque no o tinhafeito, Alex se tinha enganado a si mesmo acreditando que nunca o faria. "J trocar com otempo", dizia-se Alex a si mesmo uma e outra vez. "Simplesmente  um menino cheio devida". Agora j sabia que no era assim. Independentemente de sua idade, um homem tinha acapacidade de sentir compaixo ou no a tinha. Isto no era algo que pudesse acostumar-se. Oque mais afligia ao Alex era que teria podido evitar aquela dor ao Annie Trimble se tivesse 
aberto os olhos antes; se no se negou a aceitar a flagrante verdade: que Douglas no era umhomem bom, que nunca o seria.
Os habitantes do Hooperville afirmavam que Alex e seu irmo eram virtualmente idnticos.
Este era um parecido do que Alex sempre se orgulhou. Mas agora s queria ver as diferenasque havia entre eles e lhe gritar ao mundo inteiro que s eram meio-irmos. Seu pai eraBartholomew Montgomery, mas tinham mes distintas. A me do Alex, Sarah, morreu porcausa de uma intoxicao pouco depois de que ele fizesse trs anos. Como bom criador decavalos de raa que era, Alex sempre lhe tinha dado grande importncia  linha de sangue, eagora se valia disto como uma desculpa, dizendo-se que Douglas certamente tinha herdadoalgum mau rasgo da Alicia, a madrasta do Alex.
O sabor amargo da vergonha lhe chegou at a garganta. Violao. Esta era uma palavradesagradvel, uma palavra que nunca teria imaginado que pudesse guardar relao algumacom ele. Seu prprio irmo! No podia acredit-lo. No obstante, ali estava Douglas, o violador,
e cada uma de suas palavras e suas aes era testemunho de sua culpa.
-Como pde fazer algo semelhante? -Alex se levou as mos, trmulas,  cabea. Comeou aandar de um lado para outro, e logo se voltou de novo para olhar fixamente a seu irmo-. Que 
classe de monstro ? Como pde fazer machuco a uma menina to indefesa como Annie 
Trimble? 
-Ela no  nenhuma menina. -Tocando com cuidado o arranho que tinha no pescoo, e queAlex no tinha notado at ento, Douglas acrescentou-: E tampouco  uma criatura indefesa.
Alex deixou cair os braos e fechou os crispados punhos.
-E mesmo assim afirma que no a obrigou? Pelo aspecto desse arranho, eu diria que resistiu 



com todas suas foras. 
Douglas moveu freneticamente a cabea e se incorporou; bocejou com descuido e seacomodou pondo os braos sobre seus joelhos dobrados. Sua camisa branca estava coberta de 
terra avermelhada. Como a maior parte da que se encontrava nas saias das montanhas querodeavam Hooperville, a terra em torno das Cataratas Brumosas era uma argila de coravermelhada. Alex sentiu nuseas. E tambm se sentiu vencido. Desde que seu pai e seumadrasta morreram fazia j quatorze anos, em um acidente do qual sempre se culpou a simesmo, fazia todo o possvel para reparar aquela perda e lhe dar a seu irmo menor umaeducao decente, para lhe inculcar os valores e princpios morais que seu pai lhe teriaensinado se estivesse vivo. Seus esforos no tinham servido de nada. Baixo aquele arrumadoexterior, Douglas estava to podre como uma rstia de pescado que levasse uma semana intemprie, e nada do que Alex fizesse poderia troc-lo.
-Que desculpa to desprezvel para um homem como o que resultaste ser -sussurrou Alex-.
Graas a Deus que nosso pai no est vivo para v-lo.
Douglas olhou ao Alex  cara, com os olhos entronizados para combater a intensa luz da tarde, 
e advertiu seu olhar acusador. 
-D-te conta do que est dizendo? Annie Trimble  uma idiota, pelo amor de Deus! Diverti-meum pouco com ela. Estou seguro de que j nem sequer se lembra do acontecido. No entendo 
a que se deve tanto escndalo.
Alex no foi consciente de seus prprios movimentos. De repente se viu si mesmo agarrando aseu irmo pelo pescoo e imobilizando-o contra a parede. Douglas, que era um homem alto efornido, embora nunca tinha movido um dedo em toda sua vida para fazer um trabalhodecente, sabia lutar, mas todos seus desesperados esforos por liberar-se das mos do Alexforam em vo. A falta de ar fez que a cor de seu rosto passasse do vermelho  arroxeado,
antes de que Alex se desse conta do que estava fazendo e deixasse de sujeit-lo com tanta 
fora. 
-Que Deus me atira! Poderia te estrangular. Embora seja de meu prprio sangue, mataria-te 
sem vacilar nem um instante. 
Douglas se retorceu entre o corpo curtido pelo trabalho do Alex e os speros tablones da 
parede. Suas coxas rodeavam o joelho de seu irmo maior, alojada de modo ameaador sobre 
sua virilha. 
-Est louco! -disse Douglas com voz rouca.
Controlando o desejo de fazer machuco a seu irmo, Alex se conformou lhe dando um forteempurro. As costas do Douglas golpeou a madeira com um seco impacto. O flego de usque 
azedo durante o sonho golpeou ao Alex na cara e lhe fez entender que aquele jovem, a quemtinha querido tanto, de uma maneira to excepcional, converteu-se em um bbado briguento edesalmado. 
-No estou louco, Douglas. Mas bem acredito que acabo de recuperar a razo. No tenho feito 
mais que te justificar e te tirar de apuros toda a vida. Mas esta vez no o farei. Se for  forcapor isso, eu estarei entre os espectadores que vo a presenciar sua morte.
-J te hei dito que s me estava divertindo um pouco.
-A gastos da pobre Annie. 
Alex soltou a seu irmo com um gesto que parecia indicar que o solo feito de toc-lo podiapolui-lo. Nunca em sua vida tinha estado to perto de matar a um homem. Apesar de que s 
tinha visto o Annie Trimble brevemente umas quantas vezes, e sempre de longe, no podiadeixar de imaginar-lhe uma criatura baixa e magra, pouco corda e inofensiva, que estavaacostumado a perambular pelo bosque circundante, mais um fantasma que uma menina decarne e osso, sempre deslizando-se entre as rvores para ocultar-se quando se topava com 
desconhecidos. Como se estariam sentindo seus pais aquela noite, sabendo que tinhamagredido a sua filha de uma maneira to cruel? E seu agressor no era qualquer pessoa: eraDouglas Montgomery, a quem a fortuna de seu irmo havia tornado imune  lei. 
Assim era. Alex se tinha convertido em todo um perito em repartir subornos. Com o tempo,
aprendeu que podia comprar a quase todo mundo se a oferta era o bastante esplndida, etinha tirado o Douglas de apuros mais de uma vez lhe lubrificando a mo a algum. Masnaquela ocasio no o faria. Naquela ocasio Douglas tinha ultrapassado os limites do decoro.
Sua ofensa era to grave que nem sequer Alex podia justific-la: a brutal violao de umajovem que nem sequer podia entender o significado da palavra violao.
A fria do Alex era aterradoramente intensa, e tinha a plena certeza de que se Douglas no seafastava dele em seguida, poderia perder a vida. 
-Parte -disse em voz baixa-. V  casa, tira dinheiro da caixa forte e toda a roupa que 
queira. Logo vete. Se voltar a verte por aqui, no respondo de meus atos. 



-Que v? Est-me jogando de casa? No seja ridculo, Alex. Sou seu irmo. No pode me 
jogar. 
Seu irmo. Alex olhou larga e fixamente os pronunciados rasgos do Douglas, to parecidos 
com os seus; o cabelo leonino, a pele dourada e os largos ombros. Como era possvel que duaspessoas fossem to parecidas por fora e to completamente distintas por dentro?
-No tenho irmos -disse Alex secamente-. A partir de agora, meu irmo est morto paramim. Vete daqui antes de que faa realidade este sentimento. 
Que Alex recordasse, era a primeira vez que Douglas abandonava sua atitude de galo de briga.
Tinha o rosto crispado por causa de um sentimento que s podia ser pnico.
-No estar falando a srio. -afastou-se da parede e se encolheu de ombros para estir-lacamisa-. Aonde irei? O que farei? 
-Isso no me importa.
-Mas eu... -Douglas se calou e soltou uma gargalhada nervosa-. Venha, Alex, me d umaoportunidade de me emendar. Todo mundo merece uma segunda oportunidade.
-Voc esgotaste todas as oportunidades.
Douglas ficou imvel, olhando-o boquiaberto.
-Pelo amor de Deus! me tire a mensalidade deste ms. me encerre na casa. Faz o que queira,
mas no me jogue. 
-Esses so castigos para meninos, Douglas. -Alex falava com enorme dureza-. Esta vez no 
roubaste as cabaas de um granjeiro nem incendiaste a cabana de um vizinho.
Em um abrir e fechar de olhos, Alex recordou as inumerveis travessuras que seu irmo tinhafeito ao longo dos anos, a maioria delas inofensivas, mas sempre com uma crueldade implcitaque ele se negou a ver. Sacos de excrementos empapados de querosene que deixava nos 
alpendres das casas e aos que prendia fogo para que os despreparados habitantes sassemcorrendo a apagar as chamas a pises. Desculpados exteriores que trocava de sitio aoanoitecer para p-los diretamente detrs da fossa sptica, de tal maneira que as pessoascassem em seus ptridos sedimentos. Travessuras inofensivas, dizia-se sempre Alex. Mas, emrealidade, sabia que no era assim. 
-O dano que causaste hoje no se pode compensar com dinheiro, Douglas. No podeentend-lo? 
A mandbula do jovem violador voltava a tremer nervosamente. 
-Mas se pode arrumar. -Elevou as mos em sinal de splica. Em outra ocasio Alexpossivelmente se compadeceu dele, mas naquele momento no sentia nada. Absolutamentenada-. Para reparar o ocorrido, at me casaria com essa idiota, Alex. No tem mais que mepedir isso -Casarte con ella? Ni a un perro le deseara una suerte semejante, y mucho menosa una chica retrasada. 

-te casar com ela? Nem a um co desejaria uma sorte semelhante, e muito menos a uma 
garota atrasada.
Depois de dizer estas palavras, Alex girou sobre seus tales e saiu do quarto dos arreios. Ao 
chegar ao corredor, deteve-se um momento.
-Se no te partiste antes de que retorne de casa dos Trimble, eu mesmo entregarei s 
autoridades. 
-De casa dos Trimble? Para que diabos vai ali? 
Sim, para que ia?
-Para tratar de reparar o dano -disse Alex em voz baixa-. Embora s Deus sabe como. Ofato de ser um Montgomery no  uma licena para destruir as vistas de outras pessoas,
Douglas. Est acabado nesta regio. te largue antes de que comecem para te buscar. 
Ao casaco da escada do alto alpendre que a protegia da brisa fria da noite, Annie se acurruc 
atrs do acebo, com as costas firmemente apertada contra os alicerces de tijolo da casa. "Aquiestou a salvo". Ningum poderia aproximar-se o s escondidas por detrs. Nenhuma mo 
poderia agarrar a de modo inesperado. Tal e como estava, s poderiam aproximar-se o por 
diante. 
Tratava de ver atravs das lgrimas quentes que alagavam seus olhos, enquanto esfregava demaneira compulsiva suas pernas com o tecido de sua camisola branca. Sujo, pegajoso, feio.
No suportava que ningum a olhasse, nem sua me, com a dolorosa tristeza que se refletia 
em seus olhos, nem seu pai, com aquela violenta ira. No tinha feito nada mau, nada. No 
obstante, a forma em que a olhavam-lhe fazia pensar justamente o contrrio. Ali, na escurido, 
no tinha que ver as expresses acusadoras de seus rostos. Tomou ar trmulamente e o 
reteve na garganta, para no soluar.
Os ramos do acebo se balanavam com a brisa. Os msculos do brao e as costas do Annie se 
moviam nervosamente e formavam ns por causa da implacvel tenso que a atormentava. A 



luz da lua banhava o jardim de em frente com sua luz chapeada, dando s sombras um perfilfantasmagrico e fazendo que todo o inofensivo parecesse ameaador. Quando os fortes esufocantes lhes martele que sofria dentro de sua cabea finalmente a obrigaram a respirar,
aspirou profundamente, com o fim de afogar qualquer som que pudesse emitirinvoluntariamente. Algum poderia ouvi-la, e ento papai iria com sua correia para fazer quese calasse. J lhe doa todo o corpo. No acreditava poder suportar que lhe dessem uma surra,
aquela noite no.
At o ar que rodeava ao Annie parecia cheio de ameaas. Embora sabia que era uma tolice,
elevava permanentemente a vista, pois temia que o homem mau que lhe tinha feito mal sasse 
de um nada para equilibrar-se sobre ela. Assim foi como pareceram acontecer as coisas aquela 
manh. Ela se deteve para olhar sua imagem na gua, quando o rosto do homem apareceu derepente junto ao dele.
Deveu abandonar seu xale sair correndo. S ento compreendeu isto. Tola, tola, Annie. 
Possivelmente esta fosse a razo pela que seus pais a olhavam daquela maneira. Estavamzangados porque se ficou ali para resgatar seu xale. Naquele momento lhe pareceu que issoera o que devia fazer. depois de tudo, Alan estava ali. Posto que sua me estava acostumada ira sua casa freqentemente, ela se sentiu segura. No havia nenhum motivo para que nofosse assim. A gente a incomodava com freqncia, mas ningum lhe tinha feito nunca 
danifico. 
At aquela manh. 
Annie se estremeceu ao rememorar a dor. Aquele homem. mordeu-se os lbios. J o tinha vistoantes. Vivia em uma casa muito maior que a sua, aquela da colina, com todos aqueles cavalospastando nos campos. De longe, tinha-o visto montando sua besta. No parecia um homemmau. No tinha tido nenhuma razo para pensar que lhe faria mal.
Poderia estar ali fora, em meio da escurido. Annie queria fechar os olhos para afugentar asimagens com que a curvava sua memria, mas no se atrevia. Seus olhos eram sua nicadefesa. 
por que lhe tinha feito mal de semelhante maneira? Esta pergunta a tinha estado acossandotodo o dia e toda a noite, e no encontrava uma resposta. Ela no tinha feito nada mau, nadaque pudesse fazer que se enfurecesse com ela. Recordava o brilho de seus olhos. Bonitosolhos. Eram da cor do doce de mel de Natal de mame. E se tinha rido enquanto o faziadanifico. Annie no acreditava que pudesse tirar-se nunca aquelas imagens da cabea.
Entrelaou as mos ao redor de seus joelhos dobrados. Doa-lhe o estmago, e sentia que pordentro tinha ficado completamente rasgada, como em carne viva. Embora sua me a tinhaajudado a lavar-se para tirar todo o pegajoso, ainda se sentia muito suja, como se o contatodaquele homem tivesse deixado uma mancha que nunca poderia tirar-se. Quando pensava nascoisas que lhe tinha feito, lhe dava vontade de vomitar.
Um movimento em meio da escurido atraiu a ateno do Annie. inclinou-se para frente parajogar uma olhada atravs das espinhosas folhas. A imprecisa figura de um homem a cavalosubia pelo caminho de entrada  casa.  medida que se aproximava, uma letana comeou a 
ressonar dentro de sua cabea. Por favor, Senhor, no permita que ele seja. Por favor, porfavor, por favor. Tentou desesperadamente recordar as palavras das oraes que sua me lhetinha ensinado quando era pequena, mas todas se confundiram em sua mente. Como se asoraes servissem de algo... No a tinham ajudado aquela manh. 
O homem deteve o cavalo perto do corrimo de atar as bestas e se desceu da cadeira de 
montar. A ponta de uma de suas botas de camura alcanou o cho ao tempo que mantinha oequilbrio para tirar o p esquerdo do estribo. Vestido com calas de montar de meia cano, de 
veludo cotel de cor torrada, e uma jaqueta de sarja cinza, e com o rosto oculto pela asa deum chapu de feltro a jogo, no era fcil identific-lo imediatamente. Alto e largo de costas,
tinha um fsico parecido ao do homem que lhe tinha feito mal, mas estava vestido de umamaneira muito mais informal. A volta de suas calas de montar era de flanela de quadrosvermelhos, os meias trs-quartos negros que cobriam suas musculosas pantorrilhas eram de 
um algodo estriado bastante ordinrio.
Enganchou as rdeas de seu cavalo no corrimo e, enquanto se dirigia ao alpendre a grandespernadas, sacudiu-se a crina de cavalo que se aferrava a suas calas. deteve-se o p daescada. Annie viu seu peito expandir-se enquanto respirava fundo e endireitava os ombros, 
gesto que delatou seu nervosismo. Ato seguido, tirou-se o chapu.
O brilho leonado de seu cabelo sob a luz da lua era inconfundvel. O pnico afugentou da 
cabea do Annie todo pensamento racional. S olhando aquele rosto, que se apareceria emseus pesadelos nos anos vindouros, esqueceu seus planos de permanecer escondida com suas 
costas protegida por todos os lados. Era ele! Tinha que fugir. Mas temia que a visse se se 



movia. 
Como se houvesse sentido os olhos do Annie posando-se sobre ele, entrecerr os olhos ante a 
forte luz que saa das janelas e se vertia sobre o alpendre. Seu olhar de cor caramelo 
escrutinou a escurido que envolvia a jovem, e logo se inclinou ligeiramente para frente para 
olhar atentamente atravs das folhas do acebo. A escurido cobria parcialmente seu rosto e, 
quando falou, Annie teve dificuldade para entender suas palavras. Como se tivessecompreendido que ela no tinha entendido o que lhe disse, ele se aproximou um pouco evoltou a falar. Quando se moveu, a luz que saa da casa iluminou seus lbios, e ela pde v-los. 
-Ol. 
Ol? depois do que lhe tinha feito, Annie no podia acreditar que a estivesse saudando como 
se nada tivesse passado. Ao recordar quo rpido podia mover-se aquele homem, e a fora desuas mos, sentiu pnico, terror ante a possibilidade de que tentasse aprision-la de novoentre seus braos. Fechou os punhos na terra e cravou os tales no cho para ficar de barrigapara cima e caminhar de lado sobre suas quatro extremidades, imitando os movimentos doscaranguejos. O silncio que lhe apertava os ouvidos se converteu em um tamborilo surdoquando ele alargou os braos para separar os ramos que formavam um emparrado em torno 
dela. 
No, no, no. Annie quase podia sentir seu peso esmagando-a at deix-la sem flego. Os 
moretones que aquele homem lhe tinha deixado no corpo palpitavam com fora ao tempo que

o pulso lhe acelerava e fazia que o sangue lhe subisse  superfcie da pele. Negou com acabea enquanto seu enorme emano se estendia para ela.
Arrastando-se como uma louca ao longo dos alicerces de tijolo da casa, ignorou o rasgo quelhe fez no corpo um ramo do acebo ao lhe atravessar a camisola. Apoiando-se sobre suas mos 
e joelhos, abriu-se caminho a cabaadas atravs de um lance de roseiras, sem lhe importar 
que o cabelo lhe enganchasse nos espinhos. Tinha que fugir antes de que a apanhasse e lhefizesse mal de novo. 
CAPTULO 02 

Alex permaneceu imvel com um p apoiado no ltimo degrau do alpendre dos Trimble. 
Escrutinou os arbustos com o olhar para tratar de ver a jovem uma vez mais. A espessafolhagem frustrou esta tentativa. De repente, chegou a seus ouvidos um dbil ofego, e osarbustos comearam a balanar-se. Jogando o peso de seu corpo para trs, viu uma manchabranca. Imediatamente ela saiu de sopetn dos arbustos. Seu corpo magro parecia flutuar 
sobre uma nuvem de zfiro. 
-No te farei mal, Annie. No tenha medo. -antes de que suas palavras se apagassem porcompleto, ela j tinha desaparecido no espesso soto que bordeaba o jardim-. Maldio!
Convencido de que corria perigo ao andar sozinha de noite pelo bosque, Alex esteve a pontode ir atrs dela. Logo repensou e trocou de idia. Era evidente que acreditava que ele eraDouglas, e o terror que lhe produzia a faria correr com todas suas foras. Embora conseguisseapanh-la, duvidava de que pudesse lhe fazer entender que no tinha a inteno de lhe fazerdanifico algum. Pobre criatura. J tinha tido que carregar uma cruz muito pesada em sua vidaantes de que Douglas lhe acrescentasse novas angstias. Alex no queria agravar seusproblemas lhe dando um susto de morte. Era muito possvel que no pudesse entender o quelhe tinha passado aquele dia, nem tampouco que era pouco provvel que aquilo voltasse a 
ocorrer. 
Moveu a cabea com pesadumbre e seguiu subindo as escadas. Deus santo. A s idia de queaquela pobre criancinha acreditasse que ele era o violador fazia que Alex queria retornarcorrendo a casa para lhe dar ao Douglas a surra de sua vida. Sua indmita ira lhe fez bater na 
porta dos Trimble com mais fora da que teria empregado normalmente. O sangue sempre 
atirava, e por esta razo Alex no queria ver seu irmo balanando-se no extremo de uma 
soga. Mas, alm disso, se apanhavam ao Douglas, ia ter muitssimos problemas. 
Edie Trimble, a esposa do juiz, abriu-lhe a porta. Surpreendeu-lhe ligeiramente que no tivessesido uma criada quem lhe tivesse feito passar, mas em seguida compreendeu que aquela noiteera excepcional na vida daquela famlia, que eram tempos nos que se impunham a discrio eos murmrios. Sem dvida alguma, o fato de ter uma filha atrasada mental j era osuficientemente difcil. Se se propagava a notcia de que tinham violado a jovem, as fofocasnunca deixariam que os Trimble esquecessem o acontecido. Sem dvida, tinham dado o dia 
livre a todos os empregados para certificar-se de que isto no ocorresse.
Alex pensou que era uma pena que os Trimble tivessem que ocupar-se deste tipo de assuntos 
em um momento semelhante. Mas supunha que isto era bastante normal. Apesar de que a 



maioria da gente era bastante pormenorizada quando de deficincias se tratava, no faltavamos indivduos de mentalidade fechada. Embora seus pais nunca levavam ao Annie ao povo,
nem tampouco deixavam que a vissem as visitas, Alex tinha ouvido dizer que algumas damastinham desprezado ao Edie em mais de uma ocasio por causa de sua filha. Tambm se 
rumoreaba que as outras trs filhas dos Trimble estranha vez foram a casa de seus pais, e queisto no se devia  distncia, como esta famlia sustentava, mas sim a que seus maridos nose sentiam a gosto em presena do Annie. 
Embora impecavelmente arrumada, com seu vestido de prata alem verde e seu cabelo 
grisalho recolhido em um perfeito coque no alto da cabea, Edie parecia esgotada. Seus olhosazuis estavam inchados de tanto chorar. O rosto delicadamente esculpido mostrava seulividez, a pele tirante sobre os mas do rosto salientes, a boca finamente desenhada, franzida 
e rodeada por duas gretas profundas. sobressaltou-se ao v-lo ali, mas conseguiu dissimularbastante bem. O nico signo delator era o nervoso movimento com o que seus dedos atiravam 
da saia. 
-Senhor Montgomery. -Inclinou a cabea ao dirigir-se a ele. Sua atitude era acartonada e 
formal-. A que devemos este... honra? 
Pareceu como se pronunciar esta ltima palavra lhe tivesse produzido nuseas. Mas isto eranatural. Os Montgomery no deviam estar no primeiro lugar de suas preferncias naquelemomento. Imaginava que seu mais veemente desejo seria lhe arrancar os olhos com as unhas.
Se Annie fora sua filha, assim  como se sentiria ele. Furioso. Encolerizado. Sedento de 
vingana.
-vim a falar com seu marido. -Alex quase no podia falar-. Espero que esteja em casa.
Ela assentiu com a cabea e abriu a porta um pouco mais, lhe fazendo gestos para quepassasse ao saguo, embora com evidente relutncia. Sentindo-se como um caruncho em um 
saco de farinha, Alex fez girar o chapu em suas mos; desejava com todas suas foras noencontrar-se ali naqueles momentos. O que podia lhes dizer aos pais da garota a que seuirmo tinha violado? vim a reparar o dano? Como se isto fora possvel... Uma desculpa noseria suficiente para emendar o dano causado. Tinha sentido vergonha umas quantas vezes aolongo de sua vida, mas esta ocasio se levava o prmio.
Normalmente seguro de si mesmo e por completo alheio ao que outros pensassem, Alexobservou a refinao uso do vestido do Edie Trimble e desejou haver-se tomado o temponecessrio para vestir-se de uma maneira um pouco mais formal. J era suficiente sendo oirmo de um violador, para parecer alm disso um homem de mau gosto.
Mas, bom, j era muito tarde. Embora tinha a sorte de gozar de uma enorme fortuna e de uma 
casa to grande que todo seu dinheiro caberia na planta baixa, Alex passava a maioria de seutempo com os jornaleiros, trabalhando com os cavalos ou no campo. Quando fazia vida social,

o qual era bastante estranho, preferia a companhia da gente comum que ganhava a vidalavrando a terra. A menos que planejasse ir ao povo, normalmente vestia com jeans azuis e 
uma camisa cmoda e prtica, com o pescoo aberto e arregaada at os cotovelos. antes deir a aquela casa, lavou-se e barbeado, e se tinha posta calas de montar de meia cano e uma 
jaqueta, considerando que desta maneira estaria apresentvel. Com todas as preocupaesque tinha, tinha esquecido que Trimble era um homem que lhe dava grande importncia saparncias. depois de ter sido juiz por mais de trinta anos, nem sequer tinha animaisdomsticos em sua propriedade, e muito menos se rebaixaria a suj-las mos.
-O juiz est em seu estudo. -A atitude da senhora Trimble era perfeitamente corts, mas 
glacial.
Muito consciente de que ela no se ofereceu a lhe guardar o chapu, Alex a seguiu at umcorredor comprido cheio de portas. Ao chegar a metade do corredor, ela se deteve e deu umgolpecito suave sobre uma porta de carvalho reluzente.
-Juiz? Algum veio a verte.
ouviu-se um grunhido indiscernible no interior daquela habitao. A senhora Trimble abriu a 
porta e se apartou para que Alex pudesse entrar. Ao faz-lo, tranqilizou-se um pouco. Era umestudo muito parecido ao dele, com cadeiras amplas e cmodas estrategicamente distribudasao redor de tapetes tecidos em cores muito vivas. Uma habitao em que um homem podiarelaxar-se e sentir-se em casa. Livros encadernados em pele enchiam as estropia de carvalhoreluzente que cobriam trs paredes. A quarta ostentava uma chamin feita com pedras de rio.
A luz do fogo piscava alegremente em seu interior. A nica iluminao adicional provinha daschamas de dois acendedores de gs que se encontravam sobre o suporte da chamin.
O juiz se encontrava sentado em seu escritrio, com sua camisa branca enrugada, o pescooaberto e a gravata carmesim solta. Um fio de fumaa, de aroma bastante forte, saa de umcinzeiro situado perto de seu cotovelo. Alex posou o olhar no charuto. At depois de quatorze 


anos, pensava em seu pai cada vez que via um, e lhe invadia a tristeza. 
-Alex -disse Trimble com cansao-. Suponho que j falaste com seu irmo.
No era necessrio ser clarividente para dar-se conta de que o juiz esperava que ele desse
todo um discurso para negar que Douglas estava comprometido na agresso contra sua filha.
Alex teria querido que assim fosse. 
-Sim. 
Olhando atentamente os livros que se encontravam ao longo de uma das paredes, tentou ler
seu ttulos. Dourado-los caracteres se apagavam e danavam ante seus olhos, to confusos 
como seus prprios pensamentos. No sabia por onde comear, nem o que dizer. 
-Eu, isto... -Tragou saliva e se esfregou a boca com o dorso da mo. Ato seguido, golpeou-se
a perna com o chapu-. Douglas o fez -soltou finalmente-. vim a te oferecer minhas 
desculpas pelo dano que lhe tem feito a sua filha e tentar repar-lo na medida do possvel.
O juiz no disse nada em resposta a estas palavras.
Alex prosseguiu em seguida:
-Se pensa interpor uma ao judicial, eu no lhe impedirei isso. Mas mais vale que te d 
pressa em comunicar-lhe ao xerife. joguei a meu irmo de casa, e  muito provvel que neste 
momento esteja a ponto de partir para algum lugar que desconheo.
Com os dois cotovelos apoiados sobre a pasta que se encontrava sobre seu escritrio, o juiz se 
esfregou as tmporas.
-Interpor uma ao judicial? -Soltou uma gargalhada amarga-. Certamente, seria de
esperar que o fizesse. Parece ser o procedimento mais natural, no  verdade? Mas em
situaes como esta, a diferena entre o bom e o mau se volta imprecisa. -Depois de fazer
esta afirmao, deixou escapar de novo uma gargalhada, mas no havia alegria alguma
naquele som-. fui juiz durante mais da metade de minha vida, e  a primeira vez que
lembrana ver uma grande zona cinza entre o branco e o negro.
A dor que se refletia na voz do juiz fez que Alex fixasse seu olhar no cho. Territrio seguro.
No havia olhos acusadores que o olhassem fixamente. No sabia o que dizer, de maneira que 
se refugiou no silncio.
Finalmente, o juiz seguiu falando:
-Agradeo-te o oferecimento de no me impedir de interpor uma ao judicial. trata-se de seu
irmo, depois de tudo. Mas no estou seguro de que seja necessrio que te mostre to 
comedido. 
Obrigando-se a elevar a vista, Alex disse:
-Temo-me que no te entendo. 
Trimble deixou cair as mos e olhou ao Alex  cara. 
-Sei que pode parecer cruel, mas h muitas mais costure que ter em conta que o dano que
tem feito ao Annie. 
O juiz empurrou a cadeira para trs e ficou de p. Embora era um homem de baixa estatura,
tinha uma presena imponente: seus olhos eram de uma penetrante cor azul safira, e seus
rasgos mostravam uma assombrosa mescla de carter e fora. Alex sempre o tinha admirado,
e aplaudido a imparcialidade de suas decises no tribunal. Era um homem duro, mas justo;
uma pessoa em quem outros confiavam instintivamente.
-O escndalo, Alex, o pesadelo de todo poltico. -Falava em voz baixa-. Se se chegar ou seja


o que ocorreu hoje, a reao poderia ser violenta. -Parecia um pouco envergonhado. Colocouas mos no mais profundo dos bolsos de suas calas e examinou as pontas de seus muitobrilhantes sapatos negros-. No s contra Annie, mas tambm tambm contra mim e o resto 
de minha famlia. 
Alex ainda estava um pouco confundido, mas se absteve de diz-lo. Deixando escapar umsuspiro, o homem maior se aproximou dos lhe chispem fogo com o olhar fixo na chamin depedra e atitude de abatimento.
-Douglas deveria ir  forca pelo que fez a minha filha hoje. No me cabe a menor duvida. Mas 
do que serviria? Annie foi violada, e eu no posso fazer nada para ressarcir o dano. Por essarazo, estou pensando em deixar as coisas assim. Como estou seguro de que j sabe, retirei-
me que tribunal para provar sorte na poltica municipal e possivelmente passar logo a 
emprestar meus servios em algum cargo do governo a nvel nacional. Um escndalo dequalquer tipo poderia arruinar meus planos.
Alex pensava que o escndalo mancharia o bom nome dos Montgomery, no o dos Trimble. 
-violaram a sua filha. No lhe podem culpar por isso, nem tampouco te imputar 
responsabilidade alguma pelo acontecido. Pelo contrrio, o caso despertar a compaixo de 
todos. 
-Assim seria em outras circunstncias. Mas nossa Annie no  normal. No h nenhuma 


dvida de que est tocada, mal que foi provocado por uma febre alta em seus primeiros anosde infncia.  bem sabido que, por desgraa, s pessoas gosta da fofoca, e algumas pessoasespecularam sobre seu tara, dando a entender que  possvel que a tenha herdado. -Cravouseu franco e intenso olhar no Alex-. Por quantos polticos loucos votaste nos ltimos tempos?
No havia nada que Alex pudesse dizer a respeito. Ningum poderia pr em dvida a 
prudncia do juiz, mas se corriam rumores de que a loucura era coisa de famlia, a confianaque nele tinham os votantes poderia debilitar-se. Tudo o que se necessitava para arruinar suasoportunidades de ganhar umas eleies era semear o germe da dvida.
-tentamos impedir que a gente veja o Annie para evitar os falatrios. Se a agresso doDouglas contra ela se faz pblica, todos nossos esforos por mant-la afastada da atenogeral tero sido em vo.
Alex assentiu com a cabea. 
-Ento, quer correr um vu sobre o acontecido? 
-Assim . 
Embora isto significava a salvao de seu irmo, Alex sentiu que era uma deciso equivocada,
e lhe decepcionou que o juiz a tivesse tomado. Se Douglas j tinha agredido a uma jovem,
nada podia garantir que no fizesse o mesmo com outra. A nica maneira de assegurar-se deque isto no acontecesse era fazendo recair sobre ele todo o peso da lei. 
Quando Alex exps este argumento, o juiz lhe respondeu:
-A ameaa que Douglas Montgomery representa para a sociedade no  meu problema, nemtampouco minha responsabilidade. Tenho que pensar em minha famlia e em mim, em nossofuturo. O sonho de toda minha vida foi me dedicar  poltica, e trabalhei ao longo de toda 
minha carreira para obter este propsito. por que devo permitir que as aes de seu irmoacabem com tudo isto? Reitero-te que no posso deixar que estale um escndalo; o menos quese pode dizer  que seria bastante desagradvel. Embora Annie fosse uma garota normal, o 
qual j sabemos que no , o rumor se propagaria como um fogo arrasador. Em seu caso, os 
falatrios poderiam ser ainda mais maliciosas. No posso correr esse risco. No o farei. Olhosque no vem, corao que no sente. Este foi meu lema para a criao do Annie, e seguirsendo-o. Alm disso do machuco a minha reputao, tambm tenho que pensar nasconseqncias que isto traria para ela. At o momento, os jovens da regio a deixaram empaz. Mas uma vez que comecem a circular rumores a respeito do acontecido, quem pode saber 

o que aconteceria? Brotos bastardos, e todo o resto. 
Tal raciocnio pareceu espantoso ao Alex. E seus sentimentos certamente se transparentaron, 
pois o olhar do juiz se endureceu.
-Por todos os demnios! Pensa um pouco, s um pouco, Montgomery. Minha filha  uma 
idiota. Toda sua vida foi o branco das agresses de outros. por que crie que corre a esconder-
se no bosque quando v gente? Os meninos lhe atiram pedras. Cada vez que se apresenta aoportunidade, fazem-lhe brincadeiras cruis. O que seu irmo fez hoje foi simplesmente levar o 
mau trato um passo mais  frente. Se se chegasse ou seja o acontecido, outro jovem poderiapensar que pode fazer o mesmo sem que passe nada. Para poder proteg-la, teramos quemant-la encerrada e, nesse caso, seria melhor intern-la em um hospital psiquitrico. Minhaesposa ficaria completamente destroada se isto chegasse a passar.
Ao Alex no lhe ocorreu nada que dizer. Absolutamente nada, exceto uma penosa desculpa.
-Sinto muito, juiz. Sinto-o muito.
O homem maior suspirou de novo, deixando entrever um incrvel cansao. 
-Sim, sei que assim . Mas as desculpas no podem emendar o acontecido hoje. -Como se sedesse conta de repente de quo duras eram estas palavras, acrescentou-: No tome comoalgo pessoal, Alex.  um fato lamentvel, mas real. Um homem pode escolher a seus amigos, 
mas no a seus familiares. 
-No. 
Alex escrutinou inutilmente aquela habitao com o olhar, procurando algo dentro de suacabea, algo que pudesse fazer para arrumar as coisas. Mas no encontrou nada. J havia ditotudo o que se proposto dizer.
-Se houver algo que eu possa fazer, algo...
O juiz negou com a cabea.
-Oxal a houvesse, filho. Tal como esto as coisas, s podemos rezar para que sua prpria 
cortedad a libere logo de suas lembranas.
Recordando a maneira em que Annie se abriu caminho entre os arbustos para fugir dele faziauns poucos minutos, Alex tinha motivos para perguntar-se se o terror no seria mais um atoreflito que qualquer outra coisa, um sentimento instintivo prprio tanto dos idiotas como dosgnios. Desejava sinceramente que ela pudesse esquecer logo todo aquilo, mas de algum jeito 


duvidava de que fora assim. 
Sentiu a garganta seca, muito seca. O leve aroma de fumaa procedente da chamin se
mesclava com o aroma acre do charuto. 
-Se surgir alguma complicao, por favor, me deixe...
-Deus no o queira!
Alex entendia perfeitamente que aquele homem rechaasse todo pensamento relacionado com


um potencial embarao. Mas posto que era uma conseqncia natural do que Douglas fazia,
nenhum deles podia descartar esta possibilidade por completo.
-De todas maneiras, por favor, ponha em contato comigo se surgir algum problema dessa
natureza. Estou disposto a emprestar ajuda em tudo o que possa.
O juiz assentiu com a cabea com uma expresso de profunda tristeza no rosto. 
-Agradeo-te que tenha vindo. necessitam-se guelra.
mais do que ele poderia imaginar-se. Alex sentiu uma onda de calor subindo lentamente por
sua garganta. No era das pessoas que baixavam a cabea, mas queria faz-lo.
-Sabe como me localizar. 
-Tenha a segurana de que me porei em contato contigo, de ser necessrio.
No parecia haver nada mais que dizer. Alex saiu da casa com a cabea lhe dando voltas. Por
incrvel que pudesse parecer, Douglas tinha sado impune uma vez mais. Sabia que deveria
sentir-se aliviado, mas no era assim. No era justo que Annie fosse a nica pessoa que tivesse 
que pagar pelos enganos que se cometeram aquele dia.
No era justo absolutamente. 


CAPTULO 03 

Quatro meses depois...
Sbado. 16 de agosto de 1890, apertando a frente contra seus joelhos para que sua me 
pudesse lhe esfregar as costas, Annie articulou esta palavra com seus lbios exatamente comotinha visto sua me pronunci-la e tentou imaginar-se como devia soar. Algumas palavraseram fceis, pois ela podia recordar as haver ouvido ou dito quando era uma menina. Massbado era mais difcil. No recordava ter ouvido dizer esta palavra nunca em sua vida. Noera que importasse muito que imaginasse mal os sons. Sua me lhe pegava na boca cada vezque ela tratava de falar. Annie no sabia por que, e fazia j muito tempo que tinha deixado deperguntar-lhe As regras que impunham a ela eram diferentes das que seguiam todas asdemais pessoas, e tinha chegado a aceitar que havia muitas coisas que no lhe permitiamfazer. 
A verdade era que no lhe importava. J no. Quando subia ao apartamento de cobertura ajogar em seu rinco secreto, podia fazer tudo o que queria. alm de seus ratos, ali acima no 
havia ningum que pudesse v-la nem acusar a de nada. No apartamento de cobertura podiavestir-se to elegantemente como uma dama, com as roupas velhas que tirava dos bas. Podia 
fazer reunies para tomar o ch, tal e como o fazia sua me, e fingir que podia falar. Algumasvezes incluso ficava a danar. E, quando se aborrecia de fazer tudo isto, podia desenhar comos lpis e os papis que tinha tirado s escondidas do estudo de seu pai. divertia-se muito noapartamento de cobertura, e poder fazer ali todas as coisas proibidas compensava a pena deno poder as fazer o resto do tempo.
Sbado. Agora a recordava. Annie voltou a articular silenciosamente esta palavra contra seusjoelhos, e se prometeu a si mesmo que, a prxima vez que fosse ao apartamento de cobertura,
praticaria sua pronncia frente ao espelho. Quando era mais pequena, antes de que tivessechegado a dominar por completo a leitura de lbios, acreditava que a palavra sbadosignificava "banho"; pois sua me sempre a dizia com grande nfase ao coloc-la a trancos nabanheira. Annie j tinha aprendido que sbado era no dia anterior ao da missa e, como partedos preparativos, toda a famlia tinha que banhar-se.
Dado que fazia muito tempo que ao Annie no permitiam ir  igreja, pensava que no era justoque tivesse que banhar-se como todos outros.  manh seguinte, no lhe permitiriam ficar umvestido bonito, tal e como sempre faziam sua me e suas trs irms; e, quando chegava a horade ir ao ofcio religioso, ela tinha que ficar em casa com os serventes. Quem ia dar-se conta deque seus ouvidos estavam limpos? A quem lhe importaria? A ela no, certamente.
Como se adivinhasse seus pensamentos, sua me a agarrou por lbulo da orelha e lhe deu umforte puxo. Como uma tartaruga, Annie escondeu a cabea entre os ombros e apertou osolhos com fora. Odiava aquela parte. Odiava-a, odiava-a. Para lhe lavar as orelhas, sua mesempre se envolvia a gema de um dedo em uma toallita e logo a metia no buraco da orelha. 
Mesmo que estes cuidados s lhe faziam mal em muito estranhas ocasies, eram 



extremamente irritantes. Annie tivesse querido que lhe permitissem lav-las orelhas sem ajudade ningum, mas por alguma razo sua me no acreditava que ela pudesse faz-lo bem.
Annie tinha aprendido fazia muito tempo a no opor resistncia. Isto s servia para ganhar umbofeto, e, ao final, sua me lhe colocava a toallita na orelha de todos os modos. 
Pum, pum. Os fortes golpes que lhe deu sua me na cabea com os ndulos fizeram que Annie 
abrisse os olhos. Sabendo perfeitamente o que esperava ela que fizesse, elevou a cara esuportou com resignao a cansativo experincia de deixar que a lavasse. Logo, obedecendo 
as ordens que sua me lhe deu mediante gestos, levantou-se, jorrando gua, para que elapudesse lhe esfregar o torso e as pernas. Annie conhecia este ritual de cor, e se voltou por 
volta de um e outro lado. 
De repente, sua me deixou de esfregar. Annie a olhou atentamente atravs das negras 
mechas molhadas que caam sobre seu rosto, perguntando-se o que teria passado. Os olhosazuis de sua me se saram das rbitas e tinha a boca aberta, como se algum lhe tivessedado um golpe que a tivesse deixado sem flego. Annie baixou a cabea para olhar-se, 
esperando ver algo espantoso. Mas lhe pareceu que tudo estava perfeitamente bem. Voltou a 
dirigir o olhar para sua me, interrogando-a em silncio. 
A maneira de resposta, os lbios de sua me formaram estas palavras:
-Ai, Meu deus! Est-te inchando. 
Inchando? Esta era uma palavra que Annie no conhecia. Enquanto se esforava por repeti-laem sua cabea e estabelecer seu possvel significado, viu que sua me lhe estava olhandofixamente o ventre. Envergonhada, Annie tentou colocar barriga para ocultar a ligeiraprotuberncia. Ultimamente tinha notado que a cintura lhe estava crescendo muito, e aquela 
mesma tarde tinha decidido comear a comer menos. Como passava tanto tempoperambulando pelo bosque, tinha observado com muita freqncia aos animais selvagenspreparando-se para hibernar, e deduziu por si mesmo que comer muito fazia que as criaturasengordassem. Sups que tinha estado agarrando muitas bolachas da cozinha. 
Annie pensava que seu protuberante ventre era um problema de pouca importncia, algo quepoderia remediar com facilidade. Mas sua me parecia acreditar que era muito mais grave. 
depois de olh-la fixamente durante um momento, deixou cair a toallita molhada ao cho e se 
cobriu a cara com as mos. Pelos movimentos bruscos de seus ombros, Annie se deu conta de 
que estava soluando. No sabia o que fazer, e, antes de que lhe ocorresse algo, seu paiirrompeu na habitao, com as abas da camisa de dormir ondeando ao redor de seus peludostornozelos. 
Annie cobriu com suas mos cruzadas o ponto de unio de suas coxas e voltou a meter-se na 
gua. Seu pai nunca entrava em seu dormitrio quando se estava banhando.
-Que demnios est passando? -perguntou.
Annie cravou o olhar em sua me, esperando ver em seus lbios a resposta a esta pergunta.
Mas as mos dela seguiam cobrindo seu rosto. O que disse a seu pai, fora o que fosse, fez-oempalidecer. Ele voltou seus afligidos olhos azuis para o Annie. 
-meu deus, isso no pode ser!
dirigiu-se lentamente para a banheira. Agarrando o brao do Annie com fora, obrigou-a a ficar 
de p. Ela no recordava qual foi a ltima vez que seu pai a viu nua, e a invadiu uma horrvel 
sensao de rubor. inclinou-se para frente e voltou a cobrir com as mos suas partes ntimas.
Seu pai a sacudiu com fora. Ela elevou a vista bem a tempo para v-lo dizer:
-Basta j! te endireite, mulher, para poder verte bem. 
Annie no queria que a olhasse, mas isto foi precisamente o que ele fez. Desgraada-a jovemagradeceu que esta humilhao tivesse durado apenas um instante. Seu pai lhe soltou o braoem seguida e, levando uma mo aos olhos, girou sobre os tales para afastar-se. cada vezmais alarmada pelo comportamento de seus pais, Annie sujeitou seu ventre com as duas 
mos. Estranha vez tinha visto seus pais to alterados. No podia estar to gorda!
Olhando por cima de seu ombro, o pai do Annie disse algo que ela no conseguiu entender.
Sua me se secou as bochechas com mos trementes. Logo, levantou a toalha, fazendo gestos 
ao Annie para que sasse da banheira. Tremendo, ela se meteu nas quentes dobras do pano eenvolveu com ele seu corpo. Sua me assinalou a camisola limpa que tinha deixado para elasobre a cama. Logo, claramente esperando que Annie se secasse e vestisse sozinha, saiu 
rapidamente do dormitrio.
depois de ficar a camisola, Annie se dirigiu com sigilo  porta e a abriu ligeiramente. Sentiu asvibraes dos passos de seu pai no cho antes de v-lo aproximar-se pelo corredor. Para suagrande surpresa, tinha-se posto a roupa de novo e estava abotoando-a camisaprecipitadamente. Os cordes de seus sapatos se arrastavam pelo cho, mas ao parecer nose deu conta de que tinha esquecido at-los. Olhou-o baixar as escadas. Um momento depois, 



sentiu as paredes tremer quando, ao sair, o juiz fechou a porta principal de uma portada. 
Annie no podia imaginar aonde se dirigia. Os sbados de noite sempre se deitava cedo e liana cama at ficar dormido. Que ela recordasse, nunca tinha sado de casa depois de haver-seretirado a seus aposentos, a menos que tivesse passado algo grave. 
Temerosa de que sua me a surpreendesse espiando, fechou a porta com cuidado. Apertando 
as costas contra a madeira, rodeou-se a cintura com os braos e repassou tudo o que tinhaacontecido. No era possvel que seus pais estivessem assim de alterados s porque seu 
ventre estava crescendo. 
Sem poder entender o que estava passando, apagou os abajures e, iluminada pelo agonizante 
brilho das mechas, correu a meter-se na cama. Embora era uma clida noite do vero, os 
lenis estavam fritem. ficou a tremer e se acurruc sob o edredom. Quando a escurido se 
apropriou da habitao, fechou os olhos, resolvida a ficar dormida. O aborrecimento de seu pai,
fossem quais fossem seus motivos, no era assunto dele. No era possvel! Muitas pessoasestavam mais gordas que ela, e ningum se irritava tanto por isso. 

Alex tomou um sorvo de conhaque, saboreando-o lentamente. Aquele era seu momentopreferido da noite: j tinha terminado a jornada trabalhista, tinha jantado, e as tranqilas horasque antecediam o momento de deitarse estendiam diante dele. O fogo crepitava alegremente. 
Suas chamas de cor mbar e quase todo o calor que despediam ascendiam precipitadamentepelo tiro aberto da chamin. Sem importar que fosse inverno ou vero, ao Alex sempre gostavade acender um fogo pelas noites, para esquentar-se durante os meses frios ou para melhorarsua disposio de nimo quando as temperaturas alcanavam extremos sufocantes. Aschamas emitiam muito pouco calor, mas seu aprazvel resplendor piscavatranquilizadoramente at nos mais remotos rinces de seu estudo. 
depois de fazer um pouco de trabalho administrativo, esperava poder dedicar-se a suasleituras. Os peridicos do Portland de toda a semana se encontravam amontoados junto a suacadeira. Nenhum deles tinha sido sequer desdobrado. Tanto no criadero de cavalos como na 
pedreira, a primavera e o vero eram as pocas do ano de maior trabalho: comeavam com atemporada de partos e terminavam em setembro, no tempo de colheita. Entremedias, agitadalas 
semanas transcorriam entre infinidade de trabalhos exaustivos: entregar pedidos de pedratriturada, ocupar-se das guas durante o parto, cuidar os potros, lavrar os campos, e almdisso semear e regar. As tarefas pareciam no ter fim, e as horas de descanso eram escassas.
As estranhas ocasies nas que tinha um pouco de tempo livre, normalmente as passava napedreira falando com seu capataz.
Depois de estirar suas largas pernas, Alex cruzou os tornozelos. Deleitando-se com oresplendor do fogo, sentiu-se preguioso em grau supremo. O torpor se deslizou sobre ele 
como um edredom sedoso, e se permitiu fechar os olhos, sustentando a taa de conhaque emsua mo cavada, contra o peito.
-Senhor... 
Para ouvir a voz do mordomo, Alex se incorporou sobressaltado. Derramou um pouco deconhaque sobre sua camisa, e amaldioou entre dentes. 
-Sinto ter que incomod-lo, senhor, mas James Trimble se encontra no saguo, e insiste em 
que tem que v-lo para tratar com voc um assunto de soma urgncia.
Alex ps a taa de conhaque sobre a mesa de mrmore que se encontrava junto  cadeira e seesfregou a cara com as mos. Trimble? Jogou uma olhada ao relgio da chamin e viu que logo 
que eram as sete e dez. se sacudindo para tirar o torpor, ficou de p e comeou a met-la 
camisa dentro da cala. 
-Faz-o passar, Frederick. 
Com as abas negras de sua jaqueta flutuando detrs dele, o mordomo girou sobre os tales e 
saiu do estudo. Um momento depois, a reluzente porta de mogno se abriu de novo e Trimble 
entrou na habitao. Com apenas lhe jogar uma olhada, Alex soube que algo tinha passado. Ocordo do sapato esquerdo do juiz estava desatado, sua meia trs-quartos direito enrugado aoredor do tornozelo e a perna da cala da cala metida nele. A camisa estava bem abotoada,
mas s uma de suas abas se encontrava dentro da cala. 
-meu deus, o que passou, juiz? 
O homem maior se foi direito ao aparador, andando a pernadas at apanhar com uma mo agarrafa de conhaque. Sem sequer pedir permisso, serve-se uma generosa quantidade de licorem uma taa e a bebeu de um gole. Dado que o juiz s tinha ido a sua casa uma vez -a noiteem que violaram a sua filha-, ao Alex pareceu que seu comportamento era bastante estranho,
por no dizer outra coisa. ficou olhando ao homem com cara de assombro enquanto se servia 



mais conhaque.
depois de beber-se outro gole, finalmente se voltou para o Alex. 
-Est grvida.
Estas palavras agarraram ao Alex completamente despreparado. Tinham passado quatromeses sem que tivesse notcia alguma dos Trimble, e pensou que j no havia nenhumapossibilidade de que a jovem estivesse grvida. Lhe dobraram os joelhos e teve grandesdificuldades para chegar a sua cadeira. Os olhos lhe ardiam, e a comoo lhe paralisou agarganta. Tudo o que podia fazer era olhar fixamente ao homem maior. depois de uns 
segundos que lhe fizeram imensamente largos, disse ao fim:
-E agora te deste conta disso? 
O juiz agitou a mo, derramando sem querer um pouco de licor. Entretanto, no pareceu notarque tinha deixado cair conhaque sobre o tapete persa.
-Sua me no me havia dito nada. -Deixou de falar e fechou os olhos por um momento-. Elaesperava que a interrupo de seu fluxo menstrual no significasse nada. -Abriu os olhos paracravar no Alex um olhar de angstia-. Estava equivocada. Annie est grvida, no cabe a 
menor duvida. 
Alex se deixou cair em sua cadeira. 
-Maldio! 
-Agora o assunto  o que vamos fazer. Acredito que o embarao est muito avanado para 
interromp-lo sem pr em perigo sua vida.
Alex sabia que havia alguns mdicos de duvidosa reputao que, por uma soma considervel 
de dinheiro, faziam essa classe de coisas; mas a s idia lhe enojava. Matar ao filho de seuirmo? A seu prprio sobrinho ou sobrinha? Embora ainda fosse possvel interromper oembarao, ele no o permitiria. Para ele, os meninos eram um sonho inalcanvel e um 
tesouro sem preo. 
Como se lesse seus pensamentos, o juiz se bebeu rapidamente o resto do conhaque e dissecom voz trmula: 
-Meu Annie no pode criar a um menino, Montgomery, e minha esposa e eu j estamos muito 
velhos para assumir uma responsabilidade semelhante. Seremos uns velhos estpidos antesde que ele alcance a maioria de idade. -Negou com a cabea-. Se seu embarao no 
estivesse to avanado, faria que minha filha o interrompesse sem pestanejar. Possivelmente 
esta seja a razo pela que Edie no quis me contar o que estava passando.
-Est esquecendo minha responsabilidade em todo este assunto. Te ocorreu pensar que eu 
poderia estar disposto a criar a esse menino?
-Essa no  uma alternativa. 
-por que diabos no tem que s-lo? Por causa de sua carreira poltica? -Alex, furioso, tinha 
elevado a voz-. H muitas maneiras de evitar um escndalo, Trimble. -Embora era muito 
difcil para ele confess-lo, Alex sabia que no era o momento de andar com rodeios-. Estouseguro de que ouviste os rumores que circulam por a a respeito de minha esterilidade. Poisso certos. Sofri caxumba quando tinha pouco mais de vinte anos. -Para fingir umatranqilidade que no sentia absolutamente, Alex se encolheu de ombros-. Como no possoengendrar filhos, no tenho nenhuma inteno de contrair matrimnio. Se no haver outrasoluo, estaria disposto a me casar com o Annie e a assegurar que esse menino  meu.
O juiz negou veementemente com a cabea. Alex se apressou a defender sua proposta.
-alm dos jovens que presenciaram a violao, e duvido de que eles se atrevam a falar,
ningum saber que essa criatura no  minha. Devido ao mal que sofre Annie,  muito 
possvel que se especule sobre a razo que me levou a me casar com ela, mas isto s meprejudicaria , no a ti. depois de um perodo de tempo razovel, eu poderia alegar diferenasinsalvables e pedir o divrcio. Annie poderia retornar a casa para estar junto a sua me. Esta 
seria a soluo perfeita para todos. Estamos falando do filho de meu irmo, depois de tudo.
Tenho a responsabilidade de procurar seu bem-estar, e tambm o do Annie. 
-No. 
Depois de pronunciar seu veredicto, o juiz ps a taa sobre o aparador. Como um cego, dirigiu-
se  chamin, procurando com as mos os encostos das cadeiras que se encontravam em seucaminho para apoiar-se neles. Ao chegar  chamin, agarrou-se ao suporte e apertou a frente 
contra a dura pedra. Alex ficou conmocionado para ouvir aquele homem soluar.
-Se alguma vez lhe contar algo disto a algum -disse Trimble com voz entrecortada-, 
estarei perdido. Jura que nada do que te diga sair desta habitao.
Alex jogou uma olhada  porta para certificar-se de que estivesse bem fechada.
-Certamente que te dou minha palavra. 
-Sei o que pensa que sou um bode desumano por desejar que pudssemos nos desfazer 



dessa criatura, mas voc no conhece todos os fatos. Nossa Annie... -interrompeu-se e deixou 
escapar um suspiro entrecortado-. Bom, voc j haveria ouvido a histria a respeito da febreque a atacou em sua infncia e que afetou a sua sade mental.
-Sim. 
O juiz se esfregou a bochecha com o ombro de sua jaqueta.
-Deu-lhe uma febre muito alta. Isso no  mentira. Quando tinha cinco ou seis anos, poucomais ou menos, e sua raridade comeou depois disso. Comeou devagar, e foi piorandoprogressivamente com o passado do tempo, at que se converteu no que  agora.
Alex no sabia o que dizer, nem tampouco se o juiz esperava algum tipo de resposta.
-O caso  que no estou completamente seguro de que a febre tenha sido a causa de seu mal-prosseguiu ele-. Edie insiste em que sim foi. E, dado que o fato de difundir esta histriapermitiu que nossa filha fique em casa sem prejudicar muito  famlia, eu fingi acreditar omesmo. Mas a verdade  que um dos tios do Edie se voltou louco. Louco de atar. Seu 
desequilbrio mental comeou na infncia, tal e como o do Annie, e foi piorandoprogressivamente at que teve que ser controlado fisicamente e ingressado em um hospital 
psiquitrico.
Alex apertou os dentes. No queria ouvir aquela histria. 
O juiz se endireitou lentamente e se voltou para ele. As lgrimas faziam brilhar seus olhos 
azuis e seu rosto estava muito plido.
-at agora, a verdade no era to importante. Eu estava  expectativa e rogava porque Annie 
no piorasse tanto como para que eu me visse obrigado a mand-la a um hospital psiquitrico.
Isto acabaria com sua me. Inclusive os melhores hospitais so lugares absolutamente 
espantosos.
Alex tambm tinha ouvido toda classe de histrias a respeito. O juiz elevou as mos.
-Mas agora... bom, no posso seguir enterrando a cabea na areia, e menos ainda quando h 
um menino de por meio. O mal do Annie poderia ser hereditrio. Sabendo isto, no possopermitir que nem voc nem qualquer outra pessoa adote a seu filho. Ele tambm poderiavoltar-se louco em uns poucos anos.
Alex baixou a vista, envergonhado at a medula de no expressar nenhuma objeo. Louco.
Deus santo. Nem sequer ele quereria correr o risco de ter que carregar com um menino assim. 
-Agora entende o problema.
Alex se levantou da cadeira e comeou a caminhar inquieto de um lado para outro. Desejavacom todas suas foras que Douglas estivesse ali naquele momento para presenciar a dor togrande que tinha ocasionado, no s ao Annie, mas tambm tambm a todos seus prximos. 
O juiz se beliscou a ponte do nariz.
-Tal e como vejo as coisas, s tenho uma opo: tirar o Annie de casa at que nasa o meninoe o possamos levar a um orfanato. Eu me ocuparei de que as pessoas a seu cargo entendam 
que nunca deve ser entregue em adoo.
Alex assentiu com a cabea. Ele tambm pensava que esta era a nica alternativa.
-Aonde mandar ao Annie? Tem parentes que possam receb-la?
O juiz negou com a cabea.
-Duas tias ancis que j esto muito adoentadas para poder ajudar. Meus irmos morreramde gripe nos anos setenta, e Edie foi filha nica, concebida no momento em que se produziuuma mudana na vida de sua me ao pensar que tinha ficado estril. Por causa do acontecido 
com o tio, seus pais pensaram que o melhor seria no ter mais filhos, pois temiam que aloucura pudesse ser hereditria.
 luz desta histria, Alex morria de vontades de saber por que o juiz e a senhora Trimble 
tinham tido quatro filhas, mas se absteve de perguntar. depois de tudo, isso no era assuntodele. 
-Ento ter que levar ao Annie a algum tipo de residncia?
-Sim, e  justamente para isso para o que te necessito. Requeiro um pouco de ajudaeconmica. Cuidar dela ser caro, especialmente durante um perodo de tempo to largo.
-me diga quanto necessita. Disse-te de um princpio que estava disposto a ajudar em tudo oque fosse possvel, e o disse a srio. Sabe bem que o dinheiro no  um problema para mim, enota promissria com gosto todos os gastos.
O juiz se esfregou a cara com uma mo.
-Eu tenho uma posio desafogada, mas, contrariamente ao que a gente crie, meus recursos 
econmicos no so inesgotveis.
Sentindo grande compaixo por aquele homem, derrotado e velho, Alex o agarrou do ombro. 
-James, no queria pr em dvida seu critrio, mas no seria aconselhvel deixar que o 
doutor Muir confirmasse o embarao do Annie para no atuar precipitadamente? 



-Est grvida, sem dvida alguma. A barriga j comeou a lhe crescer.
Alex recordou que infinidade de vezes tinha pensado que uma gua estava prenhe, e que logo 
descobria que se equivocou.
-s vezes, as aparncias enganam. me acredite. Poderamos estar nos deixando levar pelo
pnico sem motivo algum. Existe a possibilidade de que a garota esteja engordando um pouco,
e nada mais. 
-Como eu gostaria que esse fosse o caso. meu deus, oxal fora assim. 
Alex compartilhava esse sentir. Seria melhor para todos que Annie no estivesse esperando
um filho do Douglas, especialmente para o beb. Um orfanato. A s idia de que metessem em
uma instituio como esta a um menino que era de seu prprio sangue e que proibissem sua
adoo o afligia enormemente.
O juiz ficou de p e respirou fundo.
-Muito bem, suponho que o melhor ser que v procurar ao doutor Muir. 
-Esta mesma noite? 
Alex no pde ocultar sua surpresa. Parecia-lhe que o juiz deveria esperar at o dia seguinte
para chamar o mdico, ao menos pelo bem do Annie. 
-Edie est muito alterada. Quero resolver isto o mais breve possvel.
-Entendo. 
-A propsito do Edie... -O juiz passou um dedo debaixo do pescoo de sua camisa, 
claramente incmodo pelo que ia dizer-. Te agradeceria que no mencionasse nada do que
falamos esta noite diante dela. Refiro ao de seu tio. Eu, isto... bom, pode imaginar que, enfim...
a loucura de sua famlia  um tema de que preferimos no falar. 
Era um tema de que preferiam no falar? Tendo em conta que sua filha poderia estar louca, ao
Alex pareceu que isto era extremamente estranho. 


CAPTULO 04 

Fazendo todo o possvel por ocultar seu aborrecimento, Daniel Muir se sentou com cuidado no 
bordo da cama do Annie Trimble e a agarrou da mo. O receio que se refletia em seus grandesolhos azuis fez que a ele lhe encolhesse o corao. Aquela era ao menos a vigsima vez, desdeque Alex Montgomery o foi procurar ao povo, que tinha tido que trag-la ira que sentia contraseus pais. No podia entender como duas pessoas to boas e caridosas como James e Edie 
podiam lhe dar um trato to insensvel a sua filha menor. Se era verdade que a jovem estavagrvida, seu estado no trocaria de um dia para outro. Mas tinham insistido na necessidade deconfirmar suas suspeitas aquela mesma noite.
Daniel no era partidrio de assustar a seus pacientes, e no havia a menor duvida de queAnnie lhe tinha medo. No era de sentir saudades. No a tinha atendido mais de uma dzia de 
vezes em toda sua vida; s em uma ocasio desde aquela febre que afetou a sua sademental, e ele era virtualmente um desconhecido para ela. Agora se encontrava em suahabitao, tirando a de um sonho profundo para examin-la. Edie montava guarda detrs dele, 
retorcendo-as mos, gemendo e chorando. Isto bastava para aterrorizar a jovem. Para cmulode maus, James estava ao outro lado da habitao, marcando um atalho com suas pegadas no 
reluzente cho de parqu. Apesar de ser duas pessoas to inteligentes, no pareciam ter 
nenhum sentido comum. 
-E bem? -Perguntou James com impacincia-. Est grvida ou no?
J era suficiente. Daniel se levantou da cama e se ergueu quo alto era, o que em realidadeno era muito. lhe lanando um olhar hostil  consternado casal, espetou:
-Saiam da habitao! Ainda no a examinei e no penso faz-lo nestas condies.
Edie se sobressaltou. James se deteve detrs girar sobre seus tales e cravou nele um olhar de 
assombro. 
-Esto alterando  garota -disse Daniel com mais delicadeza-. Vos rogo que esperem nocorredor. Quando tiver um diagnstico, chamarei-lhes.
-Pois, v! -exclamou Edie indignada.
Naquele momento, ao Daniel no importou ter ofendido ao Edie Trimble. A mulher estava 
esgotando sua pacincia, e isto era quo nico podia fazer para no ver-se obrigado a at-lacom uma corda. Atrasada ou no, Annie tinha sentimentos, e sua me, mais que ningum,
deveria sab-lo. Tinha sido violada, nada menos, e ningum tinha chamado ao Daniel para quefora a examin-la? Edie deveu ter sabido nnaquele tempo naquele tempo que era possvel quea jovem apresentasse uma hemorragia interna ou, por exemplo, que tivesse contrado umainfeco. No obstante, naquela oportunidade no o levaram a casa. Era quase como se Edie 
tivesse medo de que ele examinasse ao Annie, como se temesse seu diagnstico. por que? 



Esta era precisamente a pergunta que se fazia, e Daniel no tinha uma resposta.
depois de acompanh-los at a porta, Daniel suspirou e se voltou para o Annie. A moa o 
estava olhando nervosa, com os olhos como pratos. Fazendo todo o possvel por parecerinofensivo, dirigiu-se lentamente  cama. Voltou a sentar-se no bordo do colcho, agarrou-a da 
mo de novo e lhe deu um tapinha afetuoso.
-Lembra-te de mim, Annie? -perguntou-lhe em voz baixa.
Sem deixar de olhar fixamente sua boca, ela colocou o queixo e se esfregou a cara contra oombro de sua camisola. Daniel contemplou seus rasgos finamente cinzelados, pensando queera uma pena que uma febre a tivesse deixado incapacitada. Embora as demais Trimble 
estavam casadas e, devido s largas distncias que tinham que percorrer, estranha vez foram 
a casa de seus pais, Daniel recordava com toda claridade seus rostos. Sem lugar a dvidas,
Annie era a mais bonita das quatro irms. Mas, certamente, era preciso olh-la atentamentepara dar-se conta disso. Tinha uma juba de cabelo azeviche extraordinariamente entupida,
cujos sedosos cachos se formavam redemoinhos em desordem ao redor da cara, virtualmenteocultando um rosto que era quase to perfeito como um camafeu. Sua me no investia muito 
dinheiro em roupa para a jovem, possivelmente porque danificava tudo seus objetos correndo 
pelas montanhas. Como conseqncia disto, Annie andava por a com vestidos humildes e 
pouco favorecedores, feitos com tecidos de m qualidade. Para cmulo, ningum se tinhatomado a molstia de lhe ensinar como alternar em sociedade. Para ser justos com os Trimble, 
era muito possvel que ela fosse incapaz de aprender; mas, mesmo assim, Daniel pensava queera uma pena que no tivessem tentado ao menos poli-la um pouco. Naquelas condies, suasmaneiras e seu comportamento eram os de uma menina de seis anos.
-Quando foi muito pequena, eu estava acostumado a esconder caramelos em meus bolsosquando vinha a verte, mas no acredito que possa recordar nada disto.
Ela em seguida dirigiu o olhar para o bolso superior de sua jaqueta. Agarrando a lapela, Daniel 
esvaziou o compartimento interior, contente de levar sempre consigo manjares que lhepermitiam ganhar a seus pacientes de menor idade. Inclinando-se um pouco para frente, soltousua pequena mo.
-Venha, agarra todos os que queira.
Suas sobrancelhas finamente arqueadas se juntaram para franzir o cenho. Em lugar de tratarde agarrar as guloseimas, ela ficou uma mo sobre o ventre e negou ligeiramente com a 
cabea. 
-No gostam dos caramelos, n? -Com cuidado de no fazer nenhum movimento brusco,
Daniel retirou o edredom e ps uma mo junto  dela sobre seu ventre-. Tem dor de tripas? 
Massageou-a brandamente com suas mos peritas. Tal e como seus pais lhe tinham advertido,
seu ventre estava levemente volumoso. Examinou com cuidado o inchao. Logo, voltou a 
cobrir a jovem at a cintura com o edredom e lhe sorriu.
-Tudo parece estar bem.
A desconfiana que se refletia em seus olhos revelou ao Daniel que, a menos que se mostrassecomedido, seria quase impossvel lhe fazer um exame interno. Sem desanimar-se, inclinou-separa abrir sua maleta negra e tirar o estetoscpio. Tendo trabalhado nesta profisso durantemais de quarenta anos, converteu-se em todo um perito em tratar aos pacientes tmidos.
depois de colocar o diafragma do estetoscpio entre suas mos cavadas para esquent-lo, plo 
um pouco mais abaixo da clavcula do Annie e fez grande alarde de quo bonito era escutarseu corao. Ao mesmo tempo, pegou as Palmas das mos contra o peito dela contudocuidado. Ao advertir que no protestava, baixou o instrumento um pouco mais, e seguiubaixando-o at p-lo sobre um de seus pequenos seios. Enquanto fingia estar escutando,
apalpou a zona rapidamente. Lhe caiu a alma aos ps quando ela fez um gesto de dor, epercebeu o torcida que estava.
Sem fazer um exame meticuloso, no podia estar absolutamente seguro de que a garotaestivesse grvida, mas a distenso de seu abdmen e a sensibilidade de seus seios eram doissinais terminantes. Deixou escapar um suspiro enquanto guardava o estetoscpio na maleta.
Dado que ela tinha deixado de menstruar, estava quase completamente seguro de que seuspais tinham feito um diagnstico correto. No lhe entusiasmava a idia de lhes comunicar anotcia. Sem dvida alguma, Edie gritaria e se lamentaria, o qual s conseguiria assustar ainda 
mais a jovem.
Ficando direito, contemplou ao Annie com um olhar triste. perguntou-se o que seria dela. No 
melhor dos casos, terminaria em uma residncia de mes solteiras. Provavelmente passariauma temporada de pesadelo em um hospital psiquitrico, possibilidade que lhe partia a alma.
Ela era uma criancinha selvagem, acostumada a correr livremente pelo bosque. Seria muitoduro que a encerrassem em algum stio, qualquer que fosse, sobre tudo quando ningum 



poderia lhe fazer entender que seria s por uns poucos meses.
Levado por um impulso, Daniel lhe apartou o cabelo da cara afetuosamente. A beleza de seus 
rasgos delicados o deixou sem flego. Tirou um caramelo do bolso superior de sua jaqueta e o
meteu na mo. 
-Possivelmente goste de um caramelo pela manh, verdade? 


Muito depois de que o doutor apagasse o abajur e sasse de seu dormitrio, Annie permanecia 
imvel sobre sua cama, olhando fixamente as sombras projetadas no teto. O caramelo jcomeava a derreter-se em sua mo, e estava bastante pegajoso. Recordava vagamente asocasies em que o mdico tinha ido v-la quando era pequena. Seu cabelo era negro nnaqueletempo, naquele tempo, no cinza como agora, e sua cara no estava to enrugada. Mas pormais que o tentava, no podia recordar que lhe levasse caramelos. No entendia por que otinha feito aquela noite. Tinha advertido a expresso de inquietao em seu rosto ao lheapalpar o ventre. Se todo mundo estava to preocupado por sua gordura, por que lhe levavaele uma guloseima que a faria engordar ainda mais?
respirava-se algo estranho no ambiente aquela noite, como est acostumado a acontecer justoantes de uma tormenta eltrica. de vez em quando sentia vibraes que emanavam do cho e 
se perguntava o que as estaria ocasionando. Portas que se abriam e fechavam? Passos? Queria 
sair s escondidas de sua habitao e aparecer ao corrimo para ver o que estava passando 
abaixo, mas tinha medo de que sua me a pilhasse. s vezes, Annie podia ver o que estava 
acontecendo sem meter-se em confuses, mas intua que aquela noite no era como as 
demais. 
ficou de lado e deixou o caramelo na mesita de noite. Logo, lambeu-se a palma da mo paralimp-la, deleitando-se com o sabor doce e esperando que uma quantidade to pequena deacar no a fizesse engordar ainda mais. Nunca tinha visto seus pais to alterados, nemsequer aquela vez em que se dirigiu correndo ao altar da igreja para tocar o rgo.
Sonolenta, Annie se cobriu com o edredom at o queixo e fechou os olhos. Jurou que ao diaseguinte s comeria algo ligeiro no caf da manh e no jantar. Em um abrir e fechar de olhos,
estaria magra de novo e seus pais deixariam de olh-la com tanta tristeza. 

Alex tinha uma forte dor de cabea, e a voz grit do Edie Trimble fazia que a dor se agudizara 
detrs de seus olhos. sentou-se frente  chamin do despacho do juiz, desejando encontrar-se
muito longe de ali. As lgrimas de uma mulher o punham sempre muito nervoso,
possivelmente devido a que tinha convivido com muito poucas ao longo de sua vida. Maddy, 
sua ama de chaves, uma empregada incondicional de cinqenta e trs anos de idade, no era
muito dada a choramingar diante de outras pessoas; e no tinha mais que uma vaga 
lembrana de sua madrasta, Alicia. 
-Por favor, James -suplicou Edie-, me deixe cuidar dela aqui. No entender por que a
enviamos a um lugar estranho para viver com gente que no conhece.
O juiz se passou a mo por seu escasso cabelo e lanou um olhar nervoso ao doutor Muir. 
-Daniel, dava algo.
O mdico se encolheu de ombros. 
-O que posso dizer? Edie tem toda a razo. A garota no o entender, e seguro que lhe vai 
afetar muito, e para mau, que uns desconhecidos dela cuidem. 
O juiz jogou as mos  cabea em um evidente gesto de impacincia.
-Que mais posso fazer?
Daniel se esfregou o queixo.
-No  possvel deix-la em casa?
-E o escndalo? -gritou o juiz.
-Ah, sim, o escndalo. 
O tom de voz do mdico revelava com toda claridade que no via com simpatia a obsesso do
juiz por sua carreira poltica. Alex compartilhava este sentimento. Se Annie fosse sua filha, seu 
bem-estar seria o mais importante para ele; sua carreira profissional s ocuparia um segundo 
lugar.
-Eu poderia tentar encontrar um lar adequado para o Annie no muito longe daqui -props 
Alex. 
Edie se voltou para ele com os olhos inchados de tanto chorar. Alex se levantou de sua cadeira
e apoiou um brao no suporte da chamin.
-O ideal seria dar com uma mulher que fosse como uma espcie de av e que estivesse 




disposta a cuidar dela durante todo o embarao. Estou seguro de que podemos encontrar a 
algum assim se nos empenharmos nisso. -Para fazer insistncia em seu argumento, levantou
as mos-. A garota s leva quatro meses de embarao. Dispomos ainda de um pouco de 
tempo. -Olhou intensamente ao Edie-. Quanto ao feito de que a mudana de residncia a
afete e confunda ainda mais, no h nenhum motivo para que voc no possa acompanhar a
ou ficar com ela at que se adaptou  nova casa.
Edie se levou uma mo ao pescoo. Olhou ao juiz em busca de sua aprovao. 
-Poderamos fazer isso, querido?
Trimble assentiu com a cabea. 
-No vejo por que no. O difcil ser encontrar a uma mulher assim. -Dirigiu um olhar 
esperanzadora ao Alex-. Se o obtivermos, seria ideal: a melhor soluo a todos nossos 
problemas.
Sentindo-se imensamente culpado, pois seu irmo tinha causado todos aqueles transtornos,
Alex respondeu.
-deixe-me isso . Como me dedico ao comrcio de cavalos, conheo gente em outros povos.
Comearei amanh mesmo a escrever cartas fazendo averiguaes a respeito e as jogarei ao 
correio na segunda-feira.  possvel que custe um pouco de tempo, mas encontraremos a
algum que acolha ao Annie. 
Edie se lanou aos braos de seu marido e se desfez em lgrimas uma vez mais. Embora
compadecia  mulher, Alex estava ansioso por sair dali. Assegurou uma vez mais aos Trimble 
que comearia a fazer averiguaes  manh seguinte, saiu ao corredor e se foi direito ao 
saguo. S quando estava no alpendre se deu conta de que o Doutor lhe estava pisando nos 
tales. 
-Que situao to terrvel! -observou Daniel Muir. 
Para o Alex, dizer que era uma situao terrvel era ficar curto. No podia esquecer nem por
um instante que Douglas era o responsvel por todo aquilo. 
-Sim, assim . S Deus sabe quanto desejaria poder emendar o dano causado, mas no posso 
faz-lo. 
Enquanto baixavam as escadas da entrada principal, o doutor se tirou a jaqueta, enganchou-a 
em seu dedo polegar e a jogou em cima de um de seus ombros. 
-Faz muito calor esta noite, no  verdade? Estava a ponto de me asfixiar ali dentro.
Acostumado a trabalhar ao ar livre, suportando o calor do dia, Alex no tinha advertido quo
carregado estava o ambiente. Elevou a vista para olhar o cu iluminado pela luz das estrelas.
-Viria-nos bem que chovesse um pouco.
-Como so as coisas! Durante todo o inverno no fazemos mais que nos queixar das chuvas,
e em meados de agosto comeamos a rezar para que caia um aguaceiro.
Alex se deteve junto a seu cavalo ao chegar ao corrimo para atar as bestas.
-A natureza humana  contraditria. 
Muir dirigiu o olhar para a casa.
-No me est dizendo nada que j no saiba. Essa famlia  todo um enigma,  a pura
realidade. 
Alex acreditou que o doutor se estava refiriendo  obsesso do juiz com sua carreira poltica. 
-No sempre  possvel entender as prioridades das demais pessoas.
- verdade. -O mdico entreabriu os olhos para observar ao Alex com a escassa luz
proveniente da lua-. Voc  um bom exemplo. Considerava-te um homem preparado, sempre
 espreita das oportunidades. Agora te apresenta uma, e a est deixando passar. 
-Como diz? 
-A pequena Annie  uma garota de bom bero e todo isso -esclareceu o doutor-. Voc, por
outra parte, j est a ponto de fazer trinta anos, ainda no te casaste e est convencido de que
no pode ter filhos. Pensei que no deixaria acontecer a oportunidade de te casar com essa 
moa e que reivindicaria como teu ao filho do Douglas. depois de tudo, esse menino levar seu
sangue, pois  o filho de seu irmo.
Alex apartou o olhar, porque no fundo entendia perfeitamente o ponto de vista do doutor. No
podia lhe dar a conhecer o motivo de sua deciso, pois lhe tinha prometido ao Trimble que no 
contaria a ningum o que lhe tinha revelado.
-Pois assim so as coisas, doutor. Embora seja verdade que desejo ardentemente um filho,
tenho meus motivos para vacilar.
Muir deixou escapar um suspiro. 
-Refere-te ao tio louco do Edie? -O mdico rodeou o corrimo para atar aos animais com o
fim de aproximar-se de seu cavalo. depois de ajustar a cilha, olhou ao Alex por cima da cadeira
de montar-. Sim, certamente, no pode te referir a outra coisa. Eu tambm ouvi essa histria. 




Mas te digo uma coisa, Alex, essa garota no est louca. Eu estive com o Edie quando Annie 
nasceu, e tambm atendi  menina em seus primeiros anos de vida. Ela estava perfeitamentebem at que lhe deu essa febre. Essa garota no tem nada que possa transmitir a seus filhos.
Eu lhe garanto isso.
Alex agarrou com tal fora o corrimo que lhe doeram os ndulos.
-Poderia estar equivocado.
Daniel se Rio entre dentes. 
-H tantas possibilidades de que me equivoque como de que a gua comece a correr costaacima. No estou falando com a ligeira, Alex. Sei perfeitamente quais seriam as conseqncias 
em caso de me equivocar. Mas te asseguro que no  assim. Essa garota era extremamente 
inteligente antes de padecer essa enfermidade.
-Est seguro de que no  hereditria?
-Completamente seguro.
Alex dirigiu o olhar para a casa. Milhares de idias E possibilidades se amontoaram em suacabea. 
-No sei. Dada sua condio, se me casasse com ela comeariam a correr um monto de 
rumores. A gente pensaria que sou um homem libidinoso, E no lhes faltariam motivos paraisso. 
-Talvez tenha razo. Se lhe incomodarem os falatrios, suponho que ser melhor que no te 
envolva nesta situao. 
Alex respirou fundo.
-Por no falar da responsabilidade que estaria assumindo. Uma garota como Annie deve dar 
muito trabalho. O mdico sorriu. 
- uma criancinha tremendamente dcil, e  feliz quando a deixam desfrutar dos prazeressingelos de sua existncia. Com seu dinheiro, poderia contratar a uma mulher que ficasse emcasa para cuidar dela, E nem sequer te daria conta de que est vivendo contigo.  preciso 
pensar tambm no bem-estar do Annie.  possvel que lhe afete um pouco o fato de mudar-sea sua casa, mas isso seria muito menos traumtico para ela que se a mandassem a sabe Deusonde. Vivendo contigo, ao menos poderia seguir passeando pelo bosque que conhece to bem,
E quando gostar, poderia ir casa a ver sua me. Voc no  o responsvel pela desgraa queest a ponto de lhe sobrevir a essa pobre menina, mas, se te casasse com ela, poderia lhe 
facilitar muito as coisas. 
Alex cravou o olhar no escuro bosque que confinava com o jardim dos Trimble. 
-No sei o que te dizer, meu querido doutor. -Respirou fundo-. Se chegasse a estarequivocado em relao  garota... -interrompeu-se, encolhendo-se de ombros-. Um meninocom problemas mentais? No soube criar bem ao Douglas, bem sabe. Olhe no que seconverteu. A s idia de educar a um menino com algum tipo de enfermidade... bom, o certo que me aterroriza.
O doutor inclinou a cabea para manifestar que estava de acordo com isto. Mas, ato seguido,
deu o golpe mortal.
-E se no me equivoco e o menino resulta ser normal? Ter que passar toda sua vida em umorfanato, sem nenhuma esperana de que uma famlia o adotasse algum dia. -O mdico semontou em seu cavalo, pondo seu casaco sobre a parte dianteira da cadeira-. S pensa nisso, 
homem. Se pode lhe voltar as costas, mostrar o forte que , certamente. Mas espero que 
possa dormir bem pelas noites.
Depois de dizer estas palavras, o mdico esporeou a seu cavalo e tomou o caminho de sadapara dirigir-se  rua.
Com a sensao de que lhe tinham arrancado parte de sua alma, Alex foi sentar se aoalpendre. Os grilos cantavam na escurido. A lua flutuava sobre as montanhas como uma 
gigantesca moeda de prata, banhando com seu resplendor as taas das rvores longnquas. Dointerior da casa saa o rudo apagado do pranto do Edie Trimble. 
Alex fechou os olhos e tentou ordenar seus pensamentos, mas as ltimas palavras do doutorressonavam com fora em sua cabea. Como poderia lhe voltar as costas ao filho de seu irmo 
e dormir tranqilamente pelas noites? Tinha os recursos econmicos suficientes para contratar 
a uma cuidadora que ficasse em casa com o Annie, e o doutor possivelmente tinha razo 
quando dizia que, em sua enorme manso, possivelmente nem se desse conta de que a jovemestava vivendo com ele. O menino poderia nascer dentro do matrimnio. Levaria o sobrenomeMontgomery, que lhe correspondia por direito prprio, e desfrutaria de todas as vantagens queeste implicava. Embora Annie poderia demorar uns quantos dias em adaptar-se a seu novo lar, 
com o tempo conseguiria sentir-se a gosto, e isto seria muito menos traumtico para ela quese a separassem radicalmente de sua famlia e de tudo o que conhecia. 



depois de lhe dar voltas ao assunto durante vrios minutos, Alex ficou de p e subiuresolutamente as escadas. Sem sequer tom-la molstia de bater na porta, entrou na casa eatravessou o corredor pouco iluminado que conduzia ao estudo do juiz. Os Trimble elevaram a 
vista surpreendidos quando o viram entrar de novo naquela habitao. Edie o olhou com os 
olhos chorosos e inchados, e seu marido com perplexidade.
-Pensei que j te tinha partido -disse o juiz.
Sentindo-se inexplicavelmente nervoso, Alex se passou uma mo pela cabea.
-O certo  que tive uma larga conversao com o doutor Muir, e agora penso que h outra 
soluo para este problema. -Alex olhou ao juiz  cara-. Apesar do que me disseanteriormente, decidi que o melhor para todas as pessoas envoltas neste assunto  que eu mecase com sua filha. 
antes de que algum dos Trimble pudesse protestar, Alex seguiu falando. 
-Contratarei a uma cuidadora competente para que dela cuide. de vez em quando, poder viraqui a lhes ver, e vs sempre sero bem-vindos em minha casa. O menino levar meusobrenome. -Alex agitou a mo no ar-. Se o pensarem bem, vero que  a soluo perfeita.
Edie ficou lvida e se levantou de modo vacilante. Alex acreditava que a mulher estariacompletamente de acordo com ele. Entretanto, surpreendentemente exclamou:
-No! 
No esperava que a senhora respondesse daquela maneira.
-Mas por que no?
-Porque no! No o permitirei, James. depois de que nasa o beb, quero que Annie retorne a 
casa, onde deve estar. No quero que nenhum desconhecido dela cuide o resto de sua vida.
Ela  minha filha e est sob minha responsabilidade, e de ningum mais.
Alex estava muito cansado para discutir.
-Pouco depois de que o menino nascesse, Annie e eu poderamos nos separar. Poderamosdizer que tivemos problemas no matrimnio, inconvenientes que no pudemos resolver. Entoela retornaria a casa, e eu criaria ao menino. 
Edie se levou o dorso da mo  frente e comeou a dar voltas pela habitao. Seudesassossego era evidente em cada uma das rgidas linhas de seu corpo. O juiz ficou olhando-adurante uns segundos. Logo, voltou-se para o Alex com um olhar cheia de perguntas. Sabendomuito bem o que devia estar pensando, Alex falou em voz baixa.
-Conheo os riscos, juiz. Estou disposto a tentar a sorte. Se o menino chegar a ter algum tipode problema mental, eu me ocuparei de que ningum diga nada e o internarei em um hospitalpsiquitrico, tal e como planejava faz-lo em um princpio. No haver rumores nemescndalos. Diremos que o menino morreu ou que eu o mandei a casa de uns parentes.
O juiz lhe lanou um olhar de advertncia, e em seguida se voltou para sua esposa, quem no 
deixava de andar de um lado a outro da habitao. Claramente temia que ela tivesse ouvidoestas palavras. tranqilizou-se ligeiramente ao ver que a mulher seguia dando voltas ao redordo estudo, aparentemente alheia  conversao. 
-No sei o que te dizer -disse em voz baixa-. Se chegar a correr a voz do acontecido, minha 
carreira poltica estaria arruinada. Realmente acredito que o melhor seria que... 
-No te estou dando a possibilidade de escolher -acrescentou Alex. 
Ao juiz lhe dilataram as pupilas, e pareceu que as ris estavam a ponto de voltar-se 
completamente negros. 
-Isso  uma ameaa? 
-Uma promessa -lhe corrigiu Alex-. Se te opuser, pode te despedir para sempre da 
possibilidade de ter um cargo pblico.
O aflito pai se sufocou ainda mais. depois de olhar atentamente ao Alex durante comprido 
momento, dirigiu o olhar para sua esposa. 
-Edie,  a melhor soluo que surgiu at o momento. Annie no ficaria com o Alex para 
sempre, s durante uns poucos meses.
A senhora Trimble negou com a cabea com veemncia.
-No. Preferiria que fizssemos o que tnhamos planejado antes: procuremos a algum queviva fora do povo para que dela cuide at que tenha esse beb.
Isto no tinha nenhum sentido. A ponto de perder a pacincia, Alex se sentou em uma cadeirae cravou seu implacvel olhar no juiz.
-H muitas mais costure que ter em conta aqui; no s os desejos da senhora Trimble. Sem 
dvida alguma, meu plano seria muito melhor para o Annie. E o menino no ser internado em 
um orfanato. 
Iracunda, Edie se voltou para o Alex. Seus olhos jogavam fascas. 
-Esse menino no  assunto dele, senhor Montgomery! Nada disto o . 



Ao Alex custou muito trabalho no perder os estribos.
-No estou de acordo. Certamente que esse menino  meu assunto! E se encontrarmos a
maneira de evitar que seja criado em uma instituio, isso  exatamente o que vamos fazer. 
-Edie -o juiz falou em voz baixa-, por que no vai  cozinha a preparar um pouco de ch?
A mulher tomou ar e apertou os punhos.
-Fala-me de ch? Est a ponto de decidir qual ser o futuro de minha filha e quer que v
preparar ch?
-Sim. -Embora sorte com delicadeza, a resposta do juiz era uma ordem inequvoca-. Ainda
sou o homem da casa. Em ltima instncia, eu devo tomar a deciso, e voc tem que acat-la.
A senhora Trimble lanou um olhar assassino ao Alex e saiu majestuosamente da habitao. 
Suas bochechas tinham manchas de intensa cor carmesim e seus lbios formavam uma rgida
linha. 
Imediatamente depois de sua sada, dissipou-se grande parte da tenso que reinava no estudo. 
Alex aproveitou a momentnea calma para lhe referir ao juiz o que havia dito o doutor Muir; 
concretamente, que ele assegurava que uma febre muito alta tinha sido a causa do mal do
Annie. 
-E se est equivocado?
-E se no o est? -Alex voltou a pass-la mo pela cabea-. Meteremos em um orfanato a
um menino perfeitamente normal e o declararemos inadoptable? Tal e como eu vejo as coisas,
tenho que correr esse risco. E embora no queira, voc o vais correr comigo. depois de tudo, 
estamos falando de seu neto e de meu sobrinho, ou minha sobrinha. Devemo-lhe ao menos 
essa oportunidade.
Trimble refletiu um momento a respeito destas palavras. Um instante depois, assentiu com a 
cabea. 
-S espero que saiba muito bem o que est fazendo. Muir tem boas intenes, e estou seguro
de que acredita no que diz, mas isto no significa que no esteja equivocado.
-Rezemos para que no o esteja.
Uma vez resolvido este ponto, os dois homens passaram a discutir os detalhes, e cinco minutos
depois tinham decidido que o matrimnio do Alex e Annie devia celebrar-se logo que fosse 
possvel. Quando Edie retornou  habitao, o juiz lhe informou com delicadeza sobre a
deciso que eles tinham tomado respeito ao matrimnio, e que os dois esperavam que
pudesse celebrar-se em uma semana. O nico requisito essencial era que Alex encontrasse 
uma cuidadora competente que ficasse com eles em casa.
Quando sua esposa comeou a protestar, o juiz a interrompeu com palavras cortantes.
-J basta, Edie. Isto  o melhor. Confia em mim. 
Derrotada, a senhora Trimble se deixou cair no sof contigo a seu marido e cruzou as mos 
sobre seu regao, as estreitando com fora.
-Mas, James, ele no tem nem idia de como deve trat-la. 
-Uma mulher de outro povo tampouco saberia faz-lo -assinalou Alex.
-Mas ao menos eu poderia aconselh-la e fiscalizar seu trabalho! -gritou ela-. Deixar a
nossa filha em mos inexperientes poderia jogar pela amurada tudo o que me esforcei tanto 
por lhe inculcar ao longo de todos estes anos.
Alex se esfregou a tmpora, amaldioando em silncio o agudo dor de cabea que sentia
detrs dos olhos. Embora no podia entender a aquela mulher, era necessrio mitigar suas
preocupaes.
-Senhora Trimble, com muito gosto lhe permitirei falar com a cuidadora que contrate, se isso 
for o que lhe preocupa. Pode voc lhe indicar como deve tratar ao Annie, pode fiscalizar tudo o 
que ela faa.
O magro corpo da senhora Trimble comeou a perder sua rigidez.
-De verdade que no lhe incomodaria?
No sem esforo, Alex tirou reluzir um sorriso, embora tnue.
- obvio que no. O nosso no ser um matrimnio verdadeiro. S um acordo conveniente
para ambas as partes, isso  tudo. Agradeceria inclusive todas suas contribuies e sua
experincia, pois isso nos ajudar a cuidar melhor do Annie. 
Lhe escrutinou o olhar durante comprido momento. Logo, finalmente sorriu tambm. 
-Possivelmente esta seja uma soluo factvel, depois de tudo. 
-Assim o espero, certamente. Do contrrio, no a teria sugerido. -Alex comeava a sentir-se
um pouco aliviado. 
-Annie  uma garota bastante difcil -se apressou a dizer a me-.  preciso lhe fazer seguir
regras muito estritas, entende voc?, ou do contrrio se volta intratvel. Talvez voc ria de 
minhas inquietaes, mas o fato  que se Annie se voltar uma garota incontrolvel, ser 




necessrio intern-la em um hospital psiquitrico e, posto que sou sua me, quero evitar atoda costa que isto acontea. 
Finalmente, Alex comeava a entender os motivos que tinha tido a mulher para comportar-seda maneira em que o tinha feito. Embora lhe desgostava enormemente que se levassem aoAnnie longe de casa, ao menos dessa maneira ela teria podido ter algum tipo de controle sobrea maneira em que se cuidaria dela. As objees que punha ao matrimnio do Alex com o Annie 
nasciam do medo, nada mais. 
-Dou-lhe minha palavra de que adotarei todas as regras que voc impe ao Annie e que asfarei cumprir rigorosamente. E voc pode tomar-se todo o tempo que necessite para lheensinar  mulher que contrate como ocupar-se do Annie, quer dizer, a faz-lo exatamente 
como o faria se estivesse voc ali para fiscaliz-la.
A me deixou escapar um suspiro de alvio. 
-Obrigado, senhor Montgomery. Isto me faz me sentir muito mais tranqila com toda esta 
situao. 
Alex se levantou da cadeira, esperando que j no houvesse nada mais que dizer, mas se viuobrigado a sentar-se de novo quando Edie Trimble ficou a recitar uma larga lista de instrues 
relacionadas com o cuidado de sua filha. No deviam levar ao Annie ao povo; as multides a 
punham nervosa. Os lpis e as plumas estilogrficas estavam proibidos; a menina podia fazer-
se danifico. Nunca, sob nenhuma circunstncia, devia-se permitir que Annie emitisse som 
algum; uma vez que comeava, era impossvel faz-la calar, e a bulha que podia organizar eraensurdecedora. 
Quando a mulher ficou ao fim sem corda, ao Alex dava voltas a cabea e duvidava seriamente 
de que pudesse recordar algo do que lhe havia dito. Mesmo assim, prometeu cumprir ao p daletra cada uma daquelas regras. Algo, com tal de sair dali.
antes de despedir-se, Alex fechou o acordo com o juiz com um aperto de mos e prometeucomear a procurar imediatamente uma cuidadora. Quando saa da casa, deteve-se um 
instante no saguo, para olhar fixamente o patamar do primeiro piso, perguntando-se qual de 
todas aquela portas do corredor de acima conduzia ao dormitrio do Annie. Embora lhe 
envergonhava muito reconhec-lo, at aquele momento Alex no tinha pensado em qual seriaa reao da jovem acima de tudo aquilo. Recordou o terror que ela sentiu ao v-lo fazia quatromeses e se disse que s ficava rezar para que tivesse esquecido todo o relacionado com o 
Douglas e o que este lhe tinha feito. Se no... Bom, dava-lhe medo simplesmente pens-lo. 

CAPTULO 05 

A data das bodas se fixou para a semana seguinte, e Alex chegou  soleira dos Trimble s dez 
em ponto da manh designada para converter ao Annie em sua legtima algema. O planoparecia bastante singelo: um matrimnio rpido, passaria uns quantos meses cuidando doAnnie, e logo devolveria a jovem a casa de seus pais. O que poderia sair mau? Ao Alex pareciaque a resposta a esta pergunta era: tudo. Do instante mesmo em que entrou na casa, comeoua ter dvidas, muitssimas dvidas. 
Como uma menina curiosa obrigada a subir ao piso de acima enquanto tinha convidados em 
casa, Annie se encontrava sentada no patamar que dava ao saguo. Seu pequeno rosto ficavaemoldurado pelos balastres de mogno e seus olhos estavam exageradamente abertos pela 
perplexidade, enquanto observava tudo o que estava passando abaixo. O reverendo Widlow, o 
pastor que ia oficiar a cerimnia, tinha chegado apenas uns segundos antes que Alex e umcriado o conduzia ao salo. Dois pees transportavam um dos bas do Annie  planta baixa.
Criada-las corriam daqui para l. Qualquer poderia dar-se conta de que algo fora do comumestava a ponto de acontecer ali. 
Quando Alex entrou no saguo, Annie ficou completamente paralisada e seu rosto pareceuperder at a ltima gota de sangue. No se precisava ser um gnio para compreender que apobre menina acreditava que era Douglas. Dada sua incapacidade intelectual, ele no sabiacomo tirar a desse engano. Como tanto gostava de s pessoas lhe recordar, ele era a vivaimagem de seu irmo. Ao Alex no parecia que a semelhana fosse to acusada; mas para oAnnie, quem sem dvida recordava todo o relacionado com o Douglas como uma imagemimprecisa, de pesadelo, as diferenas entre eles no pareciam ser to evidentes.
Temeroso de que a noiva sofresse um ataque de pnico, Alex parou em seco. At a umadistncia de sete metros, ele podia sentir o medo dela. Eletrizante, flutuava no ar que haviaentre ambos, lhe pondo a carne de galinha.
Com seu metro oitenta e oito de estatura, o criador de cavalos era uma cabea mais alto que amaioria dos homens. Por infinidade de razes, em distintas ocasies desejou ser mais baixo, 



mas nunca tanto como naquele momento. tirou-se o chapu antes de entrar na casa, demaneira que naquele instante no podia tirar o chapu de repente para parecer mais baixo. Ajulgar pelo terror que se refletia nos olhos do Annie, encurvar os ombros tampouco lhe estavaajudando muito. Era um homem grande. Havia muito pouco que pudesse fazer para ocultaresse fato. Com uma garota como Annie, que tinha todas as razes do mundo para estarassustada, este era um indisputvel ponto em contra.
Se ela fosse capaz de falar, de entender, Alex teria podido tranqiliz-la. Tal e como estavamas coisas, tudo o que podia fazer era ficar ali e tentar expressar com seu olhar o que no podialhe dizer com palavras; concretamente, que ele no era Douglas e que no tinha sido talhadocom a mesma tesoura que seu irmo. A ele nunca lhe ocorreria lhe fazer danifico, nemtampouco permitiria que nenhuma outra pessoa o fizesse. 
-Ol, Annie -disse ao fim em voz baixa. 
Quando Alex falou, ela passou a fixar toda sua ateno na boca dele, e uma expresso deabsoluto desconcerto cruzou por seu rosto. Ao Alex lhe caiu a alma aos ps, pois tinhaesperado que ela pudesse entender ao menos umas poucas palavras. Convencido de que no 
era assim, colocou as mos nos bolsos de sua cala e fechou os punhos.
A maneira em que ela o olhava fazia que se sentisse como um monstro. Um monstro gigante.
Esboou o que esperava que fosse um sorriso de aparncia inofensiva, mas sentia seu rostoto rgido que temia que mas bem parecesse uma careta. Se por acaso ela poderia cair naconta de que ele no era Douglas se conseguia v-lo bem, aproximou-se um pouco mais.
Por alguma razo, ele, que nunca a tinha tido to perto, no a tinha imaginado to mida.
Tinha os ombros estreitos, os ps pequenos e os membros frgeis. Duvidava de que pesassesequer 45 quilogramas, com roupa e tudo.
Ao longo dos anos, tinha conhecido a vrias mulheres que poderia descrever como delicadas,
mas inclusive este parecia ser um adjetivo muito forte para o Annie. Recordava a uma figurade cristal delicado. Seu rosto tinha a forma de um corao, seus rasgos estavam finamentecinzelados e eram quase perfeitos. O nariz, pequena e reta, nascia entre as sobrancelhas 
negras e elegantemente arqueadas.
Quando ele se aproximou, ela trocou ligeiramente de posio. Pela tenso de todo seu corpo,
sups que a moa estava disposta a sair correndo se ele fazia algum movimento brusco. Umsorriso contido fez que uma onda de calor invadisse seu peito, quando de repente viu queAnnie tinha elevado levemente um joelho. Da vantajosa posio em que se encontrava, ajovem podia pensar que estava muito bem coberta. Mas, ao olh-la de abaixo, as coisas eram 
totalmente diferentes. Como a maioria dos cales bombachos, os do Annie tambm tinham 
uma abertura na entrepierna, e ela no levava anguas que obstaculizassem a vista. 
Voltou a fixar sua ateno no rosto do Annie. Um calor abrasador subia lentamente por seu 
pescoo. Olhando-a aos olhos, tentou estabelecer se ela se teria dado conta de que seu olharse extraviou naquele lugar de seu corpo. Viu seus olhos. Extraordinariamente grandes e da cordo cu espaoso e luminoso de um dia do vero. No havia malcia alguma neles.
Homem prtico at a medula, Alex nunca tinha acreditado nas tolices que os homens diziamquando estavam apaixonados. S tinha estado a ponto de morrer afogado ao olhar os olhos deuma mulher, em uma ocasio em que comeou a suar a jorros, e isso exclusivamente a causa 
do desejo. Mas os olhos do Annie eram diferentes. No  que estivesse afogando-se neles estavez. Mas quase. sentia-se como um peixe enganchado pelas duas guelra, e os grandes olhosazuis da jovem eram como o linha que o arrastava para ela.
Era uma criatura to indefesa e to terrivelmente vulnervel... Sem dvida alguma, casar-se 
com o Annie era o menor de dois maus. Mas, mesmo assim, odiava a idia de que pudessecontribuir a lhe causar mais dor. Era como ter a um cervo tremente na olhe do rifle e apertar o 
gatilho.
Enquanto a observava, Alex advertiu uma mancha azul em um balastre que se encontrava direita do Annie. Para sua surpresa, viu que ela tinha posto sua cinta de cabelo ao redor da 
coluna, formando uma espiral perfeita. Parecia uma delicada guloseima Se perguntou se lhegostariam dos doces para meninos e tomou nota mentalmente de que devia comprar alguns aprxima vez que fosse ao povo.
Doces guloseimas para a doce...
-Alex, meu amigo...
Esta inesperada saudao fez que Alex se sobressaltasse. voltou-se para ver o James Trimble 
saindo do salo. Dado o motivo daquela festa, no podia entender por que o homem estavasonriendo de orelha a orelha. Que Alex soubesse, aquela no era uma ocasio para especiaiscelebraes, e por isso respondeu  saudao com voz neutra.
-James. 



Alex sabia que provavelmente devia dizer algo mais a maneira de saudao cordial, mas nessemomento lhe resultava impossvel ser corts com aquele homem. O que poderia lhe dizer? Que 
se alegrava de v-lo? Francamente, no era assim. Ao longo da ltima semana, durante a qual 
se produziram diversos encontros, o pai do Annie lhe tinha resultado cada vez menos 
simptico. Tinha admirado a este homem durante muitos anos, mas agora que o conheciamelhor, sabia que em realidade era um velhaco egocntrico e insensvel. E no eram seuspiores atributos.
Detendo-se junto ao Alex, Trimble enganchou seus dedos polegares sob a lapela de suajaqueta, tornou-se para trs balanando-se sobre seus tales e falou, muito satisfeito. 
- uma formosa manh para umas bodas, no te parece? Sim,  claro que sim, 
verdadeiramente perfeita.
Ao ver que o noivo no mostrava seu acordo, o sorriso do juiz titubeou e, com esse dom 
especial que tm os polticos verdadeiros para as evasivas, deu marcha atrs.
-Bom, possivelmente, um pouco calorosa. Mas ao menos podemos estar seguros de que no 
chover. Embora no nos viria mal um bom aguaceiro.
Para o Alex no era, no, uma formosa manh. Em realidade, por isso a ele se referia, todaaquela semana tinha sido pssima. Estava a ponto de casar-se com uma mulher sem seuconsentimento. Independentemente de que Annie o entendesse ou no, ele sim o tinha de 
tudo claro. Noite detrs noite tinha permanecido acordado olhando fixamente o teto, dizendo-
se que o fim justificaria os meios, que estava fazendo o correto. Mas era a verdade? Esta erauma pergunta que Alex no podia responder com certeza, ao menos sem a ajuda de uma bolade cristal e um vidente que predissera o futuro. Embora a verdade era que ele no acreditavaem tais gilipolleces. 
Jogou uma olhada sarcstica ao traje de seu futuro sogro. Com total falta de considerao pelaimportncia do momento, Trimble levava uma jaqueta canela bastante ampla sobre umacamisa branca ligeiramente engomada, e um pulver de algodo de cor rosa, de pescoo de 
pico. Sua gravata, a jogo, era de um rosa de tom mais escuro. Era indubitavelmente um trajepouco elegante, mais apropriado para receber a convidados no jardim que para umas bodas,
embora se tratasse de umas bodas to informal. 
Alex, em troca, tinha sido excepcionalmente meticuloso na eleio da roupa que levaria aquelamanh. Tinha terminado por escolher um traje feito a medida, de cor cinza escura, e uma 
camisa branca muito engomada, cuja parte dianteira estava to rgida que ameaavagretando-se quando ele se movesse. Dado que odiava o aroma do amido para camisas, quealagava as janelas de seu nariz e se aferrava implacavelmente  parte posterior de sua lngua,
no pde menos que ofender-se, algo ressentido, pela informalidade do outro homem.
Sonriendo de orelha a orelha novamente, James deu ao Alex uma palmada no brao.
-H-te posto nervoso, no  verdade? Vamos ao salo. Tenho o remdio que necessita. -Comuma piscada de cumplicidade, inclinou-se para o Alex-. Minha beberagem especial. Brandy de 
pssego. Nunca em sua vida provaste nada igual.
Enquanto o juiz o arrastava para o salo, Alex olhou ao Annie por cima do ombro. Ainda tinhaseus grandes olhos azuis cravados nele. Sorriu-lhe de novo, esperando tranqiliz-la. antes deque pudesse ver sua reao, James j o estava conduzindo ao outro salo atravs do corredorabovedado. 
Conhaque e imbecis presunosos. Uma mescla particularmente repugnante, decidiu Alex unspoucos minutos depois. Nem Trimble nem o pastor pareciam compreender a envergadura doque estavam a ponto de fazer. Alex no podia pensar em outra coisa. Era verdade que tinha as 
melhores intenes, mas isto no atenuaria o impacto que todo aquilo teria sobre o Annie. 
Pouco depois de que tivesse lugar aquela pardia de bodas, um homem que a aterrorizava atiraria do nico lar que ela conhecia. quanto mais pensava Alex nisso, mais se inclinava a estarde acordo com sua ama de chaves, Maddy, quem dizia que aquele acordo era um pecadocontra Deus e tudo o que tinha que sagrado no mundo.
Depois de terminar seu brandy, o pastor tirou um relgio do bolso. Homem alto e corpulento, 
de cabelo negro do mesmo tom que seu traje, o ministro lhe fez pensar ao Alex em um funeral.
Compreendeu por que quando advertiu que levava o alzacuello negro, em lugar do tradicional 
de cor branca. 
-Bom, James -disse-. Comecemos de uma vez. Como j te disse quando falamos a semanapassada, minha agenda est muito apertada. Quase no consigo encontrar tempo paracelebrar este matrimnio. Tenho dois batismos e outras bodas esta tarde, alm de um funeral 
esta mesma manh, com o que no contava. -Soltou uma estentrea gargalhada-.  oproblema que tm os paroquianos agonizantes. Nunca escolhem o momento oportuno para 
morrer. 



Ao Alex comeou a tremer um msculo debaixo do olho, reao nervosa que experimentava aozangar-se, uma das poucas caretas que no tinha aprendido a controlar com os anos.
Compreendeu que aquelas bodas no era mais que uma obrigao molesta para aqueles doishomens, uma necessidade chata que deviam tirar-se de no meio com o menor alvoroopossvel.
-Em questo de agendas apertadas, ningum mais entendido que eu. -James ps sua taamdio vazia sobre o suporte da chamin-. E bem, Alex? O brandy te deu suficiente valor para 
dizer as duas palavras mais temidas do homem? -Se Rio a gargalhadas e lhe piscou os olhosum olho ao reverendo-. Ainda no conheci a um solteiro que possa dizer: "Sim, quero", sem 
assustar-se. 
Alex apertou a taa com fora e se mordeu a lngua para no dizer nada do que pudessearrepender-se. Enquanto James se dirigia ao corredor abovedado para chamar a sua esposa, o 
angustiado noivo dirigiu a vista para a chamin.
Lhe teriam comunicado ao bom reverendo as razes para a celebrao daquelas repentinasbodas? Dada a atitude confiada do James, Alex tinha a desagradvel suspeita de que seufuturo sogro tinha garantido a colaborao do pastor lhe fazendo uma doao importante a suaigreja. Os vitrais e os luxuosos sinos da torre no eram nada baratas. A s idia de que 
pudesse ser assim lhe enojava. O dinheiro falava com eloqncia; ningum sabia isto melhor 
que ele. Mas se supunha que os clrigos deviam estar por cima dos subornos.
Aromas de cozinha -canela, baunilha e massa de levedura- chegaram ao salo, procedentesda parte de atrs da casa, para mesclar-se de maneira repugnante com a viscosa doura de 
seu brandy. Por um vertiginoso instante, teria podido jurar que as rosas da catapora de l seestavam movendo. Piscou, desejando sentir o efeito lhe vigorizem do licor, mas temendo 
tambm que seu estmago pudesse rebelar-se se bebia o resto.
Annie... Sem dvida, uma jovem a que seus pais no apreciavam muito. Mais que uma mulher,
era como um segredo bem guardado, que estava a ponto de desaparecer de uma casa, porarte de magia, para aparecer em outra. E em uns poucos meses, quando seu filho tenhanascido, voltar a aparecer em sua casa, recordou-se a si mesmo. 
Este pensamento e o resto do brandy fortaleceram sua desfalecida vontade. Uma semana 
atrs tinha tomado uma deciso pelo bem do Annie e de seu filho. Todas as razes para chegara essa deciso ainda eram vlidas. No podia permitir que seu sobrinho, ou sobrinha, foraetiquetado de inadoptable e criado em um orfanato. Isto era totalmente inaceitvel. 

Quando Edie Trimble entrou no salo, arrastando a sua filha atrs dela, Alex apertou com tal 
fora sua taa vazia que o cristal esteve a ponto de fazer-se pedacinhos. Com aqueles olhosenormes em seu rosto plido, Primeiro Annie o olhou a ele, logo ao pastor e, por ltimo, a seupai. Era evidente que no estava acostumada a estar em presencia de convidados, e muitomenos de um homem que se parecia tanto a aquele que a tinha violado. Atirando 
desesperadamente dos dedos de sua me para tentar liberar-se da mo que a agarrava comfora, a jovem cravou seus tales no cho e ps todo seu peso, embora escasso, no empenhode impedir o avano.
Edie recompensou os esforos do Annie cravando os dedos em seu brao e lhe dando uma 
sacudida violenta. 
-J basta! -gritou.
Annie se estremeceu e em seguida elevou instintivamente o outro brao para proteg-la cara.
Para o Alex, era mais que evidente que, de no haver ningum na habitao, Edie lhe teria 
dado uma bofetada. Dirigiu o olhar para os rastros vermelhos que os dedos da mulher tinhamdeixado no brao da jovem. Com movimentos precisos, ps sua taa sobre o suporte dachamin e se voltou para o pastor, ao que falou com um aborrecimento mau dissimulado.
-Terminemos j com tudo este assunto. 
Edie, perfeitamente vestida para a ocasio, com uma blusa rosa e uma saia da mesma cor quecombinava muito bem com o traje de seu marido, lanou a este um olhar de assombro. Alex aolhou  cara. Importava-lhe um nada que adivinhasse o que ele estava pensando. O fato deque nunca lhe tivesse pego a uma mulher, e de que no tivesse nenhuma inteno de comearcom ela, no significava que no pudesse contemplar a idia em um caso excepcional.
Enquanto se aproximava do pastor a grandes pernadas, jogou um detido olhada ao pudovestido azul do Annie. Sem dvida nenhuma, um homem com a posio econmica do Trimble 
poderia haver comprado a sua filha um vestido melhor, especialmente o dia de suas bodas.
Embora s fosse uma farsa, no deixava de ser umas bodas. As pontas dos sapatos negros da 
garota estavam to desgastadas que s ficava algo assim como um couro spero. Suas meias 



brancas que se deixavam ver a partir das acne, devido a que o vestido tinha a longitude do de 
uma colegiala, tinham manchas de erva. Tinha visto alguns rfos melhor vestidos que aquela 
menina. 
Quando ele se aproximou, Annie comeou a lutar de novo com a mo de sua me. Alex se 
deteve vrios metros de distncia do ponto ao que originalmente planejava dirigir-se. Com seu 
cabelo convertido em um selvagem matagal de cachos negros ao redor do rosto e vestida 
daquela maneira, parecia mais uma menina que uma mulher.
Uma menina aterrorizada. 
No querendo assust-la ainda mais com seu olhar, Alex apartou a vista e centrou toda suaateno no pastor, que tinha aberto seu devocionario e o estava folheando rapidamente. 
Advertiu que o traje negro do clrigo estava mdio quebrado e, como se encontrava to pertodele, percebeu o aroma acre do suor ranoso que saa de sua jaqueta de veludo cotel. Posto 
que era uma manh calorosa, aquele ftido aroma era quase insuportvel. Era suficiente paralhe revolver o estmago. Lanou um olhar de preocupao ao Annie. Afetaria aquela 
pestilncia a jovem grvida?
Manifiestamente turvada por seu olhar inquisidora, ela inclinou a cabea, ocultando o rostodetrs da grosa cortina de cabelo negro. Alex se perguntou o que estaria pensando, e se teria 
alguma idia do que estava a ponto de acontecer. Quando sua me lhe soltou a boneca, ela 
olhou com nsia para trs,  porta. Logo, obviamente temerosa de pr a prova o mau gnio do 
Edie fugindo daquele lugar, comeou a mover-se nervosamente: esfregava as pontas de suasbotas de cano longo contra a l da catapora com estampados de rosas e atirava dos botes de 
seu corpete. Alex no teve mais remedeio que sorrir quando ela de repente entrelaou osdedos, voltou as Palmas de suas mos para fora e estendeu os braos para fazer ranger osndulos. Posto que tambm gostava de fazer isto, entendia perfeitamente quo tranqilizadorapodia ser esta ao quando uma pessoa estava nervosa. 
-Annie, j basta! -gritou Edie. 
-Deixe-a em paz -ordenou Alex em voz baixa.
As sobrancelhas do Edie, to parecidas com as de sua filha, arquearam-se at quase alcanar o 
nascimento do cabelo. 
-Como diz? 
-No lhe est fazendo mal a ningum. -Olhou ao pastor-: Widlow, dadas as circunstncias, 
nos saltemos todas as partes desnecessrias e vamos ao gro.
Mais que feliz de agrad-lo, o reverendo encontrou a pgina que estava procurando e amarcou com uma cinta vermelha feita farrapos. Com sorriso vcuo e impessoal, tossiu paraesclarec-la garganta e, com voz cantarina, comeou a celebrar as bodas. 
Quando finalmente chegou o momento de que Annie dissesse: "Sim, quero", Edie Trimble 
agarrou a cara da jovem entre suas mos e, com brutalidade, obrigou-a a assentir com acabea. O pastor no fez nem a mais breve pausa, e terminou a curta cerimnia a toda pressa.
Renunciando ao privilgio de beijar  noiva, Alex se manteve longe dela, e seguiu a seussogros e ao pastor at um pequeno escritrio, onde esperavam os documentos matrimoniais.
depois de rabiscar seu nome na linha indicada, Alex deu um passo para trs para que Annie 
pudesse aproximar-se sem sentir-se ameaada. Com todos os ali pressente como 
testemunhas, sua marca, que fez com a ajuda de seu pai, foi suficiente para cumprir com orequisito da assinatura.
Assim de singelo. J estavam casados. Alex logo que podia acredit-lo. Ignorou as caras 
sorridentes do pastor e dos pais do Annie, e cravou os olhos na noiva. Mantendo-se perto de 
sua me em todo momento, ela tinha deixado cair a cabea de novo; postura de abatimentoque, embora lhe partia o corao, comeava a lhe tirar de gonzo. Lhe ocorreu que era possvelque a garota estivesse comeando a cansar-se e, dada sua condio de grvida, isto no deviaser nada bom para ela.
Olhou ao Edie Trimble  cara. 
-Como acordamos que tudo devia estar preparado depois da cerimnia, ordenei a meu choferque estacionasse a carruagem frente  porta principal e que se ocupasse de guardar os bas. 
Se formos diretamente ao Montgomery Hall, Annie ter quase todo o dia para instalar-se antes 
de que a voc deixe ali s esta noite.
Edie se mordeu o lbio inferior e lanou um olhar de preocupao a seu marido. James Trimble, 
que se encontrava justo detrs do Alex, tossiu nervosamente.
-meu deus! Acaso esqueci te dizer que houve uma mudana de planos? 
Alex o olhou assombrado. 
-Que mudana de planos?
-Bom, pois ver, Alex, esqueci olhar minha agenda quando acordamos celebrar as bodas hoje 



pela manh. -Jogou um olhar ao pastor-. Como sem dvida pde deduzir pela conversaoque tivemos anteriormente, o reverendo Widlow tinha todos outros dias da semana ocupados,
de maneira que no conseguimos trocar a data da cerimnia. 
-O que me est dizendo exatamente, Trimble? 
-Hoje pela tarde ofereo uma comida no jardim. Temo-me que Edie vai estar muito ocupada. 
Ter que lhe arrumar isso sem ela at manh. 
-arrumar-me isso sem ela? -Alex sabia perfeitamente que estava subindo a voz, mas nopodia evit-lo-. O problema no  que eu me arrume isso sem ela, James, e voc sabe muitobem. Se Edie for estar ocupada hoje, deixarei ao Annie aqui at manh. Sua me deve estar 
com ela quando se mudar ao Montgomery Hall. Todos estivemos de acordo neste ponto. 
James se arranhou uma orelha. Logo, olhou o cho, a parede, o teto... olhou todos os stios e 
objetos, mas evitou o olhar do Alex.
-Bom, ver, as coisas so um pouco mais complicadas. Alguns de meus convidados vm deoutros povos, e eu os convidei a dormir em casa. A habitao do Annie estar ocupada. -
Elevou as mos com gesto de impotncia-. Pensei que ela ia ficar em sua casa.
Um tenso silncio se assentou na habitao; um silncio terrvel, interrompido to somentepelo montono tictac do relgio de pndulo colocado em uma das paredes. Quando viu o 
James aquela manh, Alex pensou que seu adorno era pouco apropriado. Mas no era assim. O 
homem estava perfeitamente vestido para a reunio que planejava oferecer no jardim. Iavestido como um poltico, para assistir a um encontro de puro politico.
Uma reunio poltica que claramente tinha preferncia sobre o Annie. Ao parecer, quase tudo 
era mais importante que Annie, pensou Alex com sarcasmo. Os funerais. As reunies no jardim.
Os convidados que ficavam a passar a noite. Maldio! Alex no esperava umas bodas comtoda a pompa cerimoniosa de costume. Pensar tal coisa seria ridculo. Mas lhe parecia quehavia um princpio que devia se ter em conta, um princpio que James Trimble tinha passado 
por cima: o respeito. Quando de sua filha se tratava, este era um atributo que ele parecia no 
ter. 
-me deixe tratar de entender o que me est dizendo. -Alex falava em voz baixa, com ira 
contida-. Edie no pode acompanhar ao Annie para ajud-la a instalar-se no Montgomery Hall, 
mas a garota tampouco pode ficar aqui.
James assentiu com a cabea, com um aspecto de profunda aflio.
-Nada disto foi intencionado, Montgomery.  s uma dessas... -tossiu de novo-situaes 
inevitveis. 
Uma situao inevitvel. Fazia muito tempo que Alex tinha classificado ao James Trimble como 
um homem egocntrico e insensvel, mas isto superava todas suas expectativas. Sentia umirrefrevel desejo de agarrar a aquele trapaceiro presunoso das lapelas e sacudi-lo at que osolhos lhe sassem das rbitas. Desde no ter sido pelo fato de que um comportamentosemelhante assustaria ao Annie, isso  exatamente o que teria feito. 
Voltando-se para o Edie, Alex conseguiu dizer com voz relativamente serena.
-Voc me prometeu que acompanharia ao Annie ao Montgomery Hall para me ajudar a 
instal-la, senhora Trimble. No  possvel que no possa vir, embora s seja durante um par 
de horas. 
Edie olhou ao Annie com ar de culpabilidade, logo a seu marido, e comeou a retorc-las mos. 
-Sei que o prometi, senhor Montgomery, mas o fiz antes de me inteirar de que havia umarecepo no jardim. James necessita que eu esteja aqui para que seja a anfitri. Esta comida muito importante. Para sua carreira poltica, como deve voc imaginar. Eu, simplesmente... -
Deixou de falar e tragou saliva-. Enfim, com todos quo convidados vm, -me totalmenteimpossvel me ausentar durante duas horas. 
-O que espera voc que eu faa, senhora? Agarrar a sua filha do cabelo e tirar a daqui a 
rastros? 
James dirigiu seu olhar pensativo para a cabea inclinada do Annie. 
-Tenho uma idia. Edie, sobe correndo e traz o ludano. 
-O ludano? -Alex apertou os dentes. depois de um tormentoso silncio, finalmente disse-:
No permitirei que se drogue  garota. Est grvida, pelo amor de Deus. Poderia lhe fazerdanifico ao menino. 
-Tolices! S a aturdir um pouco.
Claramente incmodo com a crescente tenso, o pastor escolheu aquele preciso instante para 
tender uma mo ao James. 
-Eu devo partir, Trimble. Tenho um funeral, como j sabe. -dirigiu-se ao Alex-: foi um 
prazer, senhor Montgomery. Que sua esposa e voc sejam muito felizes.
Alex estava muito indignado para responder. Guardando sempre as aparncias, James pediu 



que o desculpassem para acompanhar ao pastor ao saguo. Quando os dois homens saram dahabitao, Alex esperava que Edie Trimble tivesse algo que dizer. 
-E bem?  isso o que quer, senhora Trimble? Quer que droguemos  garota com ludano? Ouprefere que eu simplesmente a saque a rastros?
-No ser necessrio que a voc arraste a nenhum stio. Tampouco  necessrio querecorramos ao ludano. Eu mesma me ocuparei de que se instale comodamente nacarruagem. Uma vez feito isto, a viagem a sua casa  bastante curto. Quando chegar ali, podedeixar que a cuidadora se dela ocupe. Eu irei amanh pela tarde, tal e como planejamos em 
um princpio. est-se comportando voc como se isto lhe estivesse causando uma terrvelmolstia. 
Alex entendeu que era intil tentar raciocinar com aquelas pessoas.
-Lutar com uma garota histrica no ser nenhuma molstia para mim. Sou mais que capazde dirigir essa situao. Minha nica preocupao  como se sentir ela.
A me se mordeu o lbio inferior. Parecia ter o nimo pelos chos.
-James  muito... exigente. -Agora sussurrava, obviamente temendo que seu marido aouvisse-. Insiste em que eu fique aqui para atender aos convidados, e eu no posso me opora seus desejos. Se o fizesse... zangaria-se muitssimo.
-E isso seria catastrfico? -Faria-lhe muito bem ao corao do Alex ver o Trimble ficar to 
furioso para comear a romper coisas. Cheia sua pacincia, assinalou a porta de entrada-. 
Meu chofer est esperando. Se pudesse voc me ajudar a levar a sua filha  carruagem, oagradeceria enormemente. Parece estar esgotada, e quero lev-la a casa para que possadescansar. 
-Certamente. 
Uma vez dito isto, Edie ps um brao ao redor dos ombros do Annie e a conduziu fora daquela 
habitao. Alex as seguiu, perguntando-se a cada passo como pensava a mulher fazer que a 
garota entrasse no veculo sem lutar.
James, que acabava de despedir do pastor, encontrava-se ainda no saguo quando eles saramdo salo. Falando para si, dirigiu-se precipitadamente a seu estudo para procurar algo antes de 
reunir-se com o Alex e as mulheres no alpendre. 
-Espero sinceramente que entenda a situao: j tnhamos feito preparativos para esta noite-disse ao Alex-. Nada disto foi intencionado, asseguro-lhe isso. Quando fixamos as bodaspara hoje pela manh, esqueci completamente todo o relacionado com a recepo.
Alex teria podido acreditar que o juiz realmente cometeu um engano, de no ser pelo fato deque tinha prometido lhe dar o quarto do Annie a um de seus convidados. Se no se celebrou as 
bodas, sua filha estaria ocupando o dormitrio. Alex o entendia tudo,  obvio! Possivelmentemuito bem. E dado que todo aquilo era to irritante, preferia no tratar o tema com esse 
trapaceiro. 
Depois de baixar as escadas, abriu a porta da carruagem e em seguida se apartou. Para suasurpresa, a senhora Trimble conseguiu fazer que Annie baixasse as escadas e se dirigisse aoveculo sem incidentes. Alex jogou um olhar a jovem, que estava examinando o desconhecidocarruagem com grande curiosidade, e concluiu que possivelmente ela era muito parva para 
entender o que estava a ponto de passar.
Edie Trimble se recolheu a saia e simulou que se dispunha a entrar na carruagem.
Despreparado, Alex em seguida deu um passo adiante para lhe emprestar ajuda. Ao perceber 
este brusco movimento, Annie retrocedeu cambaleando-se e esteve a ponto de tropear com odegrau que se encontrava detrs dela. S os rpidos reflexos do Alex impediram umadesagradvel queda. Agarrando-a do brao, sujeitou-a at que a moa recuperou o equilbrio.
No instante mesmo em que o conseguiu, retrocedeu com a inteno de afastar-se dele.
Consciente de seu temor e dos motivos de este, Alex a soltou. 
Logo se voltou para ajudar  senhora Trimble. 
-decidiu voc nos acompanhar, depois de tudo?
-Por Deus! Certamente que no. -Edie se deixou cair no assento dianteiro. Logo, inclinou-se 
para frente para olhar por detrs do ombro do Alex. Dando tapinhas no assento, disse-: Vem,
Annie. Vamos dar um passeio. No te parece divertido?
Ao Alex lhe fez um n na garganta. Era totalmente inconcebvel que Edie Trimble estivesse 
planejando enganar  garota. Parecia-lhe indescriptiblemente cruel. No obstante, isto foi 
exatamente o que Edie fez, com o Alex ali presente, observando a cena. Fingindo que ia 
acompanhar os a dar um passeio, fez que Annie entrasse no veculo, esperou a que o recm 
casado tambm entrasse e tomasse assento e logo saiu da carruagem pela outra porta. 
Apesar de seu discapacidad mental, Annie pareceu compreender em seguida o apuro no quese encontrava. Lanou um olhar ao Alex e, ato seguido, tentou pr-se a correr detrs de sua 



me. Posto que no ficava outra opo, ou ao menos nenhuma em que pudesse pensar, Alex oimpediu de lhe bloqueando o caminho com o brao e fechando a porta de um puxo. Enquantoele jogava o fecho a toda pressa, James Trimble fechava a outra porta. Como um cordeiro 
conduzido para um curral, Annie tinha sido apanhada habilmente e com o menor escndalopossvel, tal e como prometeu sua me.
Trimble apoiou um brao sobre o bordo do guich aberto da carruagem. Esboava um sorrisoque lhe provocava rugas no rosto.
-Viu, Alex? foi muito fcil. 
Alex olhou ao Annie, que sacudia desesperadamente o fecho da porta, e sentiu a tentao de 
lhe dar um murro na boca a seu pai. E o teria feito se no tivesse ouvido o ruidito seco 
proveniente do fecho. Alargando o brao frente a Annie, voltou a bloquear o mecanismo para 
impedir que a garota fugisse.
Enquanto Alex voltava a acomodar-se em seu assento, James acrescentou: 
-Como ltimo recurso, pode usar isto. -Colocou uma tira de pele atravs da janela e a ps aoAlex na mo-. Pelo general,  suficiente mostrando-lhe para que obedea. Mas quando ficarmuito teimosa, no duvide em us-la. 
Mudo de assombro, Alex j tinha fechado a mo em torno da tira de pele quando caiu na contado que era: um fornecedor de navalhas de barbear, til tambm como ltego. Annie 
reconheceu o instrumento quase ao mesmo tempo que ele. No seguiu tentando abrir a portae se tornou atrs para acomodar-se no assento. O duvidava de que alguma vez pudesseesquecer a expresso que viu em seu rosto. No era s de temor. O que lhe partiu o coraono foi o gesto de medo, que j esperava, foi a confiana destruda que viu refletida em seusolhos. Como qualquer menino, ela tinha crdulo em seus pais, e os dois a tinham trado.
De repente, a carruagem deu um inclinao brusca. O movimento foi suficiente para que aoAnnie entrasse um pnico incontrolvel. equilibrou-se sobre a porta de novo. Seus dedosmagros tentaram desesperadamente agarrar a fechadura. antes de que pudesse alcanar ofecho, Alex se jogou sobre ela. 
Ao rodear o corpo do Annie com seus braos, ao Alex surpreendeu constatar quo mida erasua compleio. Em seu trabalho cotidiano, ele muitas vezes se via obrigado a lutar comcavalos que eram seis vezes mais pesados que ele, e precisava recorrer a todas suas foraspara poder domin-los. Com a garota, tinha que fazer um esforo consciente para conter-se. Omedo a lhe fazer danifico lhe impedia de apert-la muito com suas mos ou abra-la comexcessiva fora. 
Annie, por sua parte, no tinha escrpulo algum. Com a flexibilidade de uma contorcionista,
conseguiu escapulir-se de seus braos; e no uma s vez, a no ser em repetidas ocasies: 
retorcia-se e dobrava o corpo de uma maneira que Alex at aquele momento tinha acreditadoque era impossvel para um ser humano. De menino, tentou uma vez apanhar a um porcoengordurado na feira do condado. Tratar de agarrar a esta garota era igual de lhe frustrem.
alm de vergonhoso. Ele era muito maior e forte que a moa, Por Deus.
Ao final, Alex compreendeu que no tinha mais remedeio que jogar  luta livre, e aproveitarqualquer oportunidade que pudesse apresentar-se o A carruagem se estava movendo a muitavelocidade para correr riscos. Se ela conseguia abrir uma porta e tentava saltar, poderia sofrer 
grave dano. 
Impediu com muita dificuldade que suas unhas lhe rasgassem a cara. Agarrou-lhe as duas 
bonecas com uma mo, ps um brao ao redor de seu estmago e, no sem algumadificuldade, fez que ela se voltasse e se sentasse entre suas pernas abertas, com as costas 
contra seu peito. Passando uma perna por cima das do Annie, conseguiu impedir que seguisselhe cravando os saltos dos sapatos nas acne. Embora era um pouco tarde para salvar suasmornas por completo, no deixou de ser um alvio. Estava seguro de que a garota tinha aomenos doze cotovelos e seis joelhos.
Durante a resistncia, o nico som que Annie emitiu foi um ofego superficial. Alex logo quenotou seu silncio quando conseguiu domin-la, mas nem sequer ento refletiu muito arespeito. Estava muito ocupado desabando-se no assento e tratando de recuperar o flego. 
Cataplum! Algo estalou dentro de seu crebro. Uma dor, cujo centro nevrlgico era a fenda doqueixo, irradiou-se pelas mandbulas, subiu e lhe estalou nas tmporas. Infinidade de pontos 
comearam a danar frente a seus olhos. Momentaneamente aturdido a causa do golpe, piscoupara tentar desesperadamente esclarecer sua viso.
-Que demnios...! 
Em uma imagem imprecisa, viu o Annie colocar o queixo e encurvar os ombros. Conseguiuapartar-se bem a tempo de evitar um novo cabaada da fierecilla. Apartou a cara e a nuca da 
menina se estrelou contra seu ombro. 



A muito picasse! Ele tinha recebido uns quantos murros em sua vida propinados por homensrobustos, mas nunca se havia sentido to aturdido por um golpe. A meio caminho entre aindignao e o assombro, Alex a olhou boquiaberto, sem poder dar crdito a sua audcia.
Tinha sido nocauteado! E nada menos que por uma moa. Por Deus! Se facilmente poderia lhe 
romper o pescoo com um golpe bem atirado. Acaso ela no o entendia?
Obviamente, no. Caindo na conta de que seu branco se moveu, ela lanou a cabea de lado elhe golpeou na orelha.
-Ai!  uma... 
Quem havia dito que o lbulo da orelha no tinha sensibilidade?
A moa voltou a tomar impulso. 
-Annie, no... 
Cataplum! Uma dor muito forte percorreu sua bochecha. Ps o queixo sobre o ombro da garotapara tentar diminuir sua liberdade de ao. A tmpora dela imediatamente se acoplou em umlado de seu crnio, e isso a desassossegava, Alex estava seguro disso. 
-Annie... Vale j, carinho! No vou fazer te danifico. J basta. 
Pum... pum... cataplum. Alex apertou os dentes. Comeava a acreditar que seus miolos eramgudes colocados e agitadas em uma bolsa. mordeu-se a lngua para conter uma maldio.
Embora no lhe entendesse, dizer palavres frente a uma mulher ia contra seus princpios.
Como se se tivesse dado conta da futilidade de tratar de golpe-lo com a cabea, ela esticou 
seu corpo em um ltimo e valoroso esforo por liberar-se. Logo, estremeceu-se com tal fora 
que as vibraes atravessaram o corpo do Alex. Desta forma expressou o terror que sentiacom mais eloqncia que com palavras.
Alex fechou os olhos, arrasado por uma mescla de culpa e arrependimento. depois do queDouglas lhe tinha feito, era vergonhoso faz-la sofrer daquela maneira. Seus pais se mereciamque lhes pegassem um tiro, e ele tambm.
-No te farei mal, carinho. te tranqilize. 
Ela se estremeceu de novo. Logo, relaxou os msculos. Alex tivesse querido conhecer algumamaneira de aliviar seus temores. Mas no lhe ocorreu nada que dizer nem fazer. Nada.
depois de uns poucos minutos, o rtmico bamboleio da carruagem pareceu arrulh-la atdormi-la. Estimando que no corria nenhum risco, Alex se atreveu a erguer-se. No fundo,
esperava que ela voltasse a atar-se a cabaadas, mas no passou nada. Olhando a lnguidaprostrao de seus magros ombros, concluiu que o esgotamento tinha acabado com todaresistncia. 
Examinou a parte posterior de sua cabea inclinada, e no pde deixar de notar a doce curvada nuca ali onde se formava a raia que dividia seu cabelo azeviche. Sua pele parecia ser tosuave como a seda. Ao recordar o momento em que a viu sentada no patamar aquele mesmodia, sorriu ligeiramente.
Apesar da expresso de desorientao e perplexidade de seus grandes olhos azuis, a meninatinha um rosto precioso.
Um formoso carapaa vazio, isso era Annie. No havia maneira alguma de que ele pudesseestabelecer com preciso seu grau de inteligncia, mas supunha que tinha a mente de umamenina de seis anos, pouco mais ou menos, e, alm disso, uma menina pequena no muitointeligente. Que desperdcio! Que terrvel desperdcio! 
Arrulhado pela calma da jovem e absorto em seus pensamentos, sujeitou-a com um poucomenos de fora. de repente, como se intui-se que lhe apresentava uma oportunidade deescapar, ela fez um movimento brusco e se retorceu violentamente entre seus braos. Alexlutou para restabelecer seu domnio. Ao faz-lo, a mo que a sujeitava pelas costelas se moveue tropeou com um seio. Muito depois de apartar a mo, a fugaz impresso da suavidadefeminina seguia lhe abrasando.
Do pescoo para abaixo est perfeitamente bem, disse alguma vez Douglas ao falar dela; e,
agora que tinha as mos sobre seu corpo, Alex estava completamente de acordo, embora 
muito a seu pesar. Annie Trimble certamente tinha muitas carncias em sua cabea, mas a 
natureza a tinha compensado com generosidade por esta deficincia. Oculta baixo os vestidosinforme que estava acostumado a levar, as tentadoras curvas de seu corpo no podiamapreciar-se a simples vista. No obstante, sim podiam apreciar-se com o tato.
Em proporo ao corpo, os peitos no eram to pequenos como ele tinha pensado em umprincpio e, apesar de seu embarao, ainda tinha uma cintura fina, realada por seusdocemente arredondadas quadris. A julgar pelo que tinha visto no saguo, uma camiseta ecales bombachos eram a nica roupa interior que ela estava acostumada levar. alm dasmdias,  obvio. Durante a resistncia, tinha notado uma liga rodeando uma de suas coxas. 
Uma coxa muito quente e suave. 



A garganta lhe fechou, e um brilho de suor apareceu em sua frente. Por Deus! S um 
desprezvel descarado teria esses pensamentos com uma menina como Annie. Totalmente 
enojado consigo mesmo, Alex tentou recordar a ltima vez que tinha passado uma noite comuma prostituta no povo. Entre a primavera e o outono no tinha muito tempo para essa classe 
de coisas. Pelo general, nem sequer se precavia desta privao. Mas era impossvel no faz-locom aquela mulher pega a ele como uma etiqueta a uma garrafa.
Sem dvida esperando ainda poder escapar, Annie se retorceu de novo. Alex esteve a ponto degrunhir. No havia suficiente espao entre eles nem sequer para que se movesse uma pulga.
O que tinha que fazer, disse-se, era olhar pelo guich, contemplar a paisagem que passavafrente a seus olhos e fixar a ateno em algo distinto. rvores. Montanhas. Algo. Era umsingelo caso do poder da mente sobre o corpo. No instante mesmo em que chegassem aoMontgomery Hall, a entregaria  senhora Perkins, a mulher que tinha contratado. E, a partirdesse momento, procuraria v-la-o menos possvel.
"Olhos que no vem, corao que no sente", como dizia o antigo refro. 

CAPTULO 06 

Annie havia visto muitas vezes da distncia a casa de pedra com telhado de piarra; mas, 
intimidada por seu tamanho, nunca se tinha atrevido a aproximar-se. Com seu perfil recortadocontra o verde bosque, a casa tinha quatro pisos, incluindo o apartamento de cobertura, e seencontrava situada no alto de uma colina coberta de erva e cruzada por cercas brancas. Oexterior se livrou de ter um aspecto severo graas a seus abundantes adornos de madeirabranca: um alpendre de colunas com uma terrao saliente, portinhas em todas as janelas e 
volutas ao longo dos beirais, decorao que Annie nunca em sua vida tinha visto em outro 
lugar.
Muros de pedra com marquises brancas bordeaban o jardim frontal, e o caminho de entrada  
casa estava marcado com pilares pintados de branco na parte superior, que tinham faris 
pendurando deles. Faris, nada menos! Isto lhe parecia com o Annie uma completa loucura.
Luz fora da casa? Quando seu pai tinha que sair em meio da noite, simplesmente levavaconsigo um abajur.
Enquanto a carruagem se bamboleava e se sacudia com o passar do caminho de entrada, ela 
olhava fixamente a casa atravs de uma cortina de lgrimas, e seu pnico era cada vez maisgrande. Seus pais a tinham agradvel... To implacvel como uma adaga, este pensamento 
atravessava insistentemente sua cabea. Sem dvida tinham deixado de quer-la. Porque 
estava engordando, sups. De modo que a tinham agradvel.
E a aquele homem, nada menos.
Deus santo! Annie tragou saliva e conteve a respirao, temendo fazer algum rudo semquerer. O desconhecido tinha o ltego de papai. Estava ali, a seu alcance, no assento junto aele. Um movimento incorreto, e com toda segurana lhe pegaria com aquela tira de pele.
Ela j sabia que este no era o mesmo homem que lhe tinha feito mal na cascata. Quando 
apareceu debaixo dela no saguo, pde olhar atentamente seu rosto. Linhas tnues se abriamem abano das extremidades dos olhos de cor caramelo e de pestanas espessas, indcio de queera uns quantos anos maior que o outro sujeito.
E lhe pareceu tambm que seus rasgos dourados pelo sol eram um pouco mais angulosos.
Mas, pelo resto, as diferenas entre eles eram to leves que apenas se notavam. O mesmocabelo cor usque, atravessado de mechas como de ouro. O mesmo nariz reta que nascia entresuas sobrancelhas leonadas, um contraponto perfeito para seus mas do rosto salientes e sua 
mandbula quadrada.
O parecido era muito marcado para ser uma mera coincidncia, isto era indubitvel. Se nofosse pela diferena de idades, aqueles dois homens eram to parecidos que poderiam serirmos gmeos. Isto certamente queria dizer que eram parentes prximos, ao melhor irmos. Aidia lhe revolveu o estmago.
Irmos... Annie sups que os irmos deviam ser tal e como as irms: viviam na mesma casa etinham muitas similitudes, no s em todo o relacionado com a aparncia fsica, mas tambmtambm em muitas outras coisas. Se um irmo era bom, o outro provavelmente tambmfosse. Se um irmo era mau, era muito possvel que o outro tambm fosse.
Annie, enfim, tinha sabor de cincia certa que aquele homem tinha um parente prximo,
possivelmente um irmo, que era muito mau. Isto a assustava muitssimo. Para tratar desentir-se melhor, repetia-se insistentemente que j lhe teria feito mal se assim o tivesse 
querido. E, at ento, no tinha tentado nada. Mas isto no queria dizer que no o fizesse sechegasse a gostar de. 



A carruagem se deteve com uma sacudida. Aterrorizada, ela ficou olhando fixamente a casa, elhe veio  mente outro pensamento. Era possvel que o outro homem, o das cataratas,
estivesse ali dentro. Esperando-a, talvez.
O corao lhe deu um salto de terror, e olhou em torno dele, procurando a maneira de escapar.
Passasse o que acontecesse, no podia entrar naquela casa.
Como se ele tivesse intudo o que ela estava pensando, o desconhecido a sujeitou com mais 
fora. Annie logo que pde conter-se para no gritar, mas ficou a tremer e seus dentes 
comearam a tocar castanholas. Ela no podia ouvir este som, mas pensou que ele 
possivelmente pudesse. De ser assim, saberia quanto medo lhe tinha. Os maltratadores 
sempre eram mais cruis quando pensavam que ela tinha medo.
O homem a agarrou pelas bonecas com uma mo e, com a outra, tomou o fornecedor de 
navalhas de barbear e abriu a porta da carruagem. antes de que Annie pudesse adivinhar oque ele pensava fazer, colocou o fornecedor em seu bolso, sujeitou-a contra seu peito e saiu doveculo. Dado que o homem a estreitava com fora entre os braos, seus ps penduravam avrios centmetros do cho. 
Pensou em lhe dar outra forte patada nas acne ou em lhe pegar de novo na boca com acabea, mas em seguida desprezou esta idia. Agora que a tinha levado at ali, no haviamaneira de saber o que poderia lhe fazer se lhe provocava.
Como se fora uma boneca de trapo cheia de penugens de ganso, subiu com ela as escadas que 
conduziam  casa. Logo, sem solt-la, de algum jeito conseguiu abrir a porta de par em par.
depois de dar trs largas pernadas para entrar no saguo, deteve-se e deixou que pusesse osps ao cho. Posto que seguia sujeitando-a com um brao ao redor das costelas, Annie no 
pensou em tratar de fugir. Embora conseguisse escapar, aonde iria? O no demoraria paraencontr-la se retornava a casa. 
A moradia era muito maior do que parecia com o v-la desde fora. Muitssimo maior. Painis decarvalho adornavam a parte inferior das paredes do saguo. Sobre eles se levantava um mural 
que representava uma paisagem de princpios de outono. A meio caminho em direo ao 
extremo oposto do saguo, uma reluzente escada de carvalho surgia do cho de ladrilhos decor marrom avermelhada para conduzir ao primeiro e o segundo pisos. 
Atemorizada, Annie ficou olhando fixamente o mural. As folhas que caam das rvorespareciam completamente reais, igual ao regato que serpenteava perezosamente atravs de 
um bosque de lamos da Virginia. O centro do mural era um cavalo negro encabritado, 
parecido aos que ela tinha visto pastando no campo, com as patas dianteiras golpeando o ar,
as vistosas crinas ao vento e a cauda ondeando majestuosamente. 
Nunca tinha visto algo to formoso. Naquela casa no seria possvel fartar-se das chuvas deinverno, pois ali dentro se criou a sensao de que sempre luzia um dia de sol radiante. Aoolhar a pintura, quase podia sentir uma clida brisa acariciando suas bochechas. 
Sobressaltada, compreendeu de repente que o calor que roava sua cara era em realidade oflego do desconhecido. inclinou-se para olhar a expresso de seu rosto. A do sua era deinconfundvel orgulho.
-Voc gosta? -perguntou Alex.
Durante um comprido momento, Annie ficou olhando sua tez moria, plenamente conscientede sua estatura e da largura de seus ombros. Logo, tremendo, apartou bruscamente o olhar eem seguida tentou conter uma nova quebra de onda de pnico.
Um tremor no peito do homem lhe revelou que ele estava falando de novo e, pela fora das 
vibraes, sups que estava chamando a algum. Como esquilos surgindo de suas tocas, ummordomo e vrios empregados domsticos saram de distintas entradas situadas com o passar 
do corredor. Ao ver o Annie, inclinaram cortesmente as cabeas e se retiraram de novo. 
Um momento depois, uma mulher de compleio robusta, vestida de negro, apareceu no 
patamar do primeiro piso. Annie nunca tinha visto ningum parecido a ela. Como um enorme 
corvo negro abatendo-se sobre uma presa, a mulher baixou a sinuosa escada. Ao chegar planta baixa e dirigir-se para eles, abriu os braos em sinal de bem-vinda.
Annie a olhou boquiaberta. O nico elemento alegre que havia na aparncia daquela mulherera a ponta de seu nariz aquilino, que estava vermelha como um tomate. Levava o cabelo de 
cor cinza recolhida to apertadamente para trs, em um coque sobre sua grosa nuca, que 
parecia vesga.
-De modo que esta  nossa pequena Annie. -Luzia um sorriso de orelha a orelha que deixava 
ver uma dentadura danificada-. Caramba, caramba! Tem o cabelo completamente enredado, 
senhor Montgomery. Sua me alguma vez o penteia? 
Annie no pde ver o rosto do homem para saber o que respondia, mas sentiu a vibrao de 
sua voz repicando sobre suas omoplatas. A mulher o tinha chamado senhor Montgomery. 



Guardou este nomeie na memria. 
A mulher sorriu para ouvir a resposta.
-Ah, bom, no importa. Eu a arrumarei em um abrir e fechar de olhos. -Voltando de novo sua 
ateno para o Annie e lhe tendendo sua mo grosa, disse-: Sou a senhora Perkins, seu 
cuidadora. Nos vamos levar maravilhosamente bem voc e eu. Estou segura. 
Annie quase agradeceu a slida presena do corpo do homem detrs dela, ao tempo queretrocedia ante a mo da mulher. Seu sorriso era bastante cordial, e parecia ser uma pessoaamvel. Mas havia algo nela que punha nervosa ao Annie. Seus olhos, concluiu. Sem sinal 
alguma de calidez, brilhavam como polidas lascas de pedra negra. 
Alex agarrou ao Annie dos ombros com firmeza. Ela sentiu seu peito retumbando de novo. Atoseguido, entregou-a  senhora Perkins. Ao princpio, Annie sentiu alvio de escapar de suas 
garras. Mas no por muito tempo. A mulher a agarrou do brao com fora, para obrig-la a 
subir a escada e atravessar o corredor. Annie esperava que em qualquer momento se abrisseuma daquelas portas fechadas e o homem que a agrediu sasse de um salto. Posto que nopodia ouvir, s contava com seus olhos para p-la sobre aviso. sobressaltava-se cada vez que 
via uma sombra, o que fez que a senhora Perkins a agarrasse por brao com mais fora.
A mulher a conduziu a um dormitrio que parecia ter sido a habitao dos meninos em outrostempos. Em um rinco se encontrava um cavalinho balancim de madeira, que tinha perdidosua cor e estava totalmente desgastada em certas partes. Entre duas das paredes interiores seachava um armrio quebrado, mas que ainda se podia usar, uma cmoda a jogo e uma camacom quatro colunas de madeira esculpida. Na terceira parede havia uma enorme chamin depedra. S uma janela deixava entrar a luz do sol. Frente a ela, encontrava-se uma mesa comp central, cheia de marcas, onde ela supunha que os pequenos ocupantes da habitao 
tinham recebido suas classes em outro tempo.
Pouco depois de que a senhora Perkins e ela entrassem na habitao, um homem enxuto e 
robusto, vestido com um uniforme de trabalho, chegou com um dos bas do Annie. Uns poucos 
minutos depois, voltou a entrar ofegando a causa do esforo com o outro ba sobre um de 
seus ombros. Imediatamente depois de que partisse, a senhora Perkins fechou a porta decarvalho, deixou cair a chave no bolso de sua saia e comeou a examinar as coisas do Annie. 
Uma vez que encontrou uma escova e uma cinta para o cabelo, fez-gestos ao Annie para que 
se sentasse em uma das cadeiras de respaldo reto que se encontravam ao redor da mesa. 
Acostumada a fazer o que lhe dizia, Annie se sentou para deixar que aquela mulher lhe 
escovasse o cabelo. depois de terminar de desenredar-lhe empreendeu a tarefa de tranar a 
larga cabeleira do Annie, atirando das mechas e retorcendo-os at que a garota sentiu como se 

o cabelo de suas tmporas estivesse a ponto de sair-se o do couro cabeludo.
Ao ver seu olhar suplicante, a senhora Perkins esboou um frio sorriso. 
-Levaremo-nos bem, menina. Muito bem. -Fez um gesto admonitrio com o dedo-. Mas nome ponha a prova. No tenho pacincia para as tolices.
Annie se aferrou com suas mos trementes aos borde da cadeira. 
-Sente-se bem. Quando tiver terminado de desfazer seus bas, tocarei o sino para que nos 
tragam a comida.
Annie no queria comer. Era o que menos queria fazer. Seu nico desejo era sair daquele lugare, para poder faz-lo, tinha que emagrecer, voltar-se fraca para que seus pais quisessem que 
retornasse a casa. 
rodeou-se a cintura com os braos e ficou olhando  mulher maior, enquanto esta tirava todassuas coisas dos bas e as guardava na cmoda e o armrio. O v-la trabalhar lhe fez entender 
ao Annie que o senhor Montgomery planejava t-la ali durante muito, muito tempo. Pergunta-aera por que. As possveis respostas fizeram que lhe desse vontade de vomitar.
Com o medo reavivado pelos pensamentos que a acossavam, jogou uma olhada  portafechada com chave e logo  janela. Lhe caiu a alma aos ps quando viu que havia barrotes deferro ao outro lado dos cristais. s janelas das habitaes dos meninos que se encontravam 
nos pisos superiores pelo general lhes punham barras, para impedir que os pequenos cassemem um descuido. Mas ela no era uma menina. Se o senhor Montgomery no tinha a inteno 
de lhe fazer nada horrvel, por que quereria encerr-la?
Tal e como prometeu, a senhora Perkins tocou o sino para que lhes trouxessem a comida 
assim que terminou de desfazer os bas. Quando uma criada lhes levou as bandejas, acorpulenta mulher se sentou  mesa e se abstraiu tanto em seu prato de rosbife em fatias,
verduras e po recm feito que demorou uns quantos minutos em advertir que Annie no 
estava comendo. Quando finalmente o fez, limpou-se as comissuras da boca, deixou seuenrugada guardanapo de linho junto ao prato e se levantou da cadeira. 
-O que chateio! Ningum me disse que no podia comer sozinha. S eu tenho a sorte de 


conseguir um trabalho que consiste em cuidar de uma idiota.
A mulher cravou uma parte de carne com o garfo e tratou de embuti-lo na boca do Annie. 
-Tem que comer, menina. Se no o fizer, vais cair doente, e isso no ser bom para mim.
Entende? No posso perder este posto. 
Normalmente, Annie teria sentida compaixo por aquela mulher. Os criados de seus paistambm necessitavam seus trabalhos e, por isso lhes tinha chegado a entender, sabia que noera fcil encontrar um emprego. Mas naquele caso, no podia permitir-se ser caridosa.
Passasse o que acontecesse, tinha que emagrecer. E devia faz-lo rpido.
Quando, depois de empurrar brandamente o garfo contra sua boca, Annie se negou a abri-la, 
os olhos da senhora Perkins despediram um brilho maligno, e a cravou com o talher. Annie 
piscou, ao princpio de dor, logo depois de incredulidade. Um dos dentes do instrumento lhe 
perfurou o lbio. Podia sentir as gotas de sangue correndo por seu queixo.
-O que eu gosto dos idiotas, menina,  que no podem andar contando intrigas. Se AlexMontgomery notar que te aconteceu algo, direi-lhe que voc mesma te fez mal. -Arqueando 
uma negra sobrancelha, acrescentou-: No te levar como uma menina difcil. Comigo, no. 
Entende? 
Annie entendeu perfeitamente. Aquela mulher era to desumana como feia.
A rebelio, pelo general, era algo completamente alheio a sua natureza; mas aquela no tinhasido uma manh qualquer. Em um lapso de duas horas, sua me a tinha enganado, seu pai atinha trado e um homem que lhe dava muito medo a tinha tratado mau. E agora a cravavamcom um garfo? Uma horrorosa sensao febril se apropriou dela. A menos que pudesse agarrar 
o outro garfo e cravasse com ele  mulher, havia muito pouco que pudesse fazer, salvoresignar-se ao mau trato.
E isto era precisamente o que pensava fazer. Nada do que fizessem aquela mulher ou AlexMontgomery a ia fazer comer. Nada. 
Quando outra espetada com o garfo no animou ao Annie a abrir a boca, a senhora Perkins 
optou por outras formas de persuaso que seu patro no notaria com tanta facilidade. Atirou-
a do cabelo, pegou-lhe com fora nas costas e logo recorreu a belisc-la em lugares nos que a 
roupa ocultaria os moretones resultantes. 
Annie permaneceu sentada enquanto agentava toda a tortura, fulminando  mulher com oolhar e com os dentes fortemente apertados.
Pouco antes do amanhecer do dia seguinte, Annie se baixou sigilosamente da cama eatravessou a habitao andando nas pontas dos ps. Fazia um gesto de dor cada vez quesentia uma tabela do estou acostumado a ceder sob seu peso. Uma das desvantagens de sersurda, entre muitas outras, era que resultava muito difcil mover-se s escondidas. No podiasaber com preciso se estava fazendo rudo. Isso era terrivelmente molesto, especialmentequando desejava fazer algo e tinha medo de que a castigassem se chegavam a agarr-la 
despreparada.
Como poderia acontecer naquele instante... 
Ao chegar  janela, Annie apartou a mesa com cuidado. Viu que havia espao suficiente frente janela de guilhotina, tirou o ferrolho e apoiou as bases de suas mos na travessa. Sem fazerrudo, Annie, sem fazer rudo. Esquecendo momentaneamente a ferida que lhe tinha causado ogarfo no dia anterior, mordeu-se o lbio inferior. Ao sentir uma forte dor, optou por morder,
melhor, a parte interior de sua bochecha. No sabia muito bem por que, mas segundo suaexperincia, para fazer algo perfeitamente bem, tinha que fazer algum gesto com a boca, emorder a parte interior de sua bochecha parecia funcionar s mil maravilhas.
Lentamente, abriu a janela. Fez-o aterrada, temendo inclusive respirar. S podia esperar que 
Alex Montgomery fosse um desses tipos suscetveis que mantinha as portas e janelas de suacasa bem lubrificadas. Se no, o mais provvel era que estivesse fazendo rudo suficiente paradespertar aos mortos.
Mas os mortos no eram os que lhe preocupavam. Era  senhora Perkins a quem no queriadespertar. antes de ir-se deitar a noite anterior, a muito desconsiderada a tinha pacote cama; com tiras de linho, nada menos. Pelas coisas que lhe havia dito, Annie sabia que essa 
mulher acreditava que ela era uma completa idiota. E possivelmente fosse.
Mas inclusive um bobo tinha a capacidade suficiente para desatar ns.
O ar fresco entrou atravs dos barrotes de ferro, pegando a camisola de zfiro do Annie a seu 
corpo. antes de que se permitisse relaxar-se, esteve atenta a ver se "ouvia" algum movimentoproveniente do quarto contigo. Nada. No sentiu passos vibrando no cho. Nem comichesem sua nuca. Nada. permitiu-se esboar um sorriso de satisfao. A gorda seguia dormindo.
Agarrando os barrotes com fora e deixando que suas mos se deslizassem ao longo destes,
Annie se ajoelhou no cho de madeira. Fez caso omisso da areia fina que arranhava seu joelho 



descoberto e fixou a vista no cu. O amanhecer. Para ela, esta era a parte mais formosa do diae, a menos que estivesse doente, o qual estranha vez acontecia, nunca perdia a oportunidade 
de contempl-lo. Naquele instante o cu estava de um azul negruzco, como a altas horas da 
noite; mas soube pelo apagado brilho das estrelas que j quase ia despontar o dia.
Este espetculo nunca deixava de assombr-la. Ficando sem respirao, viu uma greta de corrosa ziguezaguear atravs do horizonte. Uns poucos minutos mais tarde, gloriosos raios de luzemanaram dela, lhe dando a tudo o que tocavam uma luminosidade mgica. Quando asmontanhas se fizeram visveis, seus picos estavam envoltos em uma bruma da cor das ptalasde uma plida rosa. Logo, como um sorriso que pouco a pouco se fora voltando radiante, os 
raios de luz que fendiam o cu comearam a adquirir uma cor dourada brilhante. 
Extasiada, Annie apertou com fora os barrotes de ferro, pensando que, em lugar da msica,
Deus lhe tinha dado os amanheceres. At surda, podia ouvir a cano em seu corao; e no 
por isso era menos comovedora. Bela msica feita de luz. 
Annie fechou os olhos e recordou todos os sons que geralmente chegavam com o alvorada: ocanto de um galo, as estridentes exploses dos pajarillos, o latido distante de um co, o 
sussurro da brisa matutina ao repuntar. J nunca mais poderia gozar desses sons. Noobstante, tinha-os guardado em sua memria. Eram deles, e podia record-los e desfrutardeles cada vez que quisesse.
Ao abrir os olhos, um movimento no jardim que estava debaixo dela atraiu sua ateno. Seuolhar se centrou em um brilho dourado que rivalizava com o dos raios de sol: o cabelo do Alex 
Montgomery. Sabia com absoluta certeza que era ele por sua maneira de andar, pelaspernadas largas e seguras, que faziam se sobressair os msculos de suas coxas e esticavam o 
tecido de cor amarelada das calas de montar. 
Dado que se estava movendo junto  casa, ela podia ver o de frente. Levava uma camisa 
branca de algodo, com as mangas arregaadas sobre seus grossos braos, a parte dianteiracompletamente aberta e as abas soltas ao redor de seus estreitos quadris. Annie nunca tinha 
visto o peito nu de um homem, e ficou olhando-o com curiosa fascinao. Em lugar de plidosseios com pontas rosadas como os seus, ele tinha uns bicos da mamadeira dourados pelo sol,
que no s pareciam firmes, mas tambm alm se esticavam de forma peculiar quando semovia. No centro de cada uma delas havia uma mancha marrom do tamanho de uma moeda 
de cobre. Ao olhar atentamente, viu que tambm tinha cabelo de cor dourada em seu peito.
Curto e de aspecto felpudo, estava segura de que devia picar. O plo chegava at o umbigo,
logo se estreitava para formar uma linha que desaparecia debaixo do cinturo.
Quando passou justo debaixo da janela, o que lhe permitiu observ-lo por detrs, ele comeoua tir-la camisa. Estirando o pescoo, viu com grande assombro como enrolava a camisa dealgodo ao redor do punho de sua mo. De um extremo a outro de suas costas, sob a pelebronzeada que brilhava como se lhe tivessem esfregado azeite, os msculos se moviam,
sobressaindo-se em certos lugares e aplanando-se em outros.
Saiu do jardim para dirigir-se a uma pequena edificao anexa, que se encontrava perto das 
cavalarias. junto a ela havia uma bomba de gua oxidada, cujo pitorro se encontrava sobre 
um palanganero desgastado. depois de atirar sua camisa sobre um cerca prximo, moveu amanivela da bomba at que a gua comeou a sair a fervuras. Logo, colocou a cabea e os 
ombros sob o jorro. Annie se estremeceu, imaginando quo fria devia estar a gua. endireitou-
se, sacudiu-se como um mapache molhado e se esfregou os olhos para secar-se. 
O cabelo ficou como se algum o tivesse removido com um batedor. Ela no pde menos que 
sorrir ante o aspecto to ridculo que tinha. Mas Alex remediou a situao passando-os dedospor seu escurecido cabelo. Com o torso superior brilhando ainda devido s gotitas de gua, 
agarrou a camisa e a ps de novo. Pelo visto, no lhe importava que o algodo absorvesse agua e se pegasse a ele como uma segunda pele.
Fascinada, Annie o viu apoiar uma mo sobre a perto e salt-la sem esforo aparente. Haviaum cavalo castanho dentro do cercado. Quando a besta o viu, sacudiu a cabea e golpeou aterra repetidamente com o casco de uma pata dianteira. Alex se aproximou lentamente aoanimal. Quando esteve aproximadamente a trs metros dele, o cavalo girou sobre as patastraseiras e se afastou ao galope. Sem fazer nenhum movimento brusco, Alex o seguiu. Umavez mais, quando estava a ponto de salvar a distncia que o separava do animal, este ficou agalopar.
Alex tentou aproximar uma e outra vez. Todas as simpatias do Annie estavam com o cavalo. 
Enquanto o homem procurava economizar energia, o animal escapava ao galopeconstantemente e, impulsionado pelo pnico, dava voltas desnecessrias ao redor do cercado.
Pouco tempo depois, a pelagem lhe brilhava pelo suor e respirava aguadamente a causa do 
esgotamento. 



Annie compreendeu que Alex pensava seguir aproximando-se do cavalo at que este ficassesem foras para fugir dele. A pobre besta tambm pareceu compreender isto e o olhava comreceio. Seu corpo era presa de tremores causados pelo esforo excessivo. Ao Annie pareceu 
que se tratava de um jogo cruel e, ao v-lo submeter ao animal a to dura prova, reafirmou-se 
na idia de que no era um homem bom.
Depois de ter este pensamento, ao Annie lhe fez um n na garganta. levantou-se de umamaneira to repentina que a cabea comeou a lhe dar voltas. Deu as costas  janela, rodeousua cintura com os braos e dirigiu o olhar para a porta fechada com chave. detrs dela, a luzdo sol entrava atravs da janela, desenhando no cho as largas linhas dos barrotes de ferro.
Apanhada. Assim era como se sentia. 
Possivelmente fossem simplesmente as lembranas daquele dia nas cataratas ganhando abatalha, mas quase podia ver o Alex Montgomery entrando em sua habitao e acossando-a, 
tal e como tinha feito com o cavalo, com essa mesma implacvel determinao, at queestivesse muito esgotada para seguir fugindo dele.
Incapaz de conter-se, voltou a jogar uma olhada  janela. Atravs dos barrotes, viu que oinevitvel finalmente tinha ocorrido. O cavalo estava encurralado em um rinco do cercado, 
tremendo, mas j sem poder opor-se a que a mo de seu amo tocasse seu corpo. 

CAPTULO 07 

Durante o resto do dia e os dois seguintes, Alex evitou deliberadamente subir  habitao dosmeninos. No obstante, todos os dias se reunia com a senhora Perkins para que o pusesse  
corrente dos progressos do Annie. Edie Trimble lhes fez uma visita e, depois de permanecer ali 
comprido tempo, pareceu ficar satisfeita com as referncias e o rendimento da cuidadora. 
A senhora Perkins, uma amvel mulher de mdia idade, tinha chegado ao Montgomery Halls 
com cartas de recomendao cheias de louvores e parecia ser a personificao da eficincia. 
Contou ao Alex que Annie se estava adaptando muito bem a sua nova rotina, e que no deviapreocup-lo mais mnimo por seu bem-estar. A partir daquele momento, disse-lhe, isso eraassunto dele. 
Alex estava mais que disposto a deixar que a mulher as arrumasse sozinha. No podiaesquecer sua reao fsica na carruagem ante a presena do Annie, e tampouco podia perdoar-
se a si mesmo por isso. quanto mais longe estivesse da jovem, melhor.
Felizmente, a sua era uma velha casona cheia de curvas e, tal e como havia predito o doutor 
Muir, a presena do Annie naquele lugar podia passar virtualmente inadvertida. Alex seguiucom sua rotina habitual: trabalhava durante o dia nas cavalarias, nos campos ou na pedreira,
e passava as noites fazendo contas ou descansando no estudo. 
A terceira noite, ele acabava de arrellanarse em sua cadeira favorita com uma taa de 
conhaque e um nmero recente do Morning Oregonian do Portland, quando um chiado 
dilacerador retumbou na habitao. Em seguida se endireitou em seu assento e lhe arrepiaram 
os cabelos da nuca. Pouco depois se ouviram uns gritos. 
Alex soltou uma maldio e saiu correndo ao corredor, onde chocou com o Maddy, sua ama de 
chaves, quem tambm se alarmou para ouvir aquele escndalo. depois de recuperar o 
equilbrio com um pouco de dificuldade, os dois se dirigiram para as escadas. Na ascenso, 
Alex lhe tirou uma vantagem considervel  mulher. Maddy, rellenita e de pernas curtas, iaofegando detrs dele. Quando Alex chegou  habitao dos meninos, encontrou que a tinhamfechado com chave por dentro.
Golpeou com fora o grosso painel de carvalho.
-Senhora Perkins! Que demnios est passando?
-me ajude! -A mulher parecia se desesperada-. Ai, Deus, tenha piedade! me ajude, porfavor! 
-Jesus, Mara e Jos! -Maddy se fez o sinal da cruz, horrorizada. 
Alex a fez a um lado a empurres. Tornando-se um pouco para trs, deu-lhe uma forte patada porta. A grosa tabela de carvalho se manteve firme. Esporeado pelos gritos procedentes dahabitao, deu vrios passos para trs e investiu com todo seu peso com o ombro contra aporta. Depois do impacto, ricocheteou para trs com tal violncia que virtualmente se estreloucontra a parede. 
-Joder! 
Maddy se levou as mos s tmporas.
-Deus santo! O que est acontecendo a dentro? 
Ao parecer, armou-se a de Deus  Cristo. Alex olhou a porta com impetuosa resoluo. Toda avida tinha ouvido histrias de homens que derrubavam portas a patadas, e ele era mais 



corpulento que a maioria. Tinha que haver um truque para consegui-lo. Centrando toda suaateno no pomo da porta, retrocedeu tanto como o permitiu a parede que se encontravadetrs dele, deu dois passos para agarrar impulso e plantou o p justo debaixo da fechadurade lato. A estrutura de madeira se estilhaou, a porta cedeu e Alex entrou na habitao dosmeninos correndo e cambaleando-se. Sem deixar de dar tombos, deteve-se escassos 
centmetros da senhora Perkins e Annie, quem parecia estar encetadas em um combate 
mortal. 
Tal era a confuso daqueles corpos retorcidos, que Alex demorou um momento em entender oque estava passando. Quando finalmente o fez, abriu os olhos como pratos. Annie, a dcil 
criancinha que segundo o doutor Muir nunca lhe causaria problemas, tinha os dentes cravados 
no dedo da senhora Perkins. Pelo visto, tinha a inteno de liberar  mulher dessa parte 
acessria de seu corpo. A cuidadora, dando saltos de dor, golpeava a seu atacante na cabea enos ombros para tentar soltar-se. antes de que Alex pudesse intervir, a mulher decidiu que osgolpes simples no serviam de nada e recorreu aos punhos.
-J basta! -gritou Alex.
Entrou na refrega, sem saber muito bem a quem devia salvar, se ao Annie, que estava sendo 
esmurrada, ou  senhora Perkins, que corria perigo de perder uma parte de seu corpo. Poucodepois, caiu vagamente na conta de que Maddy estava participando da briga um pouco desde 
fora, por assim diz-lo: agarrava roupas por um lado, braos e cabelos pelo outro, e seu forteacento irlands aumentava o barulho lhe reinem. Seguiu, ento, uma briga entre quatro 
pessoas: Annie e a senhora Perkins, entrelaadas em um perigoso abrao, e Alex e Maddytentando as separar sem muito xito. Justo no momento em que Alex finalmente conseguiaabrir as mandbulas fortemente apertadas do Annie, a desesperada senhora Perkins errou o 
branco e lhe deu um forte golpe no nariz a ele.
-Pequena zorra! 
-Um momento! -Alex pareceu trocar de atitude de repente-. No permitirei que voc faledessa maneira. -Tentou limpar o sangue que lhe caa sobre o lbio superior-. Que demniosinduziu  garota a lhe morder? -Viu que Annie tinha fugido ao outro extremo da habitao, 
onde se acurruc no cho com as costas apertada contra a parede. O dirigiu de novo seu olhar 
para a cuidadora-: E bem, o que me diz? 
-Nada a induziu a faz-lo! Agrediu-me sem nenhuma provocao por minha parte.
Alex se limpou a cara de novo e observou  robusta mulher. Seu instinto lhe dizia que no lheestava dizendo toda a verdade. 
-Exatamente como chegou seu dedo  boca do Annie? 
-Mordeu-me, sem mais. 
Dada sua prpria experincia com o Annie, ao Alex no custava acreditar o da dentada, mas 
lhe parecia muito estranho que lhe tivesse mordido um dedo em lugar de uma parte maisacessvel do corpo. 
-O que fez voc? Acaso lhe deu o dedo para agrad-la? Sinto muito, senhora Perkins, mas me 
parece que h algo muito estranho em todo este assunto. 
-Eu lhe estava dando de comer! Isso  tudo. me corrija se me equivocar, mas acredito que 
esse  um de meus deveres. E, enquanto o estava fazendo, essa pequena zorra me mordeu! 
Alex no perdia os estribos com muita freqncia, mas tambm era pouco freqente quealgum lhe fizesse sangrar pelo nariz.
-Tome cuidado com suas palavras, senhora, ou do contrrio a despedirei sem lhe darreferncias. 
-me despedir? Sem me dar referncias? Tenho vrias cartas de recomendao, senhor, como 
voc bem sabe, e, se no serem suficientes, posso escrever outras. Sempre h parvos como 
voc que nem sequer se tomam a molstia de verificar sua autenticidade.
Atnito, Alex a olhou fixamente. Logo, fez um gesto de dodo estupor, pois sem lugar a dvidas 
era certo que tinha sido um parvo. Por falta de tempo, no tinha verificado a autenticidade das 
referncias daquela mulher.
Ela soltou uma estridente gargalhada.
-Quem lhe diz que eu quero seguir trabalhando aqui? Essa garota est louca! Nuncaencontrar a uma pessoa que dela cuide. Recorde minhas palavras, senhor. Eu estava tratandode obrig-la a comer. Nada mais. esteve-se negando a tomar seu mantimentos. O que devia 
fazer? Deixar que morrera de fome?
-Se estava voc tendo problemas com o Annie, deveu falar comigo. deixou que a situao vdas mos, e no tenho mais remedeio que despedi-la. No posso permitir que uma pessoa quetrabalha para mim golpeie a minha esposa, independentemente de qual tenha sido o motivo.
-Sua esposa? Ja, ja! E, quanto ao trabalho, renuncio com muito prazer, e retornarei ao povo 



andando, com tal de no passar uma noite mais nesta casa.
-Isso no ser necessrio. Eu me encarregarei de lhe conseguir uma carruagem que a leve. -
Alex tirou um leno do bolso, p-lo sobre seu lhe sangrem nariz e olhou ao Maddy-. Pode te 
ocupar da garota enquanto eu baixo a resolver este assunto? 
Com seu cabelo vermelho grisalho brilhando sob a luz do abajur, em contraste com seu rosto 
plido, Maddy lanou um olhar de incerteza ao Annie. Logo, endireitou seu redondo corpo e 
assentiu com a cabea.
- obvio, senhor. Estou segura de que no haver nenhum problema.
Alex desejou poder ter a mesma segurana. No gostava de deixar que Maddy as arrumasse 
sozinha, mas no via outra alternativa. Fez um sinal  senhora Perkins para que o precedesse e 
saiu da habitao. 


Alex acabava de deixar  senhora Perkins na carruagem e se dirigia s escadas que conduziam 
 casa, quando Maddy apareceu na entrada. O perfil de seu largo corpo se recortava contra aluz que saa do saguo. Com as mos nos quadris, a mulher olhou fixamente o veculo quesaa. 
- uma fortuna que se partiu. Essa  a pura realidade. Eu a teria feito pedaos com minhasprprias mos. No lhe caiba a menor duvida!
Desde que sua me morreu quando ele tinha trs anos de idade, Alex considerava o Maddy, 
com seus bondosos olhos verdes, como um familiar mais que como um ama de chaves. Norecordava hav-la visto nunca to furiosa. Com seus grandes seios e seu vestido azul escuro 
com avental branco, recordava a um veleiro a que um vento muito forte estivesse inchando asgavias. 
Ao chegar ao alpendre, ele olhou larga e fixamente seu rosto, tentando em vo interpretar suaenigmtica expresso. Quando o sangue irlandesa lhe subia  cabea, Maddy podia ser muitoinsolente, disso no cabia dvida alguma. Alex s podia agradecer que a senhora Perkins se 
partiu de uma vez.
-Tampouco me agradou muito a maneira em que essa mulher dirigiu a situao -reconheceuAlex-. Era completamente desnecessrio que desse murros ao Annie. Mas suponho que  
possvel que a histeria no lhe tenha permitido dar-se conta do que estava fazendo.
Maddy cruzou seus grossos braos.
-Que histeria nem o que oito quartos! Essa asquerosa mulher foi muito cruel com a pobre 
garota.
Maddy tinha um carter excitvel e muitas vezes reagia de forma exagerada. Alex no pdemenos que pensar que isso era precisamente o que estava passando naquele momento.
-A senhora Perkins se comportou de maneira indevida, Maddy, mas acredito que a palavra 
cruel  um pouco forte. Annie esteve a ponto de deix-la sem um dedo.
-Foi muito cruel! Horroriza-me que nesta casa se permitiram tais abusos. Horroriza-meprofundamente.
-Reconheo que foi uma cena muito desagradvel, mas no a convertamos em algo pior do 
que realmente foi.
-Pior do que realmente foi? Essa mulher  um demnio. Como  possvel que voc no tenhaverificado a autenticidade de suas referncias? No posso acreditar que tenha sido todescuidado. 
Este ataque o agarrou despreparado e no pde responder em seguida. Quando finalmentefalou, seu tom de voz era defensivo. 
-Como recordar, eu necessitava uma mulher que cuidasse do Annie com soma urgncia. Nohavia tempo para manter correspondncia com seus anteriores patres. Parecia uma mulherbastante respeitvel e bondosa.
-Bondosa? Eu no confiaria a essa bruxa nem o cuidado de um co guia de ruas. Uma 
cuidadora, diz voc? O que realmente queria era uma carcelera, e qualquer pessoa lhe teriaservido, com tal de que mantivera  garota tranqila e que voc no tivesse que topar-se com 
ela at que o beb nascesse. 
-Maddy, sabe que isso no ...
-lhe importam mais suas guas. verificou a autenticidade das referncias at da mais humildemoo de quadra que trabalha aqui. Deus nos libere de que um de seus malditos cavalos se 
faa mal. 
-Eu pensava que a mulher era competente, Maddy. 
-Mas no se certificou. E isso  o vergonhoso. -Fez-lhe um gesto admonitrio lhe colocando odedo sob seu nariz-. Eu lhe disse de um princpio que nada bom sairia de tudo isto. Fraco 



mental ou no, essa garota no  um animal reprodutor que seus pais e voc podem levardaqui para l a seu desejo.  um pecado contra Deus e tudo o que tem que sagrado no mundo.
O se passou uma mo pelo cabelo. 
-nos acalmemos um pouco, vale?
-O que voc realmente quer dizer  que eu devo me acalmar. Bom, pois no me sinto muitotranqila que digamos. Se voc ainda fosse um guri que levasse calas curtas, pegaria-lhe notraseiro com uma vara de nogueira americana pelo que tem feito.
Em opinio do Alex, danar ao som de uma vara de nogueira americana teria sido menos 
hiriente que ouvir as palavras do Maddy. 
-Cometi um engano, Maddy. No o nego. Mas sabe que foi sem querer.
-O caminho do inferno est pavimentao de boas intenes.
-Sim, bom... Prometo-te que no voltar a passar. Certificarei-me de que a prxima cuidadora 
tenha bom carter. 
-A prxima? por que no deixa melhor que a garota fique em uma das cavalarias? -Ao ver aexpresso de assombro no rosto do Alex, a furiosa irlandesa prosseguiu-: Bom, dessa maneiraela no seria uma molstia para voc. Quando ficar de parto, pode lhe pedir ao Deiter que a 
atira, tal e como o faz com todas as potrancas. Voc ter a seu herdeiro, e poder enviar ao 
Annie a casa. Todos ficaro contentes, menos a garota. Acaso no  isso o que em essnciatem voc pensado fazer em qualquer caso? Para que tratar de dissimul-lo contratando a umacuidadora? 
Alex se zangou.
-J basta. Esta  uma situao muito difcil,  verdade, e oxal nunca tivesse ocorrido nada 
disto. Mas aconteceu, a garota est grvida, e eu tentei solucionar o problema o melhorpossvel. Que mais espera que faa?
-Que voc seja um marido para essa garota? -sugeriu ela com um sarcasmo custico. -almdisso. 
-Bom, pois, alm disto, no estaria mal que lhe emprestasse um pouco mais de ateno pequena. Essa mulher que voc contratou esteve tratando de lhe embutir a comida pelagarganta!  assim como seu dedo chegou  boca do Annie. Se me perguntar isso, essa mulher 
merecia que o arrancassem de um talho.
-lhe embutir a comida pela garganta!
-Alex estava assombrado. 
-E isso no  tudo. Beliscava a essa pobre criancinha em todo o corpo. Cada vez que melembro... -conteve-se com um suspiro tremente-. Bom, as palavras no podem descrevermeu aborrecimento. A garota tem tantos moretones, que parece um tecido com desenho de 
lunares. Tudo sob seu vestido,  obvio, onde ningum pode v-los. Deveria voc lhe jogar uma 
olhada a suas costas, onde essa horrvel mulher a esteve golpeando. 
-Moretones? -Ao Alex lhe encolheu o corao-. Por Deus! Tem-lhe feito muito dano? 
Comeou a dar uns passos diante do Maddy, mas ela o agarrou do brao. 
-No corra a sua habitao como uma palha arrastada por um forte vento. Assustar  garota.
Consciente de que ela tinha razo, Alex se liberou de sua mo, mas no voltou a tratar de 
entrar na casa. 
Um comprido silencio caiu entre eles, e durante este tempo Maddy fez um esforo evidente por 
acalmar-se. Quando Alex sentiu que ela tinha recuperado ao menos um pouco de compostura, 
disse: 
-Devo lhe pedir ao Henry que v procurar ao doutor Muir? 
-No, no acredito que necessite um mdico. Eu posso me ocupar dela. Mas h outropequeno problema que tem voc que resolver.
-Do que se trata?
-A razo pela qual se esteve negando a comer  que acredita que est engordando. Tem quelhe fazer entender de algum jeito que  um beb o que lhe est fazendo crescer a cintura, no

o excesso de comida. 
Alex observou os rasgos torneados de sua ama de chaves.
-Como pode saber o que Annie pensa? 
-Bom, Annie me h dito todas estas coisas, certamente. 
-A garota no pode falar. Maddy elevou o queixo.
-No como ns, isso  indiscutvel. Mas pode fazer-se entender se lhe insiste um pouco.
-Como? 
-Subida comigo e voc comprove-o mesmo.
Depois de dizer estas palavras, ela girou sobre seus tales e se dirigiu s escadas, falando para 
si com zango ao longo de todo o caminho. 


Atento a no assustar ao Annie, Alex entrou em seu dormitrio depois do Maddy. Oculta ainda 
no escuro rinco, a garota se encontrava sentada com os braos ao redor de suas pernas 
dobradas, com o vestido azul lhe cobrindo pudorosamente os tornozelos. Aparentemente 
esgotada, descansava a cabea sobre os joelhos. Para poder ver melhor, Alex acendeu o abajur 
da mesita de noite antes de atravessar a habitao para aproximar-se dela. Quando o fez, a 
moa se endireitou e fixou nele um olhar de desconcerto e receio. No mais profundo de seusolhos azuis, ele leu vrios sentimentos: medo, uma quantidade nada desdenhvel dedesconfiana e um penoso desespero.
Deus santo! Tinha-a levado a sua casa para lhe dar seu amparo. E que bem o estava fazendo! 
Tinham-na beliscado em todo o corpo, tinham-lhe dado murros e sabe Deus o que outras 
coisas. No era de sentir saudades que o olhasse da maneira em que o fazia.
Agachando-se frente a ela, observou-a durante um momento. Procurava cuidadosamentesinais de abusos, mas no pde ver nenhuma. Alm do fato de que tinha perdido um pouco depeso, o qual mal podia permitir-se fazer, parecia estar poda e s. Seu cabelo negro estava 
recolhido com tranas muito bem cuidadas, que lhe caam at a cintura. 
-Maddy me diz que a senhora Perkins te esteve tratando muito mal, Annie, voc gostaria de 
me falar disso? 
Em resposta, lhe lanou seu habitual olhar de perplexidade, cravando os olhos em sua boca.
Alex teve a sensao de que daria igual lhe falar em grego. Era evidente que a garota noentendia sequer as frases mais singelas. Que tivesse conseguido comunicar-se com o Maddyde algum jeito parecia completamente incrvel. No obstante, ele sabia bem que sua ama dechaves nunca mentia. 
Resolvido a ver os cardeais da jovem, estendeu a mo para tentar apartar ligeiramente o 
pescoo de seu vestido. Quando ele fez este movimento, a jovem se apertou mais contra aparede. O medo fez que seus olhos se escurecessem. Sustentando a mo no ar, Alex fechou opunho em sinal de frustrao. Apesar de que suas capacidades mentais pareciam ser muitolimitadas, estava claro que ela no tinha nenhuma dificuldade em recordar o que Douglas lhetinha feito e que acreditava que ele poderia lhe fazer o mesmo.
Olhou ao Maddy, que se tinha feito a um lado, e negou com a cabea.
- intil. Terei que confiar em sua palavra. Est segura de que no devo fazer chamar odoutor Muir? 
-Como j lhe hei dito, eu posso me ocupar dos golpes. -Maddy fazia esforos para no chorar-. O que me incomoda, senhor,  que voc no parece acreditar o que lhe contei. Ela meensinou como essa mulher lhe embutia a comida na garganta, me crie. E me disse que pensaque se est pondo muito gorda.
Alex se levantou e se afastou do Annie para apoiar um ombro contra a parede. 
-Acreditarei- quando o vir.
Maddy lhe lanou um olhar glacial e se dirigiu  pequena mesa para agarrar o prato de comida 
do Annie. Depois de levantar com o garfo uma batata fria, voltou sobre seus passos, sonriendo 
a jovem de brinca a orelha. 
-Anda, carinho, sei uma boa garota e come um pouco. Faz-o pelo Maddy. 
Annie negou com a cabea, e esse simples gesto assombrou ao Alex. Parecia entender o queMaddy lhe havia dito. 
-Mas tem que comer, carinho. Adoecer se no o faz. -Tentava convenc-la com zalameras 
-. S um bocado, anda, me agrade.
Annie negou com a cabea de novo e dirigiu um olhar de receio para o Alex. Logo, inchou as 
bochechas e tentou, sem muito xito, dobrar seu queixo. Embora estava muito magra paraparecer uma mulher gorda, fizesse as caretas que fizesse, a mensagem era clara. Alex a olhou 
boquiaberto.
-meu deus! 
Sem apartar a vista do Annie, Maddy seguiu lhe falando com o garfo estendido.
- uma boa garota. Come um pouco para agradar ao Maddy. 
cada vez mais nervosa, Annie estirou as pernas e se levou as mos  cintura para lhe dar 
tapinhas a seu ventre. Logo, como se tivesse um talher invisvel, fingiu colocar comida a sua 
boca e mastigar. Depois, voltou a inchar as bochechas e a negar com a cabea.
Fazendo um movimento com o garfo em sinal de vitria, que esteve a ponto de lanar asbatatas pelo ar, Maddy se voltou para o Alex. 
-d-se voc conta? 
Alex se separou da parede bruscamente. Lhe ps a pele de galinha enquanto olhava a quo 



jovem estava frente a ele. Durante um instante que se fez eterno, no pde pr as idias emordem para pronunciar palavra. Quando finalmente o fez, s conseguiu repetir o que acabavade exclamar. 
-meu deus! 
-O que lhe havia dito? -Maddy tinha agora ar de suficincia-. Se isso no  fazer-se 
entender, ento me diga voc o que . 
-Maddy... -disse Alex em voz muito baixa-. Tem alguma idia do que isto significa? O fatode que ela possa estabelecer uma correlao entre comer e subir de peso... bom, pois totalmente incrvel. Quer dizer que em realidade deve ter capacidade de raciocnio.
-No  to parva como voc acreditava, n, senhor? V, quando a gente comea a pensar emtudo isto, lhe embrulha a cabea. -Voltou as costas ao Annie para levar o prato  mesa-. Se 
ela pode entender este tipo de coisas, a gente tem que perguntar-se que mais pode entender.
Ou sentir. Pergunto-me se sentir falta da seu beb quando voc o arrebate dos braos.
Uma espantosa sensao de debilidade se apropriou das pernas do Alex. Sem poder recuperar-
se ainda da surpresa, tudo o que podia fazer era olhar fixamente a sua cruz. No, no era suacruz, era sua esposa. Sua esposa grvida, a quem seu irmo tinha violado e com quem ele secasou. Com o fim de lhe tirar a seu filho. 
Um animal reprodutor, tinha-a chamado Maddy. Um objeto sem inteligncia que seus pais e ele 
podiam levar de um lugar a outro. Este pensamento lhe enojou tanto que fechou os olhos com 
fora. 
-meu deus, Maddy, o que tenho feito? 
Um pesado silncio se assentou na habitao. Finalmente, Maddy sentenciou. 
-O fato, feito est, senhor. O que importa agora  o que faa a partir deste momento. 

CAPTULO 08 

Andava ultimamente aflito pelo que acabava de descobrir, Alex fez uma visita aos pais doAnnie  manh seguinte. depois de que o fizessem passar ao salo, sentou-se em umapoltrona de orelhas perto da chamin, para ficar frente a Edie e James, quem se encontravasentados no sof de crina de cavalo. Sem saber muito bem nem como nem por onde comear,
Alex apertou os punhos e observou atentamente a catapora com estampados de rosas, paratentar pr em ordem suas idias, o que naquele momento parecia uma misso quaseimpossvel.
Ao final, decidiu que contar-lhe tudo sem rodeios era o melhor que podia fazer. E lhes narrouos acontecimentos da noite anterior. Terminou seu relato dizendo: 
-depois de ver como Annie se comunicava com minha ama de chaves, estou convencido de 
que ela pode ser muito mais inteligente do que todos ns pensvamos.
Para ouvir estas palavras, Edie ficou to branca como uma folha de papel. depois de ummomento de silncio que pareceu retumbar nos tmpanos do Alex, estalou.
-Tolices. Nossa filha sofreu uma febre muito alta que a converteu em uma discapacitada 
mental, senhor Montgomery. J lhe explicamos isso atentamente! 
-E  muito possvel que vocs tenham toda a razo. Mas a pergunta : em que medida  
grave seu discapacidad mental? Alguma vez trataram que averigu-lo? A garota  capaz deraciocinar, de dirigir conceitos, senhora Trimble; no  uma idiota. -deslizou-se at o bordo da 
cadeira e fez um gesto de cansao-. James, voc  um homem educado. Certamente entende

o que estou dizendo. Sua filha pode observar a relao entre dois acontecimentos que
aparentemente no esto relacionados entre si. Se ela fosse to dbil mental como criam,
poderia faz-lo?
Edie se levantou como uma mola. 
-Os dois entendemos o que est voc dizendo. Simplesmente no estamos de acordo. 
-No  minha inteno culpar a ningum -assegurou Alex em um tom mais tranqilizador-.
Por favor, no me interpretem mal. S estou dizendo que  possvel que o mal do Annie no 
seja to grave como pensvamos. Queria lev-la ao Portland. Fazer que lhe faam alguns 
exames. Ali h mdicos excelentes que poderiam...
-No! -Gritou Edie com voz aguda, e lanou um olhar de ressentimento a seu marido-. 
Temia que isto passasse! Roguei-te que a mandasse a outro povo at que nascesse o beb. 
Agora olhe o que est passando! Quer que lhe faam uns reconhecimentos!
Disse a palavra reconhecimentos como se se tratasse de uma vulgaridade. Alex soltou um
suspiro: 
-S um exame de rotina, senhora Trimble. Nada exaustivo. O que podemos perder? 
-O que podemos perder? -perguntou ela framente-. Esse  s o comeo. Logo querer voc 


que Annie fique no Montgomery Hall e no lhe permitir vir nunca a casa. 
James alargou o brao para sujeitar firmemente sua mo. 
-Venha, Edie. Alex no h dito tal coisa. Est-te precipitando ao tirar concluses. No  
verdade, Alex? 
Uma sensao asfixiante se apropriou do peito do Alex.
-Bom, James, a verdade  que eu gostaria de falar contigo a respeito de...
-Sabia! -Edie soltou sua mo de um puxo. Fulminou ao Alex com o olhar-. Voc nos deusua palavra, senhor! Disse que era um acordo temporrio. S de nome. Voc o prometeu!
Alex se esfregou a cara com uma mo.
-isso pinjente antes de que me desse conta...
-antes de que se desse conta do que? -perguntou ela-. Como se atreve? Tem  garotadurante trs curtos dias, e j acredita que a conhece melhor que sua prpria me? Acaso estpensando fazer que esse matrimnio seja permanente? Como se atreve!
-S quero o melhor para o Annie. -Alex se esforava para falar em voz baixa-. Se ela no for 
to atrasada como voc crie, Edie, imagine quanto sofrer se chegar a separar a de seu beb. 
-O que  o melhor para o Annie? -A mulher deixou escapar uma gargalhada de amargura-.
Quer que prediga o que acontecer segue com esta loucura, senhor Montgomery? Quando j 
for muito tarde, voc descobrir que eu tenho razo, que nossa filha, efetivamente,  umaidiota. E ao final tomar o caminho mais fcil e a internar em um desses horrveis sanatrios. 
Encerraro-a em um quarto e cuidassem dela como se fosse um animal. passei quatorze anosfazendo todo o possvel por impedir que isso acontea. 
-Eu nunca internaria ao Annie em um sanatrio. 
-Est seguro? Voc  um homem jovem e atrativo. Algum dia conhecer uma jovem normal,
com quem gostaria de casar-se. O que acontecer Annie ento? 
-Nunca faltei a minha palavra, jamais, em toda minha vida -respondeu Alex-. De maneiranenhuma comearei a faz-lo com meus votos matrimoniais. Annie sempre ter um lar no 
Montgomery Hall. 
-Est voc faltando a sua palavra neste preciso instante -respondeu ela-. Prometeu medevolver a minha filha, e agora est vacilando.
-James. -Alex apresentava claros sintomas de cansao-. Faz-a entrar em razo. Por favor.
Se houver alguma oportunidade, embora seja mnima, de que Annie possa ser educada, como 
podemos pass-la por alto? Que dano poderiam lhe fazer uns poucos exames mdicos?
O juiz evitou olhar ao Alex diretamente aos olhos.
-Realmente crie que no submeteramos a nossa filha a esses reconhecimentos seacreditssemos, embora s fora por um instante, que h alguma esperana?  voc quemdeve entrar em razo, Alex. Edie  a me do Annie. cuidou que a garota desde que era um 
beb recm-nascido. Quem pode saber melhor que ela quo grave  a discapacidad da 
menina? 
Em circunstncias normais, Alex no teria podido discutir aquilo. Mas dada a franqueza comque o juiz lhe tinha falado em uma ocasio anterior, ele sabia que havia muitas mais costureem jogo do que a simples vista parecia. Uma loucura, hereditria. Palavras muitodesagradveis, que constituam o maior temor dos Trimble. Um temor to cansativo que, porrazes diferentes, nenhum dos dois podia reconhec-lo. James devido a sua carreira, e Edie 
pelo sentimento de culpa.
Se examinavam ao Annie... se tirava o chapu que sua desordem mental se devia a umaloucura hereditria e no aos efeitos de uma febre muito alta, eles temiam ter que pag-lo 
muito caro: Edie em seu matrimnio, pelos enganos dos que se valeu fazia trinta anos; o juiz,
perdendo sua credibilidade poltica. Em lugar de correr esse risco, mantiveram ao Annie, seu 
vergonhoso secreto, oculta do mundo.
-Poderamos manter em segredo a viagem ao Portland -disse Alex-. Ningum tem por que 
saber que um mdico a examinou.
-No darei minha autorizao para que a submetam a nenhum exame -disse James comfirmeza. 
Alex no necessitava a autorizao do pai, e os Trimble sabiam. Entretanto, no acreditou que 
fora prudente recalc-lo.
-Entendo. 
-Por favor, tenha a certeza de que queremos a nossa filha -adicionou James. 
Com uma expresso sria no rosto, Alex observou a aquele homem, a quem alguma vez tinhaadmirado tanto. Se acreditava querer a sua filha, ento devia lhe dar  palavra amor umadefinio completamente diferente da do Alex. No s por sua relutncia a deixar queexaminassem a jovem, mas tambm tambm por tudo o que tinha passado antes: a insossa 



cerimnia das bodas, a festa no jardim que teve prioridade sobre as necessidades do Annie e 
muitas outras coisas que Alex no pde recordar nesse momento. Amor? Que Trimble sequer 
se atrevesse a usar esta palavra era uma farsa.
-Se acreditssemos que os exames poderiam revelar algo novo, fosse o que fosse - 
prosseguiu James-, teramos levado ao Annie ao Portland faz muitos anos. 
Silncio. Um silncio evidente e acusador. Naquele momento, Alex soube que os Trimble se 
oporiam at o fim de seus dias a permitir que os mdicos vissem o Annie. Se lhes levava a 
contrria, as coisas ficariam feias. Muito feias. 
Precisava pensar as coisas atentamente antes de tomar uma deciso, no porque lheimportasse particularmente proteger a relao que tinha com seus sogros, mas sim porque afelicidade do Annie podia estar pendente de um fio. Se, como Maddy suspeitava, a garota 
podia sentir afeto, ento certamente queria a seus pais, merecessem-no ou no. Por seu bem,
Alex no queria provocar um distanciamento, ao menos sem uma boa razo.
Sem dvida confundindo o silncio do Alex com uma mudana de atitude, Edie recuperou a 
compostura ligeiramente. Com um tom de voz mais tranqilo e moderado, voltou a falar. 
-Sei o muito enganoso que pode ser o comportamento do Annie, senhor Montgomery. de vez 
em quando pode fazer ornamento de certo grau do que poderia parecer uma inteligncianormal, mas em seguida experimenta uma regresso. me crie. Embora dio usar esta palavra, 
minha filha  uma idiota. Nada no mundo poder trocar isso.
To esgotado que no poderia descrev-lo com palavras, Alex suspirou e voltou a esfreg-la 
cara com uma mo. Quase no tinha pego olho a noite anterior. Annie... com seu doce rosto e 
seus perplexos olhos azuis. No podia tirar-se a da cabea. Possivelmente Maddy e ele 
estivessem aferrando-se desesperadamente a uma falsa esperana. Mas tinha que certificar-sedisso, maldio! 
-Sinto muito. -Tratou de escapar pela tangente-. Acredito que no devi vir aqui. Alterei-lhesaos dois e, se tiverem razo, tenho-o feito sem motivo algum.  s que eu... -encolheu-se deombros-. Ontem  noite... ao v-la... tive a segurana de que havia alguma esperana. 
Olhou ao Edie aos olhos e pde ver sua dor, e soube que ela acreditava de todo corao quesua filha tinha herdado a loucura de sua famlia. Seria possvel que fora tal sua certeza arespeito, e que tivesse tanto medo de que seu marido se divorciasse dela, que no queria vernenhuma outra possibilidade?
-No h nenhuma esperana -disse ela com voz trmula-. Bem sabe Deus que quisesse quea houvesse. Pelo bem do Annie, tem voc que tirar-se todas essas dvidas da cabea. 
Pelo bem do Annie. Alex se mordeu a lngua para no dizer nada que logo pudesse lamentar.
-Nos ltimos trs anos, sua condio comeou a deteriorar-se -destacou Edie-. Tanto  
assim agrediu fisicamente a seu cuidadora. Se permitirmos que siga tendo esse tipo decomportamentos, ser necessrio intern-la em um hospital psiquitrico, senhor Montgomery. 
Sei que voc veio aqui esta manh com as melhores intenes e que no  uma m pessoa.
Mas deve voc confiar totalmente em mim. Eu no ideei por prazer todas essas regras que 
Annie deve seguir. Fiz-o para proteger seu futuro. Por esta razo, deve voc fazer as cumprir,
tal e como prometeu que o faria. Do contrrio, no haver quem a controle, e todos meus anosde trabalho tero sido em vo. No quero que minha filhinha termine em um manicmio.
-Eu tampouco quero isso. me crie, por favor. -Certamente que lhe acreditam -interveioJames. Alex ficou de p.
-Sinto muito lhes haver importunado desta maneira.
-Tolices -o repreendeu Edie-. Annie  nossa filha, e a amamos. 
Aquela palavra de novo. Amor. Alex teria querido perguntar a aquelas pessoas se entendiamseu significado.
James se levantou e abraou a sua esposa. 
-Assim . Alegra-me que tenha vindo a nos ver para falar das inquietaes que tinha. Noteramos esperado que fosse de outra maneira.
Enquanto Alex se despedia dos Trimble e partia de sua casa, milhares de perguntas lhe davamvoltas na cabea, e nenhuma delas se podia responder de uma maneira singela. Estavam ospais do Annie to absortos em seus prprios assuntos que no podiam ver os do Annie? 
Ou acaso Maddy e ele estavam arremetendo lana em riste contra moinhos de vento? 

-Senhor Montgomery! Senhor Montgomery! Espere um momento, por favor!
Alex ouviu esta voz justo ao chegar  rua, depois de sair do caminho de entrada  casa dos 
Trimble. Atirando das rdeas de seu cavalo negro para que se detivera, voltou-se ligeiramente 
sobre a cadeira de montar e viu o Edie sair correndo da sombra de um frondoso carvalho para 



atravessar o jardim. Levava uma saia com muito vo que caa at o tornozelo e se agitava
detrs dela como uma bandeira azul. Da distncia, ele quase teria podido acreditar que aquela
mulher era Annie, com seu cabelo azeviche e seu corpo magro. Este pensamento fez que lhe 
secasse a garganta. Sentiu uma pena infinita. Se Edie estava no certo, Annie nunca poderia 
falar, e muito menos chamar a algum.
Ela se deteve o chegar ao canal de desge que se encontrava junto  rua, apertando o ventre
com uma mo como se tentasse recuperar o flego penosamente. Alex esperou com pacincia
at que ela pudesse falar. Ele notou que inclusive depois de correr para salvar a distncia que
os separava, a mulher ainda estava plida. Os olhos da me procuraram seu olhar.
-No podia permitir que partisse sem falar com voc de um assunto de grande importncia 
para mim.
- obvio. Do que se trata?
A mulher trago saliva e tomou ar com grande dificuldade.
-Devo lhe pedir um favor muito grande, senhor Montgomery. de agora em diante, por favor, 
no me faa perguntas a respeito da condio do Annie frente ao juiz. Se tiver voc alguma 
inquietao, fale comigo em privado.
-por que devo lhe ocultar minhas inquietaes ao juiz? -Alex tratava, sem xito, de
interpretar a expresso do rosto de sua interlocutora.
-Meu marido no se encontra bem. No quero que lhe incomode com tais nimiedades. 
Nimiedades? Logo que pde conter-se para no jogar pela boca sapos e cobras. Pensava que o 
futuro do Annie era uma nimiedad? At onde era capaz de chegar aquela mulher para proteger
sua posio de respeitvel algema do juiz? Alex compreendeu que no lhe interessava sab-lo.
Sobre tudo, se Annie era o cordeiro que ela queria sacrificar. 
-Sinto-o -disse ele framente-. No sabia que o juiz estivesse mal de sade.
-J, bom, no gosta de falar disto. depois de tudo, tem que pensar em sua carreira. 
Sim, certamente, a asquerosa carreira do senhor juiz. Como pde haver lhe esquecido?
-Tenho esperanas de que James melhore com o tratamento apropriado e com um pouco de
repouso. Entretanto, o melhor, no momento,  evitar perturb-lo. Temo que qualquer tipo de 
agitao, especialmente se est relacionada com o Annie, possa lhe fazer sofrer uma recada.
Ao olhar  mulher aos olhos, Alex viu o temor que se refletia neles; mas suspeitou que era por
ela mesma, no por seu marido. depois de tudo, a mulher tinha um segredo que proteger. A
ironia de todo aquilo era que seu marido j sabia que era possvel que a loucura fosse coisa de
famlia e, por razes que Alex desconhecia, no o havia dito a ela. Alex sups que Trimble 
devia acreditar no antigo adgio que dizia que reconhecer algo era lhe dar validez.
Como podiam dois cnjuges viver na mesma casa, fazer o amor, ter filhos e, no obstante, ser
to pouco honestos o um com o outro? 
Tudo o que Alex queria era afastar-se daquelas duas pessoas. Estar longe para poder pensar.
Tinha algumas decises que tomar. Decises muito importantes. Pelo bem do Annie, tinha que 
certificar-se de tomar adequadas.
-Terei presente o estado de sade do juiz antes de vir a lhes falar de minhas preocupaes.
Como lhe disse, no tinha idia de que ele estivesse doente.
Edie fechou os olhos por um momento. Quando voltou a abri-los, umas lgrimas se deslizaram 
por suas plidas bochechas. 
-Sei bem que tem voc um mau conceito de mim, senhor Montgomery. Acredita que no 
mereo me chamar me, no  verdade? 
Dizer isso era ficar curto, mas Alex pensou que no servia de nada feri-la. Ela era uma mulher
to pusilnime, que logo que podia suportar olh-la.
-No sou o tipo de homem que faz julgamentos precipitados sobre as pessoas. 
-Independentemente do que possa parecer, fiz o que considerei melhor para minha filha. -
Falava com voz trmula-. Sempre. No foi fcil. O resto de minha famlia tambm me exige
tempo. Mas a tive em casa, e em nenhum momento me zanguei com ela por todos os apuros
que me tem feito passar. Acredito que muitas mes teriam optado pelo caminho mais fcil. 
Alex no punha isso em dvida. Sups que Edie, a sua lamentvel maneira, fazia sua parte
correspondente de sacrifcios maternais. Ela piscou e se secou as bochechas com uma mo.
Havia algo na expresso de seu rosto -Alex no sabia o-que quase fazia que a 
compadecesse.
-de agora em diante, s falarei de minhas preocupaes com voc. -Depois de dizer isto,
tirou-se o chapu e lhe deu um suave golpe ao cavalo com os joelhos para que comeasse a 
andar-. Que voc tenha um bom dia, senhora Trimble. 
Ela elevou uma mo. 
-Espere um momento, por favor! Deme uns minutos mais de seu tempo e logo deixarei que 




parta. 
-me diga.
A mulher se mordeu o lbio inferior. 
-Sei que nos prometeu que devolver ao Annie depois do nascimento do beb. Mas, enquanto
isso, h algumas costure que deveria voc saber dela, coisas que no pude lhe dizer a outra 
noite frente ao juiz. devido a sua estado de sade, entende voc? 
-De que coisas me est voc falando? 
retorceu-se as mos. 
-Faa o que faa, nunca permita que Annie se aproxime de um gato sem superviso. E, se
tem convidados em casa com meninos pequenos, no deve tolerar em nenhum momento que
ela fique sozinha com um dos pirralhos. Sob nenhuma circunstncia.
-Importaria-lhe me dizer por que?
-Acaso no  bvio? Ela no o faria a propsito, como se imaginar, mas temo que lhe faa 
mal a um menino ou um animal. -De novo lhe encheram os olhos de lgrimas, e as
comissuras de sua boca comearam a tremer-. S faa caso do que lhe digo. Por favor!
Depois de dizer estas palavras, a mulher se deu a volta para afastar-se dali e voltou sobre seus 
passos para cruzar o jardim. Ele a seguiu com o olhar durante comprido tempo. 


Ao retornar ao Montgomery Hall, Alex se dirigiu a seu estudo, onde esperava encontrar um 
pouco de solido. Mas Maddy tinha outros planos para ele. antes de que pudesse ficar a
vontade em sua cadeira, bateu na porta e, ato seguido, entrou sem pedir permisso.
Simplesmente olhando soube que no se conformaria mais que com uma narrao completa
de sua conversao com os Trimble. 
-O que ocorreu? 
Alex se levantou e se dirigiu ao aparador, onde serve duas taas de conhaque. Como ele
estranha vez bebia a uma hora to temprana, o ama de chaves arqueou as sobrancelhas ao 
receber uma taa. 
-To grave ? 
Alex se voltou para as janelas acristaladas que davam  parte ocidental dos jardins.
-Digamos simplesmente que, depois de falar de novo com os pais do Annie, estou mais 
confundido que nunca. -Guardou silncio por um momento, observando com olho crtico os
arbustos esculpidos que rodeavam os arriates de rosas-. Maldio, Maddy. Tinha tantas 
esperanas ontem  noite. Estive acordado at o amanhecer. Milhares de idias me passaram
pela cabea... que ela no  uma atrasada como pensam seus pais, que ao melhor a febre a
afetou de alguma outra maneira que nem sequer tivemos em conta. Possivelmente em sua 
capacidade de falar, ou de ouvir.
Maddy estava aparentemente to frustrada como Alex.
-Bom, pois seu ouvido est bem, tenha-o por seguro. Quando a chamo, ela quase sempre se
volta para ouvir seu nome. -Franziu o cenho, pensativa, e esfregou a taa entre suas mos-.
Pensei que este era o motivo pelo qual voc queria que um mdico a examinasse, senhor, para
saber o que tem exatamente. 
Alex se Rio amargamente.
-Se dito submet-la a uns exames mdicos, ou chego a sugerir sequer que eu gostaria que
ela ficasse aqui depois de que nasa o beb, terei que liberar uma verdadeira batalha.
-Os Trimble j no tm nenhum direito legal. Voc pode fazer o que lhe d a real ganha.
- verdade, mas eles so os pais do Annie. Se estiver no certo, e ela pode estabelecer
vnculos afetivos, um distanciamento seria... -Alex deixou que sua voz se fora apagando.
depois de um momento, disse-: No quero lhe partir o corao sem que haja um bom motivo.
-No, no queremos isso. Tenho a sensao de que essa pobre menina j sofreu o suficiente 
em sua curta vida. 
To brevemente como foi possvel, Alex lhe contou tudo o que se havia dito durante sua
conversao com os Trimble, incluindo as estranhas advertncias do Edie: que nunca se devia 
deixar ao Annie s com um gato nem com um menino.
-Isso  absurdo -disse Maddy, zangada-. A garota  inofensiva.
-No foi ontem  noite ao agredir  senhora Perkins -recordou Alex-. E tampouco se
comportou como um anjo quando a traje a casa na carruagem.
-Provocaram-na e perdeu os estribos!
Alex no podia neg-lo. Olhou fixamente as profundidades da cor do mbar de seu conhaque.
Quando voltou a elevar a vista, tinha tomado a deciso de lhe contar todo o ocorrido ao 
Maddy, inclusive o relacionado com o tio do Edie e o temor dos Trimble de que sua filha 




pudesse estar louca. No se permitiu pensar que estava faltando  promessa de guardar o
segredo que tinha feito ao James Trimble. Maddy nunca repetiria o que ele ia contar lhe, e o 
futuro do Annie estava em jogo.
Enquanto ele falava, Maddy ficou lvida. 
-Deus bendito! -sussurrou ela quando ele terminou de falar-. A garota no est louca,
senhor. Apostaria a vida por isso. 
Alex pensava o mesmo.
-Entretanto, acredito que os Trimble temem que possa est-lo, o qual explica sua relutncia a 
permitir que um mdico a reconhea.
Maddy negou tristemente com a cabea.
-Porque um mdico poderia descobrir que ela no est simplesmente tocada, a no ser 
completamente louca?
-Um descobrimento semelhante poderia destruir a carreira poltica do James Trimble e, se isto 
acontecer, sua esposa parece acreditar que se divorciaria dela.
-Em outras palavras, as rvores no lhes deixam ver o bosque.
Alex deixou escapar um suspiro. 
-No sei. Talvez somos voc e eu quem no estou vendo as coisas com claridade. S o tempo 


o dir, suponho. -Olhou ao Maddy aos olhos enquanto um leve sorriso se esboava em seus 
lbios-. Por sorte, ainda temos suficiente tempo. No estamos precisamente jogando 
enquanto Roma arde. Ela s est grvida de quatro meses. Temos cinco meses mais para
observ-la e tomar uma deciso. Se depois de umas poucas semanas os dois temos a plena 
certeza de que se pode fazer algo para ajud-la, levarei-a ao Portland, e que seus pais se vo 
ao inferno. 
Maddy elevou sua taa. 
-Brindo por isso. 
Alex no pde menos que sorrir.
-No ser nada agradvel. Se dito ir contra sua vontade, enfrentaro-se para mim com todas
suas foras. 
-Pois encontraro em ns duas as frmas de seus sapatos. -Dos olhos do ama de chaves
saram algumas lgrimas quando bebeu o resto do conhaque. Agitando uma mo frente a sua
cara, piscou e tomou ar atravs dos dentes-. Deus! Esta coisa me faz arder da cabea at os 
ps!
Alex se Rio. 
-Bom, ento chegamos a uma deciso?
- mas bem uma deciso em troca de outra; mas sim, chegamos a uma deciso. Levaremos a 
garota ao Portland para que um mdico a examine.
-Se virmos indcios de que tem capacidade de aprender -apontou Alex.
-Estou segura de que assim ser. 
-No te faa muitas iluses, Maddy. No quero as ver truncadas. Temos que ser prudentes.
-No se truncaro -lhe assegurou ela com um brilho desafiante nos olhos-.  possvel que a
garota no saiba matemtica nem nenhuma dessas coisas, mas tem a capacidade de
aprender. Arrumado minhas queridas ligas a que  assim. 
-Espero que tenha razo. -Mais tranqilo do que se sentou em muitas horas, apoiou um
ombro contra a parede-. H outro problema que no tratamos: temos que conseguir outra 
cuidadora. Sei que tem muito trabalho, e no posso esperar que assuma a responsabilidade
adicional de cuidar do Annie. Temos que contratar a outra pessoa. Ah!, e a propsito, onde 
est ela agora?
-Em sua habitao. Pedi a uma das criadas que ficasse com ela enquanto eu devia falar com
voc. Henry j arrumou a porta, por certo. Trocou o revestimento e a fechadura. Ficou como 
nova. 
-Que rpido o tem feito!
-Sim, bom, tive que lhe dar a lata. Voc j conhece o Henry. Se for possvel deix-lo para
amanh... -Sua voz se foi apagando.
-Sinto muito que tenha tido que trabalhar mais da conta, Maddy. 
Ela fez um gesto com a mo para desprezar as desculpas.
-No me incomoda cuidar da garota. Por isso se refere, ela pode me seguir enquanto eu fao
meu trabalho. Em casa de seus pais no a encerravam em sua habitao, verdade?
-No. 
-Bom, ento, se fugir de mim e sai correndo, no passar nada. Sabemos onde encontr-la. 
Alex reconheceu, assentindo, que ela tinha razo. Sua principal preocupao era que, dado
que gostava de perambular pelo bosque, Annie se atrevesse a afastar-se da casa e se fizesse 


mal. At que desse a luz, era preciso tomar medidas especiais para garantir seu bem-estar.
-Est segura de que no te incomoda cuidar dela? Por razes bvias, no quero que saia 
sozinha de casa. 
-No me incomoda. -Maddy o observou durante um momento-. Quanto a no deixar que 
saia sozinha, possivelmente voc possa encontrar tempo para acompanh-la. 
-Eu? -Esta sugesto agarrou ao Alex despreparado. depois da reao fsica que a cercania do 
Annie lhe produziu na carruagem aquela manh, no o fazia nenhuma graa a idia de ficar a 
ss com ela-. Acredito que seria melhor que pedisse a um dos empregados da casa que a 
acompanhe.
Maddy torceu o gesto.
-Senhor, depois do que aconteceu a senhora Perkins, como pode sequer ocorrer-se o uma 
idia semelhante? Devemos tratar ao Annie como um membro de sua famlia. Ela no  um 
mascote a que qualquer pessoa que esteja disponvel pode tirar passear.
Sabendo que o ama de chaves tinha razo, Alex deixou escapar um suspiro. 
-Olharei minha agenda para ver se posso tratar de passar um pouco de tempo com vocs
todas as tardes. -Rogou que a irlandesa no lhe perguntasse por que necessitava sua
presena. Depois de tirar o relgio de seu bolso, olhou a hora. Aquela tarde tinha ficado com 
dois homens que estavam interessados em comprar uma de suas guas-. Bom, pois, j que
resolvemos isto, suponho que devo...
-H outro pequeno assunto -lhe interrompeu Maddy. 
Alex ps cara de surpresa.
-Como lhe disse ontem  noite, de algum jeito tem que obter que Annie entenda que seu
corpo est aumentando de tamanho devido a que est esperando um beb. segue-se negando 
a comer. 
Alex grunhiu. 
-Maddy, no acredito que ela entenda nada do que eu lhe diga.
-Ento lhe faa um desenho. 
-Um desenho? Eu no sei desenhar. Alm disso, a garota fica muito nervosa em minha
presena. No seria melhor que uma mulher o explicasse?
Um brilho se refletiu nos olhos do Maddy. 
-No me olhe . Eu tampouco sei desenhar. Quanto a que eu deva lhe explicar o que est 
acontecendo, considero que  uma tolice. Voc  o marido da garota.
-Sou seu marido no sentido menos estrito da palavra.
-Situao que deve voc retificar. O hei dito de um princpio. 
-A garota ... 
-Encantadora. 
-Nenhum homem que tenha um pouco de decoro...
-E tambm muito doce. 
-Maddy, pelo amor de Deus, sei razovel. 
-Parece-me perfeitamente razovel. -Agora a mulher discutia alegremente-. Segundo a lei,
ela j  sua esposa. Alm disso, est esperando um beb que levar seu nome. Voc mesmo
h dito milhares de vezes que no tem nenhuma inteno de casar-se com outra mulher. por
que no fazer de este um verdadeiro matrimnio?
Maddy deixou que a pergunta ficasse flutuando no ar, ps sua taa no aparador e saiu da
habitao. Uma vez que se partiu, Alex ficou olhando o cho com o olhar perdido.
Um verdadeiro matrimnio... Fechou os olhos para tentar afugentar este pensamento, mas
negar a realidade do mundo que o rodeava no ajudava em nada a aliviar a dor da solido
arraigada no mais profundo de seu ser. 


CAPTULO 09 

Aquela noite, depois do jantar Annie, a maior parte da qual se negou a comer uma vez mais,
Alex subiu  habitao dos meninos com um bloco de papel de desenho e um lpis. Para no 
assustar ao Annie mais do necessrio, pediu ao Maddy que estivesse presente durante a 
conversao. Encantada de lhe fazer este favor, o ama de chaves j estava sentada no bordo 
da cama quando ele chegou.
Annie se encontrava sentada  pequena mesa que estava perto da janela, com as mos 
fortemente apertadas sobre seu regao, os tornozelos cruzados e os ps descansando sobre atravessa de uma cadeira. Ao ver o Alex abrindo a porta, a pouca cor que ficava nas bochechasdesapareceu por completo. A pesar do evidente medo que lhe tinha, a moa no tentou, comotinha feito a noite anterior, deixar a cadeira para procurar um rinco escuro. Posto que ele 



duvidava de que ela se tornou valente de improviso, s podia supor que sua audcia se devia 
ao feito de que Maddy se encontrava perto. Era evidente que se sentia segura enquanto a 
rolia mulher estivesse ali para proteg-la.
A postura erguida do Annie permitiu ao Alex ver quo melhor a noite anterior, e o que viu odeixou consternado. Nos ltimos quatro dias, tinha perdido uma quantidade alarmante depeso. Segundo Maddy, no tinha comido virtualmente nada da noite em que ele se despediu 
da senhora Perkins; uns poucos bocados em cada comida, e nada mais. A julgar por sua 
fraqueza, sups que tinha comido assim de mal os trs primeiros dias de sua estadia; o qual 
explicava, mas no justificava, os intentos faltados da cuidadora por obrig-la a comer. 
Alex esperava que depois daquele encontro Annie colaborasse um pouco mais e deixasse deprivar-se da comida. Do contrrio, no teria mais remedeio que aperfeioar os mtodos dasenhora Perkins. Embora no duvidava de sua capacidade de dominar a jovem e obrig-la acomer, no gostaria absolutamente ter que recorrer a medidas to drsticas. A pobre j tinhasofrido o suficiente naquela casa.
A luz do abajur titilou nos rebeldes cachos azeviches que emolduravam seu pequeno rosto,
fazendo ressaltar a cor dos olhos, que, naquele momento, recordavam-lhe lagos azuis deguas cristalinas. Seu vestido, objeto de cor rosa apagado que seria mais apropriada para umamenina, ficava ainda mais folgado que antes. Seu muito gasta tecido se pegava ligeiramente 
s sutis curva de seu corpo. A perfeio em miniatura, isso era Annie, encantada de uma 
maneira que eclipsava s belezas mais voluptuosas que o tinham atrado no passado.
A sugesto do Maddy de que fizesse daquele um autntico matrimnio voltou a cruzar por sua 
cabea justo naquele momento. Embora odiava admiti-lo, inclusive para seus adentros, era 
uma idia tentadora. Incrivelmente tentadora. Os aspectos fsicos do fato de casar-se com umamulher to formosa no seriam inconveniente algum para ele; nem para nenhum outrohomem, em realidade. Mas mais que isto, fazer daquele um matrimnio verdadeiro seria muitomenos complicado que o plano original. Infortunadamente, a culpa que sentia por atrever-sesequer a pensar em algo pelo estilo constitua uma barreira que ele no parecia poder salvar.
Havia cdigos de decncia que um homem devia obedecer se queria respeitar-se a si mesmo,
e uma mulher com a discapacidad mental do Annie no era um objeto de desejo legtimo.
depois de subir a luz do abajur, Alex tambm se sentou  mesa. Ps sua cadeira frente  doAnnie, com a esperana de que pudesse sentir-se mais tranqila se ele guardava as distncias.
Dado que seu plano consistia em comunicar-se com ela mediante desenhos, sups que era um 
bom sinal que ela parecesse estar fascinada com o bloco de papel e o lpis. 
-Ol, Annie -disse ele em voz baixa. 
Apartando o olhar do bloco de papel de desenho, a moa olhou fixamente sua boca. Aexpresso de seu rosto revelava com maior claridade que as palavras que no tinha entendido

o que lhe disse. No era um comeo muito alentador. Tinha-lhe que fazer entender de algumjeito que a ingesto de mantimentos no tinha nada que ver com o fato de que sua cinturacrescesse cada vez mais. 
Cuidadosamente talher com um pano, o prato de comida do Annie se encontrava diante de um 
de seus cotovelos. As quase intactas racione de comida formavam montculos reveladores sob 
o linho. Apartando o bloco de papel e o lpis de um empurro, agarrou o prato, desentupiu acomida e levantou com o garfo umas quantas feijes verdes. Os expressivos olhos da jovemmulher refletiam uma obstinao que surpreendeu ao Alex, alm de lhe fazer graa. Annie em 
seguida apertou a boca com fora. Era evidente que no tinha a mais mnima inteno derender-se sem opor resistncia.
Muito mais nervoso do que a situao justificava, Alex esboou o que esperava que fosse umsorriso cheia de segurana e tocou o lbio inferior da jovem com o bicudo extremo de um 
feijo. Ante este contato, ela se tornou para trs sobressaltada, quase de forma reflete, ebaixou a vista para olhar os dentes do garfo sob seu nariz. Quando se moveu, a luz de umabajur de parede caiu diretamente sobre seu rosto. 
Durante um momento interminavelmente comprido Alex olhou fixamente sua boca. Logo, 
baixou a mo devagar. Esquecendo suas boas intenes de no dizer palavres em presenado Annie, e com a voz spera por causa da fria que sentia, estalou. 
-Essa puta desalmada! 
Sobressaltada pelo tom e o volume de sua voz, Maddy em seguida se levantou da cadeira. 
-Me de Deus! O que acontece? 
Alex tambm se levantou de sua cadeira e rodeou a mesa. Ao advertir aquele repentino 
avano, Annie tentou fugir. antes de que conseguisse faz-lo, ele a agarrou de um ombro. 
Embora a expresso de terror de seu rosto lhe partiu a alma, sujeitou-a para quepermanecesse sentada em seu lugar e sustentou seu queixo com uma mo. Com os olhos 


como pratos e o rosto to branco como o leite, a jovem ficou paralisada imediatamente, como 
se temesse inclusive respirar.
Certamente, tinha medo, pensou ele com mordacidade. Que motivo teria para no senti-lo?
Douglas tinha cometido o mais abjeto crime em seu contrrio, e agora era a prisioneira de um
homem que ela certamente considerava um monstro.
Tremendo por causa de sentimentos difceis de identificar, e mais ainda de controlar, Alex 
esfregou brandamente o lbio inferior do Annie com seu dedo polegar. Marcas de espetadas! 
Uma ira impotente buliu dentro dele.
-Ai, carinho, sinto-o muito. 
Maddy andava ao redor. 
-Senhor? 
Alex falou, tentando dominar-se. 
-Essa mulher lhe cravou um garfo no lbio.
" minha culpa", sussurrou uma vocecilla dentro da cabea. "Tudo isto  culpa minha". Nunca
em sua vida, dispusesse do tempo que dispusesse, voltaria a passar por cima a verificao da
autenticidade das referncias de um empregado. No se sentiria to mal se fosse ele quem
tivesse que pagar cara seu prprio descuido, mas era uma garota indefesa quem tinha sofrido
as conseqncias. E ele nunca poderia perdoar-lhe -Ay, pobre chiquilla. Hay algo que a esa 
mujer no se le haya ocurrido hacerte?


Com seus olhos verdes cheios de compaixo, Maddy se inclinou para ver as marcas no lbio do 
Annie. 
-Ai, pobre menina. H algo que a essa mulher no lhe tenha ocorrido te fazer? 
-Parece que no -disse Alex com voz desolada.
-E ns seguimos nos ocupando de nossas coisas abaixo, sem imaginar em nenhum momento 


o que aqui estava passando. -Maddy acariciou brandamente o cabelo do Annie-. Te juro, 
menina, que se o tivesse sabido lhe teria arrancado a essa velha bruxa os cabelos da cabea, 
um por um, at deix-la calva.
Annie no sabia por que eles se alteraram tanto por causa daquele par de feridas diminutasque j quase se curaram. Maddy tinha lgrimas nos olhos, e Alex parecia estaralarmantemente zangado. Ao princpio acreditou que estava furioso com ela.
Mas no... Ao elevar a vista para olh-lo, viu em seus olhos sombras negras de 
arrependimento, e no podia acreditar, nem por um instante, que ele pudesse fingir umsentimento semelhante. somou-se a esta impresso o fato de que lhe sujeitasse o queixo comincrvel suavidade, e acariciasse sua boca com o dedo polegar de uma maneira to delicadaque o fazia sentir um formigamento na pele. Era evidente que se sentia mal pela maneira emque a empregada a tinha tratado.
Sua reao foi completamente oposta da que Annie teria esperado dele. Ela o tinha imaginado 
como um homem desumano, a classe de homem que tomava tudo o que gostava, e que 
mandava ao inferno a todo aquele que tentava interpor-se em seu caminho. Entretanto, aliestava, com os rasgos de seu rosto tensos e seu robusto corpo tremendo de fria; uma fria 
que no era contra suya, mas sim da mulher que lhe tinha feito mal.
Durante aqueles ltimos dias, tinha vivido com medo do Alex. A altas horas da noite, quandosabia que todos os da casa estavam dormindo, ela permanecia acordada at que oesgotamento a vencia. Olhava fixamente a porta, com medo de que ele entrasse na habitao,
convencida de que isto s era questo de tempo. Naquele momento, jogou por terra a opinioque se formou dele; no gradualmente, para acostumar-se  mudana, mas sim de um sgolpe.
Como uma banda elstica que tivesse sido esticada at o ponto mximo e logo solta, Annie 
relaxou seu corpo por completo graas a uma irrefrevel sensao de alvio. As experinciaspassadas lhe tinham ensinado a ser cautelosa. Uma parte de seu ser no podia esquecer tofacilmente todas as vezes em que a tinham enganado para que confiasse nas pessoas, s paradescobrir quando j era muito tarde que sua inteno era lhe fazer danifico. Mas outra parte deseu ser queria desesperadamente confiar naquele homem.
Sem lugar a dvidas, era o cmulo da insensatez; mas fora ou no um engano, no pderesistir a fazer isto ltimo. Possivelmente fosse a delicadeza com que ele a tocou ou o remorsoque viu refletido em seus olhos, ou possivelmente simplesmente estivesse cansada de termedo. Naquele momento, estava muito fraco pela falta de comida e muito doda peloabandono de seus pais para analisar as razes daqueles sentimentos. S sabia que a calidez 
dos fortes dedos sobre sua pele a faziam sentir-se segura. Maravilhosamente segura.
Era uma loucura, uma grande loucura, mas isso era o que sentia.
Quando ele finalmente a soltou para voltar a sentar-se, Annie estava to absorta observando-o 


que apenas emprestou ateno ao Maddy, quem retornou tranqilamente  cama. Aquela 
noite Alex levava uma camisa branca de pescoo voltado e punhos largos, parecida comaquelas que tanto gostavam a seu pai. Mas at ali chegava toda semelhana entre eles.
arregaou-se a camisa sobre seus musculosos antebraos e, em lugar de uma gravata, levava 

o pescoo aberto, deixando ver uma parte de seu peito firme e bem formado. A pele douradabrilhava  luz do abajur, e seu tom escuro contrastava de maneira extraordinria com os olhos 
cor mbar e os dentes brancos e perfeitamente parecidos.
A diferena de seu pai e de todos seus arrogantes amigos, Alex Montgomery preferia acomodidade na moda no vestir, pensou ela, e seu estilo refletia uma indiferena natural. Noobstante, apesar disto, conseguia projetar uma presena imponente, elegante.
A lhe pisquem luz dos abajures de parede pulava sobre sua cabea, fundida com as 
alvoroadas ondas de seu cabelo cheio de reflexos lavrados pelo sol. Com a cabealigeiramente inclinada, seus rasgos finamente cinzelados pareciam delineados em mbar, e osplanos de seu rosto sombreados; o qual fazia ressaltar o anguloso perfil de seu nariz, a formaquadrada da mandbula e as profundas linhas que rodeavam a boca. Completamente cativada,
olhou larga e fixamente seus lbios: o superior, gravado com toda nitidez, e o inferior,
voluptuoso e mido.
-Tentamo-lo de novo? -perguntou ele. Embora sabia que tinha que ser sua imaginao,
Annie acreditou ouvir sua voz, seu timbre grave e profundo. Isto era algo que lhe passava commuita freqncia: imaginava que ouvia coisas, o qual sabia que no era possvel. Sons dementira, chamava-os; mas, mesmo assim, pareciam completamente reais. Isto sempre lhetinha passado com coisas familiares: a voz de sua me, o latido de um co, uma portada. Anica explicao que lhe ocorria era que via como se produzia o som, conhecia-o de cor, e,
como seu crebro esperava ouvi-lo, ela pensava que em efeito o percebia.
Mas nunca tinha ouvido a voz do Alex Montgomery. a de seu pai era mais dbil e menos rouca, 
de maneira que Annie sabia que no estava recordando-a e fazendo uma simples substituio.
No. Por inexplicvel que pudesse parecer, ela tinha imaginado ouvir a voz daquele homem. adaquele homem, no a de nenhum outro.
Sentiu um formigamento percorrendo suas costas. 
depois do que lhe tinha passado nas cataratas, ela no conseguia entusiasmar-se com a idiade travar amizade com um homem. Apesar de que desejava confiar no Alex, pareceu-lhenaquele momento excessivamente largo de ombros, uma enorme massa de msculos que seinterpunha entre ela e tudo o que apreciava de verdade no mundo: a casa de sua infncia,
seus pais, os bosques que tanto amava.
Alex voltou a agarrar o garfo, cravou outros feijes com ele e o levou a sua boca. Annie olhou 
ao Maddy com inquietao, esperando que ela pudesse intervir.
lhe tocando brandamente a boca, ele reclamou sua ateno. A determinao fazia brilhar seus 
olhos. 
-Agora est tratando comigo, Annie, e eu digo que deve te comer tudo o jantar. 
Preferia tratar com o Maddy, muito obrigado. Desejou poder lhe dizer essas palavras, entreoutras coisas. Acaso acreditava ele que ela queria ficar ali, encerrada naquela lgubrehabitao, um dia interminvel atrs de outro? Queria ir-se a sua casa. Para conseguir esta 
meta, tinha que estar magra a prxima vez que sua me fosse v-la.
Ao recordar a fora de suas mos, ela tragou saliva com nervosa consternao. Se ele decidiaobrig-la... Uma terrvel sensao de dor se concentrou em seu peito, lhe recordando a ocasioem que tragou sem querer um bocado de ma sem mastigar. Lhe encheram os olhos delgrimas que lhe fizeram arder os olhos e piscou com fria para tentar as afugentar.
O rosto do Alex ficou rgido. Um msculo de sua mandbula se esticava e relaxava 
alternativamente enquanto apertava os dentes. Fugindo seus olhos de maneira deliberada, 
insistiu. 
-Nada de tolices, jovencita. No sou a classe de homem que se comove com facilidade ao ver 
lgrimas. vais comer. Podemos fazer o da maneira fcil ou da maneira difcil. Isso depende 
totalmente de ti. 
Com a v esperana de lhe fazer trocar de opinio, tal e como o tinha feito com o Maddy, 
Annie comeou a inchar as bochechas. No instante mesmo em que ela fez isto, ele negou coma cabea e atirou o garfo no prato. Ante este brusco movimento, a garota se levantousobressaltada e em seguida se agachou, se por acaso Alex tivesse a inteno de lhe dar um 
sopapo, como sua me estava acostumada fazer. Imvel e com a mo suspensa no ar, ele aolhou fixamente durante um instante. Logo, logo que movendo os lbios, de uma maneira queindicava que possivelmente estivesse sussurrando, acreditou ver que dizia uma palavra queela nunca antes tinha visto nem ouvido ningum. Franziu o cenho em sinal de perplexidade. 


Ao ver a expresso de seu rosto, ele grunhiu. Logo, passou-se uma mo pela cara e piscou 
para voltar a fixar a vista nela. Annie tinha a desagradvel sensao de que ele a via como umproblema extremamente chato e que desejava de todo corao que desaparecessemilagrosamente. Quereria poder agrad-lo e, quando ele deixasse de piscar, j no estar ali.
depois de respirar fundo, ele disse muito devagar e de maneira sucinta: 
-Annie, carinho, voc no est gorda.
Se no estava gorda, ento, como chamava ele a aquele estado? Seu ventre ainda no estavaextraordinariamente grande, mas, ao ritmo que estava crescendo, no demoraria para est-lo.
Ao comeo da poca das mariposas, ao baixar a vista entre seus peitos, ela podia ver-se osdedos do p. Agora tudo o que via era seu ventre. E o que era ainda pior, seus vestidospareciam sujar-se sempre nesse lugar. No era de sentir saudades que seus pais j no aquisessem.
-Tem que comer, carinho. -Tinha-lhe trocado a expresso do rosto: deixou a um lado aseveridade para voltar-se lisonjeador-. No o faria por mim? No quero te obrigar a comer, e 
estou seguro de que voc tampouco quer que eu faa isso.
inclinou-se para aproximar-se ainda mais a ela e, para surpresa do Annie, ps uma mo sobre 
sua bochecha. Sua mo era to grande e to maravilhosamente clida que a moa sentiu umaforte tentao de ocultar a cabea ali para que ele no a visse chorar. A aquele passo, ele ia 
pensar que no era mais que uma menina grande e chor, e, por razes que ela no alcanavaa entender naquele momento, no queria que aquele homem pensasse isso.
-me escute bem. Voc no est gorda. -Sonriendo ligeiramente, ele repetiu as ltimaspalavras-: No est gorda! -Depois de dizer isto, apartou o prato de um empurro e alargoua mo para agarrar o bloco de papel de desenho-. Queria evitar isto, mas ao parecer no ficamais remdio. me empreste muita ateno, vale? S demorarei um instante.
Quando ele comeou a desenhar, uma profunda ruga sulcou sua frente. Curiosa, a seu pesar, 
Annie se secou as midas bochechas e ficou direita em seu assento para poder ver. Emborasempre o tinha feito em segredo, adorava desenhar. Alex parecia estar fazendo a figura decorpo inteiro de uma mulher vista de perfil.
Enquanto o via desenhar, Annie percebeu com a extremidade do olho um movimento de seuslbios. Elevou a vista a tempo para v-lo terminar a frase com estas palavras:
-Temo-me que no o fao muito bem.
Ela estava de acordo. Definitivamente, o hombretn no tinha dotes artsticas. A mulher queestava desenhando tinha uma cabea que mas bem parecia uma bola disforme, e seu cabelo, 
um punhado de vermes retorcidos. E a coisa no fazia mais que piorar. Seu nariz era como opico de um pssaro e os braos pareciam cordas muito grosas, com extremos desfiados emlugar de dedos. No era somente um desenho muito mau, era um desenho horrvel.
Dado que sua me no lhe permitia emitir som algum desde fazia muitos anos, ao Annie 
estranha vez dava vontade de rir. Mas este era um desses estranhos momentos. Alex pareciamuito srio fazendo aquele desenho, com o cenho franzido e os dentes cravados em seu lbioinferior em sinal de concentrao. Era evidente que estava fazendo um grande esforo paraque lhe sasse bem. Mas, apesar de que tentou melhorar o desenho, este no deixou de ser opior que ela jamais tivesse visto.
Teve que conter a respirao para reprimir a risita de cmico espanto que tentava subir porsua garganta. O elevou a vista naquele preciso instante, e por um momento pareceu esquecertodo o relacionado com o desenho. Cheios de perguntas, seus olhos procuraram os da garota.
Annie teve a sensao de que ele se deu conta de que ela estava a ponto de soltar umagargalhada. Isto no pareceu incomod-lo, s confundi-lo. E lhe preocupar.
Naquele momento, Annie teve uma sensao muito estranha. Era como se ele, em lugar deolh-la simplesmente, estivesse-lhe vendo a alma; como se pudesse ver em seus olhos costureque outros nunca tinham descoberto e que provavelmente nunca percebessem. intensificou-sea sensao de opresso em seu peito. No pde apartar a vista dos olhos do homem, no pde 
mover-se para romper a tenso. 
Finalmente, ele pareceu conseguir desfazer-se daquilo que lhe estava preocupando, fosse oque fosse, e comeou a desenhar de novo. Esta vez lhe ps um enorme ventre  mulher. Sob a 
mesa, Annie se tocou a cintura com uma mo. Estava-a desenhando a ela? Como se tivesse 
advertido sua reao, ele voltou a elevar a vista. As comissuras da boca lhe tremiam 
ligeiramente.
-J sei que no  um desenho muito obtido, mas espera um momento.
Obtido? Esta era uma palavra que ela no conhecia. Desconcertada, voltou a dirigir seu olhar 
para o desenho.
Alex lhe deu os ltimos toques. Logo, ficou cmodo para observar sua obra. Aparentemente 



satisfeito, ensinou-lhe o bloco de papel para que ela tambm pudesse v-la. Para sua totalsurpresa, advertiu que dentro do sobressalente abdmen da mulher ele tinha desenhado um 
beb, reconhecvel como tal s por seu gorrito de volantes, seu traje e seus patucos. Ela ficou 
olhando-o durante uns interminveis segundos.
-Beb -disse ele excessivamente devagar, lhe dando golpecitos ao desenho enquanto falava. 
Assinalando o prato de comida, e logo a linha que representava a boca do menino, adicionou-:
Tem que comer. Para alimentar ao beb. Entende, Annie? No est engordando. H um beb 
crescendo dentro de ti. 
Olhando-o fixamente, com uma expresso de aturdido assombro, Annie rodeou sua cintura 
com os braos. A incredulidade deveu refletir-se em seus olhos. Como se se sentisse 
intolerablemente frustrado, ele atirou o lpis sobre a mesa. 
-Maddy, tenta-o voc. Ela no me entende. 
Maddy se levantou da cama e se aproximou da mesa. Fingindo sustentar a um beb em seusbraos, comeou a balan-lo com um sorriso de orelha a orelha. Logo, assinalou a cintura do 
Annie. 
-Um pequen, menina. No te parece todo um milagre? Seu prprio beb. Mas deve comer 
para que cresa so e forte como um carvalho. 
Annie entendia todo isso. O problema era que no podia acredit-lo. Um beb? Estavam-lhedizendo a srio que tinha um beb dentro de seu corpo? Baixou a vista para olhar o ventre.
Enquanto Annie se olhava a cintura, Alex aproveitou a ocasio para observ-la atentamente.
Em um momento determinado, enquanto estava pintando, teria podido jurar que ela esteve aponto de soltar uma gargalhada e, de vez em quando, a expresso de seu rosto dava aentender que podia compreender o que se falava.
No obstante, suas capacidades mentais ou a falta destas no eram o problema naqueleinstante. O que importava era que ela finalmente entendesse o que lhe estava fazendo crescer 
a cintura. Alex soube que ela tinha entendido a mensagem ao ver a expresso de terror queaparecia agora em seus olhos azuis e a maneira em que se reclinou na cadeira para deixardescansar as mos sobre o abdmen. 
Era evidente que se estava perguntando como teria conseguido instalar-se dentro dela umbeb. Como poderia ele explicar-lhe Annie colocou a gema de um de seus dedos em seu 
umbigo atravs das magras capas de sua roupa, e a moveu em crculos.
Alex lanou um olhar ao Maddy. Arqueando com espera suas sobrancelhas vermelhasgrisalhas, o ama de chaves o olhou aos olhos.
-Nem te ocorra -lhe disse ele. 
-Mas ela acredita que...
-No me importa se acreditar que se tragou uma semente e esta germinou dentro dela. Euno vou fazer um desenho. Repito, no o vou fazer.
-Pobre menina! 
Alex estava completamente de acordo com estas ltimas palavras. Sem lugar a dvidas, Annie 
era uma pobre menina, e era verdadeiramente vergonhoso que a tivessem posto emsemelhante transe. 
Ao olh-la naquele momento, quase pde v-la levando a um beb em braos, com suaaveludada cabea recostada no peito dela. Embora fosse uma idiota, isto no significava quefora incapaz de sentir amor. Quem era ele para dizer o que ela pensava ou sentia respeito dealgo?
Enquanto estas perguntas assaltavam a mente do Alex, outras muitas comeavam a assedilo, 
e no tinha respostas para nenhuma delas. S sabia, com uma repentina e quase cegadora 
claridade, que Maddy tinha toda a razo: ningum tinha direito a arrebatar a um beb dosbraos de sua me. Ningum. Deveu estar louco para considerar sequer esta possibilidade.
antes de casar-se com o Annie, convenceu-se a si mesmo de que esta era a nica coisadecente que podia fazer-se. Tinha-o considerado um dever, no s para com ela, mas tambmtambm para com o filho de seu irmo. Naquele instante nenhum daqueles motivos se tinhaem p.
Uma sensao abrasadora invadiu os olhos do Alex enquanto via que Annie seguiaescrutinando seu umbigo com um dedo. Com um forte chiado da cadeira, ficou de p. Embora

o tivesse prometido a seus pais, como poderia ser capaz de separ-la do beb depois de que
este nascesse? 
A resposta era singela: de maneira nenhuma, no poderia faz-lo. 
Pouco mais de uma hora depois, Annie ficou ao fim a ss. A luz da lua se vertia em seu 



dormitrio, dividida em franjas largas pelos barrotes da janela. Pintados de prata, os mveis e 
os brinquedos dos meninos, esquecidos desde fazia j muito tempo, pareceram cobrar vida.
Cruamente delineados pelas sombras, os relevos esculpidos da porta do armrio pareciamformar o rosto de uma pessoa. O cavalinho balancim que se encontrava em um rinco pareciamover-se ligeiramente. Suas crinas e sua cauda se ondulavam como se uma suave brisa osacariciasse. Annie imaginou que inclusive podia ouvir vozes e risadas infantis, apenasperceptveis, terrivelmente longnquas, provenientes de um passado j remoto.
Uma sensao maravilhosa se apropriou dela. Se Alex Montgomery e Maddy no estavam 
mentindo, teria um filho em muito pouco tempo. Seu prprio beb. Esta idia fez que lheformasse um n de felicidade na garganta. s vezes se sentia muito s vivendo no meio dosilncio. Os nicos mascotes que podia ter eram as criaturas selvagens que ela domesticava:
os animais do bosque e alguns ratos do apartamento de cobertura de seus pais. No tinhanenhum amigo humano, nem esperana alguma de poder o ter.
Um beb... Annie se rodeou a cintura com os braos. Estava to feliz que lhe custava conter-
se. Teria algum a quem amar. Aquilo era o melhor que lhe tinha passado na vida. Tanto, quequase tinha medo de acreditar que fosse verdade.
depois de sentar-se com as pernas cruzadas no centro da cama, posou as mos de forma 
reverencial sobre seu ventre. Alex parecia estar convencido de que ali dentro havia um beb.
Por mais que o tentava, Annie no podia imaginar como as tinha hbil para entrar nela. E o queera mais importante, como conseguiria sair dali?
Tirando a camisola de um puxo para explorar melhor seu corpo, meteu-se de novo a gema dodedo no umbigo. perguntou-se se esse buraco conduziria diretamente a seu estmago. Noparecia ser assim. Franzindo o cenho, pressionou com tanta fora como pde at que comeoua sentir dor. No, definitivamente o beb no tinha entrado por aquele lugar, e tampouco eramuito provvel que pudesse sair por ali.
Quando Annie era uma menina, sua me lhe disse que as fadas traziam para os bebs e que osdeixavam nas soleiras das casas durante a noite. Esta sempre lhe pareceu uma explicaoperfeitamente lgica, pois, se no os traziam as fadas, do que outro lugar podiam vir os bebs?
Inclusive as criaturas do bosque recm-nascidas pareciam aparecer junto a suas mes comopor arte de magia.  exceo dos pssaros, certamente. Annie sabia que eles saam dos ovos.
As mamas pssaros, igual s galinhas domsticas, punham os ovos e logo se sentavam sobre 
eles at que seus pintinhos saam do casca de ovo.
Seria possvel que os bebs humanos tambm sassem de ovos? Ao melhor sua me tinhamentido e as fadas no traziam para os bebs, depois de tudo. Esta simples ideia fez que lheacelerasse o corao. Voltando a lev-las mos  cintura, apalpou a ligeira protuberncia. Sehavia um ovo ali dentro, este j era muito maior que a maioria. Certamente sairia em muito 
pouco tempo.
E logo, o que? Ela pesava muito para sentar-se sobre um ovo sem romp-lo. Ento, o que se 
supunha que devia fazer com ele? Se os ovos se esfriavam, os pintinhos que se encontravamdentro nunca saam do casca de ovo. Annie sups que morriam ali.
Apesar de que era uma calorosa noite do vero, estremeceu-se ante a idia de que o bebpudesse morrer dentro de seu ovo por falta de calor. deitou-se e se cobriu at o queixo com oedredom. No podia permitir que seu beb muriese. Simplesmente, no podia permiti-lo. Tinhaque pensar em uma maneira de mant-lo abrigado. Mas como?
O calor do edredom comeou a envolv-la e Annie encontrou a resposta a esta pergunta.
Quando seu ovo sasse, podia deitar-se junto a ele sob o edredom. O calor de seu corpomanteria a seu beb calentito at que sasse do casca de ovo. 

Alex se serve outro copo de usque, tentou recordar quantos tinha bebido at ento e logodecidiu mandar ao diabo todo clculo. No queria pensar. No queria sentir. Seu nico objetivoera embebedar-se at cair de bruces. 
Pelo Annie, pensou, elevando o copo. depois de tomar dois goles, o usque estava caminho deseu estmago, queimando cada palmo do percurso. Apertou os dentes e se secou a boca com

o dorso da mo. 
-Senhor! 
O escandalizado sussurro rasgou o silncio. Alex se inclinou para frente em seu assento,
voltou-se e, com um esforo pertinaz, obteve finalmente centrar sua ateno no ama de
chaves. 
-Ol, Maddy. Voc gostaria de me acompanhar? Levando-as mos a seus amplos quadris, ela
atravessou com passo firme a catapora persa. Lanou um furioso olhar  garrafa de usque e 


estalou a lngua em sinal de desaprovao. 
-O que se prope voc? por que esteve bebendo to ultimamente? Esta manh cedo j estava 
levantando o cotovelo, e agora segue nas mesmas. Isto  muito estranho em voc, se no lhe 
importar que o diga. E usque! Pensei que gostava do conhaque.
-de vez em quando, Maddy, um homem necessita algo um pouco mais forte que o conhaque.
-Pensa que isso solucionar seus problemas? Agarrou completamente despreparado ao Alex 
com esta pergunta.
-No espero solucionar meus problemas. S quero esquec-los. -Inclinou o copo para ela-.
Te desejo a melhor sorte do mundo. 
-Hum! E que problemas est tratando de esquecer?
Alex considerou a pergunta atentamente.
-No tenho nem idia. 
-Que Deus nos ampare.
Ela se sentou no bordo do brao da cadeira que estava em posio diagonal a do Alex. depois
de observ-lo cuidadosamente durante vrios minutos, tempo durante o qual Alex voltou a 
encher seu copo de usque e uma vez mais o esvaziou, falou.
- a menina, no  verdade? Isso  o que lhe preocupa. sente-se voc obrigado a cumprir a
promessa de devolver-lhe a sua me, mas seu corao lhe diz que isso seria um engano, um
muito grave engano. 
Maddy sempre dava no prego. Alex se serve outro copo de usque e uma vez mais se inclinou
para frente em seu assento, para apoiar os cotovelos sobre os joelhos. Mas encontr-las
joelhos resultou ser um tanto difcil. Quando finalmente o conseguiu, descobriu que tremiam 
mais que uma cadeira de trs patas.
-Que diabos vou fazer, Maddy? -perguntou finalmente.
-O que sempre faz -replicou ela com doura.
-E o que  o que sempre fao? -Perguntou-o bruscamente, irritado pelo que interpretava
como uma evasiva. 
-O correto. 
Alex deixou escapar um grunhido.
-E o que  o correto? Dava-lhe minha palavra a seus pais, maldita seja! Nunca em minha vida
faltei a minha palavra.
Houve um comprido silencio. Finalmente, Maddy o rompeu. 
-Voc tambm lhe deu sua palavra a Deus, no  verdade? Parece-me que na hora de
escolher entre cumprir uma promessa feita a Deus e outra feita a um homem, sempre se deve
optar Por Deus.
Alex se Rio amargamente.
-Dito dessa maneira, sonha muito singelo, mas no o . Provavelmente vs procurar a 
escopeta se te disser isto, mas lhe direi isso de todos os modos. Desde que traje ao Annie a 
casa, tenho descoberto que meu irreprochvel comportamento no carece de mcula. D-me
um pouco de medo ficar a ss com ela.
-E por que?
Alex elevou a vista, sentindo-se sbrio de repente.
-Deus santo, Maddy! Tambm  necessrio que te faa um desenho? A garota poder ter uma 
discapacidad mental, mas, alm disso,  preciosa.
Ao ver a expresso de desconcerto que tinha aparecido no rosto do ama de chaves, ele
amaldioou em voz baixa. 
-Para diz-lo em palavras que possa entender, sou um bode libidinoso. Fica o suficientemente
claro? 
Os olhos verdes do Maddy comearam a brilhar. 
-Ah! 
-Ah? Isso  tudo o que pode dizer? Por Deus, Maddy. No estou brincando. A manh em que a 
traje a casa... -interrompeu-se, agitou o licor dentro do copo at salpicar, e logo deixou 
escapar um suspiro de cansao-. Se permitir que fique aqui, estar muito perto em todo 
momento. Preocupa-me que depois de um tempo os poucos escrpulos que ficam possam
desaparecer para sempre.
-Voc nunca tocaria a essa garota, a menos que ela assim o quisesse, e sabe muito bem. E
inclusive me atreveria a dizer que mataria a qualquer homem que o tentasse. Assombra-me
que tenha deixado que Douglas partisse so e salvo daqui.
-Quase no o consegue -reconheceu Alex-. Houve um momento no que estive a ponto de
estrangul-lo. Agora me pergunto se no me parecerei com ele mais do que eu acreditava.
-No seja ridculo. Vocs no se parecem em nada. Nunca se pareceram, nem sequer quando 




eram pequenos. Ele abatia aos pajarillos das rvores. Voc os curava e cuidava deles at que 
se repunham. Lhe dava patadas ao co. Voc pedia comida na cozinha para ir dar se a e fazerque se sentisse melhor. Com o tempo, ele se voltou ainda mais cruel, e voc no fez mais quesegui-lo a todas partes, tratando de emendar seus enganos. -A mulher se inclinou para frentepara pr sua afetuosa mo sobre um dos ombros de seu chefe-. Alex, meu filho, voc se 
parece com o Douglas tanto como o dia de noite.
Ele fechou os olhos, apertando-os com fora.
-O que fez ao Annie no se pode emendar, Maddy. E tenho terror de feri-la mais ao obrig-la a 
ficar aqui.
-O amor no tem borde afiados -lhe recordou ela-. E muito amor  o que voc dar ao 
Annie se lhe permite ficar aqui. Talvez no a classe de amor que um homem geralmente lhe dsua esposa, mas amor em todo caso, e isto  muito mais do que ela receberia de outramaneira. E quanto a seus temores, tal e como eu vejo as coisas, voc j depenou o ganso aocasar-se com a garota. Agora tudo o que pode fazer  esperar a ver o que se faz com as 
plumas.
depois de dizer estas soube palavras, Maddy saiu do estudo. Depois de fech-la porta, Alex 
permaneceu comprido tempo naquela habitao, olhando fixamente o intrincado desenho dacatapora. Quando comunicasse aos Trimble a deciso que tinha tomado com respeito ao 
Annie, seguro que foram sair voando plumas pelo ar. Uma verdadeira tormenta de plumas. 

CAPTULO 10 

Uma terrvel dor de cabea e uma animao to forte para levantar os mortos de suas tumbasdespertaram ao Alex pouco depois do amanhecer do dia seguinte. ouviam-se vozes chillonas. 
O alvoroo lhe recordou a memorvel ocasio em que Annie cravou seus dentes no dedo da 
senhora Perkins. No era algo que pudesse ignorar facilmente, com ressaca ou sem ela.
Perguntando-se que classe de problemas estaria ocasionando sua esposa naquela ocasio,
grunhiu e se desceu da cama.
depois de fic-la roupa a toda pressa, Alex saiu correndo da habitao principal para dirigir-seao corredor do primeiro piso e seguiu os gritos at chegar ao quarto dos meninos. Descalo ecom a camisa mdio aberta, entrou na estadia, esperando ver combatentes retorcendo-se nocho. Em troca, encontrou ao Maddy, trs criadas, Frederick o mordomo e Henry, o criadoencarregado de tarefas diversas, reunidos em torno da cama do Annie. Uma das criadas 
sustentava em seus braos um monto de lenis cuidadosamente dobrados. 
-Que diabos est acontecendo aqui? -gritou Alex.
Aparentemente sem saber o que dizer, Maddy se voltou para ele com as mos elevadas em 
sinal de impotncia. 
-Yvonne entrou na habitao com o fim de limpar e trocar os lenis, como o faz todas as 
manhs. 
-E o que? 
Metendo-os abas da camisa nas calas, Alex atravessou o quarto. Jogou uma ampla olhada efez um balano da situao. Annie, que levava uma camisola branca quase transparente de 
mangas largas, parecia ser o foco de ateno. encontrava-se sentada com as pernas cruzadasno centro de sua cama desfeita, com as torneadas pernas descobertas at os joelhos e osbraos estendidos como se se estivesse protegendo dos intrusos. Ao olh-la, Alex pensou emuma patinadora que acabava de cair sobre o frgil gelo e que tinha medo de que a gente alireunida se equilibrasse sobre ela com a inteno de resgat-la, rompesse o gelo 
estrepitosamente e ao final se afundassem tuda na gua geada.
esfregou-se a cara com uma mo e piscou, em parte para espantar o sonho, mas mais que 
nada porque este j era um hbito nervoso. Maddy dizia que parecia um idiota quando fazia 
isso. Mas, bom, o que importava.
Quando sua viso se limpou, Annie seguia sentada no mesmo lugar, e sua postura expressavacom maior claridade que as palavras que no queria que eles se aproximassem. Alex nopodia desfazer-se da sensao de que estava tratando de proteger algo. Pergunta-a era: o 
que? Um monto de roupa de cama enrugada?
-No entendo nada. -Maddy pensava em voz alta-. Ontem se levantou sem armar tanto 
confuso -olhou ao Alex-. O que devo fazer? 
Alex tinha vrias idias, a primeira das quais era prescindir do Frederick e Henry. No podia 
acreditar que Maddy tivesse permitido que dois homens entrassem ali enquanto sua esposaestava vestida com to pouco recato. Seus mamilos brilhavam como dois pequenos faris queemitissem uma luz de cor rosada atravs da camisola. Tinha a plena certeza de que, se ele o 



tinha notado, Frederick e Henry tambm o tinham feito.
Assinalando a sada com o dedo indicador, gritou:
-Fora daqui!
Todos se sobressaltaram, menos Annie. Ao Frederick lhe saram os olhos das rbitas e seu 
rosto ficou de uma cor vermelha intensa. Henry, o menos inteligente dos dois, arranhou-se
uma orelha e cravou seus olhos azuis no patro com uma expresso inquisidora.
-S viemos a ajudar, senhor Montgomery. 
-Fora! -repetiu Alex entre dentes. Comeou a sentir-se como se sua cabea fosse um melo
arrojado ao duro cimento-. Saiam daqui agora mesmo! Este  o dormitrio de minha esposa, 
pelo amor de Deus!
Criada-las, todas to nervosas como pajarillos, apressaram-se a sair dali. Alex agarrou ao 
Yvonne, a portadora dos lenis, do cotovelo.
-Voc no! 
Soltando um chiado de terror, a criada ficou paralisada. Olhava ao Alex como se tivesse
chifres. Como nunca lhe tinha elevado a voz a essa mulher, ele no pde menos que
perguntar-se por que ela parecia lhe ter medo.
Soltou o brao ao Yvonne e esperou at que os dois homens e as outras duas criadas saram 
da habitao. S ento se voltou de novo para o Annie. No extremo superior de suas coxas 
esbeltas, um impreciso tringulo de tom escuro se delineava com claridade sob a camisola. 
Suas pernas estavam cruzadas. sentou-se com as pernas cruzadas frente a dois homens!
Lanou um olhar hostil ao Maddy. 
-Poderia me explicar o que passa aqui?
-Como lhe estava dizendo, senhor, por razes que no consigo entender, hoje se nega a sair
da cama. 
-No  isso o que quero saber! Quer dizer... -Alex se interrompeu. depois de olhar durante
um segundo os olhos verdes e cndidos de sua ama de chaves, soltou um grunhido e voltou a 
esfreg-la cara com uma mo, esforando-se por controlar seu mau gnio-. No futuro, Maddy, 
agradeceria-te que no deixasse entrar em nenhum homem no dormitrio de minha esposa,
at que ela se encontre vestida de uma forma adequada.
Finalmente Maddy pareceu entender, e isto se refletiu na expresso de seu rosto. 
-Ah. -Olhou ao Annie de soslaio-. Certamente. O que passou foi que... bom, pois tivemos
que enfrentar a uma situao muito delicada aqui, senhor. Uma emergncia, por assim diz-lo. 
E eu... 
-Um incndio  uma emergncia. Uma rvore que cai sobre a casa, isso  uma emergncia.
Mas... -assinalou com a mo-, isto no o ! No me agrada que tenha permitido que esses
homens a comam com os olhos. Ela poder ser idiota, mas voc no o .
-Sim. -Duas manchas de forte cor rosa apareceram em suas bochechas cheias-. Agora que


o menciona, posso entender sua preocupao. De verdade. Peo-lhe perdo. No me passou
pela cabea. Como ela  to ingnua, no me ocorreu que... -interrompeu-se, ficando tinta
at a raiz do cabelo-. Bom, Frederick e Henry so como parte da famlia.
O olhar do Alex se deslizou pela parte dianteira da camisola do Annie. A seu julgamento, a 
palavra ingnua no servia para descrever a anatomia de sua esposa. Tratando de encontrar
uma tranqilidade que seguia lhe sendo esquiva, Alex respirou fundo e soltou o ar devagar.
estava-se comportando como um marido possessivo e, alm disso, sua reao tinha sido um
tanto exagerada.
Dirigindo todo o impacto de seu olhar hostil para o Yvonne, perguntou: 
-H alguma razo para que tenha tanta pressa em trocar os lenis de minha esposa?
-No... No senhor. S que desde que ela chegou a esta casa adotei o costume de arrumar
sua primeiro habitao. antes de subir o caf da manh, tirar o p e todo o resto. 
Com fingida pacincia, Alex respondeu.
-Bom, pois como hoje minha esposa parece pouco disposto a comear o dia, troca sua rotina,
Yvonne, e deixa sua habitao para o final. Ao melhor quando retornar, ela mostrar mais
entusiasmo por sair da cama. -Quis olhar seu relgio, mas caiu na conta de que, com as
pressas, no o tinha pego-.  bastante cedo, no  verdade? No me agradaria muito que
despertasse a esta hora para trocar os lenis de minha cama. 
A loira Yvonne assentiu com a cabea e fez uma reverncia. 
-Sim... sim, senhor. Alex olhou ao Maddy. 
-Se Annie quer ficar em cama um domingo pela manh, no posso mais que aplaudir seu bom 
julgamento. Deixem dormir, pelo amor de Deus.
Depois de dizer estas palavras, retornou  habitao principal com a inteno de seguir o bom
exemplo do Annie e vadiar o resto da manh. depois de tudo, era domingo. Um homem muito 


estranha vez tinha a oportunidade de no fazer nada durante todo um dia.
Acabava de desaboto-la camisa quando ouviu que batiam na porta com golpes fortes. Ainesperada visita fez que sentisse uma dor que perfurava suas tmporas e fizesse uma careta.
Depois de cruzar a habitao a grandes pernadas, abriu a porta bruscamente.
-E agora o que acontece? 
Maddy se encontrava no corredor. 
-Acredito que ser melhor que voc venha comigo. Annie se est comportando de uma 
maneira extremamente estranha, e no sei o que pensar.
antes de que Alex lhe respondesse, sua ama de chaves, claramente fora de si, deu meia volta.
No ficou mais remedeio que seguir a  habitao dos meninos. Ao entrar nesse quarto, viu 
que Annie finalmente tinha decidido sair da cama e parecia estar procurando algo entre ascapas da roupa de cama.
-Parece que perdeu algo -observou ele com uma voz afvel que no deixava traslucir sua 
irritao-. Isso o que tem de estranho? 
-Que o que tem de estranho? O que pode ter perdido? 
-O que sei eu! -Com sua dor de cabea piorando a cada segundo que acontecia, Alex estevea ponto de soltar um grunhido para ouvir sua prpria voz. Pensaria-o duas vezes antes devoltar a beber uma garrafa de usque inteira-. E isso o que importa?
Salvando a distncia com trs largas pernadas, Alex alcanou a cama. Annie, que s naquelemomento pareceu dar-se conta de que ele tinha entrado na habitao, pegou-se um grandesusto quando o viu junto a ela. Logo, inclinando-se para frente, abriu os braos de maneiraprotetora ao redor de sua roupa de cama. Para lhe indicar que no tinha nenhuma inteno detocar nada, Alex cruzou os braos e a viu levantar o lenol que se encontrava na parte superiore jogar uma miradita debaixo dela. Curioso, inclinou-se de lado e estirou o pescoo para jogartambm uma olhada. No havia nada. Era mais que evidente que a garota era uma idiota.
Posto que isto no era uma novidade para ningum, e muito menos para o Maddy, Alex no 
podia entender por que o tinha chamado. A seu modo de ver, uma garota estranha 
comportando-se de maneira estranha no era nada estranho. 
-Talvez h percevejos -disse ele, sabendo antes de fazer semelhante insinuao que Maddy 
se decomporia ante a s idia de que pudesse tratar-se disso.
-Nesta casa? Remoa-a lngua!
Sentindo um prazer insalubre por ter conseguido despertar a ira do ama de chaves, voltou a 
centrar sua ateno no Annie. E viu que depois de olhar atentamente debaixo de sua roupa decama, ela passou a procurar debaixo do travesseiro. Ao no encontrar nada, comeou a dargolpecitos sobre o edredom, apalpando cuidadosamente suas dobras, como se estivesseprocurando vultos.
- indubitvel que est procurando algo -disse Alex-. E que no o encontrou. -Olhou aoMaddy com as sobrancelhas arqueadas-. Poderia ser uma cinta para o cabelo. 
-No levava nenhuma cinta quando se deitou.
Alex jogou uma olhada s mos da garota. No levava anel alguma. Pensou que era necessrioretificar isso. Um anel de ouro, singelo. Sups que teria que comprar um em seguida. Mas, por 
outra parte, possivelmente fosse melhor lhe perguntar a sua primeiro me. Era possvel quehouvesse uma razo para que Annie no tivesse anis nem colares. Ao melhor os tragava ou 
fazia qualquer outra coisa espantosa.
-Uma jia? -Fez a pergunta por dizer algo, pois sabia qual seria a resposta do Maddy. 
-Ela no tem jias.
Deixou escapar um suspiro de exasperao.
-Bom, enfim, parece estar convencida de que perdeu algo, Maddy. Talvez algo imaginrio. por 
que no lhe segue a corrente?
-Mas no lhe parece que seu comportamento  muito estranho?
Alex lanou um olhar de assombro  mulher. -Que esperas? Que se comporte como umagarota normal? -Quase cego pela dor de cabea que o martilleaba detrs dos olhos, dirigiu-se 
 porta-. lhe Siga a corrente. Ajuda-a a procurar. Toma uma taa de caf enquanto ela 
procura. No me importa, Maddy. S me deixe descansar. 
Seu tom de voz enfureceu ao Maddy, que lhe gritou. 
-Acredito que deveria seguir bebendo para que lhe cure a ressaca. Isso  o que penso!
A s idia de beber fez que lhe revolvesse o estmago. 

Pouco depois do meio-dia, Alex despertou para ouvir que chamavam de novo  porta. Nopodia acreditar do todo que, justamente o dia em que tinha decidido dormir at tarde, no 



pudessem deix-lo tranqilo.
-Em seguida vou! -gritou-. Deixe j de esmurrar essa maldita porta! No estou surdo.
depois de fic-los calas com dificuldade, alargou a mo para agarrar sua camisa e comeou 
aponrsela enquanto cruzava a habitao. J tinha conseguido colocar um brao em uma das 
mangas quando Maddy gritou: 
-Dese pressa, senhor! Me perdeu! 
-Que te perdeu? -Acelerando o passo, Alex se lanou para a porta com a camisa enrolada ao
redor de um cotovelo. Abriu a porta de par em par e lhe dirigiu um olhar de incredulidade a sua
ama de chaves-. Onde te perdeu, por amor de Deus?
-Se soubesse, no me teria perdido, no crie? 
Passando por cima este comentrio sarcstico, Alex saiu ao corredor. 
-partiu-se de casa?
Maddy corria junto a ele para dirigir-se  habitao dos meninos.
-Quando a levei a planta baixa, fechei todas as portas com chave. Se saiu, teve que faz-lo
por uma janela. -Soltou um chiado de angstia e se levou os ndulos de uma mo  boca.
Com voz apagada, exclamou-: Se lhe aconteceu algo, nunca me perdoarei isso. Desapareceu
em um abrir e fechar de olhos. Assim de rpido. Eu a estava vigiando, senhor. O juro pelo mais 
sagrado.
Alex se deteve no patamar, agarrou o corrimo e se inclinou para jogar uma olhada no saguo. 
-Annie! 
-Isso no servir de nada, o asseguro. removi cu e terra para encontr-la. E, embora eu no
goste de reconhec-lo, no acredito que esteja em casa. 
Com o pulso comeando a martillearle as tmporas como um mao, Alex se dirigiu s escadas. 
Annie poderia estar perambulando sozinha pelo bosque naquele estado. Imaginou subindo a
uma rvore e caindo. Ou tropeando com uma raiz. Milhares de acidentes de todo tipo
poderiam lhe acontecer. Baixando os degraus de trs em trs, gritou por cima do ombro. 
-te acalme, Maddy. No  to catastrfico que tenha sado. Ela conhece muito bem a zona. 
muito provvel que tenha ido a casa de seus pais.
A rellenita mulher corria com seus exasperantes passados curtos para tratar de seguir o ritmo
ao Alex. Quando ele chegou  planta baixa e provou a abrir a porta principal, ela se levou as
mos aos quadris.
-Disse-lhe que tinha fechado todas as portas com chave.  que dvida de minha palavra?
-Certamente que no. S quero me certificar. -Alex correu por toda a casa tentando abrir as
demais leva. Todas estavam fechadas com chave, tal e como Maddy lhe havia dito. 
-No acredito que tenha comprovado se todas as janelas tm o ferrolho jogado. Maddy franziu 
os lbios. 
-No, no me ocorreu faz-lo. Sinto muito, senhor. Nunca teria imaginado que ela tentaria sair
por uma janela. Mas estou acostumado a jogar todos os ferrolhos. 
Alex sabia que Maddy, em efeito, sempre tomava cuidado de assegurar as janelas com ferrolho 
ao as fechar. 
-No perdemos nada revisando todos os ferrolhos. Se algum est aberto, ser um bom indcio 
de que ela saiu que casa.
Depois de chamar gritos aos criados, Maddy organizou uma equipe eficiente para que os 
ajudasse a percorrer toda a casa. Uns poucos minutos depois, Alex voltou a encontrar-se com 
ela no saguo.
-O ferrolho da janela do salo estava aberto.  possvel que tenha sado por a. -Ao ver a
expresso de angstia no rosto do ama de chaves, suavizou seu tom de voz e a agarrou 
firmemente pelos ombros-. Maddy, basta j. Seguro que est bem. irei vestir me para ir a 
casa dos Trimble. No h dvida de que a encontrarei ali.
Ela assentiu com a cabea e se soou o nariz.
-S peo a Deus que no lhe tenha passado nada.  uma criancinha encantadora. Nunca me
perdoaria isso.
-Estou seguro de que no lhe aconteceu nada. Embora eu no goste de reconhec-lo, agora
que Douglas se partiu daqui, duvido de que haja em toda a regio um homem to perverso
para querer lhe fazer danifico. E, alm do que Douglas lhe fez, ela esteve perambulando pelo
bosque h muitos anos sem que lhe tenha ocorrido nada. A nica razo pela que agora no
permito que o faa  seu embarao. Deixa j de preocupar-se. Trarei-a para casa em menos 
que canta um galo. vais ver! 


Annie no estava em casa dos Trimble. E, o que era ainda mais surpreendente para o Alex, 



nenhum de seus pais pareceu alarmar-se quando ele apareceu na soleira da porta procurando 
a sua esposa. Edie sugeriu ao Alex que a encontraria no bosque. Mas no era necessrio que 
fosse procurar a. Annie tinha o costume de perambular, recordou-lhe ela, e assim era desde 
fazia muitos anos. Retornaria a casa para o entardecer, j fosse a do Alex ou a dos Trimble. Se 
optava por esta ltima, seus pais asseguraram ao Alex que lhe enviariam um recado para quefosse recolher a. 
Preocupado ainda, apesar das palavras tranqilizadoras dos Trimble, Alex a buscou no bosqueantes de retornar a casa. Mas era como procurar uma agulha em um palheiro, como dizia oprovrbio. encontrava-se em pleno campo, e sabia que Annie poderia estar quase em qualquer 
lugar. Ao final, no teve mais remedeio que retornar ao Montgomery Hall e ficar ali esperando.
Se ao anoitecer ainda no tinha aparecido, organizaria um grupo de busca.
Esperaria, pois, com impacincia a que chegasse a noite. No poderia estar tranqilo at queAnnie estivesse em casa de novo. Era verdade que ela tinha perambulado pelas colinas amaior parte de sua vida. Mas isso era antes de que seu estado fosse to delicado. A indiferenade sua me lhe parecia completamente incrvel. Uma mulher grvida podia sofrer multido depercalos, especialmente algum como Annie, que no entendia todos os perigos que podiaencontrar ali fora. A s idia de que ela se fizesse mal o punha muito nervoso. Annie, com seu 
cabelo negro emaranhado e seus grandes olhos azuis. Em um tempo incrivelmente curto, tinha 
conseguido penetrar em seu corao e se tornou mais importante para ele do que queria 
reconhecer. 
Caso que Maddy ainda estaria muito nervosa, Alex no se entreteve muito tempo nascavalarias. Desmontou em seguida e lhe entregou o cavalo a uma moo de quadra. Logo se 
dirigiu diretamente  casa. No instante mesmo em que entrou no saguo, Maddy se inclinou 
sobre o corrimo do primeiro piso e lhe gritou. 
-J est aqui. S e salva. 
Tal foi o alvio que sentiu Alex, que comearam a lhe tremer as pernas. Necessitava um pouco 
de tempo para recuperar a compostura, assim que se apoiou nas portas esculpidas da entrada. 
Em seguida, elevou a vista para o rosto sorridente do Maddy. 
-Onde estava? 
O ama de chaves elevou as mos para indicar, no sem um pouco de desconcerto, que nosabia. 
-No tenho idia. Estvamos procurando-a por toda a casa e, de repente, ali estava.  comose tivesse sado de um nada. 
Alex franziu o cenho. Recordou o ferrolho aberto da janela do salo.
-O mais provvel  que tenha retornado pelo mesmo lugar pelo que saiu.
Annie apareceu de repente no patamar. Ao lhe jogar uma olhada, Alex no demorou para notar 
as reveladoras mancha de terra que havia em seu vestido azul plido e em suas meias 
brancas. Com o cabelo negro to emaranhado como de costume, a garota baixou a vista paraolh-lo com seus enormes olhos azuis. A expresso de seu rosto era inexplicavelmente solene.
Alex sups que ela compreendia, embora fosse de maneira vaga, que tinha feito algo mau e 
que poderia haver-se buscado problemas. Para que soubesse que no estava zangado, sorriu elhe piscou os olhos um olho. Embora tinha dado um tremendo susto a todos, ela em realidadeno tinha a culpa; lhe imputar a responsabilidade era totalmente absurdo.
assegurou-se a si mesmo que a melhor maneira de dirigir a situao era tomando precauesadicionais para que aquilo no voltasse a passar. Olhou ao Maddy. 
-Tem uns minutos? Acredito que devemos estabelecer novas normas nesta casa, no s paraos empregados domsticos, mas tambm tambm para ns. No podemos permitir que ela 
volte a sair s escondidas. Enquanto esteja grvida, corre muitos perigos. Se chegasse a ferir-
se achando-se longe da casa, poderia morrer sangrada antes de que algum a encontre.
Maddy ficou to plida como uma estaca branqueada ante semelhante possibilidade. 
-Em seguida baixo.
Uns minutos mais tarde, Alex e sua ama de chaves se reuniram no estudo. Entre os dois 
esboaram algumas medidas preventivas que podiam adotar para fazer desistir ao Annie de 
que voltasse a sair furtivamente; ou melhor, para lhe impedir que o fizesse. A mais importantede todas era que, a partir daquele momento, todas as portas exteriores deviam permanecerfechadas com chave em todo momento, dia e noite, e s Alex ou Maddy teriam as chaves. As 
janelas da planta baixa, providas de ferrolhos interiores em lugar de fechaduras, apresentavamum problema ligeiramente maior. determinou-se, no obstante, que se todas se mantinhamfechadas com ferrolho, seria fcil saber quando Annie tinha usado uma delas como rota de 
escapamento. Uma vez fora, a jovem no poderia voltar a correr o ferrolho da janela que tinhausado, e eles saberiam com toda certeza que ela tinha sado da casa. Em tal caso, Alex poderia 



empreender em seguida a busca nos bosques prximos.
A gosto com as medidas preventivas que tinha tomado, Alex foi se dormir aquela noite com acerteza de que Annie no corria perigo. prometeu-se a si mesmo que a partir do dia seguintereservaria uma ou duas horas todas as tardes para passar um pouco de tempo com ela. Notinha nem a menor ideia de que. Como se podia entreter a uma garota que era dbil mental?
Maddy parecia acreditar que era importante que Annie e ele se conhecessem melhor e, com 
este fim, Alex estava disposto a sacrificar um pouco de seu tempo. No seria fcil.
Normalmente, passava as manhs em seu estudo fazendo o trabalho administrativo; e, pelas 
tardes, ocupava-se de seus purasangres e da granja, ou ia  pedreira. J tinha muito trabalho,
e algumas vezes sentia que pretendia fazer da noite dia, especialmente durante o vero.
Entretanto, o que menos queria era que Annie vivesse com medo em seu novo lar. Se podiadissipar seus medos passando uma ou duas horas com ela todos os dias, valia a pena fazer oesforo. 

O plano do Alex resultou ser um pouco mais difcil de levar a cabo do que esperava.
Reorganizou suas atividades para tirar tempo para ela ao dia seguinte, mas quando chegou a
casa, no encontrou ao Annie por nenhuma parte.
-Como que desapareceu? -perguntou ao Maddy. 
-Bom, pois... -As lgrimas que o ama de chaves estava a ponto de derramar fizeram brilhar
seus olhos verdes-. Passou exatamente quo mesmo ontem, senhor. Desapareceu em um
abrir e fechar de olhos. Frederick estava a ponto de ir busc-lo para lhe informar do 
acontecido. 
-olhastes as janelas?
-Sim. J as olhamos. Nenhum ferrolho est aberto. -A resposta do ama de chaves fez que 
Alex se detivera bruscamente. voltou-se para ela-. Nenhum? Est completamente segura? 
-Nenhum. 
-Ento tem que estar em alguma parte da casa.
-Isso seria o lgico. Mas no est em nenhum lado. procuramos at no ltimo rinco da casa,
senhor.  como se... -interrompeu-se e se levou as mos  cara-.  como se se esfumou no 
ar. 
Alex j tinha visto aquela expresso no rosto de sua ama de chaves e sabia que era mau sinal.
-Venha, Maddy. No deixe que sua imaginao irlandesa ganhe a batalha. A garota  de carne
e osso, como voc e eu. Nenhum de ns pode esfumar-se no ar.
-Est voc seguro?  inegvel que ela tem algumas caractersticas dos duendes. Como esse
estranho af de registrar sua roupa de cama... Fez-o de novo esta manh. Isso j  muito mais
que estranho, se quer saber minha opinio. Uma pessoa procurando algo que no perdeu... 
-Tremeu ligeiramente-. Sei a cincia certa que os duendes no so como ns. s vezes vem 
coisas que ns no podemos ver, e tm dons que confinam com a magia. Certamente ouviu
voc as histrias que contam a respeito de como domesticao aos animais selvagens no 
bosque. Isso no  normal, e no me pode negar isso.
-No estou dizendo que seja uma garota normal. S digo que, apesar de suas peculiaridades,
 um ser humano, Maddy, e, por conseguinte, tem limites e h coisas que no pode fazer.
Esfumar-se no ar? Isso  uma ridicularia. Ou encontrou um esconderijo em algum lugar da
casa, ou est saindo por uma das janelas de acima. 
-Uma janela de acima? -Maddy deu um grito afogado e se fez o sinal da cruz-. Deus santo! 
pode-se romper o pescoo! 
-Exato! -Alex se dirigiu s escadas-. de agora em diante, todas as janelas do primeiro e do
segundo piso tambm devem permanecer fechadas com ferrolho. Ocuparemo-nos disso em 
seguida. Logo, reunirei uns homens para que me ajudem a pentear o bosque.  provvel que
ela esteja perambulando por ali fora, mais feliz que uma perdiz e completamente alheia ao
medo que nos est causando. 


Dez minutos mais tarde, Alex estava revisando os ferrolhos das janelas do salo de baile, 
situado no segundo piso, quando sentiu uma presena detrs dele. Com um formigamentopercorrendo todo seu corpo, jogou uma olhada por cima de seu ombro e viu o Annie junto porta aberta. Igual a no dia anterior, seu vestido folgado estava talher de terra e suasbochechas cheias de p. Posto que Alex sabia que no era possvel que se sujou tanto dentroda casa, s ficava supor que a moa tinha feito o que ele se imaginava e tinha sado por uma 
das janelas do primeiro piso ou do segundo. 



Pensar nisso fez que lhe acelerasse o pulso. Enquanto se encontrava fazendo alguns acertos no
teto, ele tinha aprendido, a apie de cometer enganos, quo traioeiras podiam ser algumas
daquelas telhas. Um passo em falso era tudo o que se requeria. Em alguns lugares, no havia
nada que pudesse amortecer a queda de uma pessoa. Tinha vontades de selar todas as janelas
com pregos ao longo das travessas inferiores. 
-Annie -disse com voz dbil-. Carinho, onde estiveste? 
Para ouvir esta pergunta, ela deu um passo atrs. 
-No tenha medo. No estou zangado contigo. S estou preocupado. Sei que foste ao bosque 
e, se saiu por uma destas janelas, pudeste-te cair.
Ela deu outro passo atrs. 
Movendo-se devagar, Alex tratou de salvar a distncia que o separava do Annie. No alcanou 
a dar mais de uns quantos passos antes de que a garota sasse correndo. 
-Annie! Volta aqui. No te farei mal. 
Suas palavras se perderam no ar. Alex deixou escapar um suspiro de desalento e se esfregou a 
ponte do nariz. No se supunha que devia passar algum tempo com ela? Mas como ia obter
semelhante faanha? Atando-a a uma cadeira, talvez? 
Atravessou o corredor do segundo piso at chegar ao patamar. Agarrando um dos postes da
escada, deixou cair todo seu peso sobre os degraus e os desceu de trs em trs. Uma vez no
primeiro piso, dirigiu-se diretamente  habitao dos meninos. Maddy, que estava 
repreendendo ao Annie e comprovando que no tivesse nenhuma ferida, no advertiu que
tinha entrado no quarto.
-Ai, menina, no pode seguir desaparecendo dessa maneira! Meu velho corao de irlandesa 
no o suportaria. O que fez? Saiu por uma das janelas de acima? Que Deus nos ampare! 
Poderia te romper o pescoo. Acaso no o entende? 
Alex se aproximou da mesa onde Annie se encontrava. Agachando-se frente a sua cadeira, 
olhou-a aos olhos com ar grave. Os sentimentos que leu neles o desconcertaram. Tinha medo
de que a castigassem, isto estava perfeitamente claro. Mas tambm parecia confundida e
certamente adotava certa atitude de superioridade moral, como se a estivessem acusando
injustamente.
Alex a examinou contudo cuidado, comeando pelo cabelo, que parecia ter partes de telaraas 
aderidos aos cachos, e terminando pelas meias brancas, que estavam manchadas de terra.
Terra cinzenta. No vermelha. Quase toda a terra nos arredores era argila de cor marrom
avermelhada. 
-Maddy, h algum lugar dentro da casa, digamos um armrio ou um armazm de algum tipo,
que possa estar cheio de telaraas e p? 
Maddy balbuciou de indignao ante a s sugesto de uma coisa assim. 
-S o apartamento de cobertura, e voc sabe muito bem que sempre est fechado. Eu tenho
a nica chave, e no a dei a ningum desde que voc comprou a nova caixa forte, depois de
que Douglas partisse. Alex franziu o cenho. 
-Est segura de que est fechado com chave?
-Muito seguro. Com todas as aranhas e ratos que h ali dentro... -A mulher se estremeceu-.
Sempre est fechado com chave.
-Ento, h algum outro lugar? -Alex assinalou as manchas que havia na roupa do Annie-. Se 
tivesse sado de casa, a terra que cobre seu vestido seria avermelhada. -Tocou uma das
manchas de seus Isto joelhos mas bem parece p.
-P? -O ama de chaves lhe lanou um olhar hostil-. Quero que saiba que aqui se limpa
minuciosamente at o ltimo rinco e a ltima greta da casa, sem exceo. Nunca permitiria
que as habitaes, os armrios nem nenhuma outra coisa estivessem assim de imundos. 
Alex sabia que isso era verdade. Mas as dvidas seguiam lhe espreitando. Teria encontrado
Annie algum esconderijo que Maddy tinha passado por cima? 
-Quero que manh a vigie atentamente -lhe ordenou  ama de chaves-. Se for necessrio,
pede ajuda a uma ou duas criadas. Quero saber aonde vai quando voltar a escapulir-se. 
A crescente indignao do Maddy fez que seu acento irlands se fizesse mais forte.
-Teve que sair do edifcio! No h mais que olh-la para sab-lo, est totalmente coberta de
terra. No teria podido sujar-se tanto dentro da casa!
Alex ficou de p e deu  boa mulher uns tapinhas no ombro. 
-Sei que tem razo, Maddy. Mas, de todas maneiras, faz o que te peo, n? Agradeceria-lhe
isso muito. E enquanto isso, quando eu esteja trabalhando nas cavalarias, vigiarei o exterior
da casa, para ver se consigo pilh-la saindo s escondidas por uma janela.
Olhou para sua esposa de novo e estudou a situao e seus possveis solucione. Dado que ao
Annie lhe tinha permitido perambular a vontade quando vivia em casa de seus pais, era 




possvel que lhe parecesse que sua vida no Montgomery Hall era muito aborrecida em 
comparao com o anterior, e estava no certo. Era preciso organizar as coisas de tal maneiraque ela pudesse dar um passeio todos os dias. Maddy no tinha tempo para acompanh-la. Em 
realidade, Alex tampouco.
Deixou escapar um suspiro de resignao. Em ltima instncia, Annie era responsabilidadedela, e de ningum mais. Se necessitava que a tirassem passear todos os dias, e obviamente 
era assim, ele era o candidato que maior obrigao tinha de levar a cabo esta tarefa. Agoraque tinha decidido convert-la em residente permanente do Montgomery Hall, no poderiaevitar que se apresentassem situaes nas que teria que ficar a ss com ela. No podiaposterg-lo indefinidamente. Seria ridculo tent-lo sequer. Embora fosse um matrimnio s denome, a realidade era que estavam casados; e, embora seu papel como tal no abrangessetoda a extenso da palavra, ele era seu marido.
Indicado-o seria exercer um pouco de domnio de si mesmo, pensou com determinao. Seainda no sabia controlar-se, teria que aprender. 

CAPTULO 11 

Quando, de maneira inesperada, Alex agarrou ao Annie da mo e a levantou da cadeira, ela se 
levou uma enorme surpresa. E imediatamente depois da surpresa, chegou o medo. Quererialev-la a algum lado? No terei que pens-lo muito para adivinhar quais eram suas intenes.
Maddy e ele acreditavam erroneamente que tinha sado da casa s escondidas e estavamzangados com ela. Era evidente que, para certificar-se de que no voltasse a infringir as 
regras, Alex Montgomery tinha a inteno de castig-la. 
No passado, ao Annie havia meio doido padecer um bom turno de surras. Castigos que seu pai 
lhe impunha no estudo a maioria das vezes, e sempre com seu fornecedor de navalhas debarbear, aquele horrvel ltego improvisado. Ela sabia por experincia que a ardncia sdurava um momento e que os moretones desapareciam uns poucos dias depois. Mas isto era 
quando seu pai a castigava. Alex Montgomery era duas vezes maior que ele e muito mais 
forte. 
Durante um instante, considerou seriamente a possibilidade de fugir. Mas, antes de seguir esseimpulso, lembrou-se do beb que supostamente levava em seu ventre. Se, como ela seimaginava, estava metido em um frgil ovo, no podia correr riscos. Sem dvida, tratar defugir do Alex Montgomery representava um perigo. Suas pernas eram largas e muito 
musculosas. Em uma carreira contra ele, ela no tinha nem a mais mnima possibilidade de 
vencer. E o que passaria quando a agarrasse? Dava medo s pens-lo. Annie sabia que os ovos 
se rompiam com grande facilidade. Duvidava de que o seu pudesse suportar a fora lheesmaguem dos braos daquele homem ao redor de sua cintura.
Enquanto ele a levava a corredor, a pobre moa escrutinava sua mente com desespero,
tratando de encontrar uma maneira de lhe dizer que ela no tinha sado s escondidas. Stinha ido a seu rinco secreto um ratito. O que tinha isso de mau? Estava acostumado a faz-lo 
com muita freqncia em casa de seus pais. Quase todos os dias durante a temporada dechuvas. A sua me nunca tinha incomodado que o fizesse, e muito menos se zangou.
Arrastando-a detrs dele, Alex caminhava com passos enrgicos e rpidos que faziam que aela lhe gelasse o sangue. Ao ver o movimento de seus ombros, recordou a manh em que o viu 
sem camisa. Agora estava a ponto de lanar toda aquela fora sobre ela. 
Annie esperava que a levasse a seu estudo, como estava acostumado a fazer seu pai.
Entretanto, quando chegaram  planta baixa, ele se dirigiu diretamente  porta principal.
Agarrando a da boneca com fora, usou seu outra emano para pinar no bolso de suas calas. 
Uns segundos depois, tirou uma chave, abriu a porta e a arrastou at o alpendre. 
Adivinhando quais eram suas intenes, o corao do Annie comeou a pulsar com foracontra suas costelas, e olhou a seu redor com os olhos exagerados. Aonde pensava lev-la? A 
seu julgamento, s podia haver um motivo para que a tirasse da casa: no queria que nenhumde seus empregados visse o severamente que a castigava.
Annie estava to assustada que logo que podia pensar. Lanou-lhe um olhar suplicante, masele estava muito absorto em esquadrinhar com os olhos tudo o que lhe rodeava para dar-seconta disso. De repente, com uma expresso resolvida em seu rosto, o homem esboou umsorriso e baixou com ela as escadas principais, dobrando  direita ao chegar ao caminho.
Depois de rodear a casa, chegaram a um formoso jardim, engenhosamente entrecruzado poratalhos de pedras brancas. As roseiras floresciam em abundncia, e os distintos tons de rosa evermelho conformavam manchas luminosas que ressaltavam contra o fundo de cor verde 
escura composta pelos arbustos podados artisticamente e a grama. 



O afrouxou o passo para que Annie caminhasse a seu lado, como se quisesse que desfrutasse 
de do passeio. Annie s podia pensar na surra que lhe esperava. Lanou um olhar furtivo a seurosto moreno e viu a brisa jogar com seu cabelo reluzente, agitando-o at formar ociosas 
ondas que caam sobre sua frente ampla. Como se houvesse sentido que ela o estava olhando, 
ele se voltou e a surpreendeu observando-o. A garota em seguida apartou o olhar. Logo, 
sobressaltou-se quando ele roou docemente sua bochecha para apartar uma mecha de cabelo 
de seus olhos. 
Seus olhares se cruzaram. Annie sentiu de repente que os ps lhe tinham intumescido. Sabiaque se no olhava com ateno o caminho, poderia tropear. Mas no podia apartar o olhar deseus brilhantes olhos cor mbar, por nada do mundo.
-Voc gosta das rosas, Annie? 
As rosas? Estava-a levando a algum sitio para lhe dar uma surra, e esperava que admirasse asrosas? Centrou toda sua ateno no sorriso do Alex, que lhe pareceu despreocupada eligeiramente torcida, com a que ensinava seus dentes brancos e fazia mais profundas as rugasdas comissuras de sua boca. No parecia estar zangado nem o mais mnimo, e isto a assustoumais que qualquer outra coisa. Um homem tinha que ser completamente insensvel para lhecausar dor a outra pessoa sem estar furioso com ela.
Apartando o olhar, Annie viu as cavalarias diante deles, e seus passos vacilaram. Uma vez,
fazia j muito tempo, seu pai a tinha levado a lenheira para castig-la. Em sua lembrana,
aquele trajeto  lenheira precedeu a pior surra que tinha recebido em sua vida. Uma sensaode debilidade se apropriou de suas pernas. Isto, somado ao intumescimento dos ps, fez quelhe resultasse muito difcil permanecer de p, e ainda mais seguir andando.
Tal e como esperava, Alex se dirigiu diretamente s edificaes anexas. Quando chegaram auma estrutura larga e estreita atravessada por um comprido corredor, ele se voltou para lhe 
dizer algo.
-Tenho entendido que voc gosta dos animais.
"S se tiverem quatro patas", pensou ela com sarcasmo, e se mordeu a parte interior dabochecha, esperando que a dor conseguisse que deixasse de preocupar-se com o que elepudesse lhe fazer. A entrada da edificao se abriu ante ela como uma boca gigantesca. Muito 
alterada, recordou a histria do Jons tragado por uma baleia, que sua me estava 
acostumada lhe ler fazia muitos anos. 
Dado que a agarrava pela mo com uma fora implacvel, a jovem no teve mais remedeioque entrar atrs dele naquele corredor. Quando as sombras os envolveram, uma mesclabastante forte de aromas, embora no de tudo desagradvel, chocou-se contra o nariz doAnnie. Cheirava a animais, a feno, a gro e a pele, tudo isto flutuando livremente em umacorrente de ar fresco. Seus olhos se acostumaram em seguida  escurido, e olhou 
nervosamente ao redor dela. Pendurados de pregos grandes, ao longo da parede que seencontrava a sua esquerda, havia toda classe de acessrios de montar e utenslios para ocuidado e a limpeza dos cavalos: sela de montar, escovas, penteie para crinas, focinheiras,
arreios e cabrestos. Jogou uma olhada rpida e viu vrias tiras de pele. Gotas frite de suor 
surgiram de algum ponto perto de sua nuca e correram por suas costas. 
Seu pior temor pareceu fazer-se realidade quando Alex lhe soltou a mo e se dirigiu  parede 
para agarrar algo de um dos pregos. Quando se voltou para ela, Annie pde ver uma laada de 
pele pendurando de seu punho. Voltou a lhe olhar  cara e viu que ele ainda estava sonriendo 
com uma expresso extraamente tenra em seus olhos. Este olhar afugentou os ltimosresduos de valor que havia nela. Se tinha a inteno de castig-la, do qual estava quasesegura, como podia lhe sorrir dessa maneira?
Naquele momento lhe era totalmente impossvel sair correndo. Sentia como se lhe tivessemsado razes nos ps. Cravou seus assustados olhos nos ombros do Alex: os largos emusculosos ombros que lhe impediam de ver a parede que se encontrava detrs dele. Suafolgada camisa branca no conseguia ocultar os definidos contornos dos msculos de seu peitoe de seus braos. No queria sequer imaginar o que sentiria quando a golpeasse; mas, parasua desgraa, sua traioeira mente no conseguia pensar em nada mais.
Sem prvio aviso, ele elevou a mo que sujeitava a tira de pele. Annie alcanou a ver a tira 
aproximando-se de sua cara e reagiu de uma maneira instintiva: inclinou-se para frente erodeou sua cintura com os braos para proteger a seu beb. 

Alex se assustou tanto ao ver o Annie inclinar-se para frente, que tudo o que pde fazer foificar olhando-a com a boca aberta. ia levar a ao outro extremo da cavalaria. Rosy, uma de 
suas guas, tinha dado a luz uma potranca fazia uns poucos dias. Embora a besta era uma 



mordedora incorrigvel, seu potra era um encanto, com seus grandes brinca, suas patas largase sua propenso a chupar tudo o que lhe chamava a ateno: botes, dedos, cotovelos ouqualquer outra coisa que parecesse dar leite. Alex acreditou que ao Annie adoraria v-la. - 
Annie, o que te passa?
No elevou a vista quando Alex a chamou. A julgar pela maneira em que se rodeava a cinturacom os braos, acreditou que poderia ter uma forte dor. Sua principal preocupao era o beb,
e milhares de possibilidades cruzaram por sua mente. teria se feito mal enquanto passeavapelo bosque? Teve a horrvel viso do Annie abortando nas cavalarias. Deixou cair a 
focinheira que acabava de agarrar de um dos pregos, agarrou-a com fora de seus magrosombros e tentou, sem xito, fazer que se erguesse.
Estava tremendo. Tremia horrivelmente. Alex dirigiu um olhar de impotncia para a casa, 
desejando que Maddy estivesse com eles. Quando de doenas femininas se tratava, 
especialmente aquelas relacionadas com o embarao, no sabia o que fazer. Devia levar a em 
braos  casa? Devia procurar que se deitasse um momento na cama?
-Jesus! 
inclinou-se para um lado e tentou inutilmente lhe apartar as rebeldes mechas frisadas parapoder lhe ver a cara. Finalmente, decidiu ficar de joelhos e estirar o pescoo para poder olh-la 
aos olhos. 
-Annie, carinho, di-te algo?
Sua terrvel palidez revelou ao Alex que estava morto de medo. Recordou todas as histriasque tinha ouvido a respeito de mulheres grvidas que abortavam e morriam sangradas. A idiade que Annie muriese... Deus santo! Ela era to doce, to incrvel e maravilhosamente doce... 
Temendo ver sangue no tecido de cor rosa, olhou com grande preocupao a saia do vestido, 
que lhe chegava at os joelhos. Nada. Era um bom indcio, ou no? No havia hemorragia. Masao melhor ainda no estava sangrando profusamente.
-Carinho, onde te di? Pode me ensinar onde? 
Seus olhos azuis, que pareciam dois planetas luminosos, olharam-no desde seu carita transida 
de dor. Acariciando seu cabelo para trs, sustentou-lhe as bochechas entre suas mos. 
-Annie, tem-te feito mal? Insgnia me onde, carinho. Aqui? -Deixou cair uma mo para lhe 
tocar a cintura-. Te di muito? 
Ela fez um movimento brusco para fazer-se a um lado e evitar que a tocasse. Logo, ficou 
paralisada, olhando fixamente algo que se encontrava no cho. O seguiu seu olhar e viu afocinheira descartada. Seu crebro no estabeleceu relao alguma entre esse objeto e seumedo, at que ela voltou a olhar sua mo. 
Sua mo vazia. 
S ento Alex o compreendeu tudo. Durante um horrvel momento, lhe fez um n to forte noestmago que pensou que ia vomitar. Reconstruindo o acontecido a cmara lenta, viu-se si 
mesmo fazendo-a levantar-se da cadeira em que se encontrava, imediatamente depois de queMaddy a repreendesse. Logo, levou-a a planta baixa. Saram da casa. Atravessaram o jardim.
Entraram nas cavalarias. Quando ele se voltou para ela com a focinheira na mo, sua nicainteno era lhe indicar o caminho para a quadra do Rosy. Mas Annie pensou, sem dvida, que 
ele queria lhe pegar.
A fria... estalou dentro da cabea do Alex em cegadores tons vermelhos. Se James Trimble 
estivesse perto dele naquele momento, o teria matado. Fechou seus trmulos punhos. 
Annie era tudo o que importava, no o bode de seu pai. Tranqilo. Tinha que estar tranqilo. 
Com este fim, tomou ar para obrigar a seus pulmes a alargar-se, mas sempre sem poder 
conter o tremor que percorria todo seu corpo. Ao exalar o ar, o rosto dela se abriu passo entre 
a nuvem de sua ira. Nunca tinha visto ningum que parecesse estar to morto de medo comoela. Queria desesperadamente apagar aquela expresso de seu rosto, e tratou de pensar emuma maneira -qualquer que fosse- tranqiliz-la. A pobre criancinha no entendia o que lhedizia. A nica ocasio em que conseguiu comunicar-se com ela, teve que faz-lo mediante umdesenho. 
Um desenho... ou uma ao. Os atos falavam mais alto que as palavras. Tudo o que tinha quefazer era pensar em uma maneira de parecer inofensivo. No era uma tarefa fcil quando ajovem a que ele tentava convencer estava terrivelmente assustada.
Vagamente consciente de seus movimentos, ou da deciso que os impulsionava, Alex dobrou 
uma perna sob seu corpo e se sentou sem cerimnia no cho. Foi a melhor ideia que lheocorreu. Esperava que ela se sentisse menos ameaada se ele adotava uma posio em queno demonstrasse nenhuma superioridade fsica. Embora em realidade isto no dava a elamuita vantagem. depois de trabalhar com cavalos durante quase toda sua vida, tinhaaprendido a mover-se mais rpido que a maioria das pessoas, habilidade que lhe tinha salvado 



o pele em mais de uma ocasio. Se a garota decidia fugir, ele conseguiria levantar-se antes deque ela pudesse sequer dar meia volta.
Algo frio e mido lhe estava impregnando uma das pernas da cala. No queria pensar em que 
classe de porcaria se sentou, de modo que centrou toda sua ateno no Annie. A pobrecita no 
parecia capaz de correr. As pernas lhe tremiam tanto, que lhe sentia saudades que seus 
joelhos no chocassem entre si.
Sem conseguir pensar em nenhuma outra coisa que pudesse dissipar seus temores, Alex fez avalente tentativa de sorrir. Um horrvel e artificial sorriso de orelha a orelha foi tudo o que pde 
conseguir. Atravs dos enredadas mechas de seu cabelo negro, ela ficou olhando-o 
boquiaberta, como se ele se tornou louco. E talvez era assim. Um homem adulto, sentado 
sobre excremento de cavalo e sonriendo como se gostasse? Isto deveria ser mais que 
suficiente para fazer que o ingressassem em um manicmio. 
Apesar de que suas pernas ainda no pareciam capazes de sustent-la, ela conseguiu dar um 
passo para trs. Logo, deu meia volta e saiu das cavalarias correndo. Alex a seguiu com oolhar, e sentiu um grande alvio quando viu que se dirigia  casa. A idia de ter que persegui-lapelo bosque naquele instante no lhe pareceu muito atrativa. Tampouco a de apanh-la. Amuito picasse no brigava limpamente.
Como era seu costume quando nada parecia lhe sair bem na vida, Alex quis esfreg-la caracom as mos. deteve-se no ltimo instante. A palma de sua mo estava melada de algo 
marrom. Cheirou-a com muita cautela. Logo, apesar de si mesmo, soltou uma gargalhada. 
-Senhor? 
Assombrada-a voz masculina saiu de algum lugar detrs do Alex. Ao olhar por cima de seuombro, viu o Deiter, o chefe das moos de quadra, na entrada do abrigo onde se guardavam os 
arreios. Enxuto e grisalho, a cara do homem parecia uma tira de carne-seca de mua. 
-Sim, Deiter. me diga.
-encontra-se voc bem? 
Esta pergunta fez que Alex comeasse a rir de novo, mas esta vez mais forte. Quando suasgargalhadas finalmente se apagaram, Deiter voltou a falar. 
-O que est fazendo voc a sentado? 
-Em realidade no estou muito seguro. Pareceu-me uma boa idia faz um momento, mas 
agora...
-Necessita ajuda?
Alex suspirou.
-De fato, acredito que vou necessitar toda a ajuda que possa conseguir. 
Apesar de todos os esforos que Alex e Maddy faziam por impedi-lo, Annie seguiudesaparecendo quase todas as tardes da semana seguinte. S ela conhecia seu destino. Maddy 
tratava de no lhe tirar os olhos de cima, mas a moa conseguia escapulir-se de algumamisteriosa maneira. depois de cada um de seus desaparecimentos, o ama de chaves chamava

o Alex, que dividia aos empregados da casa em dois grupos para que revisassem as janelas de
todos os pisos. 
Os empregados nunca encontravam nenhum ferrolho aberto. 
Ento... se no saa da casa, aonde ia? Esta pergunta intrigava a todas as pessoas que
residiam no Montgomery Hall, desde o Alex e Maddy at a moo de quadra mais jovem. antes
de finalizar a semana, a confuso do Alex era tal, que quase chegou a estar de acordo com o
Maddy e a comear a acreditar que Annie tinha a capacidade mgica de esfumar-se no ar.
Salvo por um pequeno detalhe. Como podia sujar-se tanto?
Uma tarde, uma semana depois do dia em que Annie desapareceu pela primeira vez, Maddy 
chamou o Alex para lhe informar de que finalmente se resolveu o mistrio.
-Consegui engan-la -disse ao Alex com orgulho-. Fingi que estava ocupada em outra coisa. 
Esperei a que se escabullera e logo a segui. Voc nunca adivinharia aonde ia endemoninhada
garota. No o adivinharia nem em um milho de anos.
Alex olhou a sua ama de chaves com espera. Quando caiu na conta de que ela no tinha a
inteno de dizer nada mais, apertou os dentes. 
-Maddy, diga-me o de uma puetera vez, pelo amor de Deus. Aonde vai?
-Ao apartamento de cobertura! -informou-lhe, sonriendo cheia de satisfao-. Subia ao 
puetero apartamento de cobertura.
-Como? Voc me assegurou... disse que estava muito seguro, recorda?... que o mantinha
fechado com chave. Alguma vez subiu a jogar uma olhada?
-Eu tenho a chave -lhe recordou ela-. No vi a necessidade de jogar uma olhada, pois 


estava segura de que ningum podia abri-lo.
-Mas obviamente estava aberto! 
-Henry, outra vez -disse ela a maneira de explicao.
-Henry?
-Quando voc substituiu a caixa forte de seu estudo, ordenei-lhe que subisse a velha ao 
apartamento de cobertura. Certamente esqueceu fechar a porta com chave. Quando lheperguntei, assegurou-me que o tinha feito, e no vi nenhum motivo para duvidar de suapalavra.
Alex suspirou.
-S Henry poderia pensar que fechou uma porta com chave sem hav-lo feito. Devi subir eumesmo a jogar uma olhada. -Elevou a vista para o patamar do primeiro piso e franziu o cenho 
-. O apartamento de cobertura? O lugar mais sujo e desagradvel. -Negou com a cabea-.
Para que diabos subir ali?
-No tenho nem idia. Por isso lhe pedi que viesse, para que a trouxesse aqui. Eu iria procurara, mas voc sabe quanto dio os ratos. Frederick se ofereceu a subir, mas Annie o viu muito 
poucas vezes, e no quero que se assuste. Com a m sorte que temos, poderia tratar de fugir 
e pisar em uma dessas armadilhas para ratos. 
As armadilhas do apartamento de cobertura no eram a nica preocupao do Alex.
Certamente, por isso recordava, o piso mais alto estava cheio delas. O que mais lhepreocupava era que no apartamento de cobertura provavelmente fizesse um mormaonaquela poca do ano, por no mencionar que devia estar escuro, talher de p e infestado de 
aranhas. Dado que as vivas negras eram nativas daquela regio, este no era um 
pensamento muito reconfortante.
Alex apartou ao Maddy de um empurro e se dirigiu s escadas. 
-Quer que pea ao Frederick que subida para que lhe ajude a procur-la? -gritou ela.
Alex em nenhum momento afrouxou o passo. 
-Acredito que posso encontr-la sozinho. Segue com seu trabalho, Maddy. Eu a trarei. 
A escada que conduzia ao apartamento de cobertura estava situada na asa ocidental dosegundo piso. Imaginando que Annie tinha recebido a mordida mortal de uma aranha, Alex 
subiu as perigosamente levantadas e estreitas escadas como alma que leva o diabo. A porta,
oxidada pela falta de uso, chiou de maneira inquietante quando ele a abriu. disse-se que deviater pensado em levar um abajur, e se introduziu na penumbra. A nica fonte de luz procediadas guas-furtadas e as janelas estrategicamente situadas. Mas sua eficcia como focosluminosos se via reduzida pela imundcie. O aroma de p e a mofo provocava ardncia nasjanelas do nariz.
Quando se deteve para orientar-se e permitir que seus olhos se adaptassem  escurido, ouviu 
um som apenas perceptvel, de insetos brincando de correr, rudo que fez que lhe gelasse osangue nas veias. Roedores. Embora nunca o confessaria a ningum, tinha um medo irracionala essas horrveis criaturas. No sabia muito bem por que. No sentia repugnncia para asserpentes. As aranhas quase no lhe diziam nada. No receava particularmente dos grandescarnvoros. Mas os ratos eram outra coisa. Nas estranhas ocasies em que algum aparecia na 
planta baixa, sentia-se tentado de seguir o exemplo do Maddy e subir a uma cadeira at que 
Frederick chegasse para desfazer-se dele. Gotas de suor cobriram sua frente. A sua direita 
ouviu sons como de um animal arranhando e roendo. Lhe ps a pele de galinha. Deus santo.
depois de muitos anos tinha conseguido vencer seu medo o suficiente para enfrentar-se muitode vez em quando a um camundongo. Seu orgulho no lhe tinha deixado outra alternativa.
Mas seria capaz de plantar cara a toda uma legio destes insetos? sentia-se como deveusentir-se Goliat ao enfrentar-se ao David. S que, nesta confrontao, David se tinha 
multiplicado.
Quando seus olhos se acostumaram  penumbra, Alex conseguiu distinguir os objetos que orodeavam. A caixa forte que tinha sido substituda, mveis antigos, um espelho que algumavez adornou o salo e agora estava to imundo que j no refletia nenhuma luz. Entre duaspilhas de caixas, viu vrias pinturas ao leo, cobertas com lenis e maas com barbante.
Amontoadas ao p destes quadros havia o que pareciam ser panelas de todos os tipos. Tudo 
isto estava talher de uma grosa capa de p, e entupidas telaraas se estendiam de um objeto 
a outro, com seus fios intrincadamente tecidos, decorados por traas e outros desventuradosinsetos mortos. No era um lugar apropriado nem para um ser humano nem para uma besta.
Entretanto, Annie se encontrava em algum rinco daquele desvo. 
Ao dar um passo adiante, arranhou-se uma tbia com um velho ba. 
Filho de puta. 
-Annie! -gritou com brutalidade. 



Depois de atrever-se a dar uns quantos passos mais, tropeou com um enorme caldeiro de
ferro que alguma vez foi utilizado para ferver a roupa suja.
-Maldio! -disse em voz baixa. Logo, falou mais alto-: Annie, onde est? 
Enquanto se abria passo atravs da catica variedade de objetos desprezados que se
amontoaram ali ao longo dos anos, Alex se recordou a si mesmo que sua esposa no podia lhe
responder. Que imbecil era! Estava gritando como se esperasse uma resposta. Por outro lado,


o apartamento de cobertura era quase to grande como os trs pisos de abaixo, e no lhe 
entusiasmava a idia de procurar at no ltimo rinco daquele lugar. Menos ainda, quando afalta de luz o convertia virtualmente em um cego e os ratos brincavam de correr entre assombras. Embora no lhe entendesse ou no lhe ouvisse, seguia falando. 
-Annie? Vem aqui, carinho. Maddy te preparou bolos e ch.
Isso no era exatamente uma mentira. Quando levasse a garota abaixo, ocuparia-se de que lhe 
dessem de tudo. 
-Ouviste-me? Bolos. Maldita seja!
Alex se agachou para esfreg-la joelho, em que se tinha dado um doloroso golpe com a pontada antiga caixa forte.
-Carinho? Sei que est em algum lugar aqui acima. No quer vir? Por favor! Corre perigo aqui.
Quando se ergueu, Alex ouviu um rudo que pensou que saa da asa oriental. No era o som deum inseto brincando de correr, mas sim mas bem um golpe forte e de uma vez surdo.
Definitivamente era muito forte como para que o fizesse um camundongo O... Deus no oqueira... um rato. Aliviado por ter encontrado ao menos o lugar aproximado onde se 
encontrava Annie, voltou-se para encaminhar-se naquela direo. Para seu grande alvio, 
descobriu que o caminho tinha sido espaoso uns quantos metros alm da porta, como se elativesse afastado as coisas para que no lhe bloqueassem o passo. Fez um gesto de desagrado 
ao pensar no Annie movendo mveis pesados. Se a preocupao era uma enfermidade mortal,
esta garota o levaria sem dvida a uma morte prematura.
Enquanto se dirigia ao setor oriental do apartamento de cobertura, notou que a luz era cadavez mais forte. Depois de perguntar-se de onde procederia tal claridade, recordou que naquelaasa havia um lado coberto de guas-furtadas. Atrado pela luz, avanou com passo firme,
chamando o Annie a voz em pescoo cada poucos segundos. Embora no o entendesse, aomenos no se assustaria quando a encontrasse.
Depois de rodear um tabique que dividia aquele espao, Alex finalmente divisou a sua presa.
deteve-se, sem poder acreditar do tudo o que via. Era Annie... mas no a Annie que ele 
conhecia. Levava um vestido de dia de cor rosa e sapatos negros de pelica, que certamente 
tinha tirado de um dos bas de sua madrasta morta. Vestida desta maneira parecia umverdadeiro figurino, embora era certo que seu aspecto estava totalmente passado de moda.
Com seu comprido corto negro recolhido em um coque de cachos desgrenhado e ligeiramente 
desfocado, o qual sujeitava com uma pequena cinta, seu perfil parecia o de um camafeu. 
Assim e tudo, era a mulher mais preciosa que tivesse visto em toda sua vida, sem dvidaalguma. 
-Annie, que diabos est fazendo?
No houve reao alguma. Nem sequer fez o mais mnimo movimento para lhe indicar que lhetinha ouvido. 
To assombrado que no podia mover-se, Alex ficou olhando-a boquiaberto. Annie seguiuocupando-se de seus assuntos, e muito ocupada parecia estar, em efeito. Usou mveis velhospara organizar um salo, se assim pudesse chamar-se o no qual ele advertiu que no haviatelaraas nem p. Tinha posto taas e pires quebrados em uma mesa de trs patas sustentadapor gavetas em uma de suas esquinas, e fingia estar servindo o ch.
Seus convidados imaginrios, um boneco e uma boneca que tinha feito com roupas velhascheias, encontravam-se sentados em duas das trs cadeiras desiguais que tinha tirado dealgum lugar do apartamento de cobertura. O cavalheiro estava exquisitamente vestido com 
um traje rodo, e a dama igualmente elegante com seu vestido azul desbotado, com adornosde encaixe amarelo. Suas cabeas, feitas com meias cheias, estavam engalanadas comchapus; o do homem era um chapu de feltro de feltro e o da mulher, um opaco acerto deflores de seda com um vu que caa sobre a parte superior do rosto.
Alex no pde menos que sorrir. Era um milagre que Maddy no se queixou de que as mdias 
do Annie estivessem desaparecendo. Ao parecer, a garota tambm tinha pego s escondidasbagos da mesa do caf da manh. Seus bonecos cheios tinham as caras pintadas com umasuspeita cor vermelha framboesa. 
-Annie, isto  incrvel! -Alex o dizia de todo corao-. Muito engenhoso. H algo que no 
haja...? 


interrompeu-se para observar como servia a garota o ch imaginrio. Sorria gentilmente aseus convidados. de repente comeou a mover os lbios. Embora de sua boca no saiu somalgum, parecia como se estivesse falando. Seus movimentos eram precisos e fludos de uma 
vez, exatamente como deviam ser os de uma dama. 
-Acar? -perguntou-lhe ela em silencio ao cavalheiro ao tempo que lhe apresentava o 
aucareiro. Logo, dirigindo o olhar para a luz do sol que entrava pelas janelas, disse-: 
Caramba! Faz um dia precioso, verdade?
Ou ao menos isto foi o que Alex acreditou ver que tentava dizer. No podia estar seguroporque nunca tinha tido que ler os lbios a ningum. Depois Annie seguiu "falando", mas Alex 
teve dificuldades para entender as palavras que dizia.
As palavras que dizia... Deus santo! Embora fosse em silncio, ela estava falando. Embora 
parecesse mentira, estava falando. Era como olhar a uma menina jogando em seu mundo defantasia. S que ela no era uma menina. E aquilo no era para ela um mundo de fantasia, a 
no ser a realidade. Sua nica realidade. 
Annie no tinha estado esfumando-se no ar, como tinha acreditado Maddy. Tinha estado 
passando de um mundo a outro.
Uma vez, fazia j muitos anos, um semental adulto escoiceou no ventre ao Alex. O golpe o fezcambalear-se. ficou sem respirao durante um interminvel instante. Tudo se voltou 
impreciso. Sentiu inclusive como se o corao tivesse deixado de lhe pulsar. Pois bem, assim 
se sentia tambm naquele momento: parecia-lhe que tinha sofrido uma tremenda sacudida e 
que todo se parou em seu interior.
Quando seu corpo comeou a recuperar a sensibilidade, a dor tambm chegou; uma dorimplacvel que se centrava em seu peito. Tinha ouvido muitas isso vezes de "me partiu ocorao". Ele tambm tinha usado esta expresso com freqncia ao longo de sua vida. Masat ento estas palavras no tinham significado algum para ele. depois de tudo, o coraohumano no se partia em realidade. No se desfazia, pedao a pedao, nem caa a seus ps.
E um corno! 
Annie Trimble, a idiota do povo. Mas no era nenhuma idiota. Estava surda. Surda como uma 
taipa. E ele, que Deus o perdoasse, tinha estado completamente cego. 

CAPTULO 12 

Pasmado, Alex viu o Annie levar uma mo ao pescoo e olhar sedutora e timidamente ao 
boneco cheio. Logo, para seu grande assombro, ela rodeou a improvisada mesa, agarrou a seu 
cavalheiro do brao e comeou a dar passos de valsa perfeitamente executadas. Sua saiagirava enquanto ela se movia majestuosamente pela habitao. 
Uma formosa jovem, danando ao compasso de uma msica que ningum mais podia ouvir,
nos braos de um homem que ela tinha criado com suas mos criativas e sua rica imaginao.
junto a aquele boneco ela podia ser algum; privilgio que o resto do mundo, incluindo o Alex, 
tinha-lhe negado.
Inconscientemente, Alex transladou o peso de seu corpo de uma perna a outra e uma tabelado estou acostumado a cedeu levemente sob seu p. Com os agudos sentidos de uma pessoasurda, Annie sentiu que a tabela cedia e em seguida ficou imvel. Seus olhos enormes ereceosos o buscaram na escurido. 
Alex viu que estava assustada. depois do que tinha passado entre eles nas cavalarias, esabendo que ela esperava que lhe pegasse se voltava a escapulir-se, surpreendeu-lhe quetivesse tido o valor de subir ao apartamento de cobertura de novo. Embora entendiaperfeitamente que corresse esse risco. Naquele salo imaginrio ela podia ser quem lhe dessea vontade e fazer o que quisesse. Em comparao, o mundo que a esperava abaixo 
provavelmente parecesse um crcere. Annie, a idiota, encerrada dentro de uma casa para 
proteg-la. Annie, a idiota, que tinha que comer o que lhe servisse, banhar-se quando lheordenasse, vestir-se como uma golfilla. No era mais que uma boneca de carne e osso da queeles se ocupavam, que quase todo o tempo deixavam em uma habitao cuja janela tinhabarrotes e que vigiavam como se fosse uma menina pequena o resto do tempo. O em seulugar, tambm teria deslocado o risco de que lhe dessem uma surra para subir ao apartamentode cobertura. 
Uma surra... Pela expresso de angstia que viu em seu rosto, Alex sups que o castigo fsico 
no era quo nico Annie temia. Ao ir a aquele lugar, ele tinha descoberto seu segredo. Omundo que ela tinha criado era sacrossanto, e sem dvida o via ele como um intruso quepoderia destrui-lo. Simplesmente fazendo girar uma chave, ele podia fechar a porta e lheimpedir de retornar ao apartamento de cobertura. Ou, pior ainda, com apenas fazer girar uma 



chave, podia encerr-la em uma habitao que tivesse uma janela com barrotes e no lhepermitir sair nunca. O poder. A autoridade suprema. Se ele assim o decidia, podia fazer que 
sua vida fora um inferno pior do que j era.
Mas jamais faria algo semelhante. Por nada do mundo.
Alex se sentiu sobressaltado ao ver a daquela maneira. E tambm ficou fascinado. Tudo o quequeria era passar de sua realidade, que de repente lhe pareceu que tinha muito poucas coisaselogiables, a dela. No para destrui-la, a no ser para encontrar um espao no que os doistivessem alguns pontos em comum, embora s fosse durante uns poucos segundos.
Movendo-se com cautela, com muita cautela, salvou a distncia que os separava. Eraarriscado, e sabia. Ao fim e ao cabo era seu mundo -um mundo secreto-, e ningum lhetinha convidado a entrar nele. Mas isto foi o nico que lhe ocorreu para tratar de ganhar a

Como un modelo de movimiento, Annie permaneci inmvil, con un pie extendido para dar unpaso, su delgado cuerpo a punto de perder el equilibrio y el mueco apretado contra el pecho.
Baada por una luz plateada procedente de las ventanas que se encontraban detrs de ella,
pareca una escultura de hielo, demasiado frgil y delicada para soportar siquiera que la manode un hombre la tocara. Alex not un latido en el cuello de la muchacha y, por su frenticoritmo, se dio cuenta de la dimensin de su miedo. Saba que ella poda tratar de huir. Y contoda la razn. Despus del trato que Douglas la haba dispensado, l no haba llegado a su vidacon muy buenas recomendaciones; y, en el tiempo que haba transcurrido desde entonces, nohaba hecho gran cosa para rectificar ese error.

Quando esteve o suficientemente perto, deu um golpecito no ombro a seu exnime casal de 
baile de trapo. Depois de fazer uma corts reverencia, disse-lhe:
-Concede-me este baile? 
Como um modelo de movimento, Annie permaneceu imvel, com um p estendido para dar 
um passo, seu magro corpo a ponto de perder o equilbrio e o boneco apertado contra o peito.
Banhada por uma luz chapeada procedente das janelas que se encontravam detrs dela,
parecia uma escultura de gelo, muito frgil e delicada para suportar sequer que a mo de umhomem a tocasse. Alex notou um batimento do corao no pescoo da moa e, por seufrentico ritmo, deu-se conta da dimenso de seu medo. Sabia que ela podia tratar de fugir. Ecom toda a razo. Depois do trato que Douglas a tinha dispensado, ele no tinha chegado asua vida com muito boas recomendaes; e, no tempo que tinha transcorrido aps, no tinhafeito grande coisa para retificar esse engano.
-Por favor, Annie. S uma pea -disse ele com voz rouca-. No acredito que tenha todos os 
bailes comprometidos.
Ali estava de novo aquela expresso de confuso e perplexidade em seus olhos. J a tinha vistovrias vezes e at ento acreditou erroneamente que era um reflexo de sua idiotice, de suadeficincia. Estava equivocado. O nico idiota era ele. Enquanto falava, inclinou a cabea parafazer a reverncia. A razo pela que ela parecia estar to desconcertada era que no tinhapodido entender uma parte do que ele disse. Este era o motivo pelo qual ela sempre olhavato atentamente sua cara quando lhe falava, e tambm o motivo pelo qual algumas vezesparecia confundida. Posto que no sabia que ela era surda, era muito possvel que eminumerveis ocasione houvesse tornado a cabea em meio de uma frase. Ou que tivessefalado de maneira ininteligvel. Deus santo! Aquela garota no era nenhuma idiota. O fato deque tivesse aprendido sozinha a ler os lbios e a imitar as formas de falar era indcio de umainteligncia muito superior  mdia.
Falando mais devagar e formando nos lbios cada palavra com preciso, para que pudesse lheentender mais facilmente, Alex repetiu o que lhe havia dito. Ela seguiu olhando-o fixamentedurante interminveis minutos, ou assim lhe pareceram com ele, com seus olhos enormes eluminosos. Cada um destes minutos que passava lhe partia o corao um pouco mais.
Movendo-se com cautela para no assust-la, Alex estendeu uma mo.
-Por favor, Annie. 
Alex duvidava de que ela tivesse o valor de recha-lo. Tentava ficar em seu lugar. O ia evitar?
A ele, o possuidor do fornecedor de navalhas? O se encontrava virtualmente em cima delanaquele momento e lhe estava bloqueando a rota de escapamento. Ou danava com ele ou 
sofria as conseqncias. sentia-se mal por tirar proveito de seu medo. Era uma m maneira decomear uma relao. Mas, por outro lado, era melhor que no fazer nenhum progresso. Maisadiante haveria tempo de lhe fazer trocar de opinio respeito a ele.
Annie finalmente cedeu, com muita relutncia, e deixou a um lado a seu outro casal de baile. O 
pobre homem caiu e foi parar a um monto inerte, que era exatamente onde Alex esperavaque ficasse. Era seu baile. Ela era sua esposa. Uma fada silenciosa.
Ou, mais que uma fada, uma formosa mariposa saindo da larva, quase como por arte de 



magia. Naquele momento, assim via o Annie. No lhe deu muitas voltas. Tinha descoberto um 
pouco incrivelmente valioso, extraordinariamente precioso e totalmente inesperado. QuandoDeus se dignava fazer um obsquio semelhante, nenhum homem medianamente sensato faziapergunta alguma.
Temendo assust-la mais do que o estava, Alex ps uma palma ao redor de sua cintura, tomoua mo e com delicadeza comeou a mover-se ao compasso de uma silenciosa valsa.
Acostumada a levar a seu casal, ela tropeou ligeiramente e lhe pisou nos dedos do p, maspesava to pouco que Alex apenas se deu conta. Como se pudesse sentir os dedos dos ps ouqualquer outra coisa tendo a aquela mulher que lhe tirava o sentido entre seus braos. Aquela 
primeira manh na carruagem, tinha tido uma sensao muito prazenteira, mas, horrorizadopor seus sentimentos, tinha-a fugido. Agora entendia que devia confiar em seu instinto.
Olhou para trs, recordou os acontecimentos que os tinham aproximado e acreditou de todocorao que uma mo invisvel os tinha movido como peas em um tabuleiro de xadrez: dispsas posies que deviam ocupar, manipulou os incidentes e os levou de modo inexorvel a umponto de encontro. Foi o destino? O Todo-poderoso? Alex no sabia. Tampouco lhe importava.
Tudo o que importava era aquele momento, e a sensao de que aquilo era maravilhosa eabsolutamente perfeito.
depois de uns quantos giros na pista de baile imaginria, Annie se relaxou e comeou a 
permitir que ele a levasse, flutuando com a msica com tanta graa como uma mariposaempurrada pela brisa. A msica... Era uma loucura. Ele sabia que o era. Mas, ao olhar seupequeno rosto, quase podia ouvir a orquestra tocando.
Annie, danando ao compasso de uma msica imaginria, em um mundo imaginrio, mas,
agora, no nos braos de um homem imaginrio. Aquele universo de fantasia que ele tinhainvadido era tudo o que ela tinha. Pontuada de idiota, rechaada durante quase toda sua vida,
sem educao, sem amigos. No era uma mulher, a no ser um segredo inquietante que seuspais tinham mantido oculto. Uma tremenda fria se desatou dentro dele, mas conseguiu contla. 
Mais adiante se permitiria pensar no como e o porqu. J encontraria aos culpados.
No momento, s existiam a valsa e a mulher que estreitava entre seus braos.
Fazia muitos anos que Alex no criava mundos imaginrios. Muitos anos, possivelmente. O otinha perdido, pensou, pois sonhando daquela forma sempre existia uma sensao de que algopoderia passar... Deus... No queria destruir aquele instante eterno...
O solo feito de t-la to perto, embora s fosse danar, fazia que o invadisse uma sensaomgica. Embora pequena e de compleio delicada, ela encaixava em seu corpo como setivesse sido criada especialmente para ele. Podia sentir seus quadris movendo-se sob a palmade sua mo. Delicadamente, captou com o tato o inchao produzido pelo embarao. Desejoupoder apert-la contra seu corpo, sentir em suas bochechas os cachos da moa, cheirar ofresco aroma do sabo de glicerina e rosas que Maddy usava para banh-la. 
Incapaz de resistir, isso foi precisamente o que fez.
Momentaneamente surpreendida pela inesperada proximidade, Annie ficou tensa. Mas quando 
ele seguiu danando, ela se viu obrigada a render-se ante a fora de seu brao e deixou queseu corpo se amoldasse ao do homem. Alex apertou sua cara contra o cabelo dela e fechou os 
olhos. Preciosa. Esta era a nica palavra que lhe ocorria para descrev-la. Com a ajuda deDeus, nunca permitiria que ela partisse. 
Temeroso de que a delicada mulher se cansasse, Alex teve que pr fim  valsa. Quando deixoude danar e se afastou do Annie, ela ficou levemente desorientada, com o olhar perdido, asbochechas tintas e a boca aberta pela falta de ar.
-Obrigado, Annie -disse ele lentamente-. foi um prazer.
Uma covinha apareceu em sua bochecha quando lhe devolveu o sorriso.
-Um verdadeiro prazer.
Estas palavras, articuladas por seus maravilhosos e silenciosos lbios, pareceram-lhe com oAlex quase to audveis como se as houvesse dito em voz alta, ao melhor porque eram aresposta esperada. Tinha que aprender a ler os lbios, pensou, com uma sensao de temor.
Precisava aprender em seguida. Tinha que comunicar-se com ela sem trava alguma.
Resistente a abandonar o apartamento de cobertura e deixar aquela verso mgica do Annie, 
percorreu o salo imaginrio com o olhar, procurando quase desesperadamente um pretexto,
qualquer pretexto, para prolongar aquele momento irrepetvel. Lhe ocorreu uma idia genialao ver a baixela rota sobre a mesa. Fingindo aceitar um convite de sua dama, sentou-se nacadeira do boneco, levantou a taa vazia e a estendeu para ela para lhe pedir que lhe servissemais ch. Apesar da penumbra, pde ver o receio que voltava a apropriar-se do olhar da 
jovem.
A magia da valsa tinha chegado a seu fim. E agora, embora no gostassem, tinham voltado 



para a realidade. Mas Alex j no sabia muito bem o que era a realidade. Onde comeava, nem 
onde terminava. S sabia que a vida tinha sido injusta com aquela formosa mulher e que, dealgum jeito, tinha que compens-la por isso. 
Para ajud-la, o primeiro que tinha que fazer era ganhar sua confiana.
Permaneceu com a taa estendida, esperando, convidando-a com o olhar. Algo roou a pernada cala de sua cala. Ele o ignorou. S Annie lhe importava naquele instante. Logo, sentiu 
uma espcie de comicho atravs do meia trs-quartos. Pequenas espetadas. No podendoafugentar esta sensao, moveu o p ligeiramente e se inclinou para arranhar o tornozelo.
Neste momento, as gemas de seus dedos roaram um cuerpecito peludo. 
-Filho de... Por Deus! 
A taa de ch e ele se separaram. A primeira saiu disparada para cima. Alex se equilibrousobre suas calas para atac-los a tapas. Ouviu em segundo plano o som da porcelanafazendo-se pedacinhos.
-Filho de puta! -levantou-se de um salto-. Est subindo pela... Ser possvel!
Um camundongo estava subindo pela perna da cala de sua cala. O terror se apropriou dele.
Comeou a danar de novo, esta vez s e ao compasso de uma melodia muito mais rpida ecatica. Um condenado camundongo. E o pequeno demnio procurava a maneira de seguiravanando, direito a entrepierna. Mas aquele inseto asqueroso no chegaria ali enquanto ele 
vivesse. 
Alex se dava palmadas na perna. Fortes palmadas para esmagar ao camundongo. Suainteno era mat-lo. At tal ponto tinha centrado sua ateno no roedor que demorou ummomento em cair na conta de que tinha ao Annie pendurada de seu brao. 
-Noooo! -gritou ela.
No? Alex ficou to impactado de ouvi-la produzir um som que se esqueceu do condenadocamundongo. 
-Noooo! -gritou a garota de novo.
A palavra saa distorcida de sua boca. Era um som horrvel e no de tudo humano. Mas para oAlex era a coisa mais maravilhosa que tinha ouvido em toda sua vida. No. Uma palavra tosingela como esta, que os meninos aprendiam a uma idade temprana e que nunca esqueciam, 
pois os adultos a diziam com muita freqncia. Uma palavra que Annie conhecia porque ela 
tambm a tinha ouvido dizer infinitas vezes. 
Posto que ela parecia to se desesperada por salvar ao camundongo, Alex se absteve deseguir dando-se palmadas na perna. O que menos queria era lhe partir o corao ao matar aesse repugnante inseto. Isso s serviria para abrir outra brecha entre eles. Aterrorizado porcausa dos golpes, o camundongo seguiu ascendendo. Alex apertou os dentes.
Temia que o roedor estivesse escavando mais acima de seus joelhos. Logo o notou na coxa. 
Suportou-o durante um segundo -sem dvida o mais comprido de sua vida-, logo soltou um 
palavro e suas mos se equilibraram sobre a braguilha. Se o camundongo chegava a subiruns centmetros mais... dava-lhe medo s pens-lo. Quase podia sentir os horrveis dientecillos 
cravando-se em seu testculo. 
Esquecendo-se de todo -Annie, o decoro, a decncia-, baixou-se as calas. O camundongo seaferrava com todas suas foras aos cales com suas diminutas garras. Agarrou-o pela cauda,
fez que soltasse o tecido de um puxo e o sujeitou com o brao estendido para mant-lo 
afastado dele. O animal retorcia seu cuerpecito e soltava agudos chiados. Deus santo! Aquele 
era seu pior pesadelo. Sem saber muito bem o que fazer com a criatura, olhou ao Annie, e 
descobriu que ela se tampou a boca com uma mo e parecia estar a ponto de tornar-se a rir.
Alex caiu na conta ao fim do muito ridculo que devia parecer. Um homem adulto saltando deum lado para outro como uma mulher histrica. As calas ao redor de seus joelhos. O tecido 
dos cales agitando-se. Um camundongo pendurando de sua mo. Se Rio entre dentes,
apesar de que no era esta sua inteno. Inclinando-se para liberar a seu pequeno prisioneiro,
negou com a cabea.
-Voc vais acabar comigo, jovencita. 
Annie emitiu um som detrs de sua mo que no podia ser mais que uma risita afogada. Alex 
voltou a grampe-los calas e o cinturo.
-Crie que  gracioso, verdade? -Logo, fazendo um gesto com seus dedos polegares e ndice,
como se estivesse medindo algo com eles, sorriu e disse-: Seu amiguito esteve assim de 
perto de reunir-se com seu criador. -Empurrou ligeiramente um fragmento de porcelana coma ponta de sua bota-. Por sua culpa, acredito que nosso ch terminou.
Ela se agachou para dar tapinhas na prega de sua larga saia, encontrou ao camundongo, quese tinha refugiado junto a seus ps, e o levantou sobre suas mos cavadas. Ao Alex lhe 
revolveu o estmago quando ela beijou a cabecita do roedor e logo o levou a sua bochecha. 



Como se soubesse que tinha estado a ponto de morrer, a trmula criatura se fez um novelo.
Annie o beijou de novo, acariciou-o com a gema de um dedo e logo o deixou no cho, lhe 
dando um tapinha para que corresse a ficar a salvo.
Quando se levantou e seu olhar se cruzou com a do Alex, lhe apagou o sorriso da cara. ficou abrincar nervosamente com os botes de seu corpete. Logo, entrelaou os dedos de ambas as 
mos e fez ranger os ndulos. Ele se perguntou se a sensao seria igual de relaxante quandose podiam ouvir os ocos estalos. A julgar pelo nervosismo do Annie, sups que no. 
Depois de deixar escapar um suspiro, concluiu que uma volta ao redor da pista de baile noera suficiente para infundir confiana a uma jovem receosa to especial. No esperava que seproduje um milagre, mas teria desejado ver um pouco menos de temor em seus olhos.
Terminou de met-la camisa nas calas e se agachou para recolher os fragmentos quebrados 
da porcelana. Guardando uma distncia prudente, Annie se ajoelhou para lhe ajudar. Quando 
por acaso os dois tentaram agarrar o mesmo pedao de porcelana, ela apartou a mo de um 
puxo, como se temesse que ele tratasse de agarr-la. Alex fez todo o possvel para noofender-se. Ganhar sua confiana ia levar bastante tempo.
Plenamente consciente de que a atmosfera de magia se destruiu to irreparavelmente como ataa, apropriou-se dele uma profunda tristeza, mas em seguida a afugentou. No havianenhum motivo para sentir-se triste. Nenhum absolutamente. A valsa tinha terminado, mas avida do Annie acabava de comear. Ele se encarregaria disso, embora fora a ltima coisa quefizesse em sua vida. 

Consciente de que Alex a estava olhando e ficando cada vez mais nervosa, Annie fingiu sentir-
se alheia a todo aquilo que no tivesse que ver com os diminutos fragmentos de porcelana queestava recolhendo e acrescentando  pilha que tinha sobre a palma da mo. Tola, mil vezes 
tola. Nunca deveu subir a aquele apartamento de cobertura s escondidas. Desde o comeosoube que seus desaparecimentos desgostavam ao Maddy e ao homem. Se tivesse tido um 
pouco de miolo, teria imaginado que ele finalmente descobriria onde se estava escondendo.
Agora conhecia a verdade respeito a ela, e provavelmente a mandasse a aquele horrvel lugardo que sua me sempre lhe falava: o lugar onde as jovens como ela eram encerradas emcuartitos e comiam papa com vermes. Sua me lhe havia dito que no s lhe proibiriam voltar 
a sair, mas tambm alm disso eram muito cruis, terrivelmente cruis com a gente queestava ali encerrada. 
Ao Annie lhe fez um n na garganta e as lgrimas comearam a lhe queimar os olhos. Fugindoo olhar do Alex, deixou cair os fragmentos sobre a mesa e se limpou as mos as esfregando.
Desejava que ele sasse dali para poder ficar sua prpria roupa e soltar o cabelo. Ao melhor, se 
ela se comportava muito, muito bem e nunca voltava a subir ali, o homem poderia esquecertudo o que tinha visto e no lhe contaria nada a seu pai.
Lhe deu um pequeno susto ao agarrar a do queixo de repente e obrig-la a olh-lo  cara. 
Annie piscou, mas foi em vo. Suas lgrimas no tinham outro lugar onde ir: s ao exterior; ese transbordaram de seus olhos para correr pelas bochechas.
-N... 
Ela imaginou sua voz, grave e com um tom de doce repreenso. Por alguma razo, isto fez quedesejasse chorar com mais fora. Com seus dedos speros, ele secou as lgrimas de suasbochechas. Esboou um sorriso um pouco forado.
-No tenha medo, Annie, carinho. Tudo ir bem. Prometo-lhe isso. 
Era fcil para ele dizer estas palavras. No era ele quem teria que comer vermes.
Desconcertada pelo penetrante olhar do Alex, a jovem baixou a vista. A maneira de resposta,
ele apertou com mais fora seu queixo e lhe sacudiu ligeiramente a cabea. Surpreendida,
Annie o olhou de novo. 
-Confia em mim-disse ele muito devagar-. Conhece a palavra confiar? Significa que queroque cria que sou seu amigo. Pode tent-lo?
Annie o olhou com a expresso de perplexidade que tinha aperfeioado ao longo de quatorzeanos de prtica. Seu sorriso se fez mais profunda.
-No pode me enganar. Sei muito bem que entende o que te estou dizendo. 
Depois de dizer estas palavras, soltou-a e se levantou. Sem saber o que fazer, Annie 
permaneceu agachada a seus ps. Quando finalmente encontrou o valor necessrio paraelevar a vista e olh-lo aos olhos, descobriu que o homem estava sonriendo e lhe tendia uma 
mo. 
-Venha, baixemos j. Maddy no vai poder dar crdito a seus olhos. 
O corao do Annie comeou a pulsar com fora. Lanou um olhar se desesperada a sua roupa, 



que tinha deixado dobrada sobre a cadeira de balano. O seguiu seu olhar, logo sorriu e negou 
com a cabea. 
-Assim est maravilhosa. Vamos. 
Quando viu que ela no fazia movimento algum para obedec-lo, inclinou-se para agarr-la do 
brao e aproxim-la a ele.
-Pedirei a uma de quo criadas deva buscar suas coisas. Menos o camundongo, certamente. 
Temo-me que ele ter que ficar aqui acima. 
A jovem olhou com preocupao para as sombras. Quando voltou a dirigir seu olhar para ele, 
Alex lhe disse: 
-Darei ordens estritas para que ningum lhe faa mal a nenhum de seus amiguitos, prometo-
lhe isso. Deixa j de preocupar-se. Entretanto, no posso assegurar o mesmo em relao s
aranhas. -Seguindo seu exemplo, ele olhou atentamente a escurido que os rodeava-. 
Amanh ou depois de amanh, vou mandar a toda uma equipe de criadas que venha aqui 
acima. Se for passar tempo aqui, quero que limpem at o ltimo rinco deste apartamento de
cobertura. No acredito que seja seguro vir a este lugar no estado em que se encontra. 
O repentino nervosismo do Annie fez que voltasse a olh-la. 
-No se preocupe, Annie. Deixaro-o todo tal e como est. Mas tiraro o p e as telaraas. 
Nada voltaria a ser igual. Annie atirou de seu brao para tentar liber-lo. Ele no s queria que
baixasse vestida daquela maneira, mas tambm alm disso tinha a inteno de mandar a toda 
uma equipe de criadas ali acima. Todas elas veriam seu rinco secreto. Absolutamente todas! 
-Vamos, Annie. 
Disposto a no conformar-se com um no, obrigou-a a segui-lo. Quando a luz das guas-
furtadas comeou a desvanecer-se e a escurido se fez mais densa em torno deles, o medo do 
Annie tambm se voltou mais intenso. No podia baixar vestida daquela maneira. E tambm
tinha que impedir como fosse que enviasse s criadas ali acima. Os jogos aos que se entregava 
no apartamento de cobertura eram um segredo.
Sua me lhe dizia que assim devia mant-los. Se a gente os descobria, enviariam-na a um
internato. 
Quando chegaram  porta do apartamento de cobertura, o medo do Annie se converteu em 
verdadeiro pnico. Estava tremendo de tal forma que tinha a certeza de que Alex podia sentir
seu terror. Contudo, ele abriu a porta e a levou a estreita escada. 


CAPTULO 13 

Alex golpeou a porta principal dos Trimble com tal fora que a madeira se sacudiu em suasdobradias. Em seguida ouviu passos que se dirigiam correndo a responder a sua chamada e,
no instante mesmo em que a porta se abriu, entrou como um ciclone na casa, e esteve a pontode derrubar ao assustado mordomo. 
-Onde est James? -perguntou a gritos. Agarrando firmemente suas lapelas, o criado seencolheu de ombros para arrum-la jaqueta.
-Rogo-lhe que me perdoe, senhor, mas... -No se preocupe. Buscarei-o eu mesmo. Alex sedirigiu a grandes pernadas ao salo. Pensou que os pais do Annie poderiam encontrar-se ali aaquela hora. No havia ningum nessa estadia. Ato seguido, percorreu o corredor com passo 
resolvido, abrindo todas as portas. Tampouco viu ningum no estudo do James, a sala de estar 
ou a biblioteca. Ao final do corredor, encontrou-se com uma srie de painis de mogno.
Empurrando-os com o ombro para abri-los, entrou de sopetn no comilo e surpreendeu a seus 
sogros jantando.
James elevou a vista com as bochechas repletas de comida, e o garfo e a faca suspensas sobre

o prato. Ao reconhecer ao Alex, tragou a comida com dificuldade.
-Deus santo! O que acontece? Annie est bem? 
Edie, que se encontrava sentada no extremo oposto da larga mesa, de costas s portas,
levantou-se da cadeira de um salto. Ao fazer isto, golpeou a taa, que caiu, derramando o
vinho. A lquida cor carmesim salpicou a imaculada toalha branca e formou um atoleiro ao
redor do p de um pretensioso candelabro ornamentado.
-Que diabos passou? -perguntou ela-. Tem feito algo terrvel? O que ocorreu? 
Ignorando ao Edie, Alex passou de comprimento por seu lado para avanar para o James.
Quando chegou ao outro extremo da mesa, agarrou ao juiz das costuras de um dos ombros de 
seu smoking e atirou dele bruscamente para obrig-lo a ficar de p.
- um bode egosta e desalmado! -Alex estava fora de si-. Como pde lhe fazer um pouco
to monstruoso a sua prpria filha?
O medo fez que os olhos azuis do James se abrissem como pratos e que seu rosto ficasse 


lvido. 
-De que diabos est falando? -O pai tratou de agarrar-se pelas bonecas do Alex-. Me vais 
romper o traje, homem.
-O traje?
Alex soltou ao homem de maneira to repentina que este se cambaleou, tropeou com suacadeira e caiu ao cho. 
-O que vou fazer, miservel verme,  te arrancar a cabea dos ombros. 
Apoiando-se sobre um joelho com grande dificuldade, James agarrou o brao da cadeira comtodas suas foras para tratar de recuperar o equilbrio. 
-te explique! No pode irromper em minha casa desta maneira, profiriendo ameaa, 
agredindo e escandalizando! H leis que...
-Leis? -Alex deu um enorme murro na mesa. As fontes e os candelabros saltaram ante a 
fora do impacto e voltaram a cair com grande estrpito-. H normas de decncia, meuamigo, que nunca foram escritas em seus preciosos cdigos. Acaso respeitaste alguma delasem sua vida? Com sua filha no, disso estou completamente seguro. -Alex apontou ao narizdo outro homem com um dedo-. Entende isto, desprezvel filho de puta, Annie nunca 
retornar a esta casa. No o far enquanto eu esteja vivo. D por rota minha palavra no que serefere a essa parte de nosso acordo, e mais vale que lhe d graas a Deus Todo-poderosoporque isso seja quo nico tenha decidido romper. 
-No sei do que me est falando -disse James com voz trmula-. Nunca maltratei a minha 
filha. 
-Alguma vez a maltrataste? -Alex soltou uma spera gargalhada-. alm de lhe pegar cadavez que desobedecia, faltaste a seu dever de lhe dar uma educao. H colgios para surdos!
E se podem fazer muitas coisas para ajudar a uma pessoa como ela. Em todos estes anos, nemsequer lhe compraste uma trompetilla, um aparelho de ressonncia. E, pior ainda, deixaste quetodos neste povo criam que  uma idiota! Como consegue conciliar o sonho pelas noites? me 
pode dizer isso Estou completamente seguro de que eu no poderia.
Depois desta acusao, um silncio de assombro se apoderou da sala. Atravs da nuvem de 
sua ira, Alex conseguiu enfocar com claridade o rosto do James. O que viu na expresso dooutro homem o ajudou a sufocar sua fria. No viu culpa alguma nela, como esperava, a no 
ser uma mescla de incredulidade e de profundo alvio. Naquele instante Alex caiu na conta deque os pais do Annie no sabiam. Por impossvel que parecesse, eles de verdade no sabiam.
Tremente sob os ltimos vestgios de sua fria, tirou uma cadeira de um puxo e se deixou cairnela como se algum lhe tivesse dado um golpe nas curvas.
-A garota  surda -disse com voz rouca-. No est louca, nem tampouco  uma idiota. surda. 
Edie se deixou cair em sua cadeira de novo, tampando-a boca com uma mo tremente e 
apertando-a cintura com a outra. Olhava fixamente ao Alex por cima dos ndulos de seusbrancos dedos. depois de um momento, baixou a mo. 
-Annie no est surda! A garota pode ouvir to bem como voc e eu!
Alex sentiu que a ira estava crescendo de novo dentro dele. 
-Essa  uma absoluta mentira, e voc sabe. A garota est surda. Eu mesmo o comprovei estatarde. E no me diga que voc no a viu. Ela no criou esse mundo de fantasia que encontreiem meu apartamento de cobertura da noite para o dia. Faz muitos anos que pratica essesjogos. Voc teve que v-la! Em algum momento, deveu surpreend-la jogando em seu mundoimaginrio.
A culpa que se refletiu nos olhos do Edie o dizia tudo. Alex nunca lhe tinha pego a uma mulher,
mas naquele momento sentiu um forte impulso de faz-lo. Queria que ela sentisse quo 
mesmo Annie, ao menos uma vez. Sem dvida alguma, assim tinha tratado ela a sua filha eminumerveis ocasione. 
-Como pde voc fazer caso omisso das necessidades de sua filha? -Alex tinha agora a vozquebrada-. Se se os disposta a ajuda que requererem, os surdos podem ter vistas 
virtualmente normais. 
-Ela no est surda! -Edie se levantou rapidamente-. voc Crie que se isso fosse verdade 
eu no saberia? Pensa que eu no desejei que assim fora, que inclusive no rezei para que issofosse verdade? Ela no est surda, o asseguro. tornou-se milhares de vezes para ouvir seunome. Como se atreve voc a irromper em nossa casa, gritando obscenidades e nos acusandode maltratar a nossa filha? -levou-se uma mo  boca para reprimir um soluo-. Como seatreve? 
A indignao se apropriou do Alex, ocupando o lugar da ira. levantou-se e voltou a colocar a 
cadeira sob a mesa. 



-E eu que pensei que estava cego. Minha esposa  surda. To surda como uma taipa. - 
Lanou um olhar ao James, que se encontrava detrs de sua cadeira, agarrando fortemente orespaldo como se no pudesse permanecer de p sem este apoio-. Se deram conta vocs de 
que hei dito minha esposa? No estou usando esta palavra  ligeira. A partir deste momento, 
Annie  uma Montgomery, e como tal deixou que pertencer a esta famlia e de ter algum tipode relao com seus membros. 
Edie girou sobre seus tales para ver o Alex sair da habitao. Quando o indignado maridochegou  porta, ela deixou escapar um grito. Era mais um gemido que uma palavra. O sedeteve para olh-la. Viu sua dor, mas no se compadeceu dele. No havia lugar em seucorao para esse sentimento. S Annie merecia sua compaixo.
-No nos pode voc separar para sempre de nossa filhinha -sussurrou ela com tom spero-.
No pode fazer algo semelhante! Ningum poderia ser to desalmado.
Alex a olhou com glacial repugnncia.
-me chame desalmado, se gostar, mas isso  exatamente o que penso fazer. No quero quenenhum dos dois se aproxime de minha esposa. Seu amor, se algum em seu so julgamento 
pode cham-lo assim, no tem feito mais que lhe causar danifico. -Olhou ao Edie aos olhos-. 
Voc, senhora, no merece chamar-se me. -Logo se voltou para o James-. E voc 
ridicularizaste a palavra pai.
Depois de dizer estas palavras, Alex saiu da casa fechando a porta de uma portada e jurando 
em silncio que nunca em sua vida voltaria a pr um p na soleira dos Trimble. 
Entretanto, no caminho de volta a casa, algo rondava insistentemente em suas lembranas. 
Algo escorregadio. Algo que Maddy lhe disse alguma vez. Estava a ponto de chegar ao 
Montgomery Hall quando finalmente recordou do que se tratava. Maddy e ele se encontravam 
em seu estudo falando do Annie e, no transcurso da conversao, Maddy descartou a 
possibilidade de que Annie estivesse surda. "Ela se volta cada vez que a chamo", havia dito. 
Enquanto Alex desensillaba seu cavalo e o levava a quadra, estas palavras lhe vinham 
insistentemente  memria. Edie Trimble lhe havia dito basicamente o mesmo. "Ela se tornou 
milhares de vezes para ouvir seu nome".
Alex no se arrependia de nada do que lhe havia dito aos Trimble. A seu julgamento, eles se 
mereciam cada uma de suas palavras, e muito mais. Mas o que Edie lhe havia dito o enchia de 
esperanas.
Seria possvel que Annie no estivesse completamente surda? Seria possvel que pudesse ouviralguns sons? Alex correu  casa, to emocionado que no via a hora de poder falar com oMaddy a respeito desta possibilidade. 

s dez em ponto da manh seguinte, Alex j estava rondando frente  habitao dos meninos. 
Olhava ao Maddy e ao Annie atravs da porta parcialmente aberta. A jovem, que de novolevava um vestido infantil, encontrava-se sentada  mesa. Fazia a um lado seu inacabado caf 
da manh e tinha o queixo apoiado sobre o dorso da mo. Olhando atravs da janela combarrotes, ignorava ao Maddy, que fingia estar arrumando as gavetas da cmoda.
Tal e como Alex lhe tinha ordenado fazia um momento, o ama de chaves elevou de repente acabea e a chamou voz em grito. 
-Annie! 
Alex esteve a ponto de gritar de alegria quando Annie se voltou e lanou um olhar inquisidora 
 outra mulher. Fingindo que no passava nada, Maddy abriu outra gaveta e comeou a dobrar 
uma vez mais a roupa que se encontrava acima. Esperou uns quantos minutos com o fim de 
lhe dar ao Annie o tempo suficiente para voltar a dirigir sua ateno para a janela. Logo, voltou 
a cham-la. Igual a antes, Annie olhou por cima de seu ombro.
Podia ouvir! Alex estava to contente que lhe pareceu quase impossvel conter-se. Maddy se 
voltou para a porta, olhou-o atravs da fresta e lhe fez uma piscada de cumplicidade. Alex lhesorriu e assentiu com a cabea. depois de esperar uns quantos minutos, ele tambm chamou oAnnie. Ela nem sequer pestanejou ante o som de sua voz, cujo tom era mais grave. Chamou-a 
mais forte. Nenhuma reao. Depois do terceiro intento, Maddy voltou a gritar seu nome e, tal 
e como aconteceu anteriormente, Annie em seguida se voltou. 
-Pode te ouvir! -proclamou Alex enquanto abria a porta de um empurro e entrava nahabitao com ar resolvido-. Acredito que isso se deve a que sua voz  aguda. Sabe o que isto 
significa, Maddy? 
A emoo levou ao Alex a extralimitarse. Abraou ao Maddy e se deslizou com ela ao redor da 
habitao com passos largos e majestosos.
-Com a ajuda de um aparelho de surdez, uma trompetilla, isso que chamam corno de 



ressonncia, ela poderia nos ouvir quando lhe falamos. Poderemos lhe ensinar a ler!
Possivelmente inclusive a falar! Maddy, isto  maravilhoso. 
Ofegando por causa do incomum exerccio, Maddy exclamou: 
-Basta j, senhor. Meu velho corao no pode suportar tanto bailoteo! 
Soltando  boa mulher, Alex se voltou para o Annie. Ela o estava observando com seus 
cautelosos olhos azuis e seu habitual receio. Alex esboou um sorriso, deslizou um brao ao 
longo de sua cintura e fez uma majestosa reverncia. Ao endireitar-se, fez-lhe um rogo 
galante.
-Concede-me este baile? 
Ela elevou a vista para olh-lo. Evidentemente, estava surpreendida e algo mais que
ligeiramente receosa. Logo, dirigiu seu olhar para o Maddy. Alex concluiu que o baile era
obviamente uma atividade secreta, atividade que no podia permitir-se fora do apartamento
de cobertura. 
Ao diabo com tudo isso... 
Resolvido, salvou a distncia que os separava, agarrou-a da mo e a fez levantar-se da
cadeira. Contra sua vontade, o qual ela fez evidente ao agarrotar seu corpo e dirigir-se a 
tropices aos braos do Alex, comeou a danar ao compasso de uma valsa imaginria.
Decidindo que os dedos de seus ps podiam suportar aquele castigo e muito mais, Alex a
arrastou obstinadamente por toda a habitao, com o olhar fixo em seu rosto suspicaz. 
-Acredito que ela no quer danar -assinalou Maddy, innecesariamente, pois Alex sabia de 
sobra. 
O eufrico marido se limitou a sorrir de brinca a orelha. 
-adora danar. Mas no quer faz-lo comigo. 
Annie elevou a vista enquanto ele falava. Alex olhou seus olhos assustados, desejando de todo
corao que ela pudesse lhe contar o que estava passando por sua cabea. As lembranas do
Douglas? O temor que lhe inspirava? Plenamente consciente da rigidez de seu corpo e de sua
diminuta estatura, comeou a lhe remoer a conscincia. Deixou de danar pouco a pouco, sem 
deixar de olh-la aos olhos em nenhum momento. 
-Vale, Annie, voc ganha esta batalha. No te obrigarei a danar comigo.
O alvio que se refletiu no rosto da jovem era to evidente que Alex ps-se a rir. Ela podia olhlo 
com aquela expresso de idiota at que o inferno fora sitiado por tormentas de neve, mas
ele nunca voltaria a morder o anzol. Enquanto a olhasse  cara e falasse com claridade, lhe
entendia perfeitamente.
-Entretanto, antes de que te solte, tem que pagar um preo -acrescentou ele em voz baixa.
Para ouvir estas palavras, seus olhos azuis se escureceram, e ele sentiu seu corpo agarrotarse 
ainda mais. Certamente, entendia-lhe. 
-Se no querer danar comigo -prosseguiu ele-, diga-o. 
Maddy respirou fundo.
-Senhor Montgomery! Que vergonha! Voc sabe muito bem que a pobre menina no pode 
falar. 
-Sim pode -disse ele, sem apartar o olhar do Annie-. E o far ou, do contrrio, vou estreitar 
a todo o dia entre meus braos desta maneira. 
Annie abriu os olhos desmesuradamente. Alex sorriu. 
-E bem, carinho? me rechace ou dana comigo.  muito singelo.
A boca da jovem se reduziu a uma magra linha, em um gesto de insubordinao. Cuidando de
no exercer muita presso, o brao do Alex a apertou com mais fora ao redor da cintura e fez
que se aproximasse um pouco mais a ele. Ela elevou o queixo. Era a viva imagem da rebeldia.
Em resposta, Alex comeou a mover-se por toda a habitao uma vez mais, obrigando-a a
segui-lo.
-diga-me isso ao ouvido, Annie, carinho. Sei muito bem que pode faz-lo. 
-Ai, senhor, tenha piedade!
O marido seguiu sonriendo, sem deixar de olhar os olhos cheios de inquietao do Annie. 
-me diga que no, Annie, ou dana comigo at o anoitecer. Voc decide.
Ele a viu apertar a boca. Ato seguido, a jovem tragou saliva. Ao olh-la, ao ver o descomunal
esforo que ela estava fazendo, Alex sentiu que todo seu corpo ficava tenso. Cravando o olhar 
em um dos botes da camisa dele, finalmente abriu a boca. E logo, to rpido que ele quase 
no alcanou para ouvi-la, ela formou a palavra esperada:
-No. 
Uma sensao ardente subiu pela nuca do Alex. Pela expresso glacial de seu rosto, ele soube
que ela o estava odiando um pouco por insistir naquele tema, mas no lhe importou. Ao
ganhar aquela pequena batalha, ele tinha conseguido um grande triunfo para os dois. 




Quando a soltou, Annie se cambaleou pela repentina desamparo. Alex a agarrou do ombro 
para sujeit-la e impedir que perdesse o equilbrio. Os formosos olhos do Annie voltaram a 
cruzar-se com os seus e lhe roou a bochecha com a gema de um dedo.
-Obrigado -lhe sussurrou. 


depois de deixar ao Annie, Alex se encerrou no estudo para pr ao dia suas contas. Este 
trabalho o ocupou at a hora da comida, momento no qual se deteve para almoar noescritrio. Quando a criada recolheu os pratos, recostou-se em sua cadeira, ps os ps sobre amesa e apoiou a cabea no respaldo da poltrona. Olhando pensativamente ao vazio, 
contemplou outro problema relacionado com o Annie; problema no que, at aquele momento, 
no se tinha permitido pensar muito.
Como podia um homem cortejar a uma garota surda e tmida?
Recordou durante uns breves minutos o que tinha sentido ao danar com ela no apartamentode cobertura no dia anterior; e sabia, sem a mais mnima dvida, que queria voltar a estreit-la 
entre seus braos. Era to singelo, e de uma vez to complicado, como isso. Seduzi-la seriatoda uma provocao. A julgar por sua reao ante a proposta de danar a valsa aquela 
manh, ela evitaria raivosamente qualquer tipo de cercania fsica. 
Normalmente, Alex se teria conduzido da maneira habitual, mas lhe fazer uma proposta diretano sortiria efeito com o Annie, e ele sabia. Por uma parte, lhe tinha medo por causa do queDouglas lhe tinha feito, o qual era compreensvel. Por outra, a vida que ela tinha levado atento no a tinha preparado para ser sincera. Seus pais se esforaram tanto por manter aoAnnie e o mal que padecia em um segundo plano, que a tinham convertido tambm em umapessoa cautelosa e reservada, professora da dissimulao. 
A seduo era seu objetivo, mas o que devia fazer para consegui-lo? Passaram uns quantosminutos, durante os quais Alex concebeu e descartou vrias idias. Logo, um crescente sorriso 
apareceu em sua boca. Como seduzia um homem a uma mulher? Atraa-a com algo ao que elano pudesse resistir. 

Aquela tarde, quando Maddy baixou a fiscalizar s criadas em suas diversas tarefas 
domsticas, Annie a seguiu a todos lados, como tinha estado fazendo desde fazia mais de umasemana. A nica diferena era que aquele dia havia um observador na casa. Quando viu quesua esposa se encontrava na planta baixa, ele se retirou a seu estudo, tendo muito cuidado de 
deixar a porta entreabierta. 
Sentando-se em sua cadeira favorita, Alex agarrou a panela que havia trazido da cozinha. 
Sujeitou-a firmemente entre os joelhos e comeou a esmurrar seu fundo com um concha de 
sopa de metal. O som resultante foi um estrondo que teria podido levantar os mortos de suastumbas. No satisfeito com o som, recoloc a panela at que a percusso produziu um agudo 
rudo metlico. Posto que tinha advertido ao Maddy, criada-las e Frederick com antecipao,
Alex sabia que nenhum deles tentaria procurar a fonte do som. S uma pessoa o faria... sepodia ouvir o rudo.
To, to, ratapln. Sem lugar a dvidas, estava Armando uma animao terrvel, e se sentiacompletamente ridculo. Um homem adulto golpeando uma panela sem tom nem som! S 
esperava que sortisse efeito. Obrigando-se a no dirigir o olhar para a porta, esmurrou apanela sem cessar, sem saber sequer se Annie podia ouvi-lo.
Estava a ponto de perder a esperana quando alcanou a perceber um movimento com aextremidade do olho. Com renovado entusiasmo, seguiu lhe dando  panela. Por todos os 
meios, evitou sorrir, para no pr de manifesto sua euforia. Um instante depois, os sapatosgastos do Annie apareceram ante sua vista, e ele soube que ela se encontrava a apenas unsquantos metros de distncia. Seguiu blandiendo o concha de sopa, fingindo que no a tinha 
visto. 
Atrada pelo rudo como as aparas de metal por um m, a moa se aproximou. Logo, 
aproximou-se ainda mais. Finalmente, Alex se permitiu elevar a vista. A expresso do rosto doAnnie fez que valesse a pena ter feito o ridculo. Totalmente encantada, seus olhos enormes eperplexos se cravaram na colher.
Alex se permitiu sorrir, embora s levemente, e deixou de esmurrar a panela. Ela se 
sobressaltou ao perceber o repentino silncio e dirigiu seu olhar para ele. Alex lhe estavaoferecendo a colher. 
-Quer tent-lo? 
O veemente desejo que se refletia em seus olhos era inconfundvel. Recordou o que James lhe 



havia dito sobre o vergonhoso comportamento do Annie com o rgo da igreja fazia j muitos 
anos e lhe encolheu o corao. O som. Para o Annie, era escorregadio e pouco freqente, ummilagre que de vez em quando atravessava o muro de silncio que a rodeava. Quando era umamenina, para humilhao de seus pais e sua prpria condenao, ela no pde resistir a seusencantos na igreja e abraou com todo seu corpo o rgo, fazendo o que seu pai tinhachamado "rudos bestiais". Quando se converteu em uma mulher adulta, seguiu atraindo-airresistivelmente. O som. Um presente inestimvel para algum como Annie, um presente que 
ele podia lhe oferecer.
Ao contemplar a tormenta de sentimentos que se refletiu em seu rosto, Alex quase se sentiuenvergonhado de si mesmo por usar o som como chamariz sedutor. Quase. Ela era sua esposae, pelas boas ou pelas ms, tinha a inteno de fazer que seu matrimnio deixasse de ser umafarsa. No s por seu prprio bem, mas tambm tambm pelo dela. Dado o defeito fsico quetinha, era possvel que a jovem nunca pudesse levar uma vida completamente normal, mas elepodia lhe dar algo muito semelhante. Amor, risadas, companhia. dentro de muito pouco tempoteriam inclusive um filho que criar. Annie, em sua qualidade de me, participaria ativamente 
em sua educao. O se ocuparia disso.
Alex lhe estava oferecendo a colher, tentando-a sem misericrdia e sem que lhe remoessemuito a conscincia. O receio fez que seus preciosos olhos se voltassem to cinzas como um 
dia tormentoso. Mas tambm viu neles o desejo. Um desejo to veemente que fez que Alexsentisse uma profunda pena por ela. O tinha a magia em suas mos. Tudo o que ela deviafazer era alargar a mo para agarr-la. 
Todo seu corpo ficou a tremer ao aproximar-se e alargar a mo para agarrar a manga dacolher. Seus dedos se roaram naquele momento. Uma sensao eletrizante para o Alex, eclaramente perturbadora para ela.
-Venha, esmurra-a. 
Annie apartou o olhar de sua boca para dirigi-la para a panela. Um brilho de emoo apareceu 
em seus olhos. Reacia a aproximar-se muito, inclinou-se para frente para golpear a panela. 
Para ouvir o rudo metlico que produziu com o concha de sopa, a moa piscou. Emboraparecesse mentira, piscou. Alex esteve a ponto de gritar de jbilo.
-Segue! No te vai morder. 
Nem eu tampouco, jurou ele em silncio. No podia estragar aquele maravilhoso momento.
Possivelmente nunca a morderia, nem a tocaria sequer, mas a felicidade daquele instante noa tiraria ningum.
Lhe fez um n na garganta ao v-la golpear uma vez mais o fundo da panela. Uma expresso 
de assombro percorreu seu rosto ao perceber o som resultante. Logo sorriu. Esse radiante 
sorriso transformou sua cara a tal ponto que Alex ficou olhando-a fixamente. Annie elevou a 
vista para olh-lo aos olhos, e surgiu entre eles um sentimento que no tinha nada que vercom a seduo, e sim muito com uma amizade em floraes. 
Para o Alex, isto tinha que ser suficiente de momento. Para o Annie, era um comeo. 

CAPTULO 14 

Aquela noite Annie esperava que lhe servissem o jantar na habitao dos meninos, como decostume. Mas, em lugar disso, Maddy a levou a planta baixa e logo ao comilo. Embora Annie 
nunca tinha estado nessa habitao sentada frente a uma comida, entrava ali com o Maddyinumerveis vezes com o passar do dia. Seu ambiente acolhedor e seu tom amarelo radiantesempre lhe tinham atrado, possivelmente porque a cor lhe recordava a sensao de estar aoar livre, o qual ela jogava muitssimo de menos. Uma chamin de pedra se estendia de umextremo a outro de uma das paredes. Sua simplicidade harmonizava com a decorao. Emlugar de encaixe irlands, o aparador exibia um singelo leno bordado com um encaixe de 
lanadeira a seu redor. Sobre ele havia uma grande variedade de porcelanas com desenhos derosas, prticos utenslios de servir e uma bule, visivelmente antiga, com bordo dourado. 
Apesar de seu grande tamanho, na habitao se respirava um ambiente quente, que enchia amente do Annie de imagens de fogos vivazes nas frite noites de inverno e de uma famlia unidacongregada em torno de uma abundante janta. Alex se tinha recostado na cadeira que seencontrava no extremo oposto da larga mesa. Seu cabelo resplandecia sob a luz de uma 
aranha de cristal, o nico detalhe algo luxuoso e de relativa elegncia naquela habitao. Com 
um brao sobre o respaldo da cadeira e cruzado de pernas, o dono da casa parecia estar um 
pouco aborrecido e muito impaciente. Quando a viu entrar na habitao, levantou-seimediatamente. Depois de rodear a mesa, tendeu-lhe seu enorme emano.
Em harmonia com a habitao, ele levava roupa bastante cmoda: uma camisa de seda de 



pescoo em pico e da cor da nata fresca, e calas de montar marrons, colocados dentro desuas botas altas de cor ocre escura. Enquanto ele se aproximava, Annie aproveitou o momentopara observ-lo atentamente, advertindo uma vez mais que no se parecia absolutamente aseu pai nem a outros homens que tinha visto em sua casa. Em lugar dos volantes, os alfinetesde gravata com pedras preciosas e as vistosas cadeias de relgio de bolso que tanto gostavam 
a esses cavalheiros, ele levava um cinturo com uma fivela dourada, sem ornamentos, e uma 
cadeia de relgio de bolso bastante singela, colocada dentro de uma das presilhas para ocinturo. No vestia elegantes coletes de seda. No exibia cintilantes anis. Nada de perfumes 
com aromas estranhos. 
Quando Annie via o Alex, lembrava-se da luz do sol e do ar fresco, no daqueles sales compesadas cortinas cobrindo as janelas, que ela tanto desprezava. O cabelo leonado lhe caa 
sobre a frente em forma de pequenas ondas iluminadas pelos reflexos que lhe tinha feito o sol,
e sempre parecia ligeiramente despenteado, como se o vento o tivesse agitado recentemente. 
O pescoo de sua camisa estava aberto, deixando ver a dourada superfcie de seu peito.
Inclusive andava como se estivesse ao ar livre, com gesto despreocupado, passados compridose geis, e os braos ligeiramente dobrados e balanando-se harmonicamente aos flancos. 
Depois de deter-se frente a ela, agarrou-a da mo e a levou a mesa, tirando a cadeira que seencontrava a sua esquerda. Caiu na conta de que tinham posto a mesa para duas pessoas, e oolhou com expresso de terror nos olhos. Em casa de seus pais nunca lhe tinham permitidojantar no comilo. 
-Acredito que toda mulher deve jantar com seu marido. No crie? 
Annie sentiu como se o estou acostumado a tivesse desaparecido debaixo de seus ps. ficouolhando-o fixamente com horrorizado assombro, convencida de que certamente tinha lido malsuas palavras. A expresso de aborrecimento de seu rosto lhe dizia outra coisa. Era evidenteque tinha falado sem pensar e que tivesse preferido no haverdado essa informao ao Annie. 
Agarrando a dos ombros com delicadeza, fez-a sentar-se e logo se inclinou para lhe dar um 
tenro beijo no cabelo. Posto que se encontrava sentada de lado, o brao esquerdo do Annie 
estava junto  mesa e, em meio de sua confuso, deu-lhe uma cotovelada a sua taa de ch,
sem querer. Alex estendeu rapidamente a mo para impedir que a porcelana se rompesse. 
Tinha arqueado as sobrancelhas a maneira de irnico signo de interrogao. Era evidente quetinha decidido que a melhor forma de dirigir aquela situao era fazendo uma brincadeira arespeito. 
-Suponho que no  a melhor noticia que lhe deram em todo o dia. -Ao ver seu olharhorrorizado, insistiu nas brincadeiras-. Ou possivelmente em toda a semana? -A expressodo rosto do Annie seguia sendo de horrorizada incredulidade-. Sei que sou um marido cheio 
de defeitos, mas no sou to mau, verdade? 
Incapaz de apartar o olhar, Annie voltou a pr o cotovelo perto do bordo do prato contudocuidado. Sua esposa? Tinha que ser mentira. Simplesmente tinha que estar mentindo. Eracerto que ela no sabia muito sobre maridos, algemas e matrimnios, mas tampouco era toignorante a respeito. No era to ignorante como para no haver-se dado conta de que tinhaparticipado de uma, que alm disso era a sua.
No fazia muito tempo que sua irm maior se casou. A cerimnia, a que ao Annie tinham 
proibido assistir, levou-se a cabo na igreja; mas antes tinha tido lugar toda classe de 
preparativos, entre os quais se encontrava a confeco de um formoso vestido branco para anoiva. Annie recordava que a casa de seus pais se encheu de flores e que, depois das bodas,
uma multido de gente tinha assistido  festa. Os convidados beberam ponche, comeram boloe olharam ao Elise enquanto abria os presentes. Muitos presentes. Muitos mais dos que Annie 
jamais tinha visto. Nem sequer tinha visto tantos sob uma rvore de Natal.
Alex voltou a sentar-se  cabeceira da mesa. Tinha uma postura bastante relaxada e suaatitude era uma mescla de resignao e brincadeira de si mesmo. Descansando um cotovelosobre o brao da cadeira, deu-lhe um puxo a sua orelha e ficou observando-a emmeditabundo silncio. depois de um comprido momento, rompeu o silncio. 
-me acredite, no pensava dizer-lhe o de uma maneira to brusca, Annie. foi uma falta de 
considerao por minha parte, e sinto muito te haver aborrecido. 
Aborrecido? Annie logo que pde conter-se para no derramar lgrimas de aborrecimento. Seestava casada, por que sua me no lhe tinha feito um vestido? E por que no tinha recebidomuitos presentes? Gostava dos presentes, e os vestidos bonitos gostava ainda mais. Nohouve festa, nem bolo, nem cerimnia na igreja. Como era possvel que estivesse casada?
Alex tambm comeava a parecer aborrecido. Annie pensou que isto possivelmente se 
devesse a que sabia que ela estava a ponto de chorar. Tratando de conter as vontades de fazlo, 
a garota baixou a vista para olh-las mos, que agora descansavam sobre seu regao. Em 



seguida advertiu as manchas de erva em suas meias, e a presso que sentia detrs dos olhosse fez ainda mais intensa. A diferena de suas irms, nunca lhe compravam nada. Em lugar deum vestido branco, sapatilhas de seda e um vu de encaixe para sua cara, tudo o que lhetinham dado eram asquerosos vestidos velhos, sapatos gastos e meias manchadas. 
E nenhum presente! Nenhum sozinho! Isto fez que lhe alagassem os olhos sem remdio. Annie 

o fulminou com o olhar atravs do brilho trmulo de suas lgrimas. Um msculo de suamandbula comeou a mover-se nervosamente. 
-No chore, carinho. S porque eu... bom, estivemos casados todo este tempo, sabe? O fatode que se inteire agora no significa que as coisas vo trocar. -inclinou-se para poder olh-laaos olhos. Tratava de ser o mais carinhoso e doce possvel-. Sei muito bem que teve uma 
experincia extremamente desagradvel com o Douglas.
Douglas? Annie no conhecia nenhum Douglas. ficou olhando-o, perplexa, desejando que nose separasse do tema, quer dizer, o vestido bonito e os presentes que lhe tinham negado. Equeria saber exatamente quando tinha tido lugar as bodas. Ou tambm a tinha perdido, comoa de sua irm? 
Alex acariciou a bochecha do Annie com o dorso da mo. Ela sentia um formigamento na pelecada vez que a tocava. Pensou que em qualquer outra ocasio esta possivelmente tivesse sido 
uma sensao incrivelmente agradvel, mas estava to zangada que ficou a tremer. 
-Annie, em relao ao que te passou nas cataratas aquele dia... -decidiu-se a falar doassunto, acariciando-a debaixo do olho com o dedo polegar para secar uma lgrima esquiva-.
No acredito que seja possvel que uma mulher possa esquecer por completo algo semelhante.
Mas quero que fique claro, aqui e agora, que eu no sou como meu irmo. O que Douglas te 
fez foi... bom, foi uma canalhice... e, enquanto eu esteja vivo, ningum voltar a te fazer 
danifico dessa maneira. Entende-me, Annie? Nunca. 
Ao ler estas palavras, o corao do Annie comeou a saltar dentro de seu peito, como umpssaro assustado. As cataratas, aquele repugnante homem. Douglas... o irmo do Alex.
-Quando chegar o momento em que voc e eu... -O homem percorreu seu lbio inferior coma gema do dedo. Seus olhos cor mbar se empanaram com o que parecia ser um grandeacesso de ternura-. Bom, suponho que greve dizer que, uma vez que voc e eu sintamos a 
gosto o um com o outro, espero que nossa relao troque, que possamos desfrutar de umaintimidade especial, tal e como o fazem outros casais.
Annie, que entendeu mais ou menos algo do que queria dizer, ficou tensa e quis afastar-se. Ele 
a agarrou pelo queixo com firmeza, sonriendo docemente. 
-No ser em seguida, certamente. No fuja aterrorizada. E s o faremos se voc tambm oquer. A diferena de meu irmo, eu nunca serei brusco contigo nem te causarei dor. Prometo-
lhe isso. No tem absolutamente nada que temer de... 
Annie se soltou de um puxo de suas mos e se levantou rapidamente da cadeira. De repente,
pareceu lhe faltar o ar naquela habitao, e seus pulmes tratavam desesperadamente deconseguir o precioso fluido. Levando uma mo ao pescoo, a moa deu um passo para trs.
Seu olhar horrorizado se cravou no rosto moreno do Alex. Ao v-la afastar-se, ele ficou de plentamente. 
-Annie... 
Ela negou violentamente com a cabea. Logo, girou sobre seus tales e saiu correndo da 
habitao. 
Alex a seguiu. Assombrou-lhe um pouco sua agilidade, especialmente ao chegar s escadas.
Igual a uma gazela, ela comeou a subir dando grcis saltos. lhe pisando os tales, Alex estavaa ponto de agarr-la do brao quando a mulher pareceu intuir o perto que se encontrava ele e 
se voltou para lhe fazer frente. Plida de medo, girou sobre seus tales, lhe dando um golpe noma do rosto com seu pequeno cotovelo. Alex sabia que era um acidente, mas lhe horrorizoutanto lhe haver pego, que esteve a ponto de perder o equilbrio. O alargou a mo para tratarde sujeit-la e impedir que casse. Quando viu que ele fazia este movimento, Annie se afastou 
a toda velocidade e literalmente voou escada acima. 
Temendo que casse, Alex decidiu prudentemente deixar que lhe adiantasse ligeiramente atque chegasse ao patamar, onde j no correria perigo algum. Ao reatar a perseguio,
descobriu que tinha subestimado sua agilidade. Annie chegou  habitao dos meninos muitoantes que ele, entrou correndo e fechou de uma portada. Ao chegar  porta, Alex ouviu quealgo me chocava com um rudo surdo contra a madeira. Para sua surpresa, a porta apenas seabriu uns trs centmetros quando ele tentou entrar, e ento caiu na conta de que a muitopicasse tinha posto uma cadeira de respaldo reto sob o pomo, a maneira de cunha. 
-Annie! 
Alex tomou ar para tentar tranqilizar-se e se passou uma mo pela cabea. Esta era a pior 


das estupidezes que tinha feito em sua vida. Como lhe tinha ocorrido lhe soltar a notciadaquela maneira? Ainda no podia acreditar que o tivesse feito. cedo ou tarde -melhor cedo,
para que no se inteirasse por outra pessoa-, teria tido que lhe contar todo o relacionado com 
as bodas. Mas no daquela maneira. 
-Annie, carinho, abre a porta por favor. me deixe te explicar o que te disse abaixo.  evidente 
que interpretou mal minhas palavras. Se me der a oportunidade, esclarecerei-te coisas.
depois de pronunciar este bonito e breve discurso, Alex recordou que estava falando com umamulher surda. Pelo amor de Deus. tocou-se o sobrecenho, afligido, e voltou a respirar fundo. O 
que estaria fazendo ela ali dentro? Reconfortava-lhe pensar que, por muito assustada queestivesse, no podia saltar pela janela. Que confuso! Deu-lhe um empurro  porta. Acondenada cadeira resistiu a investida. 
A pobre garota morreria de medo se tentava entrar em empurres. Sem lugar a dvidas, acadeira saltaria pelos ares, a porta sofreria danos de novo e, alm de tudo isto, uma entrada 
semelhante no obteria precisamente aplainar o caminho para conseguir tranqiliz-la. Alex sevoltou e apoiou as costas contra a parede, tentando encontrar a maneira de convencer a deque lhe deixasse entrar. Posto que ela no podia ouvir, os discursos eloqentes no serviriamde nada. 
Ah!... mas ela sim que podia ouvir, disse-se. Tudo o que precisava era algo que fizesse rudo.
Algo que lhe parecesse to maravilhoso que no pudesse resistir a tentao do ter.
Desgraadamente no tinha um rgo de igreja perto. A msica, sups ele, faria que Annie 
fosse at o fim do mundo. 
A msica... Alex se afastou da parede. A msica!  obvio. Correu pelo corredor para dirigir-se aseu dormitrio. 

Acurrucada no cho da habitao dos meninos, com os ombros encaixados entre a cama e a 
parede, Annie olhava atentamente, por cima do colcho da cama, as densas sombras dahabitao. Posto que no tinha aceso nenhum abajur, tudo parecia estar banhado por umaespcie de luz azul, horripilante e fantasmagrica. Com os nervos ainda crispados devido aoenfrentamento com o Alex, no era muito difcil que acreditasse ver criaturas monstruosasrondando na escurido, observando-a e esperando para equilibrar-se sobre ela. 
Apartou estes pensamentos de sua cabea, disposta a no deixar-se levar por sua frtilimaginao. Naquele instante, o nico que poderia equilibrar-se sobre ela seria Alex 
Montgomery, e deveria vigiar a porta em lugar das sombras. Se ele decidia entrar, a frgilcadeira que tinha posto sob o pomo no poderia det-lo. 
Sua esposa. Annie se encolhia cada vez que esta palavra lhe vinha  mente. E, quando se 
permitiu refletir sobre suas implicaes, comeou a suar. Um suor frio e trmulo que cobriu suapele e desceu pelas costelas em forma de gotas glaciais. Douglas, o homem que a agrediu, eraseu irmo. Ai, Deus! J o tinha imaginado. Desde o comeo o tinha imaginado. Mas depois deum tempo deixou de sentir aquele medo constante.
at agora... Queria estar com ela? Tinha-lhe confessado que sim. Queria estar com ela igual aDouglas aquele dia nas cataratas; mas, certamente, prometeu-lhe que no lhe faria mal. Acasoacreditava que ela era to parva para lhe acreditar?
Lhe encheram os olhos de lgrimas.  obvio que acreditava. depois de tudo, ela era Annie, a 
idiota, e os idiotas acreditavam tudo o que lhes diziam. Verdade? Pois no. Embora fosse uma 
parva exmia, as coisas no seriam distintas. Acaso a dor que sofreu foi a nica parte horrvel 
de todo aquilo? No queria que ningum voltasse a tocar a daquela maneira nunca mais em 
sua vida. Ningum. Nunca mais.
As lembranas invadiram a mente do Annie com cruel claridade. Desde aquele dia, ela tinha 
feito enormes esforos por no pensar no acontecido. Mas s vezes, como naquele momento,
no conseguia apartar as espantosas imagens de sua cabea. Alex queria fazer essas coisascom ela. E ela era sua esposa.
Ao recordar de repente aquela outra manh, ao fim todo lhe resultou bvio. O pastor com a 
cabea inclinada e lendo o devocionario. Sua me lhe fazendo assentir com a cabea. Seu pai 
lhe ajudando a riscar linhas no papel. casou-se aquela manh. Com o Alex Montgomery. Por 
isso a tinham levado ali, porque ele a tinha convertido em sua esposa, no porque estivessegorda e seus pais j no a quisessem.
Furiosa -consigo mesma, com seus pais e com o Alex-, Annie se esfregou os olhos com ospunhos e conteve a respirao para no soluar. Se fazia algum rudo, seu marido poderiaentrar ali. Ai, Deus, seu marido... Annie tinha observado a sua me ao longo dos anos, e sabiaperfeitamente que os maridos eram sempre os que mandavam e que as mulheres corriam de 



um lado para outro, tentando desesperadamente faz-los felizes.
Pois bem, se ia ter que correr de um lado para outro durante o resto de sua vida, o menos quese merecia era um bonito vestido branco e que algum lhe fizesse um presente. Nem sequerlhe importava o que, com tal de que estivesse envolto em um papel fino para que nosoubesse o que havia dentro at que o abrisse. Sempre lhe tinham gostado das surpresas,
desde que era uma menina.
Mas no a classe de surpresas que se levou aquela noite.
Um som muito agudo rasgou de repente o silncio para terminar de destroar seus crispados 
nervos. Annie no sabia o que era. Inclinou a cabea e olhou com os olhos muito abertos as 
cada vez mais profundas sombras, tentando adivinhar de onde provinha. O som voltou a 
propagar-se atravs do silncio, para chegar a ela, estranho e cadencioso, sem interromper-se 
em nenhum momento. 
A curiosidade fez que Annie sasse daquele esconderijo situado entre a cama e a parede. Umaestreita franja de luz procedente do corredor se vertia na habitao atravs da portaentreabrida. A jovem cravou os olhos na abertura e avanou lentamente. deteve-se uns poucospassos da cadeira, ficou nas pontas dos ps e estirou o pescoo. Viu o Alex atravs da estreita 
abertura. encontrava-se sentado no cho, justo em frente de sua habitao, com as costas 
apoiada na parede do corredor. Tinha nas mos um objeto comprido e prateado que formava 
um ngulo com seus lbios.
Msica. 
Annie ficou paralisada. O som fez que os plos de seus braos lhe pusessem de ponta. Eraincrivelmente formoso. Quase sem dar-se conta de que se estava movendo, aproximou-se daporta para ouvir melhor, e o cadencioso som a seguiu chamando. No pde resistir a tentaode aproximar-se mais. E um pouco mais ainda. antes de que fora plenamente consciente disso,
j tinha apertado a cabea contra a abertura, com os olhos cravados no Alex. Pesadelo oufeitio? Para o Annie, ele era as duas coisas: aterrador e sedutor. 
Annie pde ver seu peito expandir-se, e logo contrair-se ao sopro na boquilha. As romas gemasde seus dedos pulsavam com graa uns botes redondos que emitiam diversas notas. s vezesno podia as ouvir. Mas quase sempre o fazia, e eram maravilhosas.
O marido deixou de tocar de improviso e a olhou diretamente aos olhos. Annie se afastou da 
porta de um salto. O corao lhe pulsava com fora. Mas at desde aquela distncia, ela podia 
ver seu rosto. Lhe estava oferecendo o objeto prateado com um olhar premente. 
-Voc gostaria de toc-lo, Annie? 
Toc-lo? levou-se uma mo ao pescoo, invadida por um desejo to vivo que quase o faziadanifico. A msica. Poder t-la entre suas mos... 
Alex se levantou de um salto, o qual fez que ela retrocedesse cambaleando-se. Com umaatitude despreocupada e aprazvel, ele se aproximou da porta e sustentou o objeto prateado 
perto da abertura. 
- fcil de tocar uma vez que lhe agarra o tranquillo. -Inclinou a cabea para olh-la atravsda fenda. Seus lbios esboaram um sorriso tranqilizador-.  uma flauta. Aprendi a tocar ade pequeno. Tinha esquecido que ainda a tinha.
Annie no podia apartar o olhar. A flauta no cabia atravs da abertura da porta, e ele sabia.
Para que pudesse dar-lhe ela teria que correr a cadeira um pouco e, se fazia isto, ele poderiaabrir acontecer com empurres para entrar na habitao.
-Venha, Annie. Sei que morre de vontades de tent-lo.
inclinou-se um pouco mais para a porta e lhe deu um golpecito no bordo com a gema de um 
dedo. Logo sorriu, suave e pcaramente, ensinando os reluzentes dentes brancos que 
contrastavam com sua tez moria. 
-te abra, ssamo -disse ele, sacudindo levemente os ombros, o qual indicou ao Annie que se 
estava rendo-. As clebres palavras do Al Baba. Contaram-lhe essa histria? -Levantou a 
flauta de novo, para tent-la-. Quando foi a ltima vez que algum te contou um conto, 
carinho? E alguma vez h meio doido um instrumento? Com muito gosto te contarei a histria 
e compartilharei a flauta contigo. Mas primeiro tem que abrir a porta.
Annie deu outro passo para trs e voltou a negar com a cabea. Claramente frustrado por sua 
obstinao, Alex se acariciou o cabelo, transladou o peso de seu corpo de uma perna a outra e,
por ltimo, inchou suas bochechas de ar. Levantou a mo de novo para dar outro golpecito no 
bordo da porta com a gema de um dedo, e falou.
-Me ocorre uma idia. Se abrir a porta s um pouco mais, poderei te dar a flauta. Prometo-te 
que no te agarrarei do brao nem te obrigarei a abrir a porta. O que te parece?
Ela jogou uma olhada  flauta. Pareceu-lhe um objeto mgico: apanhava a luz do corredor ebrilhava to intensamente como um espelho. 



-Confia em mim -lhe pediu ele-. Sou um homem de palavra. Voc no gostaria de provar aflauta?  de verdade um instrumento muito divertido. 
Levando-lhe  boca, aspirou e voltou para soprar na boquilha. Um som agudo chegou a seusouvidos flutuando atravs das sombras. E seguiu chegando. Fluindo em torno dela, em cimadela e atravs dela. Annie fechou os olhos, quase sem poder acreditar que estava ouvindo amsica. E no queria que parasse nunca. sentia-se como uma taa vazia que estivessem 
enchendo de algum precioso lquido.
Elevando as pestanas, dirigiu-se para ele, atrada tanto pela msica como por seus olhos. Noestava segura de qual tinha a maior fora de atrao. Quando se deu nos joelhos contra acadeira, deteve-se. Seu olhar era prisioneiro da do Alex, e a cabea lhe dava voltas. Finalmente

o homem deixou de tocar e uma vez mais lhe ofereceu a flauta. Esta vez tentou acontecer-lhe 
atravs da abertura, mas as chaves se engancharam com o marco da porta.
-Se quer toc-la, ter que abrir a porta um pouco mais -disse ele, inclinando a cabea paraolhar a cadeira-. Corre-a uns centmetros para ti. Prometo-te que no tentarei entrar.
A garota vacilou, ele sorriu ligeiramente.
-Pensa um pouco, Annie. Realmente crie que essa cadeira poderia me deter se eu queriaentrar? Faria que demorasse um pouco mais, mas isso seria tudo. No derrubei a porta poruma s razo, e  que no quero te assustar. No acredito que tenha muito sentido que dita 
faz-lo agora.
Annie sabia que o obstculo no lhe impediria de entrar se estava resolvido a faz-lo. Agarroua cadeira com suas mos trementes e a levantou ligeiramente para aproxim-la a ela, logo 
voltou a pr o respaldo sob o pomo. Alex colocou a flauta pela abertura. Quando Annie agarrou
o instrumento, ele apoiou um cotovelo contra o marco da porta, e a viu sopro em vo no
orifcio. 
-No est pondo a boca corretamente na boquilha.
Ela o tentou de outra maneira e soprou com todas suas foras, mas no saiu som algum. Ele
negou com a cabea e quis alargar a mo para ajud-la. Mas a porta o impediu.
-Pode abri-la um pouco mais para que te ensine como faz-lo? 
Annie, que mais ou menos lhe entendeu, teve a terrvel sensao de que estava tratando de
engan-la. Seus pensamentos deveram refletir-se em seu rosto, pois ele ps os olhos em
branco e em seguida tratou de dissipar suas dvidas.
-No farei nada. S te ensinarei como tocar a flauta. 
Annie escrutinou seu olhar durante um interminvel momento. Logo, articulando para que lhe 
lesse os lbios, disse-lhe: 
-Promete-me isso? 
Ele apertou seu rosto contra a abertura.
-Mais devagar. No posso...
-Promete-me isso? -Enquanto repetia estas palavras, Annie se levou uma mo ao corao. 
-Que se lhe prometo isso? -ergueu-se e elevou as mos-. Lhe prometo isso, carinho. Que
me mora se no ser certo. -Estalou os dedos-. Irei ainda mais longe: juro-lhe isso. Sobre a
Bblia, se tiver uma  mo. 
Parecia to sincero que Annie esteve a ponto de sorrir. Logo, convencida de que era um
engano, mas seguindo a seu corao, apartou a cadeira e abriu a porta. Alex pareceu surpreso
ao ver que a tinha escancarado, e durante um momento ficou paralisado, sem saber o que 
fazer. Um instante depois entrou.
Annie lhe aconteceu a flauta de maneira brusca. O a agarrou e esboou um daqueles sorrisos 
maravilhosamente torcidos que o caracterizavam. 
-Vem aqui.
Depois de dizer estas palavras, Alex acendeu um abajur e se sentou na cama. Dando
golpecitos no colcho, junto a ele, esperou a que Annie se aproximasse. Ela olhou intranqila a
porta aberta. No estava plenamente segura de que queria aventurar-se a chegar at esse
ponto da habitao enquanto se encontrava a ss com ele. Quando se voltou para olh-lo uma 
vez mais, seu sorriso tornou se picasse. 
-Jovencita, custa-te muito confiar nas pessoas. 
Annie se encolheu de ombros de uma maneira quase imperceptvel. Lhe piscou os olhos um
olho e alargou a mo para lhe dar a flauta.
-No posso te ensinar a toc-la se fica a, no outro extremo da habitao. 
Isto era certo, e ela sabia. E morria de vontades de aprender. aproximou-se da cama
lentamente. Sentar-se junto a ele a punha nervosa. Baixo aquela trmula luz, o homem parecia
extraordinariamente corpulento.
-Em primeiro lugar, tem que pr a boca corretamente na flauta. -Depois de dizer estas 


palavras, rodeou seus ombros com um brao para ajud-la a agarrar o instrumento.
Ao senti-lo to perto, Annie se sobressaltou. Quando lhe lanou um olhar inquisidora, descobriuque a cara dele se encontrava a muito poucos centmetros da sua. Deu-lhe um tombo ocorao e lhe parou detrs dar uma alarmante sacudida. Pouco depois, comeou a funcionar 
de novo, mas perezosamente. Cada um dos batimentos do corao golpeava com violncia 
suas costelas. 
-Dava-te minha palavra, recorda? -inclinou-se para frente para que ela pudesse v-lo falarenquanto lhe ensinava como tocar a flauta-. Tem que pr a boca corretamente. -Para quevisse o que devia fazer, Alex pregou os lbios sobre seus dentes-. Logo, leva a boca ao 
orifcio. Muito bem. Agora sopra.
Annie expulsou ar com todas as foras que conseguiu reunir. No saiu nenhum som, mas eraevidente que outra coisa sim o fez. Alex jogou a cabea para trs, se Rio e se limpou debaixo 
de um olho. 
-No to forte, fierecilla. Te vai arrebentar um copo sangneo. 
Annie inclinou a cabea para tent-lo de novo. Esta vez, Alex se apartou. Seus olhos seiluminaram com uma risada muda. Pela garganta dela subiu uma risita nervosa. Esquecendoafogar o som, tragou saliva no segundo ltimo para tentar cont-lo, e esteve a ponto deafogar-se.
O sorriso do Alex se desvaneceu de repente.
-Pode rir, Annie. No est proibido faz-lo nesta casa. Ri tudo o que queira.
ficou paralisada, olhando-o fixamente por cima das chaves da flauta. Lhe tiraram as vontadesde rir. O dirigiu seu olhar para o teto. 
-Temos vigas slidas e resistentes. Prometo-te que o teto no se derrubar. Ningum vaizangar se. Eu no te castigarei. Este  agora seu lar. Se algum se queixar de algum rudo quefaa, pode ir-se ao muito mesmo inferno, e alm disso convidado por mim.
Ao ver que ela seguia olhando-o fixamente com incredulidade, Alex negou com a cabea.
-Vale, no te ria. Roma no se construiu em um dia. Seguiremos trabalhando nisso. -Fez-lheuma piscada-. Esta noite nos conformaremos tirando de gonzo ao Maddy com umas quantas 
notas discordantes. 
No lapso de uma hora, isso era exatamente o que Annie estava fazendo. Maddy apareceu na 
entrada, tampando-as orelhas com as mos. 
-Ai, senhor, tenha piedade de mim!
Alex se Rio e lhe fez gestos para que partisse. 
-te tampe os ouvidos com algodo. Estamo-nos divertindo. 
Annie soprava a flauta com todas suas foras. O som mais formoso do mundo ressonava emsua cabea. A garota tomou ar uma vez mais e voltou a faz-lo. Sentiu que a cama tremia e 
soube que Alex se estava rendo. Ela retirou a boca do instrumento e lhe sorriu.
Apartando uma mecha de cabelo da tmpora do Annie, lhe devolveu o sorriso. E logo a 
surpreendeu.
-A flauta  tua, Annie. Pode toc-la manh todo o dia se assim o quiser. Mas basta j por esta 
noite. -Olhou ao Maddy, e logo se voltou de novo para o Annie para que ela pudesse lhe ler oslbios enquanto lhe falava-. Deixa de tocar antes de que um ama de chaves que conheo ditanos arrancar a cabeleira. 
Annie ps a flauta sobre seu regao e acariciou suas chaves com venerao. depois de tudo,
Alex sim lhe tinha feito um presente de bodas, pensou. E alm disso era algo que a ningummais lhe tinha ocorrido sequer lhe dar de presente.
Msica... Formosa msica envolta em magia. 

CAPTULO 15 


 manh seguinte, quando baixava as escadas para dirigir-se  planta baixa, Alex se encontrou 
com o Yvonne, uma das criadas, que estava frente  habitao dos meninos com um monto
de roupa recm engomada nos braos. Ao v-la, inclinou a cabea e sorriu. 
-Presumo que a senhora est vadiando de novo esta manh. 
Yvonne negou com a cabea.
-No, senhor, j se levantou, mas ainda no est preparada para que lhe arrumem a cama.
Posto que a porta estava entreabierta, Alex no acreditou que Annie se estivesse vestindo. 
Curioso, apareceu a cabea pela porta e viu o Maddy no centro da habitao, com as pernas
ligeiramente separadas e as mos na cintura. Ao ver o Alex na entrada, saudou-o com a 
cabea. 
-Est procurando algo entre os lenis de novo. -encolheu-se de ombros para mostrar seu 




desconcerto-. Faz o mesmo todas as manhs sem falta. est-se convertendo em um ritual. 
Alex entrou na habitao. 
-Perguntaste-lhe o que est procurando?
-Que se o perguntei? -Maddy negou com a cabea-. No, no o tenho feito. Nunca meocorreu pensar que poderia responder.
Contente de ter uma desculpa, qualquer que fosse, para ficar, Alex dirigiu seu olhar para oAnnie, que estava registrando contudo cuidado a enrugada roupa de cama. Como j o tinhanotado antes, sua camisola, embora de corte recatado, era de tecido muito magro, e estavato gasto que se tornou quase transparente. Tomou nota com o pensamento de que erapreciso acrescentar roupa de dormir  lista de coisas que queria lhe mandar fazer. No  quetivesse nada contra as camisolas de tecido muito fino. Justamente o contrrio. Mas... 
Estava sonriendo com satisfao masculina quando se aproximou do Annie. Ela se sobressaltou 
ao v-lo e deixou de dar tapinhas nas mantas.
Alex assinalou a cama. 
-O que est procurando, Annie? Ao melhor Maddy e eu podemos te ajudar.
Ela franziu o cenho, claramente inquieta, no s pela pergunta, mas tambm tambm pelo fatode que ele estivesse esperando uma resposta. Alex deixou escapar um suspiro. A pacincia 
nunca tinha sido uma de suas virtudes, mas desde que se casou com o Annie estava 
comeando a entender que este era um atributo que tinha que adquirir. Tinham-na obrigadodurante quatorze anos a obedecer regras muito estritas e lhe tinham proibido emitir somalgum ou tentar comunicar-se. Sinceramente, Alex no podia esperar que ela trocasse da noitepara o dia. 
-Annie, responde a pergunta o melhor que possa. Ningum te vai castigar, prometo-lhe isso.
Ela no pareceu muito convencida de que isso fosse certo. Ao Alex no gostava de pressionla, 
mas sabia que era isto ou permitir que ela seguisse igual. 
-O que est procurando? -Agora comeou a adotar uma expresso severo que esperava quea animasse a responder, sem mat-la do susto.
Ela atirou nervosamente do corpete de sua camisola, gesto que fez que ele deixasse de lheolhar a cara e centrasse toda a ateno em seu peito. Ante a viso que apareceu frente a seus 
olhos, apertou os dentes e em seguida voltou a dirigir o olhar para seu rosto. De modosurpreendente, ela no pareceu dar-se conta de que seu centro de ateno se desviou por uminstante. 
depois do que Douglas lhe tinha feito, lhe parecia que sua ingenuidade era algo mais queincrvel. Mas a verdade era que estava vendo as coisas desde seu ponto de vista, no desde odo Annie. Era evidente que a violenta agresso do Douglas contra ela tinha sido s isso:
violncia. No tinha havida paquera preliminar, nem atrao, nem erotismo algum, s pnico edor. Isto lhe tinha ensinado a no confiar-se nos homens, mas no lhe tinha dado nenhuma 
ferramenta para compreender o prazer carnal ou o que lhe precedia.
Olhando-a fixamente, Alex se sentiu como o lobo do conto, que espreitava a um cordeiroindefeso. 
Seus pensamentos foram chamados o ordem por um movimento dos lbios do Annie, que, por 
causa de suas reflexes, esteve a ponto de no perceber.
-Repete o que h dito, Annie. Devagar, para que eu possa te entender. Temo-me que no sou 
to bom como voc para ler os lbios.
Ela olhou nervosamente ao Maddy. Logo, respondeu articulando de novo para que lhe lesse oslbios. Quando Alex viu que no podia entender o que ela tratava de lhe dizer, lhe caiu a almaaos ps. Aquilo no ia ser to fcil como tinha esperado. A leitura dos lbios, que ela pareciadominar com toda naturalidade, era para ele uma faanha quase impossvel quando de maisde duas ou trs palavras se tratava. Ela voltou a dizer as palavras, esta vez fazendomovimentos exagerados com os lbios e a lngua. Mesmo assim, ele no conseguiu entendernada. 
-Alguma vez viu a algum jogar aos personagens? -perguntou ele.
Ela refletiu durante um instante, logo assentiu movendo a cabea com inconfundvel 
relutncia. Alex sups que ela tinha conhecido os jogos de salo ao espiar a seus pais quandotinha convidados em casa. Ao parecer, esta era uma das tantas atividades que eles lheproibiam realizar e que poderiam faz-la merecedora de um castigo.
-Muito bem. Ento representa as palavras que est tratando de dizer. me d algumas pistas.
Franzindo o cenho, ela ficou olhando pensativamente ao vazio durante um momento. Logo lhe 
iluminou a cara e levantou uma de suas pequenas mos, formando um crculo com seus dedospolegares e ndice.
-Um bracelete! -Disse Alex-. Est procurando um bracelete? 



Ela negou com a cabea. Voltou a fazer um crculo, mas esta vez delineando sua forma com a 
gema de um dedo, lhe fazendo cair na conta de que era mais ovalado que redondo. Alex se
acariciou o queixo.
-Um medalho? 
Annie fez uma careta com os lbios e ps os olhos em branco, claramente frustrada por sua
estupidez. Contente de que ela se atreveu a manifestar seu desagrado com ele, embora fosse
de uma maneira to sutil, se Rio entre dentes. 
-Sei que sou pouco acordado. Tenha pacincia comigo, vale? depois de tudo, acabamos de 
comear, e ao menos nos estamos divertindo. Sei que podemos faz-lo. S necessitamos um 
pouco de prtica. 
-Um relicrio! -sugeriu Maddy. 
Annie voltou a negar com a cabea. Logo, com o aspecto absolutamente adorvel que lhe 
davam seu cabelo negro desordenado e a expresso contrariada de seu rosto, levou-se as
mos aos quadris. depois de mordisc-la parte de dentro de seu lbio inferior durante um
instante, pareceu lhe chegar a inspirao de repente. afastou-se um passo do Alex para contar
com espao suficiente, fingiu ter algo na mo. Quando ele assentiu com a cabea para lhe
fazer saber que entendia, ela simulou golpear o objeto contra uma superfcie imaginria e logo 
parti-lo pela metade.
Havia algo naqueles gestos que lhe resultava muito familiar, e Alex sabia que devia poder
reconhec-los. Ao ver seu olhar perplexo, Annie deixou escapar um suspiro. Logo, meteu-se as 
mos sob os braos e comeou a agitar os cotovelos.
Alex no tinha nem a menor ideia de que demnios estava fazendo ela, mas querendo animla, 
gritou:
-Muito bem, Annie. Assim se faz! 
O sorriso da jovem se fez mais profunda, ensinando umas covinhas em suas bochechas que
at aquele momento ele nunca tinha visto. Logo, estirando o pescoo e inclinando os joelhos
ligeiramente, comeou a dar voltas pela habitao, sem deixar de agitar os cotovelos.
To emocionado que virtualmente ficou a gritar, Alex comeou a solucionar o enigma.
-Uma galinha!
Ela assentiu energicamente com a cabea.
-Uma galinha, Maddy! Est procurando uma galinha!
Claramente desconcertada, a rellenita ama de chaves assentiu com a cabea. 
-Certamente! Uma galinha. No sei como no me ocorreu. 
Annie negou veementemente com a cabea.
-No, no  uma galinha -corrigiu Alex. Ela levantou a mo e fez outro crculo com os dedos
polegares e ndice.
-Um ovo! -disse Maddy quase gritando-. Quebrar um ovo! Sim! -Aplaudiu com Isso frenesi 
 o que ela estava fazendo, senhor, quebrando um condenado ovo! 
Emocionada, Annie assentiu com a cabea. Logo cruzou os braos sobre sua cintura, pondo 
uma de suas pequenas mos sobre seu ventre inchado de maneira protetora.
-Um ovo? -Alex lanou um olhar desconcertado ao Maddy-. Um ovo, Annie? Em sua cama? 
Ela assentiu com a cabea uma vez mais. 
-Entendo -disse Alex, mas o certo era que no entendia nada absolutamente.
A confuso deveu refletir-se em seu rosto, pois Annie assinalou seu ventre, desenhou outro 
crculo com forma de ovo com os dedos e, finalmente, fez um movimento amplo da cintura at


o cho. 
-Santa Me de Deus, roga por ns.
Alex se voltou para o Maddy com expresso de extrema perplexidade no rosto. 
-No entendo nada. 
Maddy parecia estar ligeiramente horrorizada.
-Um ovo, no o v? O beb! A garota pensa... Ai, Meu deus! Ela acredita que vai pr um ovo! 
-O que? 
Ao ver a expresso de horror no rosto do Alex, os olhos do Annie se fizeram ainda maiores do 
que eram, e deu um passo para trs. Esforando-se por recuperar a compostura, o qual no
resultou ser uma tarefa fcil, Alex dirigiu o olhar para a cama. Recordou que a viu procurar 
entre as mantas com supremo cuidado, e fechou os olhos com fora. 
-Ai!, que coisas! -Maddy falava agora em voz baixa-. Pobre menina!
Alex abriu os olhos e tomou ar para reunir foras.
-Bom, Maddy. No serve de muito fazer uma montanha de um gro de areia. Annie no  a 
primeira garota em chegar  idade adulta sem entender muito bem algumas funcione
biolgicas. Simplesmente,  questo de lhe explicar as coisas. Ela l muito bem os lbios. 


-Muito singelo, sim.
Alex sorriu e se disps a sair da habitao, lhe dando uns tapinhas no brao ao passar junto a
ela. 
-Quando tiverem terminado de falar, garotas, por que no baixam a tomar o caf da manh
comigo?
Maddy o agarrou da manga da camisa e lhe obrigou a deter-se em seco. 
-Ah, no. No pode voc partir. Este  seu gro de areia, no o meu, e  a voc a quem lhe 
corresponde ocupar-se dele.
Alex voltou a lhe dar uns tapinhas no brao. 
-Venha, Maddy. No seja to pacata. Sabe que, se eu pudesse, o explicaria tudo. Mas  muito
difcil para um homem tratar um tema desta natureza. 
Maddy lhe lanou um olhar que teria podido pulverizar uma rocha.
-Voc  o marido da garota e, por conseguinte,  seu dever, no o meu. No sei se o recorda, 
mas eu nunca me casei. Meus conhecimentos a respeito deste tipo de coisas poderiam caber 
em um dedal. 
-Mas certamente conhece as noes elementares. 
-As noes elementares? Se voc sair desta habitao, resolverei este assunto procurando 
um ovo em sua roupa de cama, j o ver.
-No te atreveria a fazer algo semelhante!
-Certamente que sim.
Alex a olhou com a frente enrugada. 
-Maddy, algum lhe tem que explicar os pormenores da reproduo humana  garota, e esse
algum de maneira nenhuma posso ser eu. No podemos permitir que siga acreditando que
est a ponto de pr um ovo, pelo amor de Deus! Isso... bom, ... -interrompeu-se porque no
sabia o que dizer. Finalmente, encontrou a palavra-. Irresponsvel, isso  o que .
-Ento, assuma suas responsabilidades.
-Essa classe de coisas no so minha responsabilidade. Ela e eu temos uma relao que ainda 
 virtualmente inexistente. 
-Covarde. 
-No seja ridcula. No me incomodaria tratar o tema com ela. Mas o que aqui importa  como 
se sentiria ela se eu o fizer. 
Maddy cruzou os braos debaixo de seus peitos.
-Ento lhe pea a sua me que deva falar com ela. Tal e como eu vejo as coisas, o dever da
senhora Trimble era em primeiro lugar educar  garota e, dado que o tem feito to mal, lhe
corresponde arrumar esta confuso. 
-por cima de meu cadver!
-E ento o que faremos? 
Alex jogou as mos  cabea. 
-Vale, bom. Mas se ela se desgosta, a culpa ser toda tua, no minha. Seria melhor que uma
bondosa mulher maior, algum em quem ela confie, falasse-lhe de um tema desta ndole. 
Fingindo uma segurana em si mesmo que no sentia no mais mnimo, agarrou ao Annie da 
mo, levou-a a mesa, com afabilidade lhe fez sentar-se em uma cadeira e se sentou frente a 
ela. Descansando seus braos cruzados sobre a mesa, Alex se inclinou para frente, sem
apartar os olhos de seu olhar desconcertado. 
-Annie, carinho, h um par de coisas que deve entender. -Da barreira, Maddy pigarreou de
forma exagerada e estalou a lngua. Alex decidiu ignorar seu sarcasmo. Lhe explicaria as
coisas da forma mais singela possvel-. Entre os bebs e os pintinhos... bom, h umas quantas
diferenas fundamentais no que se refere  maneira em que nascem.
Aqueles olhos... Ao olh-los, ao Alex parecia que estava tremendo por dentro. Como poderia
lhe explicar algo to...? Nem sequer lhe ocorria uma palavra. Abjeto? Pessoal? Definitivamente
este no era um tema que os homens estivessem acostumados a mencionar diante das
mulheres. Decidiu que o segredo estaria em lhe dar uma explicao adequada sem ser muito
explcito. Usar trminos singelos, este era seu propsito.
-Entende que h um beb dentro de ti, verdade?
Ela assentiu com a cabea. 
Tudo ia bem no momento. Plenamente consciente de que Maddy o estava observando com 
uma expresso de suficincia no rosto, Alex comeou a dar golpecitos com as gemas dos 
dedos na superfcie da mesa.
-As mes -disse em voz baixa-tm um lugar especial dentro delas que est feito para
albergar aos bebs.  ali, nesse lugar especial, onde eles ficam e crescem at que esto
preparados para nascer. Entende? 




Annie assentiu de novo com a cabea. Alex queria evitar a toda costa olh-la aos olhos. Vianumerosas perguntas neles, e muita inocncia. Se dizia algo indevido -uma s palavra 
equivocada-lhe infundiria pnico e faria que temesse a seu embarao. 
-Bem. Me alegro de que entenda. -Deu golpecitos um pouco mais fortes na madeira-. Bom,
quando seu beb esteja preparado para nascer, esse lugar especial dentro de ti se abrir paraque ele possa sair. -Ao ver sua expresso de perplexidade, rapidamente acrescentou-: Onascimento de um beb  algo maravilhoso! Todos se alegraro muitssimo, e ns... -
interrompeu-se e lanou um olhar de impotncia ao Maddy-. Ns possivelmente demos uma 
grande festa para celebr-lo. No  verdade, Maddy? 
-Uma festa. -Maddy moveu o queixo de cima abaixo-. Organizaremos uma farra nuncaantes vista, j o ver. Ser um dia esplndido!
As bochechas do Annie avermelharam de alegria e um doce sorriso iluminou seu rosto.
Persuadido de que havia dito o necessrio para esclarecer suas idias equivocadas, sem piorara situao, Alex estava a ponto de deixar escapar um suspiro de alvio profundo quando a viufranzir o cenho ligeiramente, meter um dedo no umbigo e arquear as sobrancelhas de maneirainquisitiva.
Tac tac tac. Tac tac tac, faziam seus dedos ao dar golpes na superfcie da mesa. No lhe tiravaos olhos de cima ao umbigo do Annie. Temia enormemente que pudesse fazer-se danifico seno deixava de colocar o dedo no mais profundo desse orifcio. Joder! Ao pensar em suainfncia, Alex pde recordar perfeitamente as idias equivocadas que ele tambm tinha sobre

o processo de nascimento. Acreditava que o beb dentro do proeminente ventre de suamadrasta sairia pelo umbigo. Naquela poca esta lhe pareceu uma explicao perfeitamenterazovel, e ainda recordava quanto se horrorizou quando um menino maior que lhe disse algocompletamente distinto.
-No sair por a, Annie. -Falou com uma voz bronca-. O beb no sai por ali.
Ela tirou o dedo de seu umbigo e lhe lanou um olhar de perplexidade, esperando claramenteque lhe desse uma explicao mais detalhada. Tac tac tac. Tentando pensar em uma maneiraapropriada de lhe explicar as coisas -ou, em realidade, em qualquer maneira de explicar-lhe 
sem aterroriz-la-, Alex tragou saliva para desfazer um n em sua garganta que parecia serto grande como uma bola de borracha. Logo, esforando-se por manter o rosto inexpressivo,
levantou-se da mesa, passou de comprimento por diante do Maddy e se sentou na cama do 
Annie. 
-E agora o que vai fazer? -perguntou Maddy. 
A nica resposta do Alex foi levantar uma das mantas do Annie e sacudi-la com cuidado. 
Alex passou o resto da manh encerrado em seu estudo. depois de encarregar-se de dispor alimpeza do apartamento de cobertura, enviou dois recados. Um para o doutor Daniel Muir, lhe 
pedindo que fizesse uma visita a domicilio ao Montgomery Hall imediatamente. Outro para a 
nica costureira do Hooperville, Chapu de palha Grimes, lhe dizendo que queria que tomasse 
medidas a sua esposa para lhe fazer um novo vesturio.
S depois de ocupar-se destes trs detalhes, Alex pde dedicar-se ao que realmente queriafazer: estudar atentamente o catlogo do Montgomery Ward & Company para ver o que podia 
comprar ao Annie. As trompetillas para surdos ocupavam o primeiro lugar de sua lista. A 
companhia tinha trs estilos: um dispositivo parecido a uma trompetista que vinha em trstamanhos graduveis, um corno porttil em um prtico tamanho de bolso e um tubo para 
conversao, um de cujos extremos tinha uma boquilha para a pessoa que falava e o outro umcomponente que devia meter-se no ouvido da pessoa surda. Sem estar seguro de qual delesfuncionaria melhor, Alex pediu uma dzia de cada estilo e tamanho, decidido a que Annie 
tivesse ao menos um aparelho de surdez eficaz em cada uma das habitaes da casa. Asdemais pessoas levavam seus ouvidos a em qualquer lugar que foram, raciocinou ele, e elatambm deveria poder faz-lo.
O preo que tinha que pagar por todos estes aparelhos era considervel, e Alex sempre seorgulhou de ser um homem poupador e austero. No obstante, quando do Annie se tratava, o 
dinheiro era o que menos lhe preocupava. Ela tinha recebido muito poucas coisas em sua curtaexistncia, e ele tinha a possibilidade de compens-la. A seu modo de ver, matou-setrabalhando toda sua vida. E para que? Para malcriar a seu irmo? Agora, pela primeira vez,
Alex tinha a algum realmente necessitado. E queria satisfazer cada uma de suasnecessidades. 
Cada vez que recordava o salo do apartamento de cobertura, se o fazia um n no estmago.
A partir daquele dia, o mais importante para ele seria fazer realidade as fantasias da garota.
Roupa bonita. Loua fina. Msica...
Ao recordar o encantada que ficou com sua velha flauta, Alex passou  seo de msica do 


catlogo. Pediu um rgo Windsor de seis oitavas, uma concertina de pau-rosa com foles 
recubiertos de pele, uma gaita, um apito, um jogo de trs sinos de trs oitavas, uma cornetafrancesa e umas cascavis. 
Da seo de msica passou a de brinquedos, e pediu uma ctara e distintos jogos: Hopity, 
pingpong, sino Ding Dong e o jogo das pulgas; assim como tambm uma combinao de jogosde mesa, entre os quais se encontravam damas chinesas, domin e naipes. 
depois de calcular o valor total que devia pagar por seu pedido, Alex se dirigiu ao mvel bar.
Enquanto se servia uma taa de conhaque, pensou que no lhe importava o mais mnimogastar esse dinheiro nela. De fato, no podia recordar haver-se divertido tanto em muitotempo. Um sorriso do Annie -s uma-seria mais que suficiente para compensar o gasto em 
que ia incorrer.
O doutor Muir chegou pouco depois da comida. Uma vez que Alex lhe explicou que queria queexaminasse cuidadosamente ao Annie e por que, os dois homens subiram  habitao dos 
meninos. Ao princpio, Alex temeu que, apesar das explicaes que lhe tinha dado ao Annie 
com antecipao, ela pudesse assustar-se com as indeseadas cuidados do bom doutor. Mas 
no demorou para compreender que tinha subestimado enormemente as capacidades doDaniel. Tal e como se se tratasse de uma menina tmida, o mdico fez que aquele processoparecesse mais um jogo que um reconhecimento mdico. Para lhe jogar uma miradita aos 
ouvidos de 
Annie, primeiro fez um truque de magia: fingiu tirar um caramelo de sua orelha e ficar muitoassombrado. Annie, certamente, tambm se surpreendeu e, antes de que Alex casse na conta, 
ela permitiu que Muir colocasse um instrumento em seu canal auditivo, supostamente para verse havia outros restos de caramelo dentro de sua cabea. Annie parecia acreditar que todo 
aquilo era muito divertido. Alex, que se encontrava a seu lado, no pde menos que rir ao veras amostras de assombro que atravessavam seu pequeno rosto.
Suas vontades de rir desapareceram de repente quando Daniel passou a examinar o torso do 
Annie. Estava seguro de que naquele ponto o mdico teria que lutar com uma jovem presa dopnico, e temia o momento em que lhe pedisse que o ajudasse a dominar ao Annie. Mas Daniel 

o surpreendeu uma vez mais. Recorrendo novamente aos jogos de mos, Muir tirou um 
caramelo do decote do vestido do Annie, de suas mangas e de debaixo da prega. antes de que
Alex se desse conta, o doutor j tinha apalpado os peitos e o ventre de sua esposa,
evidentemente a sua inteira satisfao, e tambm lhe tinha auscultado o corao. Ao final, 
Annie tinha uma considervel coleo de caramelos sobre a mesa, e o doutor Muir lhe permitiu 
ficar com eles. 
Enquanto baixavam as escadas para dirigir-se  plaina baixa, o mdico compartilhou com o 
Alex suas concluses. 
-No que se refere aos assuntos mais prementes, seu embarao parece estar desenvolvendo-
se normalmente. Sem fazer um exame plvico, no posso estar completamente seguro disso, 
mas acredito que neste momento lhe fazer um reconhecimento minucioso  garota faria mais
mal que bem.
Alex esteve completamente de acordo com isto, e lhe contou ao doutor o que Annie lhes tinha 
revelado ao Maddy e a ele aquela manh. 
-Um ovo? -Muir se Rio e negou com a cabea ao tempo que entravam no estudo-. Bom, no 
vejo que dano pode fazer que lhe permitamos seguir acreditando isso. Ao menos tem uma
idia geral do que est acontecendo e entende que h um beb crescendo dentro dela.
Alex sentiu que comeava a ruborizar-se. 
-Possivelmente se desiluda um pouco quando o beb nasa sem patucos nem gorrito. - 
Descreveu-lhe o desenho que tinha feito ao Annie para lhe falar de seu embarao-. Nesse 
momento no sabia que ela podia ler os lbios, e foi a nica maneira que encontrei para lhe
fazer entender o que estava passando.
-E sortiu efeito. Isso  tudo o que importa. -Muir ps sua maleta no cho, junto a seus ps, e
se sentou em uma das cmodas cadeiras de couro que se encontravam frente  chamin-.
Como certo, seu diagnstico  correto. A garota est surda.  s uma hiptese, no o esquea, 
mas a julgar pela malha de cicatrizao, eu me atreveria a apostar que a febre que a privou da
audio foi provavelmente causada por uma grave infeco do ouvido. 
-Infeco que no foi tratada -disse Alex amargamente, incapaz de ocultar o ressentimento
que sentia para os Trimble. 
-Assim  -reconheceu Muir-, mas no posso assegurar que eu tivesse sido capaz de impedir
a perda da audio se a tivesse tratado.
-Ao menos teriam podido te dar a oportunidade de tent-lo. 
Daniel suspirou. 


-Para ser justos com o Edie, Alex, os pais no sempre podem detectar facilmente osproblemas crnicos de ouvido. Vi casos em que os ouvidos de um menino estavam to mal quej comeavam a sangrar, e os desesperados pais no tinham nem a menor ideia do que estavapassando. O menino pode estar mal-humorado, ter febre e nuseas, mas no manifestarnenhum sinal de dor de ouvidos. Um menino que tratei em uma ocasio estava congestionadoe com uma tosse muito forte, que j durava vrios dias. Sua me encontrava pus e sangue notravesseiro todas as manhs, mas erroneamente acreditava que saa de seus pulmes.
Aterrava-lhe a idia de que tivesse tsica. 
-Em outras palavras, no devo jogar a culpa aos pais do Annie? 
Muir franziu a boca e olhou distradamente a chamin durante um momento. 
-Por muitas outras coisas, sim, mas no pela surdez. Se Annie teve abscessos no ouvido 
mdio, e acredito que foi assim, possivelmente lhe deu uma febre muito forte at que estesarrebentaram e secaram, o qual pde ter ocorrido em questo de horas, depois da apario dafebre. Mais tarde, pde parecer que ela se estava repondo, e sua me talvez acreditou que jse encontrava bem. Os guris adoecem com freqncia. Muitas vezes lhes do febres muitoaltas por coisas insignificantes. Uma me faz tudo o que pode, mas no  infalvel. E, emrealidade, eu tampouco o sou.
Ao recordar como tinha encontrado ao Annie ao entrar no apartamento de cobertura, ao Alexpareceu difcil liberar-se com facilidade do sentimento de aborrecimento para os Trimble. 
-Incomodaria-te que te desse um conselho? -perguntou o mdico. 
Alex sorriu ligeiramente.
-Absolutamente. Para isso te fiz chamar. 
-Olhe para frente -disse Daniel em voz baixa-. Durante anos, tive que ver essa garotavivendo pela metade. Agora voc tem a oportunidade de lhe dar muito mais. te concentre 
nisso. te esquea dos Trimble e de todos os enganos que cometeram. No pode voltar atrs e 
emendar todas as injustias que Annie sofreu. Mas sim pode tentar as compensar. Pode ajudar garota agora. Pensa as coisas desta maneira.
-Espero poder lhe dar uma vida to normal como  possvel. -Alex refletia em voz alta. Estaidia fez que sua mente se centrasse em outros assuntos. Depois de sentar-se direito noassento e pigarrear, disse-: Se as coisas saem bem entre o Annie e eu, e tenho motivos para 
acreditar que assim ser, seria prejudicial para o beb ou para ela que...? -Alex gesticulouvagamente-. ouvi opinies encontradas a respeito. Alguns dizem que est bem que asmulheres grvidas tenham relaes maritais e outros que no o est.
Levando-as mos aos joelhos e ficando de p, Daniel soltou uma risilla. 
-me acredite, Alex, no lhe far nenhum dano. -Lhe piscou os olhos o olho com desenvoltura 
-. S tome cuidado de no lhe tirar os patucos ao beb. Annie pode desgostar-se um pouco se 
nascer sem um meia trs-quartos. 
Alex sorriu. 
-Deixarei-o presente. 
-Agradeo-lhe isso. depois de lhe haver tirado caramelos de distintos orifcios, ela acreditarque tambm posso encontrar o ditoso patuco. 

CAPTULO 16 

Durante as duas semanas seguintes, ao Alex pareceu incrivelmente fcil obedecer as ordensdo doutor e concentrar-se no Annie. Em realidade, no tinha outro remdio. Do momento em 
que abria os olhos pela manh at que os fechava de noite, ela ocupava todos seuspensamentos. Pensava em outras coisas que comprar. Em atividades que ela poderiadesfrutar. Em como lhe iluminavam os olhos quando sorria. Contemplou inclusive apossibilidade de fazer uma jaula para seus detestveis ratos.
Annie... Pela primeira vez em sua vida adulta, Alex tinha a algum que merecia suas cuidados,
algum que lhe importava muito mais que seu trabalho. No demorou para dar-se conta domuito solitria e carente de sentido que tinha sido sua vida at ento. Comeou a passar cadavez menos tempo na pedreira e nas cavalarias. depois da comida, encerrava-se em seuestudo com os livros que o doutor Muir lhe tinha conseguido. Durante trs horas, sem falta,
estudava atentamente suas pginas, tentando memorizar o alfabeto mmico para aprender acomunicar-se atravs da lngua de signos. Logo, passava meia hora lhe falando com suaimagem em um espelho de mo, para praticar a leitura dos lbios. s trs em ponto,
abandonava estas atividades para passar o resto da tarde e da noite com sua esposa. 
Ao princpio, Annie no parecia muito contente de ter a sorte de gozar de sua presena; mas,
depois de uns poucos dias, pareceu aceit-la e inclusive desfrutar dela. Se Annie ia ao 



apartamento de cobertura, ele a seguia at ali. Se estava com o Maddy na planta baixa, tirava-
a da casa para ir dar largos passeios. Pelas noites, insistia-lhe para que se sentasse com ele mesa e jantassem juntos. Uma vez ali, o fazia servir o ch e passar as fontes, e tambm lheensinava como comportar-se corretamente na mesa. Quando terminavam de jantar, passavam 
ao estudo, onde lhe ensinava jogos singelos, como a taba e as damas chinesas, que requeriam 
muito pouca comunicao verbal.
Naqueles dias, a costureira foi tomar lhe medidas isso ao Annie, e Alex lhe pediu que lhefizesse um variado guarda-roupa a sua esposa. Depois de receber uma bonificaoconsidervel, a senhora Grimes acessou a contratar a empregadas adicionais para poderentregar ao menos trs vestidos em uma semana. Alex logo que podia esperar para ver os 
olhos do Annie quando visse a roupa pela primeira vez. Embora tinha tido que escolher os 
estilos tendo presente que o ventre de sua mulher seguiria crescendo, estava seguro de queela ficaria muito contente. No mais vestidos mofados tirados dos bas talheres de p doapartamento de cobertura. A partir de ento, ela teria preciosos vestidos prprios.
Mas era uma loucura... Alex comeou a perguntar-se seriamente se no estaria perdendo arazo. estava-se apaixonando locamente de uma mulher menina que acreditava que o bebque estava crescendo dentro dela levava um gorrito com volantes. A orientao carnal de seus 
pensamentos era indecente, no lhe cabia a menor duvida; mas quando olhava ao Annie aos 
olhos se perguntava como algo que parecia to bom e puro poderia ser mau.
A sorte quis que Edie Trimble finalmente fizesse proviso de valor para ir a casa do Alex a 
mesma tarde em que a senhora Grimes levou os primeiros objetos de roupa do novo vesturio 
do Annie. Alex, que esperava com impacincia frente  porta da habitao dos meninos, 
enquanto Annie se provava os vestidos, ouviu o Frederick falando com algum no saguo e foi 
ao patamar para saber de quem se tratava. Ao ver o Edie, esteve a ponto de lhe ordenar sairde sua casa. Mas a angstia que viu no rosto da mulher lhe impediu de faz-lo.
-Senhora Trimble -disse com frieza-. Me surpreende v-la aqui.
Jogando a cabea para trs para poder olh-lo aos olhos, Edie se retorceu as mos. Era 
evidente que temia que lhe pedisse que partisse antes de que ela tivesse a oportunidade de 
lhe dizer umas palavras. 
-Sei que voc me despreza, e possivelmente com justa razo, senhor Montgomery. Mas lhe 
rogo que tenha a amabilidade de me deixar ver minha filha. No ficarei muito tempo. Juro-o.
Tampouco farei nada que possa alter-la. Mas, por favor, me deixe v-la.
Alex fechou os punhos sobre o corrimo. Queria lhe dizer a aquela mulher que partisse. Mas, 
ao final, a dor que se refletia em seus olhos lhe fez trocar de opinio. Possivelmente o doutor 
Muir tivesse razo. O rancor para os Trimble, por muito que o merecessem, s conseguiria 
empanar o futuro do Annie. Tinha a plena certeza de que ela queria a seus pais, apesar deseus inumerveis defeitos, e que lhe alegraria muito v-los. No tinha direito a lhe negar isso.
Edie Trimble era, e sempre seria, a me da garota, apesar de que em muitas ocasies notinha conseguido comportar-se como tal.
-Neste momento se est provando uns vestidos -disse Alex finalmente-. Suba.
Possivelmente voc possa ajudar a escolher os acessrios adequados. A costureira trouxe umgrande sortido.
Edie se levou uma mo ao pescoo e fechou os olhos. Era evidente que a embargava umsentimento de alvio. Durante um instante, Alex pensou que se desfaria em lgrimas no lugarem que se encontrava. Mas finalmente conseguiu recuperar o controle. depois de dar sua capa 
ao Frederick, levantou-se a saia ligeiramente e subiu as escadas. Quando se aproximou doAlex no patamar, olhou-o diretamente aos olhos.
-Obrigado -lhe disse com voz trmula-. Sei muito bem que voc preferiria que eu no 
voltasse a ver minha filha e, se estiver no certo respeito a sua surdez, suponho que com toda a 
razo. 
-Estou totalmente no certo -replicou Alex sem poder resistir-. O doutor Muir a examinou e 
est plenamente de acordo com meu diagnstico. 
Os olhos do Edie se encheram de lgrimas e seus lbios comearam a tremer. 
-Surda -sussurrou ela-. depois de tantos anos de pensar que era uma idiota, e s estavasurda. Que Deus me perdoe.
Foram estas ltimas palavras, sortes com um arrependimento dilacerador, as que abrandaramao Alex. Por motivos totalmente diferentes, nos ltimos anos ele tambm se havia sentido da 
mesma maneira em distintas ocasies por culpa do Douglas.
-Todos cometemos enganos, Edie -disse com voz rouca-. Alguns mais que outros, mas, ao 
final, todos fazemos o que podemos. Dado que Annie s pode perceber algumas freqnciasde som, estou disposto a reconhecer que  possvel que voc tivesse pensado que ela podia 



ouvir. A ignorncia inspirou suas aes e a levou a cometer graves enganos. Esqueamos o 
acontecido e olhemos para frente a partir deste momento. Parece-lhe? 
Ela assentiu com a cabea com uma expresso chorosa no rosto e se secou as bochechas comdedos trmulos, fazendo um esforo visvel por recuperar a compostura. Alex esperou a que amulher se acalmasse um pouco, antes de levar a  habitao dos meninos. A senhora Grimes o 
chamou quando o viu aparecer  porta.
-Entre, senhor Montgomery, e nos diga o que pensa.
Alex abriu a porta de tudo e entrou na habitao seguido do Edie. O espetculo que se 
ofereceu a sua vista fez que se parasse em seco. Ali estava Annie... mas no a Annie que ele 
conhecia. Maddy e a costureira tinham combinado seus respectivos talentos para engalanarseu vestido com os acessrios adequados e pente-la. A menina despenteada tinhadesaparecido. Uma jovem preciosa ocupava seu lugar.
encontrava-se no centro da habitao, e era uma maravilhosa viso em azul safira. Seu vestido 
tinha um corpete entalhado, tal e como Alex tinha especificado, com uma saia levementefranzida que caa com elegncia desde debaixo dos peitos at o cho. Um encaixe de um tomazul escuro debruava um decote baixo, suficiente para atrair as olhadas para a cara, mas notanto como para distrair a ateno de seus rasgos delicados. Os enormes olhos luminosos dajovem se cravaram nos seus, procurando silenciosamente sua aprovao. 
-Annie -disse Alex em voz baixa-, est muito bonito. 
O rubor se apropriou do rosto da jovem, marcando suas bochechas com dois fortes mancha decor vermelha. Alex sorriu. Logo, fez um gesto com a mo para lhe indicar que girasse sobre 
seus tales e desse uma volta completa. Agarrando a saia para abri-la, ela girou sobre a ponta 
de um dos dedos de seus ps, e ao mesmo tempo estirou o pescoo para poder ver suareao. Ao Alex surpreendeu e lhe agradou de uma vez que lhe importasse tanto o que elepensava. Isto lhe revelou mais do que Annie sabia, e sem dvida muito mais do que ela queria,
e concretamente que os sentimentos cada vez mais profundos que ela despertava nele eramcorrespondidos de algum jeito. deleitou-se mais com este descobrimento que com a 
transformao que a roupa tinha operado nela. 
Edie, que at ento se ficou no corredor, entrou finalmente na habitao. Ao ver sua filha,
deteve-se repentinamente e ficou muda de assombro.
Uma expresso de sorte percorreu o rosto do Annie. Claramente impaciente por abraar a sua 
me, quis aproximar-se dela; mas, logo que deu uns poucos passos, Edie se levou uma mo  
boca para conter um soluo e logo saiu correndo da habitao. A expresso de aflio que se 
desenhou no rosto do Annie esteve a ponto de partir o corao ao Alex. 
-Annie, carinho, sua me est chorando de alegria. -Salvando a distncia que os separava, 
Alex sujeitou seu queixo com uma mo, resolvido a no permitir que nada nem ningum lheestragasse aquele momento. Obrigando-a a apartar o olhar da porta e dirigi-la para ele, cravouos olhos nela-. No sabia, carinho. Ela no sabia que voc estava surda. Verte assim a faz 
sentir-se triste, porque sabe que deveu ter bonitos vestidos toda sua vida. Entende? sente-seculpado. Seguro que voltar em uns poucos minutos e podero conversar um bom momento.
Seus formosos olhos se encheram de lgrimas. Alex lhe sorriu com confiana.
-irei procurar a, de acordo? Enquanto isso, ponha outro vestido para que possamos ver quopreciosa est quando voltarmos. 
Com o queixo trmulo, ela assentiu de maneira pouco entusiasta. Alex lanou um olhareloqente ao Maddy, e em seguida saiu da habitao. Encontrou ao Edie no saguo, obstinada 
a sua capa, que pendurava do perchero, e ocultando a cabea entre seus negros dobras. 
-Maldita seja! -Exclamou Alex frente a suas trementes costas-. S por uma vez em suavida, s uma vez, no poderia voc tentar antepor os sentimentos da garota aos seus?  aprimeira vez em toda sua vida que recebe roupa bonita, algo que outras garotas do porsentado, e tinha voc que lhe jogar a perder o momento? 
Edie encurvou os ombros, soluando freneticamente. Com voz entrecortada, conseguiu falarcom fim. 
-Sinto muito! Sinto muito! Ao v-la assim... Ai, Meu deus, o que tenho feito? Minha filhinha... O 
que tenho feito? 
Alex respirou fundo, tentando controlar sua ira, profundamente agradecido, por uma vez, de 
que Annie no pudesse ouvir. 
-Senhora Trimble, entendo que isto deve ser muito difcil para voc, mas este no  omomento para tirar reluzir suas culpas. A garota est ali acima provando o primeiro vestidobonito que teve em toda sua vida, e est chorando a lgrima viva. Controle-se.
-Voc no... No entende. Eu pensei... Ai, Deus. Eu pensei que ela tinha herdado a loucura dotio Maxwell. Todos estes anos! Todos estes anos per... perdidos! 



Alex suspirou. Em parte estava exasperado, e em parte sentia compaixo. Agarrando  mulher 
do brao, levou-a a seu estudo, onde ao menos poderia chorar em privado. Edie se deixou cair 
fracamente em uma cadeira e apertou a cara contra seus joelhos. depois de chorar at ficarsem lgrimas, a mulher comeou a falar em voz muito baixa e trmula.
-Eu de verdade acreditava que estava louca -lhe disse. 
-Sei. -Alex, sentou-se no brao da cadeira para poder pr uma mo sobre seu ombro-. Me 
dava conta do primeiro momento. No sei por que pensou algo semelhante, mas sei que de 
verdade acreditava isso. 
-Tinha milhares de razes para pens-lo -disse ela com voz grit-. Os horrveis sons queemitia. Meu tio fazia rudos muito parecidos, grunhidos e chiados semelhantes aos que fazemos animais. Minha tia se via obrigada a at-lo a uma rvore at que os enfermeiros domanicmio fossem busc-lo. -levou-se as mos  cara-. E os gatinhos. Ai, Deus, os gatinhos!
-Que gatinhos?
-Estrangulou e esmagou a dois gatinhos -disse Edie com voz entrecortada. 
depois de ter presenciado a doura com a que Annie tratava aos ratos do apartamento de 
cobertura, ao Alex pareceu difcil acreditar essa histria, mas no interrompeu  mulher.
-Foi horrvel. Horrvel! Deixei-a um momento com o mais pequeno, sem imaginar sequer queela poderia lhes fazer danifico. Parecia quer-los muito. E, quando retornei, tinha matado aosdois bichinhos. Matou-os! 
A senhora elevou a vista, cravando no Alex um olhar de angstia.
-Tinha pnico de que James se inteirasse do que ela tinha feito. Muitssimo medo! Menti.
Disse-lhe que um gato tinha entrado s escondidas na casa. depois do acontecido, comecei a 
animar ao Annie a que sasse a jogar no bosque, como tinha por costume; pois pensei quequanto menos tempo passasse na casa, onde ele poderia presenciar sem querer suacrueldade, to melhor. Ele a teria internado em um hospital psiquitrico. Entende voc? Em um 
desses lugares infernais! Compreendi que se eu no restringia suas atividades, que se no eraextremamente severo, ela possivelmente terminasse vivendo em uma cela o resto de sua vida.
No podia permitir que isto acontecesse com minha garotinha. Por isso no permitia quenenhum mdico a examinasse. Por isso era to reservada no que se referia a suas atividadesno apartamento de cobertura e fazia tanto insistncia em que ningum podia inteirar-se.
Entende voc? Ela tem um talento incrvel para o desenho. E tambm estavam seus mundosimaginrios e o fato de que fingisse falar. No era o comportamento de uma atrasada! E, postoque parecia ouvir quando eu a chamava, no pensei que estivesse surda. O que outra 
explicao havia para suas raridades, alm de que estava to louca como meu tio?
Pela primeira vez, Alex comeou a ver as coisas do ponto de vista do Edie. Uma jovem formosaque se comportava de modo anormal, que parecia no poder compreender os conceitos maiselementares e cuja capacidade de fala se deteriorou a ritmo constante... Entretanto, noapartamento de cobertura, em seu mundo imaginrio, essa mesma jovem dava sinais de umaaguda inteligncia.
-Agora compreendo que meu medo me voltou cega, que, se to somente tivesse escutado ao 
doutor Muir, h muitos anos saberamos a verdade. Mas no podia correr esse risco. Estavapersuadida de que ela tinha herdado a enfermidade de meu tio e que com esta tempoprogrediria at um ponto no que eu no poderia seguir ocultando-lhe ao James. A meu modode ver, quo nico eu podia fazer era atrasar esse momento tanto como fora possvel.
Uma sensao abrasadora subiu pela garganta do Alex.
-Esta  a razo pela qual voc insistiu em que eu fizesse cumprir suas normas enquantoAnnie estivesse aqui -disse Alex em voz baixa-. Pensou que, se no o fazia, eu nodemoraria para me inteirar da verdade e diria ao James que a garota estava louca.
-Recordar que em um principio eu no queria que ela viesse a esta casa.
Alex o recordava com toda claridade. 
-No tinha nada contra voc. Desde o comeo pude ver que tinha um carter bondoso e que 
compadecia ao Annie. Temia que, em um torpe intento por compensar o que Douglas fazia, 
voc a consentisse muito. 
Alex sorriu ligeiramente.
-Que a malcriasse, em outras palavras.
-Sim -reconheceu ela-. Pensei que era mais provvel que uma pessoa de outro povo, queno conhecesse as circunstncias absolutamente, fizesse minha vontade e fora estrita com ela 
-fechou os olhos-. S pensava em evitar a toda costa que James se inteirasse da verdade e ainternasse em um manicmio. Em um lugar horroroso, onde ela se sentiria muito confundida esozinha, e onde possivelmente a maltratassem.
Alex apertou seu ombro com fora. Agora entendia perfeitamente os motivos que tinham 



levado a mulher a fazer as coisas que tinha feito. depois de vrios minutos de silncio, durante
os quais ela conseguiu acalmar-se um pouco, ele falou de novo.
-Voc fez o que pensou que era o melhor para sua filha, Edie.  espantoso que as coisas 
tenham acontecido desta maneira, sim. Mas, apesar de tudo, acredito que ela foi bastante feliz 
a sua maneira. Essa parte de sua vida j terminou. Temos que deixar o passado atrs e nos 
concentrar em seu futuro. Annie pode ter uma vida maravilhosa e quase normal a partir de
agora, se todos trabalharmos juntos para que isto seja assim. Faz um momento expressou
voc o temor de que eu a consentisse muito. Estou fazendo todo o possvel por estar  altura
de seus piores temores. Quereria voc me dar uma mo?
Ela cravou seus olhos cheios de esperana nos do Alex.
-Ai, Alex, permitiria-me isso voc? Permitiria-me formar parte de tudo isto? cometi muitos
enganos que devo tratar de emendar. Muitssimos enganos.
Libere j dos ltimos rastros de sua velha ira, Alex deixou escapar um suspiro. 
-Edie, sua filha a quer. Estou seguro de que gostaria de v-la. Acredito que j  hora de que 
todos comecemos a emprestar ateno aos desejos do Annie, para variar. No lhe parece? 
-claro que sim. claro que sim.
Depois de tirar um leno do bolso de sua cala, Alex empreendeu a tarefa de lhe secar o rosto,
servio que ultimamente parecia estar lhe emprestando com muita freqncia ao sexo
feminino. At aquele momento no se deu conta de que aquela mulher usava maquiagem.
Uma quantidade muito sutil, por certo, mas em suas bochechas havia rastros evidentes dos
polvillos negros usados para dar sombra aos olhos.
-Posso tomar a liberdade de lhe dar um bem-intencionado conselho, senhora? 
-Que no volte a chorar frente a minha filha? 
-Bom, isso tambm estaria bem -disse com meia sorriso-. Mas em realidade estava 
pensando em um conselho relacionado com seu matrimnio. Quando partir daqui, deveria ir a
casa e falar seriamente com seu marido. O  to responsvel por esta tragdia como voc, se
no o for mais. 
-Ai, mas no posso faz-lo! -Falava em um soluo-. James... no sabe! o de meu tio, quero
dizer. Quando me pediu que me casasse com ele, omiti mencionar-lhe E, depois disso, no
consegui reunir o valor suficiente para dizer-lhe Negou resolutamente com a cabea-. Voc
no conhece o James. Se tivesse suspeitado sequer que havia um caso de loucura em minha
famlia, teria se divorciado de mim. E eu no saberia o que fazer se ele fizesse tal coisa! Onde 
viveria? Como ganharia a vida?
Alex ficou de p. 
-Edie, se esse homem a jogar de casa, pode ficar aqui.  voc a me de minha esposa. Eu me
encarregaria de que tivesse os recursos necessrios para arrumar-lhe na vida.
Ela o olhou com incredulidade. 
-Faria voc algo assim?
Alex soltou uma gargalhada que quase parecia de assombro.
-Sim, senhora, faria-o. Mas lhe asseguro que no se chegar a isso. Apesar de todos seus
defeitos, e poderia enumerar muitssimos, James a quer. Diz voc que eu no o conheo.
Acredito que seria melhor dizer que  voc quem no o conhece. E j  hora de que o faa.
Fale com ele. lhe diga tudo o que me h dito . Acredito que ficar muito surpreendida para 
ouvir o que ele tem que lhe dizer.
-Voc sabe algo que eu ignoro.
-S digamos que, apesar de haver tomado antipatia, entendo sua maneira de pensar. -
Depois de dizer estas palavras, Alex a ajudou a levantar-se da cadeira-. Agora subamos e
participemos do momento to especial que est vivendo Annie, de acordo? 
Ela assentiu com a cabea. 
-No mais histrionismo? 
-No, o asseguro.
Ao Alex s ficava esperar que isso fosse certo. 


depois de que Edie e a costureira partissem, a curiosidade induziu ao Alex a levar a casa a um 
dos gatos do estbulo. Encontrou a sua esposa na cozinha com o Maddy, que estava 
fiscalizando a preparao do jantar. Annie estava preciosa, com seu vestido rosa de talhe alto 
e seu cabelo recolhido no cocuruto, da que caa qual cascata de cachos negros. encontrava-se 
sentada no bordo de um dos bancos que rodeavam a mesa. Tinha um tigela verde de loua deque tirava pedaos de massa para bolachas com uma colher de manga comprido. Ao ver o 
Alex, ficou paralisada, com a colher suspensa no ar e os olhos fixos no gato. 



Ante a evidente fascinao que se refletiu em seu rosto, Alex no pde menos que sorrir. garota no s gostava dos animais, adorava-os. depois de hav-la visto com os ratos, nopodia acreditar, nem sequer por um instante, que fosse capaz de fazer machuco a umacriatura indefesa, pelo menos deliberadamente.
-Esta  Mame Kitty, reina-a dos gatos do curral -lhe disse Alex-. Se no fosse por ela,
teramos uma invaso de... -interrompeu-se bem a tempo- gafanhoto.
Maddy lhe lanou um olhar enviesado e logo negou com a cabea. Menos mal que Annie no 
pareceu advertir a repentina mudana de palavras. Estava olhando fascinada  gata listrada ese esqueceu por completo da massa para bolachas. Alex lhe fez um movimento de cabea.
-Sente-se  mesa, Annie, carinho, e te deixarei tocar  gata.
No foi necessrio que o dissesse duas vezes. Depois de deixar o tigela de loua na encimera 
com um retumbante pum, que provocou que todos os que estavam na cozinha fizessem umacareta de dor, desceu-se do tamborete e correu  mesa, onde se entronizou em uma cadeira 
de respaldo reto. Arranhando a Mame Kitty detrs de uma orelha, para tranqiliz-la, Alex 
cruzou a habitao a grandes pernadas. Annie alargou seus acolhedores braos para receber gata. Com um sorriso, lhe entregou sua carga e se sentou perto dela para poder observar seu 
comportamento com o animal.
Com seu pequeno rosto resplandecente de alegria, Annie em seguida comeou a acariciar o 
sedoso cabelo da gata. Mame Kitty, que no estava acostumada a tais amostras de carinho,
arqueou o lombo e esfregou sua peluda bochecha contra o corpete do Annie. Logo a gatalistrada comeou a ronronar to forte que Alex podia ouvi-la. Ao sentir suas vibraes, Annie 
acariciou com maior firmeza o corpo do animal. Uma expresso de assombro se refletiu emseus olhos, e elevou a vista para olhar ao Alex.
-Est ronronando -lhe explicou ele-. Os gatos normalmente o fazem quando os acariciam.
Uma criada passou afanosamente perto deles com uma bandeja de po sem assar. Seu destino 
era precisamente o forno.
-Pelo general, tambm mudam de cabelo -comentou a criada-. Se encontrar cabelos em 
sua sopa esta noite, no me jogue a culpa .
Alex se Rio. Logo, voltou a fixar sua ateno no Annie. O que viu fez que lhe partisse a alma. 
Estava abraando  gata perto de seu peito, com uma bochecha apertada contra suas costelase expresso de deslumbramento no rosto. Alex em seguida compreendeu que sua mulherestava encantada com o ronrono da gata, som que ela podia sentir apesar de no poder ouvilo. 
O mistrio do Annie e os gatinhos asfixiados tinha ficado resolvido. Alex virtualmente pde ver 

o acontecido: uma menina pequena, surda e completamente encantada com as vibraes quesentia ao tocar aos gatos, seus manitas e bracitos apertando-os com muita fora, suacuriosidade e euforia lhe fazendo esquecer que devia tomar cuidado. Os gatinhos no tinhamsido assassinados com premeditao e traio, mas sim por causa do carinho desenfreado deuma menina surda. Agora que era uma mulher adulta e tinha maior domnio de si mesmo,
estava sendo incrivelmente delicada com aquela gata. Tratava de no abra-la com muitafora nem de acarici-la bruscamente. 
Ao v-la com a gata, Alex caiu na conta da facilidade com que aquela garota se deixavaseduzir por qualquer som que pudesse ouvir, embora fosse levemente, ou cujas vibraesconseguisse perceber. E isto lhe explicou muitas coisas. Seu amor pelo bosque, onde sentia ovento acariciando sua pele. Sua grande fascinao pela cascata, onde sem dvida podia sentiras vibraes causadas pela gua ao golpear contra as rochas. Annie e os gatinhos. Annie e o 
rgo da igreja. sempre houve inumerveis indcios de sua surdez.
A emoo fez que lhe fizesse um n na garganta. Tragou saliva e apartou o olhar por ummomento. Que curioso! antes de conhecer o Annie, no havia sentido tais vontades de chorar. 
Em realidade, desde que era um menino. Agora lhe parecia que tinha que piscar para tentarconter as lgrimas ou tragar saliva para desfazer um n na garganta com muita freqncia. Aoolh-la... ao entender como tinha sido sua vida... Alex pensou que se precisaria ter um coraode pedra para no deixar-se movendo e, quando daquela garota se tratava, era evidente queseu corao no era feito de pedra.
Naquele momento, Alex conseguiu aceitar com a inteligncia o que seu corao lhe tinhaestado dizendo fazia j mais de duas semanas. Estava apaixonado por ela. Incrvel eperdidamente apaixonado. Annie lhe parecia muito doce e preciosa para poder resistir. Se istoera libidinoso... se era um pecado imperdovel... bom, pois ento ele estava perdido.
Contra o que dizia o velho refro, no estava completamente seguro de que se iria ao infernocom um sorriso nos lbios. Jogo de dados os sentimentos que ela suscitava nele, havia muitas 
possibilidades de que tivesse lgrimas nos olhos quando chegasse o momento do Julgamento 


Final. Seu nico consolo era que sem lugar a dvidas seriam lgrimas de alegria, no de dor. 

CAPTULO 17 

O tempo, ao menos tal e como outros o interpretavam, era um conceito que Annie no 
entendia. Para ela no existiam os relgios, os horrios nem os calendrios para marcar osdias, as semanas e os meses. Ela s sabia que os compridos e lentos dias da poca dasmariposas se tornaram mais curtos, que as folhas das rvores comeavam a tingir-se de cor eque o ar era cada vez mais frio.
A estao chuvosa se aproximava e ela podia senti-lo em seus ossos. Mas pela primeira vez emsua vida este pensamento no a deprimiu. A casa do Alex, a diferena da de seus pais, era umlugar cheio de emoes e descobrimentos. Passava horas todos os dias sentada em sua cama,
tocando a flauta. Quando se aborrecia disto, podia ficar a desenhar tudo o que quisesse, poisAlex se inteirou de que gostava de faz-lo e lhe tinha agradvel lpis-carves e blocos de papelde desenho. Por outra parte, sua me a visitava com muita freqncia, pelo general pelastardes. Sua me estava aprendendo a ler sistematicamente os lbios e, pela primeira vez emmuitos anos, Annie tinha conseguido estabelecer certa comunicao com ela. Ocupada comtodas estas atividades, j no temia ver-se obrigada a permanecer na casa.
Mas em realidade no tinha por que faz-lo. alm dos materiais de desenho, Alex lhe tinhaagradvel um artefato de aspecto bastante estranho que ele chamava guarda-chuva, e queAnnie comparava com um teto com manga. Segundo ele, quando chovia, a gente abria oguarda-chuva e o situava sobre a cabea. O resultado era que chovia em torno da pessoa, masno sobre ela. Com o guarda-chuva, ela poderia sair a passear em meio da chuva cada vez quequisesse, sem molhar-se.
Se  que ainda podia caminhar quando chegasse a estao chuvosa. Seu ventre estavacrescendo tanto, que lhe parecia que andava como um pato. Baixar as escadas era o que maislhe angustiava. Com aquela pana to proeminente, tinha que inclinar-se ligeiramente paratrs para no perder o equilbrio nos degraus. Era muito difcil.
Tambm se estava voltando preocupe-se. Graas ao que Alex lhe havia dito -que os bebsnasciam de uma forma completamente diferente dos pintinhos-, j no acreditava quepoderia pr um ovo. No obstante, no lhe cabia a menor duvida de que havia um bebcrescendo dentro dela. Algumas vezes podia inclusive senti-lo movendo-se, como se estivesseansioso por sair. Dado seu tamanho, Annie estava comeando a perguntar-se como o obteria.
No atravs de seu umbigo, com toda segurana.
Queria lhe perguntar a algum como nasciam os bebs humanos, mas no sabia como faz-lo.
Sua me logo que estava comeando a ler os lbios. Alex o fazia muito melhor, mas no tanto 
como para entender tudo o que ela dizia. As poucas vezes em que tinha tentado lhe fazerperguntas a respeito dos bebs, ele no parecia entend-la. De fato, Annie s vezes tinha a 
sensao de que ele no queria entend-la. Isto lhe preocupava e o fazia perguntar-se se terum beb no seria uma experincia horrvel para a me. Embora isto no lhe importava.
Queria um beb e, assim tivesse que passar um momento desagradvel para ter um, estava 
disposta a fazer tudo o que fosse necessrio.
Um dia, a ltima hora da tarde, momento que Annie normalmente passava junto ao Alex, elerecebeu um recado solicitando sua imediata presena nas cavalarias. Pouco depois de que elesasse da casa, Annie comeou a sentir-se aborrecida e, posto que ultimamente lhe tinhamdado mais liberdade de ao e lhe permitiam sair sozinha, decidiu dar um passeio pelapropriedade. Sua vagabundagem a levou justamente s cavalarias.
Imediatamente depois de entrar, parou-se em seco e inclinou a cabea, subjugada por um som 
apenas perceptvel que rompeu o silncio que sempre a rodeava. Posto que eram muito 
estranhas as ocasies em que ela podia perceber algum rudo, isto no era s um fatonovidadeiro, mas tambm inslito. Era um som agudo, muito distinto de tudo o que elarecordava ter ouvido em sua vida. Sentindo-se atrada por ele, atravessou, vacilante, ascavalarias. Acelerou o passo ligeiramente quando se fez mais forte e fcil de seguir.
A metade de caminho do escuro corredor, Annie chegou  intercesso de dois corredores. Asua esquerda, viu o brilhante crculo formado pela luz de uma lanterna, e uns homens dandovoltas ao redor do disco luminoso. Fascinada, dirigiu-se para eles. Quando esteve osuficientemente perto para ver o que ocorria, deu-se conta de que estavam reunidos frente ao 
cubculo de um cavalo. Estirando o pescoo para poder ver um pouco melhor, viu o Alex 
ajoelhado junto a uma gua que estava tombada dentro do recinto. 
O som agudo e dilacerador saa da gua. A pobre besta estava chiando, sacudindo a cabea etentando desesperadamente levantar-se. Alex, com o rosto crispado e as veias do pescoo 



inchadas, estava fazendo um grande esforo para ajudar  gua a levantar-se. Durante osintervalos em que o animal se tendia no cho, cansado e sem foras, ele acariciava seu ventrevolumoso e lhe dizia uma e outra vez: 
-Tudo vai sair bem, menina. Tudo vai bem. 
Annie advertiu que seus braos estavam manchados de sangre at as mangas da camisa, queele se arregaou  altura dos cotovelos. Tinha a preocupao gravada nas cinzeladas linhas deseu rosto moreno, e quando a jovem grvida pde ver brevemente seus olhos, advertiu queestavam cheios de dor. Logo, dirigiu o olhar para a gua. Algo terrvel lhe tinha passado a 
pobre criancinha, compreendeu Annie. A julgar pelo sangue, era possvel que a gua se feriu 
de algum jeito.
-Tranqila, menina. Tranqila.
detrs do Alex, Deiter, o chefe de quadra, estava batalhando com uma espcie de artefato compolia que tinha sido pacote s vigas. Annie sups, pelo desenho do mecanismo, que os homensporiam as correias de lona ao redor do corpo da gua para poder levant-la.
Com muchsima pena pela pobre gua, Annie se aproximou para ver melhor. A besta escolheuaquele preciso momento para lanar-se com todas suas foras para cima, fazendo que Alex seapartasse enquanto ela conseguia ficar de joelhos. Quando Alex gritou -Annie soube que 
estava gritando pela maneira em que se incharam os msculos de seu pescoo-, Deiter 
deixou o que estava fazendo e correu a seu lado. Com a ajuda dos dois homens, a besta selevantou cambaleando-se. 
Desesperada-se, provavelmente a causa da dor, a gua no pareceu agradecer a ajuda doshomens e comeou a dar voltas em crculo, sacudindo a cabea e arremetendo contra Alex 
com um de seus cascos dianteiros. O chefe de quadra, tentando esquivar os coices, tratou de 
agarrar o arns, mas no o obteve. O animal, em seu desespero por escapar, trocou de direo 
uma vez mais, agora voltando seus quartos traseiros para a porta aberta do cubculo. 
Annie esteve a ponto de deprimir-se. O traseiro da gua estava dilatado e saa muito sangue.
As diminutas patas de um cavalo se deixavam entrever por ele. Seus cascos estavam talheresde uma substncia branca que parecia grumos de leite coalhada. Um beb... a gua estavadando a luz. 
Annie ficou paralisada, com os olhos cravados na cena. Os flancos da gua se moviamagitadamente e estavam talheres de suor. Alex agarrou uma das correias que penduravam doteto e rapidamente a passou ao redor da cilha. Quando conseguiu atar a tira, correu para aparede, desenganchou uma polia e, saltando to alto como pde, atirou dela com todo seu 
peso.
Enquanto atava a polia, olhou ao Deiter por cima do ombro. 
-Faz que o potro se d a volta! Date pressa, Deiter, ou o perderemos, maldio! 
De onde se encontrava, Annie tinha uma panormica perfeita do traseiro da gua, e viu 
horrorizada como Deiter colocou o brao, at o cotovelo, dentro da besta. dentro dela! Uns 
pontos negros comearam a dar voltas frente aos olhos do Annie. Uma terrvel sensao de 
debilidade se apropriou de suas pernas. Um beb, a gua estava tendo um beb. Um beb quetinha estado crescendo em um lugar especial dentro dela. S que no era maravilhoso, comoAlex lhe havia dito. Era horroroso. Mais horroroso que tudo o que Annie tivesse podidoimaginar-se. A gua estava sofrendo, e muito. E era evidente que se Alex e Deiter no 
conseguiam fazer nada para ajud-la, a gua ia morrer.
Uma mo forte apertou o cotovelo do Annie. Piscando para tentar ver atravs dos pontos quedavam voltas em seus olhos, a pobre garota elevou a vista para o rosto cheio de inquietaode um homem que no conhecia.
Lhe disse algo, mas ela estava to nervosa, que no pde emprestar ateno a sua boca.
Tudo o que queria era partir dali. Afastar-se daquele homem. Das cavalarias, do Alex, que lhetinha mentido. Ir a algum lugar seguro... um lugar onde pudesse esconder-se, onde pudessesoltar os gritos que a estavam invadindo por dentro sem que ningum os ouvisse.
deu-se meia volta rapidamente e comeou a correr, s cegas e presa do pnico, pensando que,
se corria o suficientemente rpido, possivelmente conseguisse escapar do destino que anatureza tinha reservado para ela. No obstante, ao sair das cavalarias, este pensamento seafastou de sua mente. Suas pernas eram como borracha derretida: tremiam-lhe e no podiamsustentar seu peso. O mundo em torno dela pareceu estar dando uma lenta volta ondulante,
em uns momentos verticalmente e, em outros, movendo-se ao redor de seu eixo. sentia-se 
como se a estivessem lanando de barriga para baixo e logo depois de lado. sentiu-se enjoada,
terrivelmente enjoada. Em meio de sua viso imprecisa, conseguiu distinguir a casa e correupara ela cambaleando-se. Ali havia um esconderijo. Um lugar seguro. 



Alex acabava de terminar de lavar-se e se estava secando os braos quando Maddy irrompeu 
nas cavalarias. Seus olhos verdes lhe tinham sado das rbitas e tinha o rosto lvido. deteve-se 
junto a ele detrs dar um escorrego e comeou a mover a boca, mas passaram vriossegundos antes de que dela sasse algum som coerente. 
-Annie -conseguiu dizer finalmente-. Est acima, no apartamento de cobertura! Estgritando e queixando de uma maneira espantosa. Venha, senhor. Venha rpido!
Um dos pees, que se tinha lavado justo antes que Alex e se encontrava ali perto abotoando-a 
camisa, lanou uma exclamao. 
-Maldio! 
Maddy e Alex se voltaram para ele. O homem se encolheu de ombros ao ver seus olhares 
inquisidoras.
-A senhora esteve aqui faz um momento -explicou com ar envergonhado-. Parecia estar 
muito alterada quando partiu correndo. 
-Esteve aqui? -Alex estava conmocionado-. O que quer dizer com isso, Parkins? Acaso viu a 
gua? -Quando o homem assentiu com um movimento de cabea, Alex esteve a ponto desoltar um grunhido-. por que demnios no me disse isso?
-Bom, pois porque voc estava ocupado. Com a gua e todo o resto. Se eu o tivesse 
incomodado, com segurana a teramos perdido.
Alex sentiu umas vontades enormes de dar um murro na boca a aquele homem e de fazer que 
se tragasse os dentes.
-Minha esposa  muito mais importante para mim que uma maldita gua, Parkins. Ela no 
deveu entrar aqui. Apenas a viu, tinha que haver...
Alex se interrompeu. Compreendeu que era intil lhe jogar a culpa de todo aquilo ao peo. O 
dano j parecia. Atirando ao cho a toalha que estava usando, apartou ao Maddy de um 
empurro e correu para a casa.
Do instante mesmo em que entrou no saguo, ouviu os gritos de sua mulher. Nunca em sua 
vida tinha ouvido algo semelhante. Eram horrveis alaridos de demente, que retumbavam demaneira estranha e inquietante no patamar e as escadas. Agarrando com fora o passamanes,
subiu os degraus de dois em dois. O corao lhe golpeava o peito com a fora de um mao. Ao 
chegar ao segundo lance de escadas, os gritos pareceram fazer-se mais fortes, maisaterradores. Em ocasies eram alaridos e, em outros momentos, gemidos guturais. Osintermitentes soluos eram to profundos e dilaceradores que comeou a temer que Annie se 
fizesse mal. 
Atravessou correndo o corredor do segundo piso, para dirigir-se  asa ocidental da casa.
Chegou s perigosamente estreitas e levantadas escadas. caiu sobre um joelho. levantou-secom grande esforo. Seguiu subindo os degraus em meio da penumbra, consciente dos gritos e 
da desesperada necessidade de chegar ao lugar onde estava sua esposa.
Alcanou a porta fechada do apartamento de cobertura como se a barreira de madeira noestivesse ali. Escurido. Objetos no meio do caminho. Se no podia saltar por cima dosobstculos, abria-se caminho atravs deles, logo que sentindo dor quando um anguloso 
saliente golpeava seu acne ou as coxas. Annie... Santo Deus! O pnico e a dor que percebia em 
seus gritos estiveram a ponto de fazer que casse de bruces. A gua, pensou com fria. Tinhavisto a gua dando a luz. Que entrasse nas cavalarias e presenciasse algo to terrvel o faziasentir-se muito mal. Fisicamente mal. Nenhuma mulher grvida deveria ver algo semelhante, emenos algum como Annie. 
Alex chegou finalmente  parede que separava o pequeno salo do Annie do resto do 
apartamento de cobertura. Rodeou o tabique cambaleando-se, quando Annie deixou de gritarde repente. Seguiu um silncio to absoluto que lhe pareceu ensurdecedor, como seretumbasse em seus ouvidos. Ento, foi vagamente consciente do rudo spero que fazia suaprpria respirao.
A dbil luz daquela tarde de finais de outono entrava de forma andina atravs das guas-
furtadas, sem conseguir iluminar a habitao. Alex escrutinou a penumbra com seu olhar,
tentando desesperadamente encontrar ao Annie. Quando seus olhos se acostumaram  
escurido, viu o fim seu plido rosto ovalado. Aproximando-se um pouco mais, e forando avista, comeou a distinguir seus rasgos.
Disposto a consol-la a todo transe, deu trs grandes pernadas para o rinco no que se 
encontrava acurrucada. 
-Annie, carinho. -Agarrou-a dos ombros, que tremiam violentamente-. Amor... 
Ento Alex caiu na conta de algo. O silncio. O repentino e terrvel silncio. Deus santo, estavacontendo a respirao. Para no gritar. Tinha medo. Tinha-medo a ele. Tinha infringido a 



norma do silncio, e agora pensava que ele poderia castig-la.
-No, Annie. Carinho, segue gritando. No me importa.
Alex no acreditava que, to aterrorizada como estava, pudesse entender o que lhe estavadizendo. Seu magro corpo se estremecia violentamente por causa dos soluos contidos. O ficouolhando-a fixamente, incapaz de salvar o abismo que se estendia entre eles. A surdez. Todauma vida obedecendo normas e sendo repreendida com severidade quando as infringia.
Inclusive em meio da escurido, Alex pde ver seu pequeno rosto transido de dor, que iaadquirindo um aterrador e apagado tom vermelho. As veias de suas bochechas e seu pescoose sobressaam, moradas sob a pele, pulsando com fora e inchando-se por causa da crescentepresso.
Uma fria impotente estalou dentro do Alex. ficou de p de maneira to repentina que acabea comeou a lhe dar voltas. James Trimble. O maldito fornecedor de navalhas de barbear. 
voltou-se e saiu correndo do apartamento de cobertura. Baixou as estreitas e levantadasescadas como se no estivessem ali. Quase imediatamente depois de que sasse do desvo,
Annie comeou a gritar de novo. A pobrecita no tinha maneira de saber quo fortes eram 
seus gritos. 
Virtualmente cegado pelas lgrimas, Alex atravessou a casa. Parecia-lhe estar caminhandotrabalhosamente sobre um leito de melao que lhe chegasse at a cintura. Cada passo 
representava um enorme esforo, cada movimento era exasperantemente lento. Alex chegou a 
seu estudo convertido em um demente. O fornecedor. O maldito fornecedor. No podiarecordar onde o tinha deixado. 
Quando chegou a seu escritrio, comeou a abrir as gavetas com tal fora que os tirou de seus 
trilhos, derrubando seus contedos no cho. Alex se deu conta vagamente de que Maddy tinha 
entrado no estudo. Ouviu-a falar como se estivesse muito longe de ali e no conseguiudistinguir as palavras que pronunciava. No lhe importava o que ela estava dizendo. Naquelemomento s lhe importava a jovem do apartamento de cobertura.
Finalmente encontrou o fornecedor de navalhas de barbear na ltima gaveta do escritrio. 
Fechou o punho em torno dele e passou correndo junto ao Maddy, sem sequer lhe dedicar um 
olhar. Voltando sobre seus passos, retornou ao apartamento de cobertura. J sabia que Annie 
se calaria assim que o visse. Essa era a regra.
Pois bem, j se tinha fartado das estpidas normas dos Trimble e o ia demonstrar ao Annie de 
uma vez por todas.
Quando entrou no salo de novo, ela reagiu tal e como o tinha feito antes: deu um grito 
afogado e logo conteve a respirao para sufocar todo som que queria sair do mais fundo deseu ser. Alex se dirigiu diretamente a cambaleante mesa de trs patas. Com um amplo eviolento movimento do brao, fez voar sua heterognea coleo de taas e pires de porcelana,
que chocaram contra a parede, fazendo-se pedacinhos. As partculas e fragmentos deporcelana ricochetearam. No lhe importava. Podia comprar mais taas de porcelana, todas asque quisesse, com tal de faz-la feliz. Mas no podia comprar outra oportunidade de viver!
Tremendo de fria, Alex atirou o fornecedor sobre a superfcie da mesa. Logo, tirou a navalha 
do bolso de sua cala. Com movimentos trmulos, desdobrou a navalha e a empreendeu com atira de pele, fazendo-a migalhas. 
-Grita! -rugiu-. Grita, tbua delgada, chora! No me importa, Annie! Entende-me? No te 
castigarei por fazer rudo. Nunca te castigarei. Nunca! 
Ras, ras, ras. Em meio de seu ataque de histeria, Alex cortou a tira de pele at v-la convertidaem minsculos pedaos. Ento, e s ento, deteve-se. Atirando a navalha ao cho, ps asmos sobre a mesa e deixou cair a cabea, respirando como se tivesse deslocado mais de dezquilmetros. Quando finalmente elevou a vista, viu que Annie ainda se encontrava acurrucada 
no rinco, apertando-as joelhos com os magros braos. Contra sua cara assombrosamentevermelha, seus enormes olhos cheios de lgrimas eram como manchones de cor azul escura. 
Alex a olhou. 
-Amo-te, Annie -sussurrou com voz rouca, e logo lhe abriu os braos. 
Alex esperou durante um momento que lhe pareceu eterno, rogando em silncio que ocorresseum milagre. Era algo que no fazia desde que era um menino. S um pequeno milagre.
-Por favor... -sussurrou com voz entrecortada-. Vem aqui, Annie, carinho. 
A jovem se levantou do cho com um gemido, de maneira to repentina que pareceu mover-semeio s cegas. Logo, lanou-se a seus braos, estrelando-se contra ele com a parte mais 
sobressalente de seu pequeno corpo, que naquele momento de seu embarao era o ventre. 
Temendo que a jovem pudesse fazer-se danifico, Alex cedeu ligeiramente sob seu peso paradiminuir o impacto e esteve a ponto de perder o equilbrio no intento. Sustentando-a contra 
seu corpo, deu um cambaleante passo para trs, mas logo conseguiu recuperar o equilbrio. 



Annie lhe rodeava o pescoo com seus magros braos, aferrando-se a seu corpo como seestivesse a ponto de cair a um precipcio e ele fosse seu nico cabo. Seus soluos profundos etrmulos, que agora afogava contra o ombro do Alex, no eram to fortes; mas mesmo assimconseguiam sacudir seus corpos. lhe alegrava que ela no seguisse contendo a respirao.
-Ai, Deus, Annie... -Com doura, Alex fez que sua mulher se apertasse mais contra ele, se que isto era possvel, pois ela se derreteu em seus braos como uma poro de manteigasobre uma fatia de po quente-. me Perdoe, carinho. me perdoe.
Dado que tinha o rosto apertado contra seu ombro, Alex soube que ela no tinha ouvido o queestava dizendo, e possivelmente isto fosse o melhor. antes de tentar acalm-la, ele tambm 
tinha que tranqilizar-se, e naquele preciso instante no estava tranqilo absolutamente. Otinha a culpa de tudo. Tinha tido uma oportunidade de sentar-se com ela e lhe explicar oprocesso do parto e, devido a um cavalheirismo mau entendido, tinha evitado essaresponsabilidade, dizendo-se que a ignorncia era uma bno.
O que equivocado estava. Ao no tratar o tema, tinha permitido que Annie fosse vulnervel de 
uma maneira em que nenhuma mulher devia s-lo. Por culpa dela e de sua estupidez, elaestava morto de medo e presa do pnico. Isto no tinha sentido e era completamentedesnecessrio. Deveu ter falado com ela. Se tivesse falado com ela, se tivesse sido sincero e 
lhe tivesse explicado as coisas tal e como eram, teria se podido evitar aquele desastre.
Desesperadamente desejosa de aproximar-se mais a ele, ela ficou nas pontas dos ps e seaferrou com mais fora ao pescoo de seu marido. Pesava to pouco que Alex quase no 
sentiu a presso sobre seus ps. Dobrando um brao debaixo de seu traseiro, elevou-a, 
apertada contra seu corpo, sonriendo atravs das lgrimas ao sentir toda sua doura. Annie, 
com seu enorme ventre, era a mais preciosa carga que seus braos tinham levado em toda suavida. O homem apertou seu rosto contra o cabelo do Annie e ela o soltou deixando escapar um 
grito terrvel e dilacerador que saiu de maneira entrecortada de seu peito.
Para o Alex, era um som cheio de dor, no um grito estudado que procurasse compaixo;
tampouco um soluo delicado, cuidadosamente calculado para parecer feminino. Aquele grito 
saiu de sua alma, cru, cheio de dor, desagradvel em sua extrema franqueza. Nada foireprimido nem moderado. Mesmo assim, Alex pensou que era o som mais belo do mundo. Osimples feito de que ela se atreveu a proferi-lo era um presente, uma amostra de confiana.
Ao compreender isto, seus olhos voltaram a encher-se de lgrimas. Esquecendo seu delicadoestado, esquecendo-o tudo, estreitou-a com mais fora entre seus braos, plenamenteconsciente do frgil vigamento de costelas que havia sob suas mos, de suas estreitas costas, 
de sua leveza. Ela no era muito grande, mas, de uma maneira maravilhosa, tinha cheio porcompleto seu mundo. Estreit-la entre seus braos... Saber que ela confiava nele como nuncatinha crdulo em ningum...
O presente do Annie... Estreitando-a entre seus braos como o estava fazendo naquele 
instante, Alex logo que podia acreditar que houve um tempo no que clamou contra o destino,
no que viu seu matrimnio como um sacrifcio obrigatrio para emendar um engano. Tinhaenganos que retificar, certamente, mas no era uma obrigao e muito menos um sacrifcio.
Amar a aquela mulher, formar parte de seu mundo, era uma bno do cu.
Alex a levantou entre seus braos e a levou a cadeira de balano que se encontrava em umrinco da habitao. Depois de sentar-se nela, tendeu ao Annie sobre seu regao, deixandoque apoiasse a cabea em seu brao, no com a inteno de que ele pudesse ver seu rosto,
mas sim mas bem para que ela pudesse ver o seu. Os olhos da jovem, cheios de pnico,
aferraram-se quase desesperadamente aos seus. At aquele instante, Alex tinha tido ainteno de falar com ela, lhe explicar com todo luxo de detalhes o que tinha visto nascavalarias. Mas o olhar que viu nela o fez calar. No era o momento de falar. Ao menos, demaneira convencional. 
Assim, em lugar de falar, estreitou-a contra seu corpo, tal e como o teria feito com umamenina, e comeou a embal-la. Enquanto a balanava, sussurrava palavras que sabia que elano podia ouvir. Mas o que dizia no importava. De todos os modos, o que Annie necessitava 
naquele momento eram mensagens que no podiam ser expressos com palavras. Acariciou 
seu cabelo com mo trmula. Logo, apertou a bochecha contra a cabea dela e fechou osolhos. No se surpreendeu absolutamente quando sentiu mais lgrimas correndo por suasbochechas. Cada um de seus soluos o atravessava como uma adaga.
havia-se sentido culpado em distintas ocasies ao longo de sua vida, mas nunca tanto comonaquele momento. Permitiu-lhe chorar, pois sabia que ela o necessitava. S Deus sabia quantomerecia que a deixassem chorar. Quando ela finalmente comeou a tranqilizar-se, ele aacomodou em seus braos de tal maneira que suas caras ficaram a muito poucos centmetrosde distncia. 



-Annie. -Alex respirou fundo-. Acredito que temos que falar. Sobre o beb e como sero as 
coisas quando...
Annie abriu os olhos para manifestar um inconfundvel sentimento de terror e negouviolentamente com a cabea. 
-Noooo! 
Alex a agarrou do queixo para obrig-la a olh-lo  cara. Quando ela finalmente se tranqilizoue ele sentiu que tinha toda sua ateno, falou.
-Alguma vez te hei dito uma mentira? 
Ela negou com a cabea de maneira quase imperceptvel.
-Ento pode confiar em que no te vou mentir agora. Ter um beb no ... -Ps nfase napalavra no, dizendo-a lentamente e com exagerada claridade-. No  como o que viu nascavalarias. 
O olhar dela se aferrou  sua, cheia de perguntas e incredulidade.
Alex tragou saliva. No desejava aquela conversao, mas tinha que fazer-se compreender dealgum jeito. Sem saber por onde comear, decidiu simplesmente ficar a falar. No sabia o que 
lhe havia dito exatamente, s que lhe contou que o potro vinha de ndegas e que logo lhe 
descreveu um parto normal. No lhe ocultou nada, e foi totalmente sincero. Falou-lhe inclusivedos dores do parto. Quando lhe explicou como sairia o beb por seu corpo, o medo escureceuos olhos do Annie; o qual lhe partiu a alma, mas tambm lhe fez sorrir. 
-Annie, carinho, sua me deu a luz a ti. A minha deu a luz a mim. Todas as criaturas vivas que 
vemos nosso redor tiveram que nascer, e de uma maneira muito parecida com a que nascerseu beb. Possivelmente no seja uma experincia muito agradvel, mas no te vais morrer, e 
eu estarei junto a ti para te ajudar, prometo-lhe isso. -Acariciou a bochecha da garota com agema dos dedos-. vai ser formoso, tesouro; no ser horrvel, j o ver. Confia em mim. E,
quando tudo tenha terminado, vais ter teu beb ao qual poder lhe dar todo seu amor.
Ela pareceu ter reservas a respeito destas ltimas palavras. Alex no pde menos que sorrir.
-Crie que te mentiria? 
Seguiu lhe parecendo indecisa.
-Bom, pois ento me parece que o mais indicado  dar um passeio pelas cavalarias. Apesarde ter sido um parto difcil, a gua j est bem. E  a orgulhosa me do potro mais bonito quetenha visto em sua vida. -Resolvido, Alex a fez descer de seu regao e ficou de p-. Te 
demonstrarei que no estou mentindo.
Ela negou veementemente com a cabea. Era evidente que lhe assustava a idia de retornars cavalarias. 
Alex a agarrou da mo. 
-Confia em mim, Annie. Voc viu a pior cena que uma futura mame possa presenciar. Agoraquero que veja a mais doce. 

As cavalarias eram o ltimo lugar ao que queria ir Annie. Mas Alex insistiu e, como ele era 
muito maior, no ficou mais remedeio que acessar. Para sua grande surpresa, feito-se de noiteenquanto permaneceram dentro da casa. A luz da lua e as sombras descenderam sobre eles 
quando saram ao jardim. Como se intuira seu nervosismo, Alex lhe rodeou os ombros com umbrao e a atraiu para ele enquanto andavam.
Aquela desacostumada cercania serve para distrair a de suas preocupaes mais que qualquer 
outra coisa que ele tivesse podido fazer. No ponto no que seu ombro se apertava contra oflanco do Alex, ela sentia seu corpo como se fosse de ao recubierto de uma seda ligeiramenteacolchoada. O brao dele ao redor de seus ombros lhe resultava maravilhosamente forte e 
quente. Enquanto se moviam ao unssono atravs do escuro jardim, Annie pensou que ele 
devia estar fazendo um esforo por adaptar seu passo ao dela, pois suas pernas eram muitomais largas que as suas. O quadril do Alex me chocava contra seu flanco em um ponto que seencontrava muito mais acima de sua cintura. 
A jovem olhou com dissimulao seu perfil moreno, turvada como nunca antes o tinha estado.
Sentiu uma espcie de revo no estmago e, ao mesmo tempo, uma estranha emoo. Comose tivesse advertido seu olhar, ele baixou a vista, olhou-a aos olhos, e esboou um desses 
sorrisos suaves e deliciosamente torcido, to prprias dele.
-Alguma vez tnhamos caminhado juntos sob a luz da lua, no  verdade?
Annie assentiu com a cabea. 
Seus dedos largos se moveram no lugar em que se dobravam sobre o ombro do Annie, e esta 
leve carcia fez que ela sentisse um formigamento na pele. 
-Temos que faz-lo mais freqentemente. Est preciosa sob a luz da lua. Absolutamente 



preciosa.
Annie duvidava que isso fosse certo. Embora no lhe davam ataques de pranto com muitafreqncia, as poucas vezes em que isto acontecia, ficava horrorosa, com os olhos inchados e 
a cara vermelha. 
Como se tivesse adivinhado seus pensamentos, ele se Rio. A dbil risada vibrou atravs dosombros do Annie e se irradiou ao longo de seu brao. 
- bonita, Annie, carinho. me acredite. Sem lugar a dvidas,  uma das garotas mais formosassobre as que tive o prazer de posar os olhos. 
Uma sensao ardente subiu devagar pela garganta do Annie e se transformou em fogo emsuas bochechas. Ela em seguida apartou o olhar. Um instante depois, sentiu que o corpo doAlex se movia e, quase sem que se desse conta, o homem se agachou para que seu rostoficasse frente ao da moa. Ela retrocedeu assustada, o qual fez que ele voltasse a rir. 
-Estou-te falando, tola. Como pode saber o que te estou dizendo se no me olha? 
Annie o seguiu com o olhar enquanto ele se endireitava. Estava a ponto de sorrir, muito a seupesar. O fato de que o que menos queria fazer at fazia uns poucos minutos fosse sorrir a fezvacilar. 
-Assim est melhor -disse ele-. Me sentia como um completo parvo, andando em meio da 
escurido e falando sozinho. 
Uma das comissuras da boca do Annie comeou a tremer. Ele tocou a covinha de sua 
bochecha com a gema de um dedo.
-Por certo, tambm tem o sorriso mais maravilhosa que tenha visto jamais. A classe de sorriso 
que faz que um homem adulto faa o ridculo.
Annie negou com a cabea. O assentiu enfaticamente. Contendo uma risita, Annie moveu a 
cabea com mais fora para seguir negando-o.
Alex se fez o zangado e adotou uma expresso comicamente contrariada.
-Deus santo, nossa primeira discusso!
Para ouvir estas palavras, Annie perdeu o controle. A risada que tinha estado contendo estalou 
em sua garganta. Para ouvir este som, Alex se parou em seco. A garota pensouinstintivamente que ele ia repreend-la. Mas a luz da lua lhe permitiu ver um brilho pcaro emseus olhos. 
-De verdade acabo de ouvir uma gargalhada? -Apertou seus ombros com mais fora e aatraiu docemente para seu corpo-. Noooo! No, meu Annie no ri. -Observou-a atentamente 
durante um momento-. Pobre menina, tem soluo, verdade? A cruz da existncia de toda 
futura mame  a indigesto crnica.
Annie voltou a rir. No parecia poder parar. E quando finalmente o fez, aconteceu algo incrvel. 
Ao Alex lhe apagou o sorriso do rosto e, depois de olh-la fixamente durante interminveissegundos, ou ao menos assim lhe pareceram com ela, seus olhos se encheram de lgrimas. 
-Obrigado -disse ele.
S isso, s um simples "obrigado". Mas para o Annie, esta era a palavra mais maravilhosa quejamais tinha ouvido pronunciar e significava muito mais que qualquer outra. Com esta nicapalavra, lhe estava dizendo infinidade de coisas, e concretamente que tudo o que lhe haviadito no apartamento de cobertura era verdade, que no s no a castigaria por fazer rudo,
mas tambm alm disso queria que o fizesse.
Uma extraordinria sensao de liberdade a invadiu, uma sensao de leveza, quase como sepudesse flutuar no ar. Compreendeu que podia confiar naquele homem. Em tudo. E com seuolhar lhe dando valor, atreveu-se a articular duas palavras para que ele as lesse em seuslbios. 
-De nada. 
Embora parecesse incrvel, ele conseguiu ler seus lbios  primeira, pois seu sorriso se fezmais profunda. Agarrando o queixo dela com a mo, fez que elevasse a cara para que a luz da 
lua casse sobre ela. 
-Diga-o de novo.
Annie o agradou. Enquanto ela voltava a articular as palavras, ele percorria seus lbios com odedo polegar. Seus olhos se encheram de regozijo enquanto exploravam os dela. 
-Assim so todas as mulheres. Anima-as a falar e, antes de que te d conta, converteram-se 
em uns periquitos.
depois de fazer esta afirmao, negou com a cabea e a insistiu a seguir andando. Cravando oolhar nas cavalarias, Annie caiu na conta de que j no tinha medo de entrar ali e ver a gua.
Embora Alex estivesse equivocado e a besta se encontrasse em um estado lamentvel, elapodia confrontar a situao.
Pensava que enquanto Alex estivesse a seu lado, podia enfrentar-se quase a algo. 



Quando entraram nas cavalarias, o valor do Annie fraquejou. O interior da edificao estava 
muito escuro, e totalmente silencioso. Era assim como ela se imaginava a morte: a negra nada.
Durante uns poucos instantes, Alex a deixou sozinha no meio do vazio. No sabia por que. Ssabia que a tinha deixado ali, e ela sentiu como se a pele fosse voltar se o do reverso. 
Logo retornou a seu lado. Grande, musculoso e carinhoso. Agarrou suas mos e as ps sobre 
algo feito de metal e cristal. Annie explorou seus contornos com os dedos e reconheceu a 
forma de um farol. Aquele desdobramento de cortesia e considerao a fez sorrir ligeiramente.
Ao lhe permitir tocar o abajur, estava-lhe explicando por que a tinha deixado sozinha duranteum minuto. 
Agarrou-lhe firmemente o brao e se apoiou nele enquanto seguiam andando. Desejava queAlex decidisse que no era necessrio fazer aquilo depois de tudo. Mas no teve essa sorte. Oa insistiu a seguir adiante, atirando dela para que se mantivera a seu lado em meio da 
escurido. Quando dobraram  esquerda, a jovem soube que tinham enfiado o corredor que secruzava com o primeiro e que a quadra da gua estava um pouco mais adiante. Escrutinandoinutilmente a escurido, tentou ver o rosto do Alex. Queria v-lo. No queria, precisava v-lo.
Depois de deter um instante, ele voltou a afastar-se dela. Na vida lhe tinha incomodado tanto 
sua surdez. Parecia-lhe que o silncio se converteu em uma criatura viva, com dedos glidos e 
garras que se dobravam em torno de seu corpo. Alex? Ai, Deus, tinha-a deixado sozinha.
Completamente sozinha. Andou a provas como uma louca. A palma de sua mo tropeou comuma superfcie de madeira spera.
Imediatamente, uma luz estalou junto a ela. Assustada, Annie deu um salto para trs. Logo, viu 
que Alex simplesmente tinha aceso um fsforo. Uma cor mbar piscou sobre seu rosto moreno, 
fazendo que seus olhos brilhassem de maneira estranha e inquietante. Elevando o farol, levou 
a chama ao interior do abajur e estalou uma deslumbrante brancura. Sacudiu o fsforo e antesde atir-la-se meteu seu extremo quente na boca, para certificar-se de que estavacompletamente apagada. depois de fazer girar a vlvula do combustvel para regular a luz,
pendurou o abajur de um prego comprido que me sobressaa de uma parede, em cima dele. 
Disse- algo ao Annie. Logo, quando viu que ela no reagia, levou-se as mos aos quadris,
inclinou ligeiramente uma perna, e descansou o peso de seu corpo sobre o outro p. Apertando 

o fsforo entre seus dentes, voltou a falar. Dado que estava falando entre dentes, Annie no 
tinha nem a menor ideia do que estava dizendo; s notava que ele comeava a exasperar-seporque ela no acessava a sua solicitude. Quando ele voltou a falar, ela rapidamente deu um 
passo adiante e lhe tirou o fsforo da boca de um puxo.
Alex pareceu ficar desconcertado durante um segundo e logo sorriu. 
-Sinto muito. 
Annie levantou as sobrancelhas. 
-Estava-te dizendo que jogasse uma olhada e o comprovasse com seus prprios olhos. -Alexassinalou o compartimento com a cabea-. A me e o beb, ss e salvos.
Annie se voltou para jogar uma olhada por cima da porta, ele lhe aproximou por detrs erodeou a cintura da jovem com seus fortes braos. Logo, ps uma de suas grandes mos sobre 
seu ventre inchado e o acariciou brandamente com as gemas dos dedos. Durante um instante,
a futura me ficou tensa, turvada pelo excesso de familiaridade. Mas logo sentiu que a tensodesaparecia sob as doces carcias de suas mos. Alex. recostou-se contra ele e fechou osolhos, imaginando que sentia toda sua fora entrando nela. Sentiu os constantes e fortesbatimentos do corao de seu corao contra seu ombro, um ritmo frreo e tranqilizador quecuriosamente parecia estar em harmonia com os batimentos do corao de seu prprio pulso.
Em sua boca se desenhou um sorriso e, abrindo os olhos, dirigiu o olhar para o cubculo. Agua se encontrava no centro do cercado. Seus olhos marrons aquosos se posaram com 
curiosidade sobre os dois humanos que tinham importunado sua tranqilidade. junto a ela,
com as patas largas e desajeitadas abertas para tentar manter o equilbrio, estava o potro.
Com a cabea debaixo do ventre de sua me, mamava com impacincia. Tinha a pequenacauda elevada, e a fazia girar rapidamente em crculos pequenos.
Alex se inclinou para frente para que ela pudesse v-lo.
-V-lhe a cauda?  a manivela de sua bomba. Sobe e baixa cada vez que ele mama. Annie se 
Rio alegremente. 
-Me alegro de que voc goste. antes de que termine o inverno, ele j parecer parte dafamlia. Nasceu fora de temporada. A maioria dos potros nascem na primavera, o que lhes dtempo de sobra para desenvolver-se antes de que chegue o mau tempo. Teremos que mimar a 
este pequeuelo. 


Depois de dizer estas palavras, Alex agachou os ombros para apoiar o queixo junto  orelha doAnnie. Ela sentiu o ligeiro roce de suas costeletas. O perfume de bergamota da nata de 
barbear que ele usava alagou seus sentidos.
De repente, como se lhe incomodasse o pouco habitual peso de suas mos, o beb se moveudentro dela. No foi um movimento ligeiro, como os que a jovem estava acostumado a sentir,
mas sim mas bem bastante forte. levou-se um susto, e sentiu o peito do Alex sacudir-se darisada, suas profundas vibraes percorreram todo seu corpo como raios de sol.
Reacomodando suas mos, ele apalpou docemente sua dura redondez. O beb se moveu para 
tentar escapar da molesta presso. Annie sentiu que um ardente rubor lhe subia pelo pescoo. 
Alex deveu sentir em sua bochecha o calor que invadia o rosto da garota, pois se inclinou paraolhar a  cara com seus cintilantes olhos de cor mbar. 
-No seja tmida, Annie, amor. Este  meu beb. E voc  minha. Sentir a vida que crescedentro de ti  como tocar um milagre.
Annie agarrou as mos ao Alex e deixou que seus olhos se fechassem de novo. Por razes queela no alcanava a compreender, sentia-se extremamente bem entre seus braos.
Maravilhosamente bem. No queria mover-se, no queria que ele jamais apartasse suas mosdali. Seu beb. A doura destas palavras esteve a ponto de fazer que os olhos voltassem a 
encher-se o de lgrimas, mas esta vez seriam lgrimas de alegria.
Permaneceram assim durante comprido tempo: Annie recostada contra seu corpo, e elesustentando seu peso. A sensao que a invadiu foi muito similar a aquela que se apropriavadela quando contemplava a sada do sol: sentia como se Deus lhe tivesse agradvel umacano. 

Quando saram da cavalaria, os pensamentos do Alex estavam completamente centrados nagarota que andava junto a ele, ao amparo de seu brao. No ps nenhuma objeo quando lhedisse que aquele beb era dele, que ela era dela. Tinha rogado a Deus por que no tivessenenhuma objeo. J se tinha envolto muito e lhe custaria muito voltar-se atrs. Estava 
locamente apaixonado, e isso era irrevogvel. Ela tinha levado alegria a sua vida, uma alegriaque superava em muito todos seus sonhos; um doce e maravilhoso jbilo que lhe tinha feitosentir que a existncia valia a pena. Ver o mundo atravs de seus olhos lhe ensinou a apreciar

o de outra maneira. Potros recm-nascidos. Ratos no apartamento de cobertura. Dance ao 
compasso de melodias silenciosas. O insupervel sabor de um ch inexistente. Ela era meninae mulher de uma vez, em um s corpo, uma combinao encantadora, e as amava s duas.
Perd-la naquele momento... A s idia causava ao Alex uma profunda dor, de modo que aseparou de sua mente. Lhe pertencia, a olhos de Deus e dos homens. O beb que estavaesperando era dele. Nada poderia trocar isso. Ele no o permitiria, pois perd-la, agora que atinha encontrado, seria como morrer por dentro. 
CAPTULO 18 


 manh seguinte, um comboio de mercadorias chegou ao Montgomery Hall, e todas eram 
para o Annie. Alex se sentia como um menino em Natal enquanto conduzia aos homens a seu 
estudo, o qual a partir daquele momento se converteria tambm em salo de msica.
Ao ver o rgo, Maddy elevou as sobrancelhas para manifestar suas reservas.
-Senhor, est voc seguro de que quer que levem esse ruidoso aparelho a seu estudo? Como 
poder voc concentrar-se?
Alex tinha a inteno de concentrar-se muito, mas no necessariamente em suas contas. Fazia 
j vrias semanas que tinha decidido que a melhor maneira de cortejar a sua esposa era com
sons. No permitiria que pusessem seus chamarizes em outra habitao.
-Onde est Annie agora? -perguntou ao Maddy. 
-Na habitao dos meninos. Desenhando, acredito. 
Alex sorriu. Estava to ansioso de lhe mostrar a sua esposa tudo o que lhe tinha comprado,
que foi correndo ao carromato para levar ele mesmo uma das gavetas. 
-Ns podemos lev-lo, senhor Montgomery -lhe assegurou um dos homens-.  nosso 
trabalho. 
-No me incomoda ajud-los.
Alex levou a caixa a seu estudo e a ps sobre o escritrio. Tirou uma navalha do bolso, cortou 
a cinta e as cordas, e logo abriu a tampa. Aparelhos de surdez. Quase com venerao, Alex 
tirou um da caixa e sorriu ao Maddy. 
-Os aparelhos de surdez do Annie! Agora poderei comear a lhe dar aulas. 




-Vai voc a jogar a fazer de professor? Recorde as notas que tirava o colgio. Ser todo umespetculo!
-Lhe vou ensinar o alfabeto mmico e a lngua de signos -declarou Alex-. Espera e ver.
Serei um professor estupendo. No queria comear at que chegassem estes aparelhos. -
Levantou uma trompetilla-. Com um pouco de sorte, Maddy, poder ouvir com estesartefatos. Ao melhor no com a maior claridade, mas tudo pode ajudar.
Maddy se dirigiu ao escritrio e tirou da caixa um aparelho de surdez de tamanho mdio.
Depois de lhe tirar o papel, introduziu o aparelho em seu ouvido. Alex se inclinou para frente edisse "ol" no outro extremo. Ela se assustou, afastou o aparelho de sua cabea bruscamente 
e gritou.
-me valha Deus! 
Alex se Rio e lhe arrebatou a trompetilla. A levou a ouvido. 
-Dava algo.
-Tem-me quebrado voc o tmpano! -disse Maddy quase a gritos. 
-Por Deus! -Alex se esfregou um lado da cabea com uma mo e olhou o aparelho de surdezcom renovado respeito-.  assombroso. Completamente assombroso.
Uma vez que os repartidores se partiram, Alex passou perto de meia hora organizando todos 
os instrumentos do Annie na habitao. absteve-se de tentar tocar algum deles, pois temia que 
ela pudesse ouvir os sons e fora ao estudo antes de que ele tivesse terminado de prepar-lo 
tudo. 
Finalmente chegou o momento da entrega dos presentes. To emocionado por ver sua cara 
que logo que podia suportar a espera, Alex se sentou ao rgo. Depois de respirar fundo erezar, provou os pedais. Ato seguido, comeou a tocar. Bom, no precisamente a tocar, poisno tinha nem a menor ideia de como fazer msica com aquele condenado aparelho. Mas osom que saa dele era maravilhoso. Uns poucos minutos depois, a porta de seu estudo se abriu 
com grande estrpito, e Annie entrou com as mos cruzadas sobre seu inchado ventre e os 
olhos como pratos.
Alex seguiu enchendo a habitao de sons, sonriendo ao Annie por cima de seu ombro. Comose estivesse hipnotizada, ela se dirigiu para ele com os olhos cravados no rgo. Quandofinalmente esteve perto, alargou uma mo para tocar a brilhante madeira de um modo quase 
reverencial. Logo, aproximou-se ainda mais, acariciando a superfcie do rgo com as duasmos. A expresso de seu rosto fez que valesse a pena cada cntimo gasto nele. Felicidade, 
isso era o que refletia seu rosto. Sem separar as mos da madeira, a moa fechou os olhos. 
Seu encantada sorriso era to doce que ele sentiu uma profunda dor no corao.
Alex deixou de tocar, agarrou-a da mo e fez que se sentasse no banco.
-Agora toca-o voc.
Ela cruzou as mos de novo e as apertou contra seu corpete, como se tivesse medo de tocaras teclas. Alex a colheu com fora das bonecas, obrigou-a a baixar os braos e levou seusrgidos dedos s peas de marfim. depois de atrair sua ateno, insistiu.
- teu, Annie. Comprei-o para ti.
A jovem lhe lanou um olhar de incredulidade. Logo, voltou a olhar fixamente o rgo. Renda-
se, Alex lhe ensinou como fazer funcionar o aparelho. Uns poucos segundos depois, estavatocando a todo volume, e ele quase teve que sair da habitao. ficou observando-a.
Compreendeu que, entre todas as coisas que tivesse podido lhe dar, a idia dos instrumentosmusicais tinha sido uma espcie de inspirao divina.
Para o Annie, o rgo era um sonho feito realidade. Isto parecia o justo, pois desde que aconheceu, ela tambm tinha feito que alguns sonhos se fizessem realidade para ele. Sonhos 
impossveis. Encontrar a um anjo e casar-se com ele. Querer a algum mais que a si mesmo.
Ter uma verdadeira razo para viver.
Annie ficou no estudo at a hora de jantar. Aquela vez no o fez porque ele insistisse, mas simporque nada no mundo teria podido tir-la dali. Do rgo passou s cascavis, e logo a outros 
instrumentos. A casa se encheu de rudos. Rudos mas bem ensurdecedores, horrorosos, mas 
havia um fato que os fazia formosos para o Alex: que Annie podia ouvir alguns acordes. Nolhe importava que ela s aprendesse rapidamente como tocar as notas que podia ouvir melhore as repetisse uma e outra vez, uma e outra vez. estava-se divertindo como nunca.
Na hora do jantar, Alex conseguiu fazer que deixasse de tocar o tempo suficiente para comer.
Quando comearam com o primeiro prato, Maddy entrou com uma bule, que ps no centro da 
mesa com um forte golpe. Alex lhe lanou um olhar inquisidora.
-Passa algo, Maddy? 
-Como diz? 
Alex repetiu a pergunta. 



Maddy inclinou a cabea. 
-O que est voc dizendo? 
Persuadido de que ela estava sendo sarcstica devido ao rudo que Annie lhes brindava, Alex 
se recostou em sua cadeira olhando-a aos olhos. 
-Isto no me parece gracioso, Maddy. 
Com uma expresso de contrariedade no rosto, o ama de chaves se meteu um dedo no ouvido,
pinou durante um momento e tirou um pedao de algodo.
-Sinto muito, senhor. No ouvi o que h dito.
Alex ficou olhando fixamente  mulher durante um momento, logo jogou a cabea para trs e 
soltou uma gargalhada. Annie, atracando-se afanosamente de comida para terminar o jantar e 
retornar ao estudo quanto antes, no elevou a vista em nenhum momento. 


 manh seguinte, assim que se levantou da cama, Alex pensou que j era hora de comear alhe dar aulas a sua esposa. Entretanto, no instante mesmo em que tentou obrar emconseqncia com esta deciso, encontrou-se frente a uma jovem muito desventurada. Annie, 
fascinada com todos aqueles cacharros produtores de rudo que lhe tinha agradvel, noqueria fazer outra coisa que no fosse jogar com eles. Quando Alex a levou a seu escritrio e a 
fez sentar-se em sua cadeira, ela adotou uma expresso de rebeldia e fez uma careta. Umainconfundvel careta. Alex compreendeu que seu anjo se estava voltando um pouco mimada. 
Aproximou uma cadeira, sentou-se junto a ela e alargou a mo para agarrar as publicaes que 

o doutor Muir lhe tinha conseguido: Um lxico de signos mudos, do James S. Brown, e A 
linguagem de gestos dos ndios, do W. P. Clark. O segundo, para grande regozijo do Alex, tinhaao redor de mil entradas descritas verbalmente, e relacionava cada uma delas com seu 
equivalente na lngua de signos norte-americana. Desta maneira, o livro se convertia em um 
dicionrio, tanto dos gestos ndios como das americanas. alm dessas publicaes, havia duascpias em papel carvo de uns folhetos recolhidos especialmente para o Alex por uma mulherque vivia no Albany e trabalhava com surdos em um centro especializado.
-O trabalho vai antes que o jogo -disse a sua esposa com voz firme-. J  hora de quecomece a encher essa preciosa tua cabecita com alguns conhecimentos, carinho. 
Abriu um dos livros e comeou a folhear as pginas para encontrar o alfabeto dactilolgico. 
Quando voltou a elevar a vista, Annie tinha pego um aparelho de surdez d seu escritrio e 
estava soprando com todas suas foras. Alex ficou olhando-a durante um momento com umsorriso indulgente. Logo, tirou-lhe o aparelho das mos e colocou um dos extremos do artefato 
em seu ouvido. Elevando sua mo direita, com os dedos dobrados sobre sua palma e o polegar 
estendido sobre eles, ele se inclinou para frente e gritou no outro extremo do aparelho de 
surdez: 
A!! 
Annie se sobressaltou como se a tivesse cravado com um alfinete e, de um puxo, tirou atrompetilla de seu ouvido para olh-lo fixamente. Depois de uns instantes, voltou a meter-lhe 
no ouvido com uma expresso espectador no rosto. Alex compreendeu que ela pensava que oaparelho de surdez tinha feito o rudo por si mesmo.
-No, no, Annie, carinho. fui eu. -Eufrico porque ela parecia lhe haver ouvido, Alex secertificou de que a jovem mantivera o artefato em sua orelha enquanto ele se levavasolenemente  boca o outro extremo-. fui eu, Annie -gritou ele.
A moa se sobressaltou de novo. Mas esta vez no se tirou o aparelho de surdez do ouvido. Emlugar disso, agarrou ao Alex do cabelo e colocou a parte inferior de sua cara no sino. Alexcomeou a rir to forte que, de hav-lo querido, no teria podido pronunciar palavra. Quandoseu alvoroo decaiu, olhou-a aos olhos por cima do sino do aparelho de surdez. Naqueleinstante o abandonaram todas as vontades de rir. Os olhos do Annie refletiam os sentimentos 
mais intensos que ele tivesse visto em toda sua vida. Esperana contida. Incredulidade. Alegriareceosa. Sentiu uma opresso no peito. Jogando a cabea para trs para que ela pudesse versua boca ao falar, declarou-se a voz em grito: 
-Amo-te. 
Ela ficou olhando-o durante um momento. Seus olhos azuis lhe encheram de lgrimas, quelanavam brilhos como se fossem diamantes. Logo, para grande consternao do Alex, aslgrimas passaram a suas pestanas e comearam a correr pelas bochechas em forma de gotasbrilhantes. Enquanto a observava, pareceu-lhe que toda sua cara punha-se a tremer: primeiro 
a boca, logo o queixo e por ltimo os pequenos msculos situados debaixo de seus olhos. Alexse separou do aparelho de surdez.
-No chore, carinho. Pensei que isto te faria feliz. 


A trompetilla voou pelos ares quando ela se lanou a seus braos. Conmocionado por sua 
reao, Alex lhe apertou as costas com uma mo e com a outra lhe acariciou o cabelo. Sentiu 
seu corpo sacudir-se por causa dos soluos. Logo, como se lhe estivesse partindo o corao,
ela apartou seus braos com dificuldade e saiu correndo do estudo. 
Preocupado, Alex a seguiu a sua habitao, s para descobrir que ela havia tornado a fechar aporta pondo uma cadeira sob o pomo, a maneira de cunha. E, naquela ocasio, fizesse o quefizesse para tentar convenc-la, no a abriria. 

Annie se sentou no centro da cama, balanando-se para frente e para trs com as mos sobre

o rosto. Contendo inutilmente a respirao para sufocar os soluos, choravadesconsoladamente. O a amava. J o havia dito fazia duas noites. Mas at fazia apenas unsinstantes, quando o olhou aos olhos enquanto dizia estas palavras, no tinha pensado nasconseqncias que teria um sentimento semelhante: no para ela, a no ser para ele.
O a amava. Ao ver a expresso de seu rosto ao dizer estas palavras... Ai, Deus! Annie se 
engasgou com sua prpria saliva ao recordar a sensao de impotncia que a invadiu quandono pde lhe responder.
Uma pessoa pela metade, isso era ela. Uma surda. Nada do que ele fizesse, nada do que lhedesse poderia trocar isso. Nada. As pessoas normais a tinham rechaado toda a vida. Era umamarginada da sociedade ali onde fosse. Uma pessoa que no podia fazer amigos nem ir igreja, e a quem tambm lhe proibiam aproximar-se do povo. Embora em realidade no queriafazer nenhuma destas coisas, pois as fazer s lhe trazia dor. No era divertido absolutamenteque as demais pessoas a olhassem boquiabertas ou a martirizassem, nem tampouco quefalassem dela em sussurros, pensando que no sabia o que estavam dizendo. Ela sabia 
perfeitamente, pois, embora falassem em voz muito baixa, ela podia lhes ler os lbios. Ali esta tal Annie Trimble, a idiota. Pobrecita. Annie, a idiota. Annie, a idiota. 
Seria este o presente que daria ao Alex? Nada mais que dor? Era o que ela queria lhe contribuira sua vida? Para evitar que lhe fizessem mal, ela se tinha contentado apartando-se da gente,
conformou-se vivendo a vida pela metade. Tinha entendido desde fazia j muitos anos queuma vida pela metade era tudo o que podia esperar. Mas Alex podia ter muito mais. Os olhosdo Annie voltaram a encher-se de lgrimas, prendendo fogo ao fundo de sua garganta. Alexera um homem maravilhoso. No s era arrumado, mas tambm tambm doce e amvel. 
Poderia ter a qualquer mulher que quisesse. Annie estava segura de que a todas as damasbonitas do povo adorariam estar em seu lugar, ser a nica destinatria de toda sua ateno.
por que teria que conformar-se com uma mulher surda?
No s com uma mulher surda, mas tambm alm no podia lhe dizer sequer que o amava.
Annie sabia o que aconteceria permitia que aquela situao continuasse. Em pouco tempo agente comearia a rechaar ao Alex, no porque tivesse feito algo, mas sim porque serelacionou com ela. antes de que se desse conta, ficaria sem amigos. Ningum o convidaria asua casa. E ningum quereria ir visitar o enquanto ela vivesse ali. Annie, a idiota. Para o nico 
que servia, para o nico que serviria sempre, era para que as demais pessoas tivessem algoque olhar.
Annie nunca tinha conhecido a ningum como Alex. Desde que chegou ao Montgomery Hall, 
lhe tinha trocado a vida. Nunca tinha querido a ningum como a ele. No poderia suportar verque comeavam a lhe passar coisas ms por sua culpa. Ele tinha que apaixonar-se por outra 
pessoa. De algum que pudesse faz-lo feliz, e no ao reverso.
Depois de tomar esta deciso, Annie chorou at ficar completamente esgotada e sem mais 
lgrimas que derramar. Logo, refletiu a respeito de qual seria a melhor maneira de lhecomunicar ao Alex seus sentimentos. Ele ainda no era o suficientemente bom lendo os lbios 
como para que lhe contasse todo isso, e tratar de representar o que queria lhe dizer seria 
impossvel. Enquanto refletia sobre este problema, recordou de repente a noite em que lhetinha feito um desenho para lhe dizer que estava esperando um beb. 
Alex andava de um lado para outro do corredor. Subia e baixava as escadas. Ia  habitao dosmeninos. Logo voltava sobre seus passos. Uma e outra vez. E volta a comear. Pouco tempodepois, perdeu a conta de quantas vezes tinha subido as escadas. Algo terrvel estava 
passando. Tinha-o visto nos olhos do Annie. Mas no alcanava a imaginar do que se tratava.
Tinha acreditado que os aparelhos de surdez a fariam absolutamente feliz. Mas, em lugar disto,
ps-se a chorar. por que? Apesar de lhe dar voltas ao assunto uma e outra vez, no pde 
encontrar uma resposta. 



Quando finalmente ouviu o revelador chiado das dobradias de uma porta, encontrava-sesubindo as escadas. Aquela devia ser a milsima vez que o fazia. O leve som da porta abrindo-
se fez que subisse voando o resto dos degraus. Depois de correr com o passar do corredor,
deteve-se frente a sua porta. Annie estava dentro da habitao, com sua pequena mo 
obstinada ao pomo da porta e o rosto to branco como o leite. Pela mancha vermelha que sevia ao redor de seus olhos, soube que a moa tinha estado chorando.
Ela deu um passo para trs e com um gesto lhe indicou que entrasse. Alex teve um mau 
pressentimento. Annie esquivou seu olhar enquanto ele entrava na habitao. Logo, com um 
resolvido ruidito seco, fechou a porta. Sem olh-lo, dirigiu-se rapidamente  mesa, onde 
agarrou uma folha de papel e a ofereceu. 
-O que  isto? -Alex salvou a distncia que os separava e agarrou o papel com mo tensa. 
depois de estudar o desenho que ela tinha feito, pronunciou-se-. Annie, isto  extraordinrio. 
Tem muito talento. 
Fazia seus retratos, e sua ateno ao detalhe era incrvel. Salvo no trabalho dos artistas 
profissionais, Alex nunca tinha visto tal domnio da tcnica. Tinha-lhe dado vida ao desenho scom o lpis-carvo e o papel. Sorriu ligeiramente ao advertir a expresso que ela tinha captadoem seu rosto. Seria certo que ele a olhava daquela maneira? Com um sorriso acalmado e umbrilho lascivo nos olhos? Sups que devia ser assim, e no ficou mais remedeio que maravilhar-
se de que no lhe tivesse dado um par de bofetadas por tal afronta. Embora a verdade era queAnnie no reconheceria a lascvia embora a tivesse frente a seus narizes. 
Seu olhar se posou na imagem do Annie, e lhe pareceu que esta no se ajustava de tudo realidade. depois de estudar atentamente o retrato, compreendeu que ela provavelmente sereproduziu a si mesmo no papel de uma maneira muito similar a como se via no espelho: sria,
sem indcio algum da inocente doura nem das expresses cndidas que lhe roubaram ocorao. Os olhos no refletiam nenhum sentimento nem mostravam brilho algum. No haviacovinhas em suas bochechas. Era Annie, mas sem seu luminoso resplendor. Embora nodeixava de ser formosa, era s um rosto sem alma. 
Pareceu-lhe que havia algo mais que no estava de tudo bem. Que fazia falta algo mais. Masdurante uns instantes no pde saber com exatido do que se tratava. depois de estudar odesenho um momento, Alex finalmente advertiu qual era o engano e, com o corao nagarganta, elevou a vista para olh-la.
Annie se tinha desenhado sem orelhas. 
um pouco tremente, Alex deixou o desenho sobre a mesa. Estava a ponto de falar mas elarapidamente agarrou outro e o ps nas mos. O homem baixou a vista e viu outro desenhoperfeitamente executado do rosto do Annie; mas a este, alm das orelhas, tambm lhe faltava 
a boca. 
Alex quis romper o desenho em pedacinhos e lhe dizer que no fora ridcula. Mas a expressode dor que viu em seus olhos o impediu. Estava claro que era um assunto muito srio para elae, a julgar pela fora com a que apertava a boca, o fato de atrair a ateno para o queobviamente considerava suas inpcias lhe resultava muito doloroso. Extremamente doloroso.
Deixando cair o desenho, Alex se sentou em uma das cadeiras. deu-se tapinhas em um joelhopara cham-la.
-Vem aqui, carinho.
Ela cruzou os braos sob os peitos e negou com a cabea. Sua obstinada resistncia a fezparecer mais adorvel que qualquer outra coisa. Alex no pde menos que advertir que aposio de seus braos magros realava certas partes de sua anatomia. A costureira, seguindosuas explcitas instrues, fazia os decotes dos vestidos ligeiramente pronunciados. Nadaindecente, s o bastante pronunciados para lhe permitir luzir de uma maneira encantadoraseus atributos femininos, os quais se feito mais generosos devido a seu avanado embarao. 
Ao modo de ver do Alex, se lhe proibiam comer, merecia-se pelo menos que de vez em quandolhe permitissem lhe jogar uma olhada  carta. 
Voltou a dar-se tapinhas no joelho.
-Vem, carinho. S quero falar contigo. -Sem lugar a dvidas, esta era a maior falsidade quehavia dito em sua vida. 
Ela negou com a cabea e disse articulando para que lhe lesse os lbios:
-Quero ir a casa. 
A prtica cotidiana tinha feito que as aptides do Alex para ler os lbios tivessem melhorado obastante; o suficiente para, com grande esforo, entender frases singelas.
-A casa? Quer dizer a casa de seus pais?
-Sim. 
Ele s tinha uma resposta para isto. 



-No. 
Inclinando-se para frente, Alex a agarrou das bonecas e a atraiu para ele. Fazendo caso omissode seus protestos, o qual no era muito difcil, pois no podia as expressar em voz alta, atirou 
dela para que se sentasse sobre seus joelhos e a rodeou com o brao.
-Esta  sua casa agora.  aqui onde deve estar, a meu lado.
Ela apartou o olhar de seus lbios e olhou resolutamente a janela. Compreendendo em seguidaqual era seu jogo, ele atirou docemente de um dos cachos que caam sobre sua tmpora. Ao 
ver que ela se empenhava em no olh-lo, as comissuras de sua boca se torceram. Agarrando 
a do queixo, obrigou-a a voltar a cabea para ele. 
-Annie, no me importa que seja surda.  muito bonita, carinhosa e divertida. Estar junto a time faz to feliz como no o fui em muito... -Alex viu que ela estava olhando fixamente seunariz. Ele se Rio muito a seu pesar-. O que picasse . De modo que pensa me ignorar, no  
verdade? 
Conseguiu atrair sua ateno lhe beliscando a ponta do nariz.
-Amo-te -sussurrou com voz rouca-. Se for, Annie, partir-me o corao.  isso o que quer, 
me causar tristeza? 
Sombras de dor apareceram a seus preciosos olhos. Levando sua pequena mo  mandbulado Alex, falou, modulando os lbios muito devagar.
-Quero que seja feliz. No poder s-lo com algum como eu. Deve encontrar a uma mulherque possa ouvir e falar.
Ao Alex custou dar sentido s poucas palavras que tinha podido entender. Este esforo lhe fez 
apreciar a inteligncia do Annie. Muitas das posies da boca que formavam determinadossons eram muito similares a aquelas que formavam outros. No obstante, Annie conseguia leros lbios com surpreendente destreza. Ele sabia que, para obt-lo, ela no s tinha que lheseguir o ritmo  pessoa que falava, mas tambm alm muitas vezes tinha que adivinhar paraconseguir entender as palavras confusas.
-Nenhuma outra mulher pode me fazer feliz. -Finalmente tinha conseguido entender o queela havia dito-. S voc, Annie. Entende? No pode me deixar. Se o fizer, nunca mais voltarei 
a ser feliz. 
-No posso ouvir. No posso falar. A gente pensa que sou idiota, e todos me odeiam. Se ficarcontigo, tambm odiaro a ti. -Fez um gesto de frustrao com as mos-. Quero que sejafeliz. Deixa ir a casa. 
Alex pde interpretar com facilidade as ltimas quatro palavras.
-No! Nunca. Se for, Annie, carinho, eu vou contigo. No h mais que falar.
Um brilho mido apareceu nos olhos luminosos do Annie. Ela o olhou fixamente durante uns 
interminveis segundos, antes de que um sorriso comeasse a aparecer s comissuras de seuslbios. 
-Voc  o idiota, no eu. 
Depois de decifrar com dificuldade esta frase, Alex sorriu.
-Sim, sou um idiota. Um grande toco sem sentido comum. Acredito que ter que ficar aqui 
para me cuidar.
Ela ps os olhos em branco, claramente exasperada com sua lgica. Ou possivelmente com 
sua falta de lgica.
-No posso ficar aqui.
Ele tinha outras idias e, deslizando uma mo ao redor de sua nuca, obrou em conseqnciacom elas. As palavras no eram a nica maneira em que um homem e uma mulher podiamcomunicar-se, e ele estava resolvido a lhe ensinar esta lio naquele preciso instante. Que notinha boca? A jovem tinha uma boca que faria que muitos homens se matassem por ela.
Suspeitando que talvez resistisse a seus beijos, Alex lhe sujeitou com fora as costas, 
preparado para control-la at que comeasse a relaxar-se. Mas, para sua surpresa,
maravilhosa surpresa, a mulher acessou. Permitiu que lhe abrisse os lbios e colocasse sua 
lngua nas midas curvas de sua boca.
Deus santo. Alex em seguida entrou em xtase. Nunca um beijo tinha sido tomaravilhosamente doce. Ela se entregou a ele como uma flor  luz do sol, abrindo-se,
buscando-o, to suave e delicadamente fragrante que ele se sentiu embriagado. Seu coraoficou a pulsar com fora imparable. Comeou a respirar de forma entrecortada. Apertando-afirmemente com o brao, deslizou seus lbios da boca at o pescoo de sua amada. Desejava-

a. Como brasas avivadas de repente para propagar o fogo, a paixo que tinha reprimido semmisericrdia durante as ltimas semanas se acendeu dentro dele. 
Ao sentir os lbios do Alex roando seu pescoo, Annie jogou a cabea para trs e gemeufracamente, apoiada em seu peito. O homem levou a mo que tinha livre ao corpete de seu 


vestido. A tentadora brandura de um dos seios encheu a palma de sua mo. Evidentementeexcitada, ela comeou a respirar de maneira ruidosa e acelerada, emitindo rudos queevocavam aos gemidos. O que faltava para enlouquecer ao Alex. De maneira estudada, rooucom um dedo a ponta de seu peito, deleitando-se com o imediato endurecimento de seumamilo. Mas havia muitas capas de roupa. O ardia em desejos de sentir a sedosa calidez de 
sua pele.
Os botes de seu corpete eram muito pequenos. Torpemente, Alex tentou desaboto-los, 
conseguindo soltar um, logo dois, mas sua pressa era cada vez maior. No fundo de sua mente, 
seguia esperando que Annie comeasse a opor resistncia, e estava disposto a deter-se se ofazia. Mas em lugar disto, ela colocou suas pequenas mos no cabelo dele. Sua respirao eraainda to rpida e irregular como a do Alex. Finalmente, ele conseguiu soltar o ltimo boto.
Com grande cuidado, e os sentidos eletrizados pela excitao, abriu o objeto e se encontrou 
com... uma camisa interior. 
-Mierda! 
Ele se tornou para trs para examinar o objeto, plenamente consciente dos olhos azuis do 
Annie, grandes e febris, cravados sobre seu rosto. Alegrando-se ao descobrir que sua camisainterior tinha um decote franzido com um cordo em lugar dos detestveis botes, agarrou a 
cinta e atirou dela bruscamente. Em lugar de soltar-se, os fios de cetim se fizeram um n. Alex 
apertou os dentes para no soltar outro palavro. Sabia, inclusive enquanto comeava adesenredar o cordo, que Annie poderia recuperar a razo se se atrasava e deixar-se levar 
pelo pnico antes de que ele sequer pudesse despir seus peitos.
Alex respirou fundo, tentou sorrir tranquilizadoramente e se tornou um pouco mais para trs 
para ver melhor. Logo, arremeteu contra o cordo, sentindo-se to frustrado que necessitoutoda sua compostura para no lhe arrancar a camisa interior. Sorri. depois de tudo, no eramais que um n, disse-se. Sentiu que sua frente comeava a cobrir-se de gotas de suor. Um 
puetero n rebelde. Logo que podia acreditar sua m sorte. A mulher mais formosa que tinhavisto em toda sua vida estava sentada em seus joelhos, no s desejando que lhe tirasse aroupa, mas tambm tambm esperando com pacincia a que o fizesse, e ele, homem feito,
estava lutando torpemente com uma cinta, como um imbecil exmio! 
Alex elevou a vista para descobrir que Annie lhe olhava as mos, com seus preciosos olhoscheios de perplexa curiosidade e com a boca franzida. No parecia ter medo absolutamente, eele estava muito agradecido por isso. Por outro lado, no estava seguro de que ela tivesse amenor ideia do que ele queria fazer. No sabia como a tinha agredido Douglas, mas eraevidente que no lhe havia meio doido sequer o torso. Pelo menos parecia que Annie no tinha 
sofrido trauma algum que impedisse que a tocassem nessa parte de seu corpo.
Finalmente pde soltar o n e sentiu uma remota sensao de culpa. Mas a afugentou. Annie 
estava surda, no morta das sobrancelhas para baixo. E, com vinte anos, j no era umamenina. Alm disso, era sua esposa. Outro homem, dadas as oportunidades que Alex tinhatido, teria consumado o matrimnio muito antes. Por outra parte, ela no estava opondoresistncia alguma. Tampouco parecia assustada. S manifestava curiosidade por saber o que 
podia ter que fascinante para ele debaixo de sua camisa interior.
E Alex estava disposto a satisfazer sua curiosidade.
O corao, como uma mquina de debulhar, golpeava com fora dentro de seu peito enquantosoltava o franzido cordo do decote da camisa interior. O tecido branco caiu para deixar ver os 
seios. Eram globos to brancos como o leite, com inchadas cpulas de cor rosa. De forma 
reverencial, Alex roou sua pele com a gema dos dedos. Estava quente e sedosa, tal e comotinha imaginado. Seguiu acariciando-a brandamente at chegar a um dos mamilos. Viu inch-la 
fascinante aurola. Annie se sobressaltou quando ele capturou a sensvel protuberncia entreseus dedos polegares e ndice. Seu olhar assustado em seguida procurou a do homem.
Enquanto ele acariciava sua pele docemente, ela agarrou com fora o cabelo do Alex, e seus 
olhos se obscureceram at adquirir um tom azul tempestuoso. Ao mesmo tempo, fechou osolhos em atitude de total entrega s sensaes que comeava a experimentar.
Inclinando a cabea, Alex aoitou com sua lngua o outro mamilo. Ela deixou escapar um gritito 
afogado e arqueou as costas para entregar-se mais a ele. Seu repentino desejo lhe falou emuma linguagem to antiga como a prpria natureza. Ao Alex alegrava -no, o fazia feliz-
poder satisfazer suas necessidades. De fato, no podia acreditar do todo que ela lhe tivesseentregue com tal facilidade e que estivesse reagindo daquela maneira, aproximando todo seucorpo para ele, desejosa de suas carcias e das cuidados de sua boca.
Cuidando de no lhe fazer danifico, pois sups que estavam muito sensveis, mordiscou osinchados casulos dos mamilos. Quando viu que se dilatavam e se endureciam os capturouentre seus dentes, e logo comeou a excit-los sem piedade com a lngua. Sabia exatamente 



com quanta fora devia mordiscar aquelas sensveis pontas de pele endurecida, com quantafora tinha que as chupar para fazer que ela perdesse a razo. Esfregava um e outro com 
rpidos e incessantes movimentos de sua lngua, fazendo-a inchar-se at palpitar ao ritmo dosbatimentos do corao de seu corao. Ento, e s ento, deu-lhe o golpe mortal a seussentidos, atirando de um dos mamilos com os dentes. 
Ao sentir o primeiro puxo, Annie soltou um chiado. No uma suave choramingao. Umimpressionante e ensurdecedor chiado. Despreparado, Alex se surpreendeu tanto que setornou para trs de repente e esteve a ponto de atir-la ao cho. Ela teve que agarrar-se a 
suas orelhas para no cair.
-Cala, Annie! 
Ela tinha a cabea arremesso para trs e os olhos fechados, de maneira que no podia v-lofalar. 
-Annie, no grite. -Alex lanou um olhar  porta, que no estava fechada com chave.
Claramente frustrada, a mulher lhe retorceu as orelhas e arqueou seu corpo para cima, lheoferecendo de novo o peito de maneira resolvida-. Maddy irromper na habitao e com toda 
segurana...
Seu mamilo roou os lbios do Alex. Ante este contato, ela gemeu com puxador desejo e, lhe 
atirando das orelhas, fez-lhe inclinar a cabea. 
-Ahhh! -uivou a excitada jovem.
-Por Deus! 
Com movimentos fludos, Alex a levantou da cadeira, deitou-a de costas sobre a mesa, fazendo 
voar pelos ares o papel e o lpis-carvo, e lhe tampou a boca com uma mo. E ento lhe deu o 
que ela queria. Era a primeira vez em sua vida que ria enquanto se levava a boca o mamilo deuma mulher. 
Ao sentir o primeiro roce da lngua do Alex, Annie soltou um chiado dentro da palma de sua 
mo e voltou a lhe retorcer as orelhas. Alex decidiu que estas podiam suportar o castigo. Emtodo caso, depois de uns poucos segundos nem sequer podia j as sentir.
Annie era como um milagre abrindo-se em seus braos. To incrivelmente doce, toabsolutamente cndida. Conhecendo bem s mulheres e as diversas maneiras das agradar,
Alex sabia exatamente onde e como toc-la, e ela respondia a cada nova sensao com vidodesejo e inteira confiana.
Quando ela estava ofegando e tremendo de excitao, ele colocou a mo que tinha livre sobsua saia. imaginava seu objetivo, o vrtice das coxas, enquanto procurava provas a fendadentro de seus cales. sentia-se to ansioso de percorrer com as gemas dos dedos seu clida 
umidade, que estava a ponto de perder a razo. Tanto era assim demorou vrios segundos emdar-se conta de que Annie se havia posto rgida e empurrava seus ombros com fora. Ele setornou para trs e cravou seus olhos enlouquecidos de paixo nos dela, cheios de medo.
Olhou-a aos olhos e caiu na conta da causa de sua reao. ficou paralisado e respirou fundopara tratar de controlar-se. Logo, com grande relutncia, tirou a mo de debaixo da saia.
Parecia que depois de todo o fantasma do Douglas sim os perseguiria.
-Tranqila, carinho. -Alex se apoiou em um cotovelo, recostou o quadril contra a mesa einclinou a cabea para beijar sua boca torcida-. No tenha medo. No te farei mal. 
A tenso desapareceu lentamente de seu corpo. O medo se esfumou de seus olhos. Deitadasobre aquela mesa, com seus preciosos peitos nus e a muito pouca distncia dos lbios doAlex, ela o tentava de uma forma em que nenhuma mulher o tinha feito nunca, e se felicitoupor seu domnio de si mesmo, quase prprio de um santo. Recordando que aquela picarillatinha estado a ponto de lhe arrancar as orelhas, esboou um sutil sorriso de satisfao, segurode que chegaria o momento, e logo, em que lhe deixaria lhe fazer o amor sem pr nenhumatrava. Tudo o que se precisava era pacincia e que chegassem outras oportunidades paraexcit-la. 
O quis levantar-se. Ao advertir este movimento, Annie agarrou o peitilho de sua camisa e 
resistiu com fora. Alex levantou as sobrancelhas. 
-O que quer, amor?
Ela sussurrou algo em silncio, mas, no febril estado de paixo insatisfeita no que ele seencontrava, teve dificuldades para concentrar-se nos movimentos dos lbios. 
-O que? 
Os olhos do Annie se obscureceram at adquirir um turvo tom azul cinzento. Logo, acariciou 
seus prprios mamilos com as gemas dos dedos e lhe sorriu ensinando as covinhas de suasbochechas. Alex lhe lanou um olhar a seus peitos. Enquanto a olhava excitar seus prpriosmamilos at p-los eretos, sentiu que certa parte de seu corpo tambm experimentava umadolorosa ereo. 



-No, Annie -disse ele com voz rouca. 
Ela atirou com veemncia de sua camisa. 
-No posso -insistiu com uma risada entrecortada-. No sabe o que me est pedindo.
Ela fez uma careta com a boca e rodeou seu pescoo com os braos. 
-Por favor. 
Agarrando-a um pouco mais acima dos cotovelos, Alex a obrigou a sentar-se, fingindo que noentendia. Era mentira,  obvio. Mas a seu modo de ver, tudo pecado era relativo, e eraprefervel que lhe mentisse por omisso a correr o risco de excitar-se tanto que perdesse ocontrole. Seria imperdovel fazer que ela se submetesse a sua vontade, e poderia causar umdano irreparvel. Annie logo que estava comeando a confiar nele. 
Com mos trmulas, Alex tentou agarrar as cintas de sua camisa interior, o qual no foi uma 
tarefa fcil, pois Annie tratou de impedir-lhe com seus magros dedos. Ele baixou a vista paraver o que ela estava fazendo e esteve a ponto de soltar um grunhido quando se deu conta deque se estava beliscando brandamente, de novo, inchado-los picos de seus peitos. Voltando a 
dirigir o olhar para seu rosto, observou-a atentamente e a viu tensa de desejo, com asplpebras entreabridas por causa de sua premente necessidade.
-Deus! 
Agarrou-a das bonecas e lhe apartou as mos dos peitos. Concluiu que era evidente que tinha 
aberto a caixa da Pandora, e empreendeu a tarefa de voltar a guardar seus tesouros onde ostinha encontrado. Enquanto atava o cordo de sua camisa interior e o fazia um lao, suspiroucom resignao.
-Gostou-te, verdade? 
Ela esboou um sorriso anglico e assentiu com a cabea. Alex lhe fechou o corpete e comeoua lhe grampear os botes como se sua vida pendesse de um fio.
-Bom, pois teremos que faz-lo de novo um dia destes. -Falava com voz inusualmente 
nervosa. Ela assentiu de novo. Ele sorriu e a olhou aos olhos enquanto grampeava o ltimoboto-. A prxima vez no me pea que pare e te ensinarei quo prazenteiras podem ser as 
demais costure. 
Um gesto de preocupao se desenhou em sua frente, fazendo que as delicadas sobrancelhasse juntassem. Alex se inclinou para fazer desaparecer suas rugas com um beijo. Quando seendireitou, roou o lbio inferior dela com os ndulos. 
-me acredite, Annie. Se no me tivesse detido, te teria feito costure que lhe pareceriam cemvezes mais agradveis. -Ao ver que ela no parecia estar muito convencida disto, insistiu-.
Ao melhor inclusive mil vezes mais prazenteiras. -Ela parecia seguir tendo reservas. Seumarido a observou durante comprido tempo e logo voltou a falar com voz suave-. No pode 
contar nada. 
Ela sussurrou. 
-Sim posso! -Em seguida elevou uma mo fechada e comeou a abrir seus dedos, de um em 
um-. E um, dois, trs. 
Alex a deteve, rendo-se apesar de no ser esta sua inteno.
-Est bem. Convenceste-me. At que nmero pode contar?
-At quarenta -lhe disse com orgulho-. Sem enganos.
-At quarenta? Tanto? -Refletiu por um momento. Logo, resolvido a lhe explicar as coisas em 
trminos que ela pudesse entender, seguiu-. O que acabamos de fazer foi... -Elevou umdedo-: Uma sensao prazenteira. Mas o que pudemos ter feito... -Elevou os dez dedos.
Logo, abriu-os e os fechou trs vezes seguidas-. O que pudemos ter feito se voc no metivesse mandado parar, teria sido como quarenta sensaes prazenteiras.
Ela entrecerr os olhos com receio. 
-De verdade. Muitssimas sensaes prazenteiras. -Apoiando as mos sobre a mesa a ambosos lados do Annie, ele aproximou a cara ao rosto da jovem-. E me deixe te dizer, meu amor, 
que se alguma vez quer mais disso, eu agradarei a qualquer hora e em qualquer lugar.
Ela enrugou o nariz, o que fez que ele pusesse-se a rir de novo. Logo, agarrou-a delicadamente 
do queixo e a fez elevar a cabea.
-Quanto a voltar para casa de seus pais, ser melhor que o esquea. Amo-te, Annie. No me 
importa que no possa ouvir. No me importa nada. Entende? E, alm disso, ensinarei-te afalar. 
A ela pareceu lhe inquietar esta declarao.
-Enquanto isso -sussurrou ele-, tem uma boca preciosa, e me ocorrem muitas coisas paraas que poderia servir, alm de falar.
Depois de dizer estas palavras, posou seus lbios sobre os dela para reforar o efeito desse 
argumento. 



CAPTULO 19 

Ao longo das semanas seguintes, a palavra cortejo adquiriu um novo significado para o Alex.
Em lugar de conquistar ao Annie com palavras de amor sortes em sussurros, fazia msica, porcham-lo de algum jeito. Em vez de lhe escrever poemas romnticos, desenhava-lhe letras efazia um grande esforo para tentar lhe ensinar o alfabeto de signos. Em lugar de entret-la 
com conversaes brilhantes, colocava-lhe uma trompetilla no ouvido e gritava; ou cravava os 
olhos em um livro e, enquanto lia, tentava torpemente fazer gestos segundo as instrues. 
Ao princpio, Annie foi uma aluna pouco receptiva. lhe devorava a ansiedade tratando de fazer 
os gestos perfeitamente, mas ao elevar a vista descobria que ela tinha desviado sua atenopara a janela que se encontrava detrs dele ou que estava olhando um de seus "aparelhos derudo" com grande desejo. de vez em quando, surpreendia-a inclusive olhando-o com aquelevivo desejo que lhe alterava os nervos. Desde aquele dia na habitao dos meninos, ele nohavia tornado a tratar de abra-la, no porque no queria estreit-la entre seus braos, massim porque temia perder o controle se se excitava muito. 
Pelo visto, Annie no tinha uma preocupao semelhante. Para ela, os jogos preliminarestinham sido uma experincia extremamente prazenteira, e era evidente que no estabeleciarelao alguma entre ditos jogos e o fato de que Alex queria fazer mais. Infelizmente, simhavia uma relao, e bastante forte. No obstante, Alex estava decidido a no tomar parte ematividades que pudessem sair-se de me, at que estivesse seguro de que Annie estava lista 
para consumar o matrimnio.
Uma manh, enquanto lhe dava uma aula sobre a lngua de signos, Alex elevou a vista da guia 
de ensino e viu o Annie apoiada sobre seu escritrio. Seu peso descansava por partes iguaisnos cotovelos e no inchado ventre. O sorriso picasse e o olhar sedutor fizeram que seu coraocomeasse a pulsar com fora. 
-Annie, supe-se que deveramos estar trabalhando -disse ele com voz severo.
As covinhas de suas bochechas se fizeram mais profundos e, enquanto a mulher olhavafixamente sua boca, lhe deu a impresso de que estava pensando em coisas que no tinhamnada que ver com a leitura dos lbios. Levando uma mo ao corpete de seu vestido, elacomeou a brincar com seus botes. Logo, elevou o olhar para a dele. Seu sorriso lheformulava um inconfundvel convite. Alex apartou o olhar em seguida e comeou a folheardesesperadamente as pginas do livro. A pequena sedutora se inclinou ainda mais para ele. 
-Annie -disse, elevando a vista-. Baixa, por favor, de meu escritrio. vais esparramar os 
papis por...
Seu olhar caiu como uma rocha para posar-se nos magros dedos da jovem, que tinhampassado dos pequenos botes de seu corpete ao topo de um de seus seios. Ela se estava 
acariciando brandamente atravs das capas de roupa. Alex podia ver seu mamilo palpitando 
com fora contra o tecido, e era uma tentao que o atraa de maneira irresistvel. 
-Annie, no faa isso. No ... 
Ela sorriu e se mordeu o lbio inferior. 
Alex se levantou da cadeira e se dirigiu para a janela.
-No deve... 
No podia apartar o olhar de sua mo e do que ela estava fazendo. Lhe fez um doloroso n noestmago... e mais abaixo. Quis lhe dizer que aquele comportamento era imprprio de umadama, mas tinha que reconhecer que, enquanto ela fizesse aquelas coisas quando estavam ass, no lhe parecia censurvel. Justamente o contrrio.
-Nunca faa isto frente a outras pessoas -lhe disse com voz rouca-. Nem em presena doMaddy nem de ningum mais. Entende?
Ela assentiu com a cabea. Alex tomou ar, tremente. 
-Quanto a faz-lo diante de mim -prosseguiu-, tem que entender que, se dito aceitar seuoferecimento, quererei fazer tambm as outras coisas das que falamos. A ltima vez, quando otentei, voc te assustou. A menos que sua atitude tenha trocado, sugiro-te que deixe de... -
tragou saliva com grande esforo- me fazer esse convite.
Ela se levantou de maneira to repentina que ele estava seguro de que sua cabea deveucomear a lhe dar voltas. Ao ver que a expresso de seduo que havia em seu rosto setransformava em receio, Alex esboou um sorriso pouco entusiasta.
-No sei por que, mas temia que reagisse desta maneira. -O dirigiu o olhar para seu corpete 
-.  uma pena. te fazer o amor  uma das poucas atividades pelas que mereceria a penainterromper nossas lies. Como j lhe hei isso dito,  extremamente prazenteiro.
Ela se sentou imediatamente e olhou o livro de forma bastante significativa. Alex se Rio e 



voltou a sentar-se em sua cadeira. Fazendo caso omisso da expresso de resignao da
garota, ele voltou a centrar toda sua ateno no manual. Cinco minutos depois, Annie de novo 
estava bocejando e olhando pela janela.
Alex comeou a perder a esperana de lhe fazer entender alguma vez a importncia do que
estava tratando de lhe ensinar. No havia maneira de explicar  moa que, se lhe emprestasse
ateno, um mundo novo se abriria para ela.
Uma manh, virtualmente por acaso, lhe ocorreu a estratgia de lhe ensinar gestos que
fossem significativas para ela. A metade da classe, que at ento no tinha feito mais que 
incitar ao Annie a mover-se inquieta, Alex elevou a vista e a viu olhando o rgo com vivo 
desejo.
Atraindo sua ateno com um gesto da mo, perguntou-lhe:
-Voc gostaria de tocar o rgo, Annie? 
-Sim! -A jovem se levantou com evidente iluso de sua cadeira.
-No to rpido -disse Alex, sentindo-se um pouco mal pelo que lhe estava fazendo-.
Primeiro tem que me pedir permisso.
-Por favor. 
Ele negou com a cabea e deu um golpecito no livro. 
-Por gestos.
Ela se encolheu de ombros, em sinal de impotncia.
-No conheo os gestos.
J quase to perito em ler os lbios como ela, Alex ps um brao sobre o respaldo de sua 
cadeira e a olhou de maneira desafiante. 
-Ento ter que as aprender, no  verdade? Ou o faz ou no poder voltar a tocar os 
instrumentos. A partir deste momento, a menos que me pea permisso na lngua de signos, 
no pode voltar a toc-los. 
Seus olhos se abriram como pratos, cheios de incredulidade. Alex lhe sorriu e comeou a
passar as pginas do manual at encontrar o gesto que estava procurando. Fazer. Ps o punho
direito sobre o esquerdo e fez um movimento circular, como se estivesse desenroscando algo.
Msica. Moveu a palma da mo direita de um lado a outro frente  esquerda, orientada para a
direita. Por favor. Sonriendo, com a palma da mo direita fez sobre seu corao um crculo em 
sentido contrrio s agulhas do relgio.
-Isso  tudo o que tem que aprender no momento.
Fazendo os gestos de novo, esta vez com maior rapidez e sem vacilao, ele repetiu as
palavras: Fazer msica, por favor? Acomodando-se de novo em sua cadeira, ele a olhou com
indolente arrogncia.
-Agora faz-o voc, ou no tocar o piano hoje. Voc decide.
Articulando a palavra fazer para que lhe lesse os lbios, Annie ps um punho sobre o outro e
fez um movimento circular. Enquanto dizia msica, Alex guiou os movimentos de suas mos. O
nico engano que cometeu ao fazer os gestos das palavras por favor, foi mover a mo no
sentido das agulhas do relgio ao fazer o crculo sobre seu corao. Alex corrigiu este engano. 
-Agora faz-o sem minha ajuda.
Franzindo o cenho para concentrar-se, ela voltou a fazer os gestos, mas esta vez no cometeu 
nenhum engano e tampouco necessitou sua ajuda.
-Muito bem, Annie, perfeito! -Alex fechou o livro de um golpe e lhe jogou uma olhada a seu
relgio-. Merece um descanso de dez minutos pelo que acaba de fazer.
Para sua grande surpresa, ela no se levantou da cadeira imediatamente.
-No quer tocar o rgo?
Ela assentiu com a cabea, mas a expresso de seu rosto parecia dizer o contrrio. Viu uma
espcie de reserva em seus olhos, mas tambm viu um vivo desejo. 
-O que acontece, meu amor? 
Ela inclinou a cabea para assinalar o livro.
-H um gesto para a palavra amor?
Ao Alex lhe oprimiu o corao.
-Claro, deve hav-la. -Fingiu uma despreocupao que no sentia absolutamente e voltou a 
abrir o livro-. me Deixe ver. Ah, sim a h. -Cruzou as mos sobre o corao, com as Palmas 
orientadas para o peito-. Amor. Esta  muito singela.
Ela se inclinou ligeiramente para frente. Parecia estar descontente.
-H gestos para dizer "te amo"? 
-Isso tambm  muito singelo. Para falar por gestos, no tem mais que fiar as coisas, tal e
como faz com as palavras. -Para demonstrar-lhe dobrou sua mo sobre o esterno, com a 
palma orientada para a esquerda, o dedo polegar tocando seu peito e o mindinho para cima-. 




Logo, faz o gesto para lhe. -Com um lento sorriso, assinalou-a com o dedo indicador de sua
mo direita-. E, por ltimo, o gesto para amor que acaba de aprender. -Ensinou-lhe o gesto
pela segunda vez-. Eu te amo, por certo. 
As bochechas do Annie se ruborizaram, e apartou a cara. Alex esperou, iludido, cheio de um
fervente desejo, querendo que lhe dissesse por gestos que o amava mais do que recordava ter
querido qualquer outra costure em toda sua vida. Esperou em vo. depois de um momento,
Annie se levantou da cadeira e se dirigiu para o rgo. Uns poucos segundos depois, a
habitao se encheu de um rudo ensurdecedor. 
Entretanto, os sons discordantes duraram s uns poucos minutos. Annie se levantou do banco 
e retornou ao escritrio do Alex com seu olhar cheia de curiosidade cravada no livro que se
encontrava junto a ele. Brincando com o encaixe de seu decote, finalmente o olhou aos olhos.
-Como se diz "Alex"? -perguntou ela.
Ele apartou o livro de contas no que tentava trabalhar.
-No h gestos para a maioria dos nomes. Pelo general,  preciso soletr-los. -Agarrou outro 
livro e o abriu pela parte que continha o alfabeto dactilolgico. Lentamente, de tal maneira que
ela pudesse observar as posies de sua mo, soletrou seu nome. Dizia cada letra em voz alta
ao tempo que fazia o gesto-. Alex.
Annie se sentou frente a ele. Sua ateno passava rapidamente da mo  boca do Alex, e a
expresso de seu rosto era de concentrao absoluta. Logo comeou a imitar os movimentos 
da mo e sorriu ao ver que podia faz-lo.
-Alex! -exclamou. Parecia estar muito contente-. soletrei seu nome? 
-Assim ! Mas este  s o comeo. Com o alfabeto dactilolgico, que simplesmente  uma
srie de gestos para representar o alfabeto tradicional, pode aprender a soletrar todas as
palavras de nosso idioma. Sabia? Uma vez que tenha aprendido de cor o alfabeto, poder ler.
-Ao ver a expresso de perplexidade de seu rosto, assinalou as estropia da estadia-. Livros,
Annie. Poder ler livros. Alguns deles contm histrias maravilhosas sobre pessoas e lugares 
longnquos.
Ela olhou as estropia cheias de livros.
-Eu? Posso aprender a ler?
-Certamente.  uma garota muito inteligente.
Ela ps m cara. Era bvio que no acreditava o que ele acabava de lhe dizer.
-Estpida -disse ela-. Mame diz que sou uma estpida.
Alex deixou escapar um suspiro. 
-No  nenhuma estpida. me acredite. E sua me no diz que o seja. J no o diz. No posso 
te assegurar que ser fcil, mas, se dispostas ateno durante as classes e estuda muito, pode 
aprender a ler, Annie. E tambm a escrever. 
Aparente e repentinamente convencida, ela cruzou os braos e se sentou muito erguida.
-Ento me ensine. 
Alex soltou uma risita feliz. 
-Bom, no o obteremos em uma s manh. Agora s podemos comear. 
-Insgnia me! -repetiu ela-. Por favor.
E, para grande alegria do Alex, fez os gestos de por favor ao tempo que articulava esta 
palavra.
Tratando de dissimular sua satisfao, Alex empreendeu a tarefa de lhe ensinar. 


Aprender a linguagem de signos era a tarefa mais difcil que Annie tinha tentado levar a cabo 
em sua vida, mas tambm era a mais fascinante. Cumprindo as ordens do Alex, sua me etodos os residentes do Montgomery Hall comearam a aprender o alfabeto dactilolgico para 
que Annie pudesse comunicar-se com eles em um futuro prximo. Com este fim, todos eles 
estudavam o alfabeto ao menos uma hora diria. Henry e Deiter, que no sabiam ler nemescrever, eram os nicos empregados da casa que estavam dispensados desta obrigao.
Duas semanas depois, Edie Trimble, Annie e todos os que viviam no Montgomery Hall tinham 
aprendido de cor o alfabeto dactilolgico. Uma vez que se conseguiu este objetivo, Alex fez 
uma lista de palavras que insistiu em que Annie aprendesse a soletrar antes de prosseguir com 
as classes: doente, ajuda, calor, frio, beber, comer e Alex; a ltima porque s ele podia ler oslbios e, se o chamavam, poderia entender o que ela necessitava em caso de que ningummais conseguisse faz-lo.
A primeira vez que Annie entrou na cozinha e pde pedir uma bebida, foi para ela ummomento muito emocionante. A criada a que lhe soletrou a palavra em seguida lhe entendeu elhe deu um copo de gua. Foi a primeira vez em mais de quatorze anos em que Annie pde lhe 



pedir algo a algum. depois de beber a gua, saiu da cozinha, procurou a privacidade de suahabitao e ficou a chorar. Falar, embora fosse com as mos, era para ela um dominestimvel. 
Ao remontar-se a seus primeiros dias no Montgomery Hall, Annie recordou quanta raiva lhe 
deu quando se inteirou de que estava casada. Naquele momento pensou que no tinharecebido presente algum o dia das bodas, e se sentiu enganada. Agora compreendia que tinharecebido um presente que no tinha preo: um homem alto e de corto leonado, com olhos de 
cor mbar e sorriso sedutor. O era, sem lugar a dvidas, um fazedor de milagres. O fato deconhec-lo tinha trocado seu mundo de tantas maneiras que ela j nem sequer podia as 
contar. 
Amar o da maneira em que o fazia a punha em uma situao muito difcil. Em trs ocasiesdiferentes, lhe tinha expresso com toda claridade seu desejo de estar com ela, no s beijandoe acariciando seus peitos, o que lhe parecia muito prazenteiro, mas tambm abaixo, como uma 
vez o fizesse seu irmo Douglas. Annie no podia suportar a idia de que algum voltasse a lhe 
fazer isso, nem sequer Alex.
Mas ele queria. Ultimamente, pensava isto cada vez que estava junto a ele. Esta mensagemestava em seus olhos quando a olhava, em suas mos quando a tocava e at no ar que osrodeava; era uma sensao pesada e espectador.
O mais difcil de todo aquilo era que Annie no se sentia completamente segura de que estar 
com o Alex fosse algo terrvel. As carcias e beijos que lhe deu na habitao dos meninos forammaravilhosos e, devido a isto, ela no podia menos que perguntar-se se as outras coisas queele queria fazer tambm seriam prazenteiras. Segundo Alex, sim o seriam, e que Annie 
soubesse, nunca lhe tinha mentido. 
Que dilema... Queria fazer ao Alex to feliz como ele a tinha feito a ela, e sentia que ele seriamuito feliz se lhe permitia colocar a mo debaixo de sua saia. Mas a pergunta que devia expor-
se era: ela poderia suport-lo se chegasse a permitir-lhe Annie no sabia, e isto o fazia adiar 
sua deciso. 
Setembro cedeu o passo a outubro, outubro a novembro -Annie sabia agora os nomes dosmeses porque Alex a tinha obrigado a memoriz-los-, e os dias eram cada vez mais frios.
Quando se fez o ltimo fardo de feno, Alex comeou a passar menos tempo trabalhando e maisjunto ao Annie. Algumas tardes a abrigava com uma capa que tinha mandado fazer e a levavaa dar largos passeios pelo bosque. Outras tardes, ficavam no estudo frente a um agradvelfogo e se entretinham com algum passatempo, algumas vezes se dedicavam a jogos de mesae outras simplesmente conversavam. O se tinha convertido em todo um perito em ler os lbios,
e os dois comeavam a dominar a lngua de signos com fluidez. 
Uma tarde, lhe perguntou:
-Se tivesse que escolher algo que voc gostaria de ter mais que qualquer outra coisa, Annie, 

o que escolheria? 
Annie se mordeu os lbios. Alex lhe tinha dado tanto... tinha-lhe dado muitssimo. Parecia-lhe 
que seria uma ingratido por sua parte reconhecer que ainda havia algo que desejava.
-Venha, Annie, j  hora de que sejamos honestos o um com o outro. -Sentado junto ao fogo, 
a luz dourada das chamas pulava sobre seu rosto moreno e piscava em forma de sombras 
sobre sua camisa de seda de cor nata, que to bem sentava a seus ombros largos. Seu olhar
procurou a do Annie-. Jias? 
Ela se Rio e negou com a cabea.
-No, jias no. Para que as quereria? Eu no vou a nenhum lado.
-Voc gostaria de ir ao povo? -Quando ela negou com a cabea, fez outro intento-. Ento, a 
um baile? 
-Em realidade, no quero nada -mentiu ela. 
-Annie... -Agora usava um tom de recriminao-. me Diga o que quereria. 
Amando j ao menino que crescia em suas vsceras, Annie apertou seu ventre com suas mos 
e se encolheu de ombros. 
- muito possvel que quando o beb chegue j no queira nada.
-Seguro? diga-me isso Ella se encogi de hombros de nuevo. 
-Um co. 
Alex enrugou o cenho.
-Um co? Os ces so grandes, peludos, babosos e mal educados. Para que demnios quer 
um co? 
Ela se encolheu de ombros de novo. 
-No sei. Sempre quis ter um. 
Ele negou com a cabea e ficou olhando fixamente o fogo durante um momento. Quando 


voltou a olh-la, lhe perguntou:
-E voc? Se pudesse escolher algo que voc gostaria de ter muito, muitssimo, o que 
escolheria? 
Os olhos do Alex a escrutinaram. 
-Voc no gostar de minha resposta.
Ela ps os olhos em branco.
-Isso no  justo. Eu te hei dito o que queria.
Ele no deixou de olh-la nem por um instante.
-Quero a ti. 
Annie sentiu o rubor subindo por seu pescoo. 
-Em meus braos, em minha cama -disse ele-. Quero te fazer o amor, Annie. Quero-o mais 
que qualquer outra costure no mundo. -Seu olhar se posou em seu ventre inchado, e logo 
voltou a cravar-se em seus olhos-. Te amo. E amo a nosso beb. Quero que sejamos uma
verdadeira famlia. -Os olhos lhe ardiam de desejo-. estive sozinho toda a vida. No me tinha
dado conta, at que voc chegou, do muito vazio que me sentia. Agora o beb e voc
trouxestes muitas mudanas a minha vida. Mudanas positivas. Possivelmente seja insacivel,
mas me sinto como um menino em uma loja de caramelos. Quero-o tudo. Entende o que te 
estou dizendo? Um matrimnio de verdade, te estreitar entre meus braos enquanto durmo 
pelas noites e ao despertar nas manhs.
Ela finalmente conseguiu apartar o olhar e ficou olhando as chamas fixamente. sobressaltou-se
quando lhe tocou a bochecha para lhe fazer voltar a cabea. 
-Sei que tem medo -sussurrou Alex-. E com toda a razo. Mas acredito que ao menos me 
ganhei sua confiana. De modo que te peo que o pense. 
Ela se sentia sufocada. 
-Farei-te uma promessa -disse o marido-. Se confiar em mim o suficiente para me deixar
tent-lo, no te farei nada que voc no queira. E se me pede que pare, juro-te que o farei. 
Annie logo que podia suportar olh-lo aos olhos. Tudo o que via neles era o amor que Alex
sentia por ela. Como poderia lhe negar a nica coisa que lhe tinha pedido jamais?
-Como hei dito antes, s pensa-o. No  necessrio que me d uma resposta agora. Far-o? 
Pensar-o? 
Ela assentiu com a cabea. 
Ele a recompensou com um doce sorriso.
-Quando o estiver pensando, recorda o agradvel que foi o que passou aquele dia na
habitao dos meninos. Garanto-te que o que vem depois  ainda melhor.
Annie desejava poder estar segura disso. Ah, quanto desejava poder estar segura! 


CAPTULO 20 

Um rudo fez que Alex, sobressaltado, despertasse do que parecia ser um sonho profundo. 
Momentaneamente desorientado, ficou de flanco e olhou fixamente a escurido. Graas a sua 
magnfica vista, no lhe custava muito ver nem sequer em uma noite sem lua e,
definitivamente, esse no era o caso naquela ocasio. Uma luz chapeada banhava seu 
dormitrio, formando um foco de luz no cho frente ao armrio e projetando belas sombras 
sobre o penteadeira.
Annie... Ao recordar a conversao que tinham tido aquela tarde, teve a esperana de que elaestivesse entrando s escondidas em seu dormitrio. Lhe caiu a alma aos ps quando jogouuma olhada  porta e viu que estava firmemente fechada. No era Annie. Franziu o cenho 
ligeiramente e se incorporou sobre um cotovelo, tentado adivinhar a hora que era. Era meia-
noite, ou possivelmente um pouco mais tarde, concluiu. Certamente, sentia-se como se no 
tivesse dormido muito tempo.
Ouviu de novo o rudo que perturbou seu sonho, um tamborilar surdo e estrepitoso queprocedia da planta baixa. Depois de baixar-se da cama, ficou calas e botas em lugar da bata.
Em caso de que tivesse que fazer frente a um intruso, queria estar vestido, embora s fossepela metade. Mas no acreditava que ningum se atreveu a entrar na casa. Tinha vivido noMontgomery Hall desde seu nascimento, e em todos esses anos nunca se apresentou problemaalgum. A gente do Hooperville e seus arredores era muito honrada e temerosa de Deus, e os 
delitos eram virtualmente inexistentes. Douglas tinha sido o mais freqente autor de crmenes 
em toda aquela zona, mas fazia tempo que se partiu dali.
Douglas... Ao Alex lhe acelerou o pulso. Logo, desprezou essa idia. Seu irmo teria seus 
defeitos, mas no era nenhum parvo. No, provavelmente fosse um dos criados, disse-se. 
Frederick tinha problemas para dormir algumas vezes e andava de um lado para outro da 



cozinha fazendo rudo para esquentar-se um pouco de leite a altas horas da madrugada.
De caminho  planta baixa, Alex se deteve um momento na habitao dos meninos paracertificar-se de que Annie estivesse bem. Andando nas pontas dos ps, aproximou-se de suacama e se assegurou de que estava profundamente dormida; logo, voltou sobre seus passos e 
fechou a porta contudo cuidado de sair ao corredor.
Os degraus da escada rangiam sob seu peso enquanto procurava baixar sigilosamente.
Durante o dia, Alex nunca tinha percebido este rudo, e tomou nota mentalmente da 
necessidade de fazer que um carpinteiro revisasse o piso de madeira da escada. Uma casa dotamanho do Montgomery Hall requeria que lhe fizessem obras de manuteno 
constantemente. 
Ao chegar ao saguo, Alex ficou imvel. Naquele rudo havia algo que fez que lhe pusesse acarne de galinha. No se tratava do som despreocupado que estava acostumado a fazer umcriado na cozinha. Era mas bem um rudo subrepticio, como se algum estivesse procurandoalgo e tivesse muito medo de ser descoberto. Alex seguiu o rudo at chegar ao comilo.
Abriu a porta e entrou. Penetrava suficiente luz de lua pelas portas acristaladas, cujas cortinasestavam parcialmente abertas, para iluminar a habitao. No era necessrio acender umabajur. Um homem se encontrava agachado frente ao aparador. junto a ele descansava umabolsa branca, em que estava colocando os objetos que tirava do mvel. Reconhecendo-o emseguida pelo tom leonado de seu cabelo, Alex no sabia que sentimento era mais forte dentro 
dele: a ira ou a tristeza. depois de ter querido tanto a seu irmo, no era nada fcil desprez-lode tudo, independentemente do que tivesse feito.
-Douglas -disse finalmente-, que demnios est fazendo?
Seu irmo se retirou do aparador to bruscamente que se deu um golpe na cabea.
Amaldioando em voz baixa, levou-se uma mo ao lugar em que se feito mal. 
-Alex! 
-Quem acreditava que era? -Alex cruzou os braos sobre seu peito nu-. Possivelmente deva 
envolver o cristal em algo. Os jogos de mesa podem te servir. Algumas peas poderiam 
romper-se nessa bolsa. 
-Que cristal? S so umas poucas peas. E quase no h nada de prata. De verdade, Alex, 
para ser um homem de boa posio econmica, gastas muito pouco dinheiro em adornos ebaixelas. 
-Peo-te perdo. O que desconsiderado fui. 
Douglas se levantou. depois de ficar imvel durante um segundo, com atitude desafiante,
esfregou-se o nariz com a manga da camisa. 
-Como j haveria imaginado, tive algumas dificuldades econmicas.
Alex sentiu uma forte pontada no peito. Se seu irmo lhe rogasse que o perdoasse e lheprometesse emendar-se e seguir pelo bom caminho... Se ao menos se mostrasse arrependidoO... Alex interrompeu seus pensamentos. Este era um caminho que j tinha percorrido milharesde vezes, e sabia perfeitamente aonde o conduziria. O doloroso daquela situao era que,
apesar de tudo, ele queria e precisava perdo-lo. tratava-se de seu irmo, no de umdesconhecido. Tinha-lhe contado contos na hora de ir dormir quando era um menino pequeno,
tinha-lhe ensinado a montar a cavalo, tinha-o visto crescer at converter-se em um homem. 
Era impossvel esquecer todo aquilo, fingir que nunca tinha ocorrido.
-Se necessitar dinheiro, Douglas, tenho um pouco em efetivo na caixa forte -lhe ofereceucom brutalidade. 
-Daria-me isso? Quando vi que trocou a caixa forte... bom, pois pensei que era porque...
-Porque tinha medo de que voc entrasse s escondidas e me roubasse isso tudo?
Douglas ao menos teve a cortesia de parecer um pouco envergonhado.
-S teria pego o suficiente para me arrumar isso -No te pongas cmodo. 
Alex esteve tentado de dizer que tambm acreditava que os porcos podiam voar. Mas a faltade escrpulos de seu irmo no vinha ao caso. Embora no estava completamente seguro dasverdadeiras razes daquela apario nem de qual era a situao naquele momento. Alm dissodo fato de que ele era um idiota, certamente. Em todo o relacionado com o Douglas, pareciaque sempre o seria. Desde dia da morte de seu pai, Alex tinha tratado de compensar a perda,
sem poder esquecer em nenhum momento que ele era o responsvel. A culpa tinha umamaneira particular de capturar a um homem e de no solt-lo nunca.
Deixou escapar um suspiro e pensou brevemente no Annie. O amor que sentia por ela era toforte que no deveria lhe dedicar nem um grama de compaixo ao Douglas. Estava mal que ofizesse. Alex acreditava que, se ela chegava a ver seu irmo naquela casa, no o perdoariajamais, e com razo. Douglas a tinha violado, com crueldade, de maneira desalmada. Ajudar ode qualquer maneira que fosse era uma traio terrvel, e Alex sabia. Por outro lado, no podia 



odiar a seu prprio irmo at o ponto de v-lo convertido em um mendigo e convocando-se de
fome. 
-Vem o estudo. Darei-te um pouco de dinheiro e um cheque. Logo, quero que v daqui,
Douglas. -Para ouvir um dbil som metlico, Alex se afastou da porta, surpreso-. Deixa essa 
prata, pelo amor de Deus. Hei-te dito que te darei dinheiro. 
Rogando que Annie, que tinha a extraordinria capacidade de perceber as vibraes no cho,
no despertasse e sasse ao patamar para ver quem estava ali, Alex conduziu a seu irmo
atravs do corredor e o fez entrar no estudo a empurres. Depois de fechar a porta, dirigiu-se
 caixa forte sem perder nem um segundo. Enquanto girava o quadrante, cuidando de ocultar
sua esfera, ouviu o peso do Douglas deixando cair em uma das cadeiras de pele.
-No fique cmodo.
Douglas se Rio.
-Ah, claro. No acredito que a seu mujercita goste de me encontrar aqui. Entendo-o, Alex.
Todos os homens tm suas prprias prioridades.  bvio quais so as tuas. 
A porta da caixa forte se abriu naquele preciso instante. Com o corpo sbitamente rgido, Alex 
se voltou e perguntou com voz aparentemente serena.
-Que demnios significa isso?
-Nada! No seja to suscetvel. -Sob a luz da lua, o rosto do Douglas no parecia ter
expresso alguma do outro extremo da habitao. penteou-se o cabelo com os dedos e ficou 
em p. Dirigindo-se com toda tranqilidade para o suporte da chamin, acendeu um abajur, e
logo se voltou para olhar atentamente tudo o que o rodeava-. Deus, como senti falta deste 
estudo! sonhei estando aqui dzias de vezes. Quando trouxe esse rgo?
-Recentemente. 
Viu outros instrumentos. 
-No me diga que est comeando a te interessar a msica. 
-poderia-se dizer que sim.
Douglas passou os dedos pela mesita que se encontrava entre as duas cadeiras situadas frente 
 chamin. 
-Recorda quantas vezes ganhei no xadrez, sentados aqui mesmo frente a esta chamin? 
-Lembrana quantas vezes fez armadilha. 
Douglas se Rio entre dentes.
- certo. A nica maneira de que pudesse ganhar era movendo as fichas quando voltava a 
cabea. -Guardou silncio um momento. Logo, falou de novo-. Eram bons tempos,  claro 
que sim que eram bons tempos.
-Esses tempos j passaram, e voc tem toda a culpa de que seja assim. -Alex tirou um 
pequeno sobre de dinheiro da caixa forte. dirigiu-se ao escritrio-. vou fazer te um cheque por 
uma soma considervel. Administra-o com muita prudncia. Quando este dinheiro se acabe, 
no receber nada mais. No quero voltar a verte aqui, entende?
Estas palavras soaram como um eco. Com desumana claridade, Alex recordou haver-lhe dito
ao Douglas em uma ocasio anterior e ter acreditado que as dizia de todo corao. Mas o certo
era que lhe estava dando dinheiro uma vez mais. Isso no tinha sentido, nem sequer para ele,
mas se sentia incapaz de fazer outra coisa. imaginava a si mesmo, uns quantos anos mais
tarde, recreando aquela mesma cena por ensima vez, mofando-se de si mesmo por repetir as
mesmas palavras sem sentido.
Douglas apoiou um ombro na parede de pedra da chamin.
-Por Deus, Alex, sou seu irmo. Sei que cometi um grave pecado ao violar a essa garota. Se 
voltasse atrs no tempo, no o faria. Mas no posso desfazer o passado. No poder me
perdoar alguma vez?
Alex elevou a vista do cheque que estava assinando.
-Infelizmente, sim. Mas sempre me levei como um parvo em todo o relacionado contigo, no 
verdade? Sabe que s vezes fico acordado at o amanhecer, me perguntando que engano
cometi ao te educar? Culpo-me mesmo de tudo o que aconteceu. Se tivesse sido mais severo, 
mais estrito, se te tivesse dado umas quantas patadas no traseiro, teria sido um homem 
diferente? 
-Voc me criou muito bem -lhe assegurou Douglas-. Eu fiz uma estupidez, isso  tudo. No
tem a culpa de nada. Possivelmente eu tampouco. Estava bbado. No podia pensar com
claridade. Simplesmente passou isso, Alex. Eu no sabia o que estava fazendo. Conhece bem 
em que classe de pessoa me converto quando bebo. Volto-me to cruel como uma vbora. 
Reconheo-o. 
Conhecedor das intenes de seu irmo, Alex lhe interrompeu.
-No siga, Douglas. Esta vez seu palavrrio no pode arrumar as coisas entre ns. S 




conseguir pior-lo tudo.
-Pior-lo? -Seu irmo se afastou da chamin, elevando as mos de modo suplicante-. Ao
menos me escute. Eu tampouco posso dormir de noite. Sinto-me muito mal. No s pelo que fiz
a essa garota, mas tambm tambm por te haver desiludido. me d outra oportunidade, por
favor. S uma mais. jurei deixar a bebida. No bebi nenhuma s gota desde que me parti. 
-Ah, sim? E ento a que se deve o aroma que percebi em seu flego quando estvamos no
comilo?  ch? 
-Faz muito frio esta noite. S joguei um traguito para me esquentar, isso  tudo. Um traguito. 
Alex negou com a cabea.
-Acaso fui to parvo como para que agora espere que eu cria essas gilipolleces? -passou-se 
uma mo pelo cabelo-. Mas sabe uma coisa? Tem razo. Acredito que o lcool constitui a
maior parte de seu problema; que, quando bebe, faz coisas que normalmente no faria.
Infelizmente, outra parte de seu problema  que sempre poder justificar a necessidade de te 
jogar s um traguito. E logo outro. E outro mais. te minta a ti mesmo, se isso for o que quer, 
mas no me minta . 
-Por favor, Alex. me d outra oportunidade. S uma, e nunca voltarei a te suplicar que o faa. 
Juro-te que esta vez no o jogarei tudo a perder. Nem sequer tocarei uma garrafa. No o farei.
Por nenhum motivo. Nenhuma s vez! 
Resolvido a no deixar-se convencer, Alex seguiu fazendo o cheque.
-No posso fazer o que me pede, Douglas, e sabe. J no posso pensar s em mim. Tenho
uma esposa. Acima de tudo, devo-lhe minha lealdade. Deixa de beber, se puder. Endireita sua 
vida, se puder. Mas faz-o longe do Montgomery Hall. 
Douglas se alisou a jaqueta, uma grosa objeto de l que havia visto melhores tempos. 
-Ah, sim. Voc algema. Abbie. Assim se chama, no  verdade? 
-Annie. 
-Sim, Annie. Como pude esquec-lo? Embora deva reconhecer que no a esqueci de tudo,
suas pernas so difceis de esquecer.
-No siga -lhe advertiu Alex em voz baixa-. Ficam poucos boas tuas lembranas. No os
destrua com seus ataques.
-Meus ataques? -perguntou Douglas amargamente-. Me est voltando as costas. Sou seu 
irmo, pelo amor de Deus!
Ao Alex lhe revolveu o estmago. Terminou rapidamente de fazer o cheque, arrancou-o do
talonrio e o passou a seu irmo deslizando-o pela mesa.
-Aqui tem. Agarra-o e te largue.
Douglas se dirigiu lentamente ao escritrio. Tomou o cheque, dobrou-o com toda preciso em
trs partes iguais e o guardou no bolso da jaqueta. Seus olhares se cruzaram, mbar chocando
contra mbar. Alex j tinha visto aquele olhar nos olhos de seu irmo e sabia que anunciava
algum tipo de represlia. Isto no lhe surpreendia. Quando Douglas no se saa com a sua,
quando Alex lhe negava algo, ele sempre tomava represlias.
Douglas falou com um frio sorriso nos lbios. 
-Annie... Se mal no recordar, tem um bonito culo. Lhe est acontecendo isso bem com seu 
pequena idiota, Alex? Quando eu me a foll, disse que era uma violao. Quando voc o faz, 
suponho que  um nobre sacrifcio. O bom do Alex, sempre emendando os danos de seu irmo.
Que cruz to pesada a tua!
Alex apoiou todo seu peso em suas mos, e fechou violentamente os punhos. As coisas sempre
terminavam daquela maneira com o Douglas, compreendeu. Olhava-o fixamente, tentava
entend-lo e chocava de bruces contra um muro. Havia coisas que era impossvel entender.
-No siga -lhe disse de novo. Enquanto dizia estas palavras, inclusive sabia que Douglas
cobraria a dvida insistentemente requerida antes de partir dali. Assim eram as coisas com ele. 
Sempre o tinham sido.
-Que no siga fazendo o que? te fazendo confrontar a verdade pura e simples? -Com os
olhos despedindo fascas, Douglas seguiu-.  um pusilnime, sabe? -Fez um amplo
movimento da mo para assinalar o bem equipado estudo-. E se parir uma menina, Alex?
Alguma vez o pensaste? Dado que no  mais que um homem pela metade, como poderia
engendrar um filho? Ou acaso no quer um herdeiro?
Alex no podia falar. E, embora tivesse podido faz-lo, no tinha palavras que dizer.
-Se eu vivesse aqui, ao menos poderia fazer que ela te desse um par de mucosos mais. Ou 
talvez  muito egosta para compartilhar essa doce panela de mel que ela tem. Arrumado a 
que todas as noites molhas o nariz nela.
Alex tinha comeado a tremer. Tremia de forma horrvel. 
Douglas sorriu. 




-Ou  um desses homens que prefere que as mulheres lhes emprestem esse servio em 
particular? Posso imaginar com uma taa de conhaque em uma mo, e agarrando-a do cabelo 
com a outra para lhe ensinar como voc gosta que...
Alex lhe plantou um murro na boca. Fulminante. Sem reflexo prvia, sem inteno.
Simplesmente lhe pegou, descarregando o golpe com todas suas foras. Com uma expressode surpresa no rosto, Douglas se cambaleou para trs. Quase sem dar-se conta de que seestava movendo, Alex saltou por cima do escritrio para equilibrar-se sobre ele. Em meio de 
um frenesi de movimentos, os dois homens chocaram e caram ao estou acostumado a 
rodando. Tirando vantagem, Alex se levantou em seguida, elevou uma perna e enterrou umabota no ventre de seu irmo. Logo, agarrou-o pelo cabelo e lhe obrigou a levantar-se de um 
puxo.
Enquanto lhe dava murros na cara, gritava. 
-Miservel saco de mierda! No  digno sequer de lhe beijar os ps a essa garota, e muitomenos de pronunciar seu nome!
Para o Alex, o tempo parecia estar acontecendo to devagar como para uma mosca que searrastasse sobre um papel pegajoso. Quando levantava o punho, parecia-lhe que se movia acmara lenta. Estava fora de controle, e sabia. A cara de seu irmo se estava convertendo em 
mingau lhe sangrem sob o castigo de seus ndulos. Se no se detinha, mataria-o. Mas pareciahaver-se voltado louco. Um momento depois, imobilizou ao Douglas contra o cho e comeou aestrangul-lo. Como se se encontrasse longe de ali, ele observava suas mos apertando,
observava a cara de seu irmo passar de uma cor vermelha apagada a um escarlate intenso.
Sem saber por que, deteve-se o fim. Acaso pensou fugazmente no Annie? No que poderia lheocorrer se terminavam pendurando-o na forca? No sabia. S sabia que algo, possivelmente oTodo-poderoso, fez que lhe soltasse o pescoo a seu irmo. 
Douglas ficou de lado, levando-as mos  laringe e emitindo horrveis sons guturais enquantolutava por respirar. Alex se levantou e se afastou dali, sem lhe importar se seu irmo morriaasfixiado naquele mesmo lugar. No lhe importava, e quase esperava que fosse assim. 
Apoiando as mos sobre o escritrio, deixou cair a cabea e fechou os olhos. Quando os sons 
speros comearam a debilitar-se, falou. 
-te largue. Vete daqui antes de que lhe mate. 
Ouviu o Douglas levantando-se com grande dificuldade. Mas no o ouviu correr para a porta.
-Estou falando a srio, Douglas. Matarei-te com minhas prprias mos.
Passos cambaleantes. O chiar de umas dobradias. Ensurdecedoras portadas. Alex expulsou oar que tinha estado contendo sem dar-se conta. Logo, sentindo como se lhe tivessem 
arrancado os pulmes do peito, comeou a soluar. Um soluo seco e terrvel. Lhe dobraram os 
joelhos e se deixou cair para apoiar sua cabea contra o escritrio. 
tratava-se da morte. No de um homem, mas sim do amor. Um final que no era fcil deaceitar. 
Annie agarrou com fora o pomo da porta que conduzia ao dormitrio do Alex. Durante umterrvel instante pensou que estava fechada com chave. Mdio cegada pela escurido do 
corredor, dirigiu seu olhar cheia de terror para o patamar. Aqui. Ele est aqui. A porta se abriude repente, e ela irrompeu na habitao. A luz da lua, dbil e varivel, alagava o quarto.
Correu para a cama, com a respirao lhe rasgando o peito, e saltitando pelo pnico queexperimentava.
Alex. Como uma louca, comeou a dar tapinhas sobre as mantas enrugadas. No estava ali.
deu-se a volta e olhou fixamente a porta, com as mos sobre a boca para afogar qualquer somque pudesse estar fazendo. Douglas est aqui. Se a ouvisse soluar, possivelmente fosse 
procurar a. Faria algum rudo? Ai, Deus... Tinha que esconder-se. O desespero a levou a girarsobre seus tales vrias vezes em busca do lugar mais adequado. Logo, muito aterrorizada 
para ficar ali desprotegido alguma, atirou-se  cama do Alex, tentando meter-se com 
dificuldade sob as mantas, encolher-se no colcho at converter-se em uma criatura diminuta. 
O aroma do Alex a rodeava. Alex. Tremendo violentamente, Annie se rodeou o ventre com os 
braos e ficou de joelhos. Aquele homem estava na casa, e Alex tinha sado. Conteve arespirao. No emitiu som algum. No podia emitir som algum. ficaria ali. sentia-se a salvoescondida na cama do Alex. Ele retornaria em algum momento. Tinha que faz-lo. E, quando ofizesse, no permitiria que ningum lhe fizesse mal. 

Alex entrou em seu dormitrio, fechou a porta e durante um momento apoiou as costas contra 

o painel de madeira com os olhos fechados... Annie... naquele momento mais que em nenhumoutro, ansiava estreit-la entre seus braos. Reprimindo o desejo de ir  habitao dos 


meninos, imaginou seu sorriso, a forma to doce em que sua boca descrevia uma ligeira curvaascendente; as covinhas que se faziam em suas bochechas; seus olhos preciosos, tomeigamente azuis e profundamente cndidos. Imaginar a fez que se sentisse menos vazio pordentro. 
levandoos machucados ndulos  boca, Alex recordou uma vez mais o lhe gratifiquem que foipara ele lhe dar a seu irmo murros na cara. O primeiro golpe marcou o final do compromissoque tinha durado toda uma vida, e naquele momento se sentiu extraamente liberado. Estava 
triste, certamente. E se sentia vazio. Mas livre, sem lugar a dvidas. Pela primeira vez damorte de seu pai, a responsabilidade para com seu irmo tinha chegado a seu fim.
Afastando-se da porta, Alex se dirigiu devagar para sua cama, com o olhar fixo na janela e nosramos do salgueiro que se balanavam atrs do cristal banhado de prata pela luz da lua. Asfolhas, esmagadas contra a janela pelo vento da noite, faziam horripilantes sons, semelhantesaos que produziam as unhas ao roar uma piarra. Sons. Desde que conheceu o Annie, Alex 
havia se tornado extremamente consciente de tudo o que ouvia, e freqentemente seencontrava a si mesmo tentando perceber o mundo como ela devia faz-lo. As folhas roando

o cristal, os pssaros nas rvores, o vento soprando; e todo isso sem som algum. Apesar deseus esforos, parecia-lhe difcil imaginar o silncio absoluto. Ela se estava perdendo muitascoisas. Muitssimas. 
Suspirou, deixou-se cair no bordo da cama e se inclinou para tir-las botas. De repente, ouviuum trmulo chiado detrs dele e por um momento pensou que provinha do ramo da rvore.
Logo, ficou paralisado. Sentindo um picor em toda a pele, voltou a cabea para olhar por cima 
de seu ombro. 
Sob as mantas havia um vulto. Um vulto tremente. Esquecendo-se das botas, voltou todo seu 
corpo, apoiando uma perna dobrada sobre o colcho. Enquanto elevava o cobertor, ouviu uns 
ofegos afogados. 
-Annie -sussurrou com incredulidade. 
Depois de soltar um fraco grunhido, ela saiu disparada para ele, como um projtil arrojado porum canho, lhe ensinando os dentes e as unhas. Alex ficou to surpreso que no pde reagirantes de que ela conseguisse lhe arranhar a mandbula. 
-Annie! 
Ele esquivava seus golpes ao tempo que tentava agarrar a das bonecas. Quando finalmente 
conseguiu capturar suas mos, ela soltou um gemido de terror. Tirando proveito de sua fora eseu peso, sujeitou-a contra a cama, lhe imobilizando os braos sobre a cabea, e com umacoxa dobrada fez o mesmo com suas inquietas pernas. Ela arqueou as costas. Seus pulmes 
assobiavam por falta de ar, enquanto lutava inutilmente por liberar-se. 
-Annie, carinho, sou eu. -Alex se tornou levemente para trs para que sua cara ficasse emcima da do Annie-. Sou eu, tesouro. 
Sob a luz da lua, seus olhos pareciam esferas enormes e luminosas, e suas largas pestanasprojetavam sombras sobre as bochechas. Sem poder mover-se, elevou a vista para ele. Aexpresso de seu rosto passou lentamente do pnico ao alvio. Depois de soltar um soluoentrecortado, Annie relaxou ao fim completamente os msculos.
Alex lhe soltou os braos e a estreitou contra seu peito. Como uma menina aterrorizada, elaabraou seu pescoo e se aferrou a ele. Todo seu corpo comeou a ter convulses com seussoluos, e ao cabo de uns instantes os espasmos se converteram em um espantoso tremor. 
Muito afetado, ele apertou a cara contra seu cabelo, que despedia um aroma doce. Sabia, semnecessidade de perguntar, que ela tinha visto o Douglas no saguo. Tinha ido a seu dormitrioprocurando amparo, mas no o encontrou ali. 
Cuidando de no lhe fazer danifico, Alex ficou de barriga para cima, e levou ao Annie em cima 
dele, sem solt-la nem um instante. S podia imaginar o medo que deveu sentir. Douglas, ohomem que a tinha violado, estava dentro da casa. A vergonha fez que lhe encolhesse oestmago. Ele tinha a culpa de tudo. Sustentando a nuca da mulher com uma mo, deu-lhe umbeijo na tmpora.
Esquecendo momentaneamente que ela no podia lhe ouvir, sussurrou com voz rouca.
-Ai, Annie, me perdoe. Sinto muito. Sinto-o muito.
Seu corpo no deixava de tremer. Ao passar uma mo por suas costas, sentiu o frio filtrando-se 
por sua camisola de flanela. Dado que se tinha escondido sob as mantas, ele sabia que emrealidade ela no podia ter frio. No obstante, era inegvel que estava geada. A julgar pela 
maneira em que tremia, estava congelada at os ossos.
separou-se ligeiramente para poder olhar a sua esposa  cara.
-Tranqila, Annie. J se partiu. 
Ela assentiu rapidamente com a cabea e fechou os olhos, apertando-os com fora. Alex 


comeou a acariciar energicamente suas costas e seus quadris para tentar restabelecer suacirculao da nica maneira em que sabia faz-lo. Apesar disto, os dentes dela seguiramtocando castanholas. Quando passaram uns quantos minutos e viu que no deixava de tremer, 
comeou a alarmar-se. 
-O que necessita, jovencita,  te colocar em uma banheira cheia de gua quente, e um pouco 
desse caf irlands que prepara Maddy. 
Ela se aferrou com mais fora aos ombros do Alex quando ele comeou a mover-se. 
-Annie... -Ficando de lado, Alex roou com as gemas dos dedos uma das bochechas dajovem e esboou um sorriso forado-. S vou baixar um momento para trazer gua quente.
Voltarei antes de que tenha terminado de contar at... -Esteve a ponto de dizer "cem", masse conteve-. antes de que tenha terminado de contar at quarenta. Aqui no corre perigo,
juro-lhe isso. Acaso te menti alguma vez?
Ela negou levemente com a cabea e lhe soltou o pescoo. A expresso de seu rosto lhe partiua alma, e teve que beij-la com toda a delicadeza do mundo. 
-Assim eu gosto. Volto em seguida. Fique aqui. No te tire as mantas, vale? 
Uma vez mais, sua nica resposta foi um movimento de cabea. Alex se desceu da cama. Nogostava de deix-la ali. Entretanto, quando se voltou para olh-la, o tremor do cobertor o 
convenceu de que no tinha outra alternativa.
Uns poucos minutos depois, quando retornou ao dormitrio, trazia dois cubos de quase vinte 
litros cheios de gua quente. depois de lev-los a servio, acendeu os abajures e empreendeua tarefa de lhe preparar um banho. Depois de encher uma parte da banheira com a gua friado grifo, acrescentou a gua quente dos cubos e provou a temperatura com a boneca. 
Quando voltou para a cama, apartou o cobertor da cara do Annie. 
-te levante. vamos colocar te na banheira. 
Com os dentes lhe tocando castanholas e seu pequeno corpo tremendo, ela conseguiuincorporar-se e levar suas esbeltas pernas a um lado do colcho. Alex a ajudou a ficar em p ecaminhar por volta do quarto de banho. Temendo que ela pensasse que ele queria despi-la, 
inclinou-se ligeiramente para que Annie pudesse lhe ler os lbios enquanto lhe explicava: 
-Enquanto te despe e te d um bom banho quente, eu irei  cozinha a fazer um pouco de cafirlands. Usarei a receita especial do Maddy, que estou seguro de que te esquentar at a 
medula dos ossos. 
Sentada no bordo da banheira, a moa tratou de desabotoar os pequenos botes do corpete desua camisola, mas suas mos e seu corpo ainda estavam tremendo tanto, que os dedos no 
puderam alcanar seu branco. Alex lhe apartou o cabelo dos ombros e se fez cargo dessa 
tarefa. Sua inquietao aumentava com cada boto que conseguia soltar. Recordava ter vistoantes a dois indivduos em estado de shock, e os dois tremiam de maneira violenta. Era to 
forte o terror que Douglas inspirava ao Annie que ela estava em estado de shock? 
Alex no sabia. S sabia que lhe pareceu terrivelmente frgil naquele momento, com seuventre inchado e tudo. Suas magras manitas sulcadas de ossos delicados. Seus ombros 
estreitos. Seus braos, que ele podia rodear com a mo. Queria estreit-la entre seus braos elhe dar o calor de seu corpo. Abra-la at que tudas as lembranas do Douglas sassem desua cabea. 
Quando ele terminou de lhe desabotoar a camisola, ela atirou com mo tremente do punho de 
uma de suas mangas. Era evidente que sua inteno era tirar o brao do objeto. Ao olh-la, 
Alex entendeu que ela nunca conseguiria despir-se sozinha. Mierda! 
Agachando-se para atrair sua ateno, Alex arqueou as sobrancelhas.
-Quer que te ajude, carinho? 
Annie negou com a cabea, plantou o dorso de uma mo em seu ombro e o empurroulevemente. Ele podia reconhecer um convite a sair de um lugar quando algum se a fazia. Sesperava que ela pudesse arrumar-lhe sem ele. 
-Volto em seguida, vale? -Tirou uma toalha de linho da prateleira e a ps no bordo daalargada banheira-. te Tampe com ela uma vez que te tenha metido na gua. No importa 
que a molhe. Assim no se sentir incmoda quando eu retorne. De acordo? 
Ela assentiu temblorosamente com a cabea. Temeroso de que fora um engano, Alex girou 
sobre seus tales e, um instante depois, fechou a porta do quarto de banho ao sair. Uma vezno dormitrio, deteve-se um momento frente ao armrio para tirar uma camisa. A ps, masno a abotoou, enquanto cruzava o corredor a grandes pernadas.
Uma vez na planta baixa, apressou-se em acender um fogo na cozinha para esquentar o caf.
Depois de fazer isto, encheu parcialmente uma taa, acrescentou uma colherada de nata elogo terminou com um pouco de usque. depois de lhe acrescentar acar, voltou a subir ao 
primeiro piso, esperando encontrar ao Annie inundada em gua quente. Em troca, encontrou-a 



sentada na taa do inodoro, com o vestido ainda posto e os braos ao redor do ventre. 
-Annie... 
Alex deixou a taa de caf irlands no lavabo e se agachou frente a ela. Nunca tinha visto 
ningum tremer daquela maneira. Se o banho quente e o caf com usque no a ajudavam,
teria que fazer chamar o doutor Muir. Dado seu embarao, no estava disposto a correr 
nenhum risco. 
Durante um breve instante, Alex considerou a possibilidade de despertar ao Maddy para que 
ajudasse ao Annie a entrar na banheira, mas em seguida desprezou esta idia. O ama de 
chaves devia estar profundamente dormida na outra ponta da casa. Enquanto ela selevantava, procurava uma bata e umas sapatilhas e chegava  habitao do Alex, a gua se 
esfriaria. 
Resolvido, agarrou uma das mos do Annie, levantou-a para apartar a de suas costelas e 
desabotoou o boto do punho.
-vou ajudar te um pouco -lhe disse enquanto desabotoava a outra manga. Ao ver a 
expresso de consternao que se desenhava em seu rosto, ele esboou um sorriso-.
Carinho, tirarei-te essa camisola e te meterei na banheira to rpido, que no verei mais que 
uma imagem imprecisa.
Ela no parecia muito convencida, mas, preocupado por sua sade, Alex no lhe deu aoportunidade de opor resistncia. Agarrando a dos ombros, fez que se levantasse do inodoro e 
em seguida jogou as mos  camisola, todo isso de uma s vez. 
-Alta os braos. 
No sabia muito bem se ela o tinha agradado, ou se ele a tinha obrigado a levant-los 
enquanto atirava da camisola para faz-lo passar por sua cabea. Isso no tinha nenhumaimportncia. No instante mesmo em que ela sentiu que a parte inferior do objeto comeava a 
subir, tentou ajud-lo tirando os braos de um puxo para poder tampar-se. Alex no pdemenos que sorrir levemente ao ver o que ela tinha decidido ocultar. No cobriu seus peitos,
como o teriam feito a maioria de mulheres. Em troca, dobrou um brao sobre seu proeminente 
abdmen e ps seu outra emano sobre o tringulo de escuro plo situado no vrtice de suascoxas magras. Desta maneira, permitiu-lhe contemplar o agradvel espetculo de seus seios,
cujas pontas se obscureceram devido a seu avanado estado de embarao. 
Ele em seguida apartou o olhar e fez o valoroso esforo de evitar que seus olhos voltassem a 
posar-se naquela parte do corpo da jovem. Isto resultou ser algo difcil quando tentou ajud-la 
a meter-se na banheira. Posto que ela no deixava de tremer, no se confiava em seu 
equilbrio nem da fora de seus braos para faz-lo sozinha. Por onde podia agarrar a uma 
mulher nua e grvida? Alex no queria lhe tocar a cintura, pois temia fazer machuco a ela ou 
ao beb. Era impossvel sujeitar a dos quadris. Muito tentador. Muito tudo. Decidiu ento 
agarr-la debaixo dos braos.
Grande engano. Apertou os dentes e fez um herico esforo por pensar em partidos debeisebol enquanto a ajudava a meter-se na gua. As Palmas de suas mos pareciam estarardendo e, na posio em que se achava, s podia pr os polegares debaixo dos peitos. Aoroar sua sedosa pele com os ndulos apareceram gotas de suor em sua frente. Com 
movimentos desajeitados e torpes, ela se ajoelhou sem deixar de tremer. Alex seguiusustentando seu peso enquanto ela penetrava na gua. Partidos de beisebol? Por Deus! Senem sequer recordava os nomes das equipes. Era intil, s podia pensar naquele corpo 
maravilhoso. 
-J est. V? No foi to terrvel depois de tudo.
A dor que Alex sentia nos genitlias lhe fez pensar naquela ocasio em que um potro lhe deuum coice na entrepierna, mas isto no parecia vir ao caso. Decidiu que devia ter um problemamuito srio. A um homem normal no pareceria atrativa uma mulher grvida. Mas para ele,
Annie estava preciosa. 
sentou-se na tampa do inodoro e apoiou os cotovelos sobre os joelhos, lhe rogando a Deus queela no tivesse advertido sua excitao. Dirigiu o olhar para a toalha que tinha tirado para oAnnie e desejou com todas suas foras que ela alargasse a mo para agarr-la. Em lugar disto, 
tremendo e estremecendo-se, apertou as costas contra o extremo inclinado da banheira e se 
afundou na gua quente, que rodeou seus mamilos e manteve a flutuao os peitos. Dandoobrigado pelos favores recebidos, embora no eram muitos, Alex comprovou com alvio quedesde aquela posio podia ver seus seios e a parte superior do ventre, mas nada mais. Nopoderia resistir ver algo mais.
Jogando a cabea para trs, ela fechou os olhos e apertou os dentes para impedir queseguissem tocando castanholas. Alex fixou o olhar no cho e passou alguns momentos detenso contando ladrilhos. Ao pouco tempo, quando isto se voltou tedioso, dirigiu o olhar para 



as pontas de suas botas. Logo, passou a concentrar sua ateno em suas unhas e, por ltimo, 
em suas cutculas. Quando voltou a olhar ao Annie, pareceu-lhe que j no estava tremendo 
tanto. 
ficou em p. Ao perceber este movimento, o qual certamente fez atravs das vibraes do 
cho, ela abriu os olhos. 
-Gosta de agora um pouco do caf do Maddy? 
Ela alargou o brao para agarrar a toalha. Desdobrou-a rapidamente, estendeu-a sobre a gua 
e se tampou do ventre para baixo, deixando seus peitos expostos. Alex lhe aconteceu a taa,
que, devido ao tremor que percorria todo seu corpo, colheu com as duas mos. No instante
mesmo em que soltou a toalha, esta se afastou do stio que Annie queria tampar. Ela tratou de 
agarr-la, derramando caf sobre a parte superior de seu peito.
-Traz -disse ele com voz grave-. Deixa que eu agarre a taa. te ocupe da toalha. 
Quando ele agarrou a taa, ela em seguida voltou a pr o quadrado de linho sobre seu ventre e 


o sujeitou ali, fechando com fora seus pequenos punhos. Agachando-se junto  banheira, Alextentou com grande dificuldade conter a risada. Era evidente que, apesar de seu pudor e seureceio, lhe preocupava mais que nada ocultar seu ventre inchado e aquilo que se encontravaencravado entre suas preciosas coxas, e ao diabo com os peitos.
Isto desconcertava ao Alex. Tinha conhecido a umas quantas mulheres s que no lhes davavergonha exibir seus encantos, mas nunca a ningum como Annie. Ela no estava tratando de 
ser provocadora, isso estava claro. No parecia dar-se conta de que era to importante ocultaros peitos do olhar admirativa de um homem como todas as demais partes de seu corpo. Eracomo se ningum se tomou nunca a molstia de lhe explicar que...
Uma lembrana repentina lhe veio  mente. To claramente como se tivesse ocorrido ontem,
recordava ter ido de excurso perto das cataratas quando era apenas um menino. Havia algum 
tipo de festejo comunitrio ali acima, um picnic ou algo pelo estilo, com jogos ao ar livre ecomida em abundncia. Nas horas de mais calor daquela tarde, permitiu-se que a maioria dosmeninos, sob a superviso de um adulto, chapinhassem um momento na gua. Depois de ficarem roupa interior, tanto meninos como meninas pularam nela. Alex tinha uns cinco anosnnaquele tempo, naquele tempo, mas tambm havia no riacho alguns pequenos de seis ousete anos. A nenhuma das meninas pareceu lhes envergonhar o fato de que os meninosvissem seus peitos nus. Naquela etapa de seu desenvolvimento, no havia nada que pudesselhes causar vergonha.
Levando a taa aos lbios do Annie, Alex a observou com crescente ternura enquanto tomavacom delicadeza um sorvo do potente remdio do Maddy. Ao sentir o sabor do lcool, enrugou o 
nariz. Alex a convenceu para que desse outro sorvo. Logo, alargou a mo para lhe apartar uma 
mecha mida de cabelo negro da bochecha. 
-Tirar-te os calafrios -lhe assegurou quando lhe lanou outro olhar para mostrar suarepugnncia.
Annie brincava com a toalha, cujo extremo solto se dirigia constantemente para um lado peloar, deixando ao descoberto suas partes pudendas. Enquanto a observava, Alex recordou a 
manh das bodas, como se encontrava sentada no patamar do primeiro piso, aparentementesem lhe importar o que ele pudesse ver debaixo de seu vestido. E aquele dia no quarto dosmeninos em que beijou seus peitos? Ento temeu que ela se assustasse; mas, em troca, ela oolhou enquanto fracassava em seus torpes intentos de despi-la, com curiosidade mas semmedo. At que ele tentou colocar uma mo debaixo de sua saia, ela no pareceu dar-se contade que havia uma relao entre os beijos que dava a seus seios e o que Douglas lhe tinha feito.
Annie... privada da capacidade auditiva aos seis anos e obrigada a ocultar-se nas sombras,
onde a tinham mantido afastada da gente e ignorante das mais elementares noes deurbanidade. As normas da sociedade tampouco tinham muito sentido para o Alex a maioria dasvezes. Quase era lgico que aquela menina no se tampasse os peitos com a toalha. O quetinha que ocultar? As meninas de seis anos se cobriam a parte inferior do corpo porque lhesensinava a faz-lo de uma idade temprana. A vergonha pela parte superior de seus corposchegava depois, e era uma atitude que lhes inculcavam suas mes mais ou menos um anoantes de que lhes desenvolvessem os peitos. Quando Annie alcanou a puberdade, j era umaemparelha; seu crculo social tinha sido restringido  famlia mais prxima e aos criados deconfiana, seu nico contato com o mundo exterior, alm dos encontros fortuitos com outras 
pessoas, com os animais selvagens e com os ratos do apartamento de cobertura.
Alex voltou a lhe oferecer um pouco de caf irlands. 
-Annie, carinho, bebe dois goles grandes esta vez. -Ao ver que lhe obedecia, sorriu-. Quegarota to boa! Venha, um pouco mais.
A grvida bebeu dois goles mais. 


-Eu no gosto. 
-Supus que voc no gostaria de -reconheceu ele-. Est bastante forte. -Contente ao ver
que j tinha deixado de tremer, olhou-a profundamente aos olhos-. Sinto muito tudo isto, 
Annie. -Apartando o olhar, tragou saliva-. Eu, isto... -Olhou-a de novo-. Se nunca me
perdoar, entenderei-te perfeitamente.
Ela o olhou fixamente. Parecia um pouco desconcertada.
-por que devo te perdoar? Voc no tem a culpa de nada.
Durante um breve instante, Alex considerou a possibilidade de optar por uma sada fcil. Mas a
amava muito para lhe mentir, embora a verdade fizesse que ela o estimasse menos.
-Por ser to... No que ao Douglas se refere, sou muito dbil. Sempre o fui. Devi jog-lo a 
patadas da casa imediatamente. Quando no o fiz, soube que era um engano, que estava
traindo sua confiana. Mas eu... 
Voltou a pr a taa no lavabo, fugindo seu olhar.
-me acredite que antes de que tudo terminasse, arrependi-me de no lhe haver ensinado a
porta da rua.
Ela alargou a mo de repente, roando com trmulos dedos seus quebrados ndulos. O elevou 
a vista, olhando fixamente os olhos mais azuis e honestos que tivesse visto jamais. Durante
interminveis segundos, nenhum dos dois se moveu. O teve a terrvel sensao de que lhe
estava olhando a alma e que estava vendo muito mais do que ele queria.
-Ai, Alex. 
-Sinto-o -balbuciou Alex uma vez mais-. Nunca saber quanto o sinto. Douglas  um
homem cruel e abominvel. No merece nada do que recebe. Mas lhe dava dinheiro. Sei que 
deve te parecer uma loucura. E possivelmente todos pensem o mesmo.
Ela se merecia uma explicao mais detalhada, e Alex sabia. Mas no parecia ser o momento
adequado para falar disso. E no sabia se alguma vez se apresentaria esse momento.
Como se intuira sua confuso, os olhos dela se escureceram por causa da inquietao. Ele
apartou o olhar em seguida, sabendo que, se no o fazia, poderia terminar contando-lhe tudo.
De repente, pareceu-lhe que o ar do quarto de banho estava rarefeito. Tinha que sair dali. Para
poder recuperar do golpe. Para poder esclarecer seus sentimentos. 
esforou-se em voltar a olh-la. 
-No retornar, Annie. O que aconteceu esta noite... tudo terminou entre ns, de uma vez por 
todas. No voltaremos a v-lo. 
Ela assentiu com a cabea de maneira quase imperceptvel, com o olhar cheia de perguntas.
Perguntas que Alex no podia responder naquele momento. Ele ficou em p e se passou uma
mo pelo cabelo. 
O olhar dela voltou a posar-se nos feridos ndulos de sua mo direita. Uma expresso de terror
se apropriou de repente de seu rosto, indcio de que finalmente tinha compreendido como se
feito aqueles machucados.
-A gua j deve estar fria -disse Alex, aferrando-se a qualquer desculpa que pudesse 
ocorrer-se o para partir dali-. Deveria sair da banheira antes de que comece a tremer de 
novo. Se lhe pode arrumar isso sozinha, irei  outra habitao e acenderei a chamin para que 
possa te secar o cabelo. 
-me posso arrumar isso sozinha.
-Muito bem. Eu... o fogo esquentar a habitao.
Alargou a mo para agarrar o pomo da porta que se encontrava detrs dele, fez-o girar com
brutalidade e esteve a ponto de tropear com seus prprios ps ao sair daquele quarto. 


CAPTULO 21 

Quando Alex fechou a porta do quarto de banho, uma rajada de ar percorreu o corpo mido doAnnie, fazendo que lhe pusesse a carne de galinha nos braos e os ombros. Seu sabo e todosos objetos que ele utilizava para barbear-se estavam no lavabo junto a ela, e seu perfume a 
envolvia; uma mescla bastante comum de malagueta, bergamota e colnia de homem, que ela 
s associava com ele. 
Alex. 

Ficou muito afetado depois de ver seu irmo aquela noite. Profundamente afetado. E, por issomesmo, ela sabia que ele a necessitava como nunca naquele momento. Se realmente lheimportava seu Alex, deveria sair da banheira, secar-se com a toalha, ficar a camisola e irbusc-lo. 
E logo, o que? Quando se voltasse para ela, quando a estreitasse entre seus braos, o que faria 
se ele queria que o consolasse de uma maneira em que ela no estava disposta a faz-lo? J 



lhe havia dito claramente em vrias ocasies que queria estar com ela. No estado de nimoem que se encontrava naquele momento, poderia pression-la para que o agradasse.
Uma terrvel sensao escorregadia se apropriou do estmago do Annie ao pensar nisso, e 
comeou a tremer de medo. depois de ver o Douglas fazia apenas um momento, eraimpossvel manter a raia as lembranas do que lhe tinha feito. Imagens de seus piorespesadelos se equilibraram sobre ela detrs sair dos rinces mais escuros de sua mente. A dor, 
a terrvel sensao de impotncia e a vergonha. Lgrimas ardentes comearam a lhe queimaros olhos. 
Como podia ir  outra habitao, sabendo de antemo que Alex possivelmente tentasse lhefazer essas coisas? No estava segura de sentir-se capaz de passar por essa experincia. Nemtampouco de querer faz-lo. Queria-o muito, sim. E desejava ser seu amiga. Mas havia certoslimites, ao menos para preservar a prudncia.
Limites... Parecia uma palavra to egosta... Annie se mordeu o lbio inferior e apertou os olhoscom fora. Do primeiro momento, Alex lhe tinha dado tudo o que podia, sem reservas e semexigir nada em troca. Como poderia ela, em conscincia, impedir de acessar a uma parte de si? 
Alex... Danando a valsa com ela no apartamento de cobertura, seduzindo-a com a msica desua flauta, lhe dando um rgo, lhe ensinando a utilizar a lngua de signos. Ao recordar os 
ltimos meses, Annie se deu conta, no pela primeira vez, de que a relao que eles tinhamcercado era muito desigual: ele sempre estava dando, e ela recebendo. Isto tinha que trocarem algum momento, e dela dependia que o fizesse. Alex podia expressar seu desejo de estarcom ela, podia inclusive pression-la para conseguir seu objetivo, mas nunca a obrigaria.
ficou em p, observou a gua deslizando-se por seu corpo e caindo na banheira. Empapada-atoalha lhe escorregou das mos e caiu ruidosamente  gua. Silncio. No voltou a ouvir o som 
de gotas caindo  gua. Tampouco um aquoso plaf. S a terrvel nada que tinha sido apresena dominante em sua vida durante tanto tempo que, at que conheceu o Alex, tinhadeixado de esperar nada distinto. Hora detrs hora, dia detrs dia, ano detrs ano de silncio e 
solido. Alex tinha trocado tudo isto. 
Com um sorriso triste, Annie recordou o desiludida que se sentiu ao inteirar-se de que se casoue no tinha recebido presente algum. O que equivocada estava. Alex tinha chegado a sua vidalevando tantos presentes que fazia j bastante tempo que tinha perdido a conta, e cada umdeles envolto em abundante amor. Sem papis bonitos nem cintas extravagantes. As coisasque lhe tinha dado no se podiam meter em uma caixa. Mas no por isso eram menos 
maravilhosas. Como podia lhe negar algo a um homem como ele?
Olhou fixamente a porta fechada. Logo, sem permitir-se pensar em nada mais, alargou a mo 
para agarrar uma toalha com o fim de envolver seu cabelo molhado. Em menos que canta um 
galo -ao menos assim pareceu a ela-se tornou a pr a camisola e tinha grampeado todos os 
botes. Com mo trmula, agarrou o pomo, fez-o girar de maneira resolvida e abriu a porta. 
A primeira vista, o dormitrio lhe pareceu escuro, mas logo seus olhos se acostumaram  
penumbra. Enquanto saa do quarto de banho, sua silhueta, projetada pelo abajur que seencontrava detrs dela, danava de maneira inquietante sobre o cho e as paredes. A irregularluz se movia e se refletia na muito brilhante mogno do armrio e o penteadeira. um pouco 
antes, Annie no se tomou o tempo necessrio para olhar atentamente o dormitrio. Naquelemomento viu que, como o homem que o habitava, o aposento era austero, quase elegante emsua simplicidade: os mveis eram convencionais e slidos, e as cortinas e colgaduras sbrias. 
No estava muito segura, mas sob a dbil luz as paredes pareciam de cor nata, e as cortinastambm, lhe recordando as camisas de seda do Alex. Em efeito, banhado pela luz do fogo,
aquele quarto parecia ser um reflexo dele, slido e sereno, pintado com tons escuros, 
brilhantes e com um matiz dourado, leonado. 
Estava frente  chamin, com um brao apoiado sobre o suporte, a cabea inclinada, uma dasbotas descansando sobre um pequeno monto de lenhos que se encontrava em um dos 
extremos do lar de pedra. O olhar do Annie se posou em seus ombros e em suas largas costas,
onde a camisa, estirada pelo brao elevado, amoldava-se como uma segunda pele aosmsculos que conformavam o torso. Ao observ-lo, recordou sua fora e a facilidade com a quepodia domin-la. Mas, ao tempo que estas lembranas se deslizavam em sua mente, recordoutambm sua doura, as muitas vezes que a havia meio doido com uma carcia to suave que adeixava sem respirao.
Como uma mariposa atrada pela luz, dirigiu-se para ele. O corao lhe pulsava com tantafora que me chocava contra suas costelas. Com cada passo que dava, uma vocecita lhe 
sussurrava dentro da cabea: "Uma vez ali, no poder voltar atrs. Uma vez ali, no poder 
voltar atrs". Mas a deciso j estava tomada. E ento se perguntou por que teria demoradotanto em decidir-se. Algumas costure eram inevitveis, e ela sabia instintivamente que ter a 



aquele homem em sua vida era uma delas.
Alex elevou a vista quando a mulher se aproximou dele. Como tinha feito j tantas vezes,
Annie o olhou aos olhos e pensou no mel, na luz, no amor. Seus olhos eram de uma quente corcastanha, to intenso e claro que poderia perder-se neles. Como o caramelo que tantogostava, aqueles olhos a chamavam de maneira irresistvel, tentando-a, enchendo a de um 
desejo que, at ento, tinha temido reconhecer. deteve-se justo quando se encontrava a unspoucos passos dele, sabendo perfeitamente que a curta distncia que os separava no seriasuficiente para salv-la, no necessariamente dele, mas sim dela mesma.
Seus olhos... Aquela noite, algo mais que o habitual calor se refletia naquelas profundidades decor mbar. percebia-se uma terrvel e profunda tristeza. Isto fez que ela se aproximasse um 
passo mais, que se aferrasse a ele com fora. Tocou a manga da camisa do Alex com seus 
trmulos dedos. Seu corao suspirava por ele. Movendo o brao sobre o suporte da chamin,

o homem se voltou completamente para ela. A camisa aberta deixava ver seu peito peludo eseu duro ventre, cujas bem cheias superfcies se viam claramente definidas pela luz daschamas e as sombras. A pele reluzia como se tivesse banhado seu corpo em bronze. Annie 
queria toc-lo para sentir sua pele, mas fazer isto equivaleria a saltar a um precipcio e temia 
muito as conseqncias para tomar-se semelhantes confianas.
Alex no tinha o mesmo problema. Enquanto a observava, uma das comissuras de seus firmeslbios se elevou ligeiramente e alargou a mo para lhe acariciar a bochecha com os ndulos.
Naquele instante, ao Annie pareceu que o ar que havia entre eles se eletrizou tanto que o roceda pele daquele homem contra a sua produziu uma descarga. Enquanto os ndulos do amadobaixavam com toda suavidade para o pescoo, a jovem aspirou profundamente, como se 
acabasse de sair de debaixo da gua.
O sorriso do Alex se fez mais profunda e seus olhos adquiriram um brilho especial.
-Parece uma mrtir crist a ponto de enfrentar-se aos lees. 
Annie franziu o cenho ligeiramente, pois no entendia muito bem o que ele tinha querido lhe 
dizer. 
-Faz j muito tempo, os cristos eram condenados a morte por suas convices religiosas -
lhe explicou Alex-. Neste momento parece uma mrtir que tem medo de ser devorada emqualquer instante. -Roou o lbio inferior do Annie com seu dedo polegar-. Acaso est 
resolvida a te sacrificar por uma causa, carinho? por que tenho a sensao de que eu sou essa 
causa? 
Envergonhada de que ele pudesse interpretar seus gestos com tanta facilidade, Annie baixou a 
vista. Quando voltou a elev-la, o sorriso do Alex se desvaneceu e os msculos de sua cara se 
haviam posto tensos. Olhou-a fixamente durante vrios segundos, que se fizeraminterminveis para a moa.
-Est tremendo de novo, e sei perfeitamente que no  de frio. 
Annie no podia negar o que era evidente. Estava tremendo, e, efetivamente, no porque 
tivesse frio. Estava nervosa. Terrivelmente nervosa. E tinha algo mais que um pouco de medo.
Embora sabia que Alex nunca lhe faria mal a propsito, isto no lhe servia de consolo quandorecordava a terrvel dor que sentiu com o Douglas.
De repente, notou a boca to seca como a erva queimada pelo sol.
-Pediu-me que pensasse na possibilidade de... -As palavras que queria dizer lhe escaparamda mente. Como se fazia referncia a um ato semelhante? Alex o tinha chamado "intimidade 
especial" e "fazer o amor", mas estes trminos lhe pareciam muito explcitos para repeti-los-.
J pensei nisso. -Rematou a frase sem muita convico, rogando que ele entendesse o quesignificava "isso"-. Recorda? Esta tarde me pediu que o pensasse. 
Sem apartar a mo de seu pescoo, ele comeou a acarici-la com delicada suavidade sob 
uma orelha. A pele da jovem era to sensvel naquele ponto, que cada roce das gemas de seusdedos prendia fogo a suas terminaes nervosas. Tragou saliva, dando-se conta muito tarde de 
que seu dedo polegar lhe estava apertando ligeiramente a laringe.
-E, como sabe que estou triste, decidiste me conceder o que te peo... 
Annie quis negar com a cabea, mas ele o impediu de agarrando-a-a queixo. O olhar do Alex seencontrava obstinada  sua, com tanta fora como a que guardava em seus braos.
-Ao menos sejamos sinceros. Se comear a disfarar a verdade para no ferir meussentimentos, e eu fao o mesmo para no ferir os teus, quando nos dermos conta, teremosuma montanha de mentiras piedosas erguendo-se entre ns.
-Mas eu quero...
O a interrompeu uma vez mais, esta vez levando um dedo a seus lbios.
-No, Annie, no quer.  a pura verdade. -Sob a luz das chamas, seus olhos, normalmente 
to claros, voltaram-se opacos-. depois do que te passou, no espero absolutamente que 


queira consumar a unio fsica. Esta tarde te pedi que considerasse a possibilidade e queconfiasse em mim o suficiente para me dar a oportunidade de lhe ensinar quo maravilhosopode ser isso entre ns. Isso  tudo. S uma oportunidade. Nunca esperei que viesse a mebuscar ardendo de desejo ou querendo estar comigo neste mesmo instante.
Como se esta idia lhe parecesse graciosa, ele seguiu olhando-a, curvando ligeiramente umadas comissuras de sua boca. 
-Bom, j o pensei! -Estava um pouco ofendida, pois ele parecia estar rendo-se a seus gastos-. E decidi te dar a oportunidade de me ensinar isso La peinaba con movimientos largos ylentos, con sus manos grandes y callosas. El calor emanaba tanto del fuego como de l. Annieentorn los ojos, y su cuerpo, completamente relajado, se mova al cadencioso ritmo delcepillo. Cuando las hmedas puntas de su pelo empezaron a secarse, Alex procur levantar elcepillo cada vez que lo pasaba por su cabello, separando los pelos Y dejando que volvieran acaer lentamente sobre los hombros. Annie miraba la luz del fuego a travs de un veloazabache en constante transformacin, sintindose extraamente somnolienta Y alejada de larealidad. 

-por que?
-Bom, pois... -Annie lambeu os lbios e fixou o olhar na depresso da base de seu pescoo-. 
Porque eu... -interrompeu-se e voltou a olh-lo aos olhos. 
-Porque sabe que eu estou muito aborrecido? E porque se sente obrigada a faz-lo? -Negoucom a cabea-. Annie, tesouro, tomaste a deciso correta, mas por motivos errados. -Comum sorriso que no alterou a intensidade de seu olhar, alargou a mo para lhe tirar a toalha dacabea-. Acredito que esperarei at que venha a me buscar pelos motivos apropriados. por 
agora, vamos secar te o cabelo antes de que te resfrie. -Fez-lhe gestos para que se sentasse 
na catapora frente  chamin. Logo, foi procurar uma escova do penteadeira. Quando voltoupara seu lado, brincou-. No franza o cenho. Te enrugar a frente. 
em que pese a tudo, Annie no pde menos que franzir o cenho. Embora sabia que era umateimosia, estava irritada e algo ferida. Por motivos errados, havia-lhe dito ele. E ento querazes consideraria que eram as apropriadas? Queria-o e se preocupava com ele. Alex sesentia triste aquela noite, e ela queria aliviar suas penas. Que melhores motivos poderia ter?
P-lhe uma mo no ombro, obrigou-a a sentar-se na catapora e logo se sentou a seu lado. 
colocou-se de tal maneira que a camisola ficou apanhado baixo um de seus ps, o que fez quesentisse uma incmoda tenso nos ombros. Demorou um momento tentando desenredar-se. 
Quando finalmente conseguiu ficar cmoda e voltou a elevar a vista, Alex empreendeu a tarefa 
de lhe escovar o cabelo. Esperando que tropeasse com obstculos inesperados e fizesse quelhe saltassem as lgrimas pelos puxes, como sempre ocorria com sua me, Annie ficou tensa 
ao princpio. Mas a delicadeza daquele homem logo obteve que se suavizasse a rigidez de seu 
pescoo e seus ombros. 
Penteava-a com movimentos largos e lentos, com suas mos grandes e calosas. O caloremanava tanto do fogo como dele. Annie entreabriu os olhos, e seu corpo, completamente 
depravado, movia-se ao cadencioso ritmo da escova. Quando as midas pontas de seu cabelo 
comearam a secar-se, Alex procurou levantar a escova cada vez que o passava por seucabelo, separando os cabelos E deixando que voltassem a cair lentamente sobre os ombros. 
Annie olhava a luz do fogo atravs de um vu azeviche em constante transformao, sentindo-
se extraamente sonolenta E afastada da realidade. 
Quando ele finalmente deixou de lhe escovar o cabelo, sentia tal preguia que no queria 
mover-se. Uma parte de lenha rodou para frente, lanando uma orvalhada de fascas. Elaquase podia ouvir o estalo da resina E o chiado das chamas. Apoiando seu peso sobre umamo, Alex lhe apartou o cabelo da cara E lhe buscou os olhos. Annie sentiu que havia algo queele queria -ou, melhor dizendo, precisava-dizer. Via-o na rigidez de seus rasgos, no firmemarco de sua boca, em seu cenho ligeiramente franzido. 
-O que acontece? -perguntou ela finalmente.
O olhar do Alex se apartou. Durante vrios segundos, ele ficou olhando fixamente o fogo. Oanguloso rosto se iluminava com a luz mbar, E seus firmes rasgos pareciam gravados pelassombras. Apertou a boca E tragou saliva vrias vezes, como se estivesse a ponto de falar. Mas 
uma E outra vez, ao final, guardava silncio.
Annie se inclinou para frente para lhe agarrar a mo. Nesse momento, ele fechou os olhos 
apertando-os com fora.
-Necessito... -Sua garganta se movia como se as palavras lhe tivessem obstrudo na laringe-. Quanto ao que passou esta noite... com o Douglas E todo o resto... lhe preciso explicar issoNo quero que pense que, para mim, ele poderia ser mais importante que voc, E sei que isso 
 o que pde ter acreditado esta noite. 



Ele a tinha pego do queixo pelo menos umas cem vezes para fazer que o olhasse  cara. Annie 
fez o mesmo naquele instante. Ao sentir sua mo, ele abriu os olhos, aparentemente surpreso.
Seu olhar, escurecida com sentimentos que ela no poderia definir exatamente, cruzou-se coma do Annie E pinou a fundo. 
-Qu-lo -disse ela-. O fato de que faa coisas ms no quer dizer que j no te importe. Eu 

o entendo perfeitamente.
-O no se merece meu afeto, de maneira nenhuma. 
-Meu pai tampouco se merece o meu, mas eu o quero de todos os modos.
Enquanto ela terminava de falar, ele dirigiu seu olhar para a do Annie, com uma ligeira
expresso de desconcerto no rosto, como se tivesse ouvido as palavras mas no pudesse as
entender de tudo. 
-No sei por que, mas sempre supus que queria a seu pai porque no ficava mais remdio. 
Annie abraou seus joelhos e sorriu. Esta confisso, em lugar de contrari-la, fez-lhe graa.
-Sou surda, no estpida.
Lhe respondeu com um sorriso. A admirao que se refletia em seus olhos era incondicional.
-Me alegro de que comece a entend-lo.
-Est trocando de tema. 
- verdade, no te escapa uma.
-Me foste explicar algo a respeito do Douglas e o que ocorreu esta noite.
-S queria que soubesse que, embora parecesse justamente o contrrio, ele nunca ser para
mim mais importante que voc. Por nenhum motivo. Mas acredito que por esta noite j 
falamos o suficiente sobre esse tema. Alterou-te tanto ao v-lo, que no acredito que falar dele 
seja BOM NEM para ti nem para o beb.
-O beb e eu estamos perfeitamente bem. Voc est aborrecido e eu quero te ajudar. H algo 
de mau nisso? 
-No, certamente que no.
-Bem, e ento? Eu me ofereci A... -interrompeu-se e fez gestos difceis de interpretar-. A
estar contigo, e meus motivos no lhe parecem slidos. Agora te nega a falar do que se 
preocupa. Como posso te ajudar se no me permitir isso? 
Alex sorriu levemente. 
-Parece-te que estou pouco disposto a cooperar, verdade?
-Muito pouco disposto.
-Peo-te perdo. -Pareceu refletir a respeito da acusao. Logo, seu sorriso se fez mais 
profunda-. Suponho que te estou causando problemas, no  verdade? 
Ela assentiu com a cabea. 
-Ao fim e ao cabo, tudo se reduz a decidir entre estar juntos fisicamente e falar. Estou no 
certo? -Levantou as leonadas retrocede-.  lombriga frente a este ultimato, escolho o 
primeiro.
Annie franziu o cenho. 
-Como? 
-Escolho o primeiro -repetiu-. No tenho vontades de falar de meu irmo. A nica
alternativa que fica, ento,  estar juntos, o qual  algo que sempre tenho vontades de fazer.
No h nenhum problema.
Annie enrugou a frente. Ao ver a expresso de seu rosto, os ombros do Alex fizeram um
movimento brusco pela gargalhada que soltou, e um brilho pcaro apareceu em seus olhos.
-me corrija se me equivocar, mas acredito que seu entusiasmo est minguando. Pensei que
queria fazer que me sentisse melhor. me acredite, Annie, estar contigo  a melhor maneira de 
obt-lo. 
-Covarde. 
rodeou-se com um brao o joelho que tinha levantada.
-Nesse caso, acredito que o trmino se aplica aos dois. Possivelmente devamos nos agarrar 
das mos e nos enfrentar juntos a nossos fantasmas, no?
Annie agarrou a mo que pendia sobre o joelho do Alex.
-Voc primeiro.
Alex jogou a cabea para trs e soltou uma gargalhada. De algum jeito, ela soube que este era
um som forte e profundo, a classe de risada que a teria animado plenamente se tivesse podido
ouvi-la. Quando seu alvoroo decaiu, o homem ps sua mo de barriga para cima para
entrelaar os dedos dela com os seus.
-Eu primeiro, n?  fantstica, Annie. Faz duas horas me sentia como se algum me tivesse
feito pedaos as tripas com uma adaga, e agora me est fazendo rir.
-No o hei dito em brincadeira. 


O ficou srio de repente.
-No, suponho que no. -Olhou-a um momento-. Em realidade, est-o dizendo a srio, no verdade? Se tomar a palavra, est preparada para permitir que eu te faa o amor? 
-No precisamente preparada, mas sim estou disposta.
O estreitou sua mo com fora. 
-Isso significa muito para mim. O fato de que confie em mim at o ponto de correr um riscocomo esse, significa muito mais do que posso expressar com palavras.
Annie sentiu uma dor intensa na garganta, como se a deixasse totalmente fechada.
-Eu gostaria que voc tambm confiasse em mim, ao menos um pouco.
O suspirou profundamente e fechou os olhos.
-Ai, Annie. No  que no confie em ti.  s que... bom, que no sabe o que me est pedindo.
-Abriu os olhos para olh-la-. Falar... parece muito singelo. Mas no o . Meus sentimentospara o Douglas no so nada singelos e, em parte, eles so produto de algo que passou faz 
muitos anos. 
-O que? 
Um msculo de sua mandbula se moveu nervosamente, e estreitou a mo do Annie com tanta 
fora que lhe produziu uma sensao quase dolorosa.
-Eu matei a nossos pais. A meu pai e  me do Douglas, Alicia. Eu os matei. Eu tenho a culpade que Douglas ficasse rfo quando tinha apenas seis anos. Tenho a culpa de tudo.
Annie no esperava uma confisso semelhante. ficou olhando-o com incredulidade, aniquilada,
convencida de que certamente tinha lido mal suas palavras. A expresso de aflio de seurosto lhe manifestou justamente o contrrio.
-Ai, Alex... 
Alex apertou sua mo com mais fora ainda.
-No o fiz de propsito. Foi um acidente. Mas o resultado foi o mesmo que se lhes tivessepontudo  cabea com uma pistola e tivesse apertado o gatilho: os dois morreram. A culpa meafligiu... -Respirou fundo e logo soltou o ar lentamente-. Por Deus! Nunca me deixou livre. 
passei os ltimos quatorze anos de minha vida tratando de ressarcir ao Douglas de todo isso, e 
olhando as coisas agora, com distncia, acredito que em realidade lhe fiz muito dano. 
Annie no tratou de soltar sua mo da do Alex. Apesar de toda a dor que lhe causava a foracom que ele a estava apertando, temia distrair sua ateno ao mover-se e que por isso 
deixasse de falar. Como se finalmente se quebrado um dique, toda a amargura comeou a saira fervuras de seu interior. Logo que fazia pausa entre as frases para tomar ar enquanto lhefalava do acidente em que tinham morrido seu pai e sua madrasta.
-Eu tinha dezesseis anos quando o acidente. Acabava de comear meus estudos 
universitrios no Portland e tinha voltado para casa durante o vero para trabalhar com meupai na pedreira. -ficou calado um momento. As lembranas faziam que seu olhar parecessecada vez mais ausente-. Os meninos dessa idade... bom, eu me sentia muito seguro de mimmesmo aquele vero. Todo aquilo era embriagador para mim: retornar a casa da universidade,
trabalhar junto a homens adultos, o fato de que meu pai pedisse minha opinio a respeito deassuntos de negcios. -Sorriu ligeiramente e moveu tristemente a cabea-. Era a primeiravez que ele me tratava como um adulto. Eu tomava parte em tudo. Estava em uma equipe de 
trabalho. Ajudava a fazer pedidos. Queria demonstrar minha valia. Entende? Via todo aquilo 
como uma espcie de prova que aprovaria ou suspenderia, e os pontos que conseguia eramuma medida de minha maturidade. 
Annie no entendia plenamente, mas captou o essencial do que ele estava dizendo e assentiucom a cabea, desejando de todo corao que o sorriso do Alex se estendesse a seus olhos.
Mas o nico que via naquelas profundidades de cor mbar era dor. Uma terrvel dor que oacompanhava desde fazia muito tempo.
-Por volta de finais de junho -prosseguiu Alex-, todos estavam muito entusiasmados porquese aproximava o Dia da Independncia e pelos festejos que foram ter lugar no povo. Napedreira tnhamos acesso a explosivos de todo tipo, e alguns homens comearam aexperimentar com a inteno de fabricar seus prprios petardos. -Ao ver uma expresso dedesconcerto no rosto do Annie, explicou-lhe rapidamente o que eram os petardos, descrevendo 
a forte exploso que um deles podia ocasionar-. Bom, uma coisa levou a outra e, como os 
homens so como somos, comearam as brincadeiras na pedreira. Um dia, quando eu estavano privada, meu pai acendeu um petardo caseiro e o atirou atravs da porta. Explorou justo a 
meus ps e o susto fez que me...
Sua cara adquiriu uma cor vermelha apagada e se Rio com pena. Imaginando-o que deveu terpassado, Annie no pde menos que sorrir. J fazia bastante tempo que um som forte no aassustava, mas ainda podia recordar a sensao que produzia. 



-Digamos simplesmente que o susto me ps de mau gnio -disse ele-. depois disto, nopodia pensar mais que em lhe gastar uma brincadeira a meu pai para me vingar dele; de serpossvel, queria lhe gastar uma maior. -O sorriso lhe apagou da cara de repente e a tristeza 
voltou a apropriar-se de seus olhos-. Uns dias depois deste sucesso, um dos homens que 
trabalhava para meu pai se voltou muito engenhoso com o p negro e criou um diminuto 
explosivo que meteu em meio de um pequeno monto de papis. depois de fazer explorarvrios desta maneira, fez um que meteu no extremo do charuto de um de seus colegas de 
trabalho. Mais tarde, quando o homem acendeu o puro, no alcanou a dar mais que umaspoucas impregnadas antes de que lhe estalasse na cara. Isto me pareceu incrivelmentedivertido, e como meu pai estava acostumado a fumar charutos, decidi colocar um destes 
explosivos em um deles. Era uma brincadeira inocente. No pensava lhe fazer danifico. Tudo oque queria era lhe dar um bom susto.
Annie sentiu que lhe parava o corao ao ver a expresso de angstia que se apropriou de seu 
rosto. 
-Como queria agarr-lo completamente despreparado, esperei at chegar a casa para colocar 

o explosivo em um dos charutos que guardava em seu estudo. Supus que uma tarde, enquantoestivesse levando a contabilidade, acenderia um charuto e este exploraria imediatamente. -
Olhou-a aos olhos, sem mover-se nem pensar-. Mas no foi assim como aconteceram as 
coisas. Ele recebeu um novo pedido de charutos e os guardou em sua cigarreira. Como eu nosabia que ele os reorganizava cada vez que recebia um encargo, pondo os charutos novosdebaixo dos velhos, acreditei que o que tinha o explosivo devia encontrar-se no fundo dacaixa. Passaram uns quantos dias e esqueci todo o relacionado com a brincadeira. Uma tarde, 
um amigo da famlia convidou a meu pai e Alicia a ir a sua casa. Meu pai pediu que lhe 
trouxessem a calesa. Eles se montaram no veculo. Douglas e eu samos ao alpendre para lhes 
dizer adeus com a mo. 
A angstia se ia dando procurao do rosto do Alex. Annie podia adivinhar o que ele estava aponto de lhe dizer, e no queria mais que estreit-lo entre seus braos para aliviar sua dor.
Mas, se o fazia, no poderia lhe ler os lbios, de modo que teve que contentar-se agarrando o 
da mo. 
-Justo antes de que alargasse as mos para agarrar as rdeas, meu pai acendeu um charuto.
Deu-lhe uma larga imerso. De repente, ouviu-se uma forte exploso e os cavalos sedesbocaram. Quando todo aquilo terminou, tanto ele como minha madrasta tinham morrido. -
lhe soltando as mos, ps as suas de barriga para cima e olhou fixamente sua Palmas, como sepudesse encontrar alguma resposta nelas-. Eu os matei.
Ela voltou a lhe agarrar as mos. 
-Foi um acidente. 
Alex negou com a cabea.
-Os acidentes no podem evitar-se. Isso sim pde evitar-se. Se eu no tivesse sido to tolo,
to desconsiderado, nada teria passado.
-No era sua inteno fazer machuco a ningum.
-Mas o certo  que eles morreram. -ficou olhando o fogo durante comprido tempo. Quando 
finalmente voltou a dirigir o olhar para ela, havia uma espcie de portinhas sobre seus olhos, 
como se tivesse encerrado seus sentimentos dentro dele-. No lhe contei isso para que sintacompaixo por mim, Annie. S queria que... que pudesse entender melhor as coisas. Tudo o 
relacionado com o Douglas. Com o fato de que lhe tivesse dado dinheiro esta noite. Queriamand-lo a fritar aspargos. De verdade. Mas no pude -negou com a cabea-. Sempre mepassa o mesmo. Nunca posso lhe dizer que no. Porque me sinto culpado. Possivelmente se 
no o tivesse mimado tanto, ele no seria o homem que .
Annie apertou os lbios contra os ndulos do Alex e fechou os olhos, desejando de todocorao poder fazer retroceder o tempo e trocar as coisas para que tudo fosse melhor. Quandovoltou a olh-lo, viu em seus olhos uma expresso ausente, e soube que Alex se encontravalonge dela, sumido em suas lembranas. 
-Desde dia da morte de nossos pais, no fiz mais que pensar em compensar ao Douglas. Oera um menino assustado, um rfo, e eu tinha a culpa de tudo. Nunca podia esquecer isto,
nem tampouco me perdoar a mim mesmo. Anos depois, quando ele cresceu e comeou a fazertravessuras cada vez mais graves, senti-me culpado de que meu pai no estivesse ali paradisciplin-lo e lhe dar exemplo. De maneira que tambm tratei de compensar esta ausncia.
Dava-lhe tudo o que queria. Permitia-lhe fazer tudo o que gostava. Tirava-o de apuros cada vezque se metia em confuses. Em poucas palavras, matei a seus pais e logo o estraguei. Douglas o que  hoje em dia, porque eu agradei at seus mais mnimos caprichos durante quase todasua vida. 


No podendo suportar v-lo naquele estado, Annie agarrou seu rosto entre suas mos. 
-No! -Exclamou a jovem-. Sinta-se culpado do que ocorreu a seus pais, se te empenhar 
nisso, mas no do carter do Douglas. O fato de que uma pessoa seja consentida no aconverte em algum to cruel como ele.
-Sinto-me culpado de que ele te tenha feito mal -confessou ele-. Para ento, j estavacomeando a suspeitar quo malvado era, especialmente quando bebia, mas me neguei aconfront-lo. Se o tivesse feito, possivelmente tivesse podido impedir o que aconteceu ascataratas aquele dia.
Posto que as palavras no pareciam alcan-lo, Annie rodeou o pescoo do Alex com seus 
braos. Ele a estreitou contra seu corpo, com tal fora que aquele abrao se voltou quasedoloroso. Ela sentiu o peito dele vibrar contra o seu. Soube, sem ver seus lbios, que lheestava dizendo: "Sinto-o". Uma e outra vez. Ela no queria que ele se fizesse tanto machuco asi mesmo. O que Douglas fazia... o que aconteceu com ela... nada disto era culpa dela.
Ao sentir que ele seguia falando, Annie se apartou ligeiramente e agarrou seu rosto entre as 
mos para poder v-lo. Lgrimas, brilhando com o reflexo dourado da luz da luz, rodavam porsuas bochechas. 
-Cada vez que penso nele te fazendo danifico, me d vontade de vomitar. O solo feito de 
pensar nele te tocando com suas asquerosas mos faz que queira... 
Annie no lhe permitiu terminar a frase. No pde suport-lo. Sem medir as possveisconseqncias, cobriu-lhe a boca com sua boca e o beijou com uma intensidade que asurpreendeu quase tanto como a ele. Todas as demais palavras que ele quis lhe dizer sederramaram dentro dela, com seu flego. Alex tinha um sabor doce e fresco. Seus lbios eramcomo seda mida. Recordando como a beijou aquele dia na habitao dos meninos, elaprocurou o contato das lnguas. No precisava ouvir para saber que ele tinha solto um gemido.
spero e entrecortado, saiu dele com tal fora que suas vibraes percorreram todo seu corpo.
Subindo uma mo pelas costas dela, agarrou-lhe o cabelo. Com a fora de sua mo, lhe fez 
jogar a cabea para trs e voltou a pr sua boca sobre a dela. 
Annie soube que o controle tinha passado  mos do Alex no momento em que o beijo se fezmais profundo. A repentina rigidez de seu corpo a ps muito nervosa. Sob suas mos, elasentiu que se esticava a carne que cobria os ombros do Alex. Os msculos de seus braostambm ficaram tensos, seu cerco formava uma banda inquebrvel em torno dela. Ao e fogo,
desejo e obrigao, posse e determinao, tudo isto ficou de manifesto atravs das mudanas 
que experimentava o corpo masculino.
Apertou sua boca contra a dela, e de repente suas mos pareceram estar em todas partes. Ascarcias eram febris e atrevidas. No havia nada delicado nelas. Annie teve a terrvel sensao 
de que ele tinha deixado de v-la como uma pessoa, de que, em um abrir e fechar de olhos,
ela se tinha convertido unicamente em um corpo. Um corpo que ele queria possuir.
Aquele no era o Alex que ela conhecia. Um desconhecido tinha ocupado seu lugar. 

CAPTULO 22 

Alex estava desabotoando a camisola de sua esposa e estava procurando provas na parte deabaixo, quando finalmente entrou em razo e se deu conta do que estava fazendo e comquem. Com o Annie. Deixou de beij-la. Com a cabea febril de paixo e os pensamentosembrulhados, piscou e olhou a seu redor. Pouco a pouco, voltou para a realidade. No cho? PorDeus! Quando viu o que tinha estado a ponto de fazer, um calafrio lhe percorreu o corpo,
sacudindo-o como se lhe tivessem jogado um jorro de gua geada.
Respirava entrecortadamente e tratou com todas suas foras de recuperar o domnio de si 
mesmo, tarefa que nesse momento lhe parecia titnica. O desejo. Ardia em suas vsceras comoum carvo quente. Em suas tmporas, o pulso comeou a golpear como um marteloreservatrio de gua Com cada pulsado, quer dizer cada martelada, sentia uma dor detrs dos 
olhos parecido ao de uma punhalada. Piscou e tentou enfocar com claridade seu pequenorosto, concentrar-se nela e s nela; uma garota doce, assustada e em avanado estado degestao, que no s se merecia que a tratassem com suavidade, mas tambm tambm onecessitava. 
De algum jeito, ele a tinha posto sobre seu regao. Seu joelho levantado servia de apio  
costas dela. O brao ao redor de seu ventre inchado era a ncora que a sujeitava com firmeza. 
Baixando a vista, viu que lhe tinha subido a camisola at os joelhos, que tinha estado 
perigosamente perto de tocar tesouros proibidos. Tragou saliva e levou uma mo trmula aodesgrenhado cabelo do Annie. Sob as gemas de seus dedos, o cabelo da moa parecia sedaaquecida pelo sol. Seus olhos, grandes e receosos, apartaram-se rapidamente da mo do Alex 



para posar-se em seu rosto. Era evidente que ela temia o que ele pudesse fazer depois. E comtoda a razo, pensou Alex. Um par de segundos mais e a teria convexo de barriga para cima 
para abrir as portas de sua maravilhosa intimidade. 
-Annie -sussurrou Alex com voz vibrante-, sinto muito. No queria te assustar, carinho.  s 
que... -interrompeu-se. No estava muito seguro do que devia dizer; no sabia se tinha queser brutalmente sincero ou lhe mentir para no assust-la ainda mais. Ao final, optou pelasinceridade. A jovem tinha sido afastada da realidade durante muitos anos, e ele no podiaseguir lhe fazendo o mesmo-. Te desejo terrivelmente. Faz j vrias semanas que te desejo. 
Quando um homem est perto de uma mulher durante um perodo to comprido de tempo,
como eu o estive que ti, e nunca pode... -Sua voz se foi apagando-. O sinto. O desejo medominou durante um momento, isso  tudo, e quase perco o controle.
Alex esteve a ponto de lhe prometer que no permitiria que isto voltasse a passar, mas se 
conteve. A verdade era que poderia acontecer de novo. Era muito prazenteiro abra-la. Tudo 
em lhe tentava, do rosa translcido das pequenas unhas de seus dedos at a brilhanteumidade de seu carnudo lbio inferior. Nunca tinha desejado tanto a uma mulher.
Lentamente -muito lentamente para ele-, o medo desapareceu de seus belos olhos. Alex lhesorriu, sentindo-se mais que aliviado de que lhe devolvesse o sorriso. Annie ainda estava 
insegura e um pouco alterada, mas parecia disposta a lhe outorgar o benefcio da dvida.
Graas a Deus. 
sentia-se como um vil canalha. Acariciou-lhe a bochecha e a olhou fixamente aos olhos. 
-Sem dvida nenhuma, foi o beijo mais doce que me deram na vida. Sinto muito te haver 
acossado dessa maneira. No te tenho feito mal, verdade? 
Com um pouco de vacilao, ela negou com a cabea. O pde ver que ela estava tremendo, e 
esta vez no podia jogar a culpa ao Douglas. Acariciando sua boca com extrema delicadeza, 
sussurrou: 
-Sei muito bem que no me mereo isso, mas me daria outra oportunidade? Esta vez farei oque  devido.
Os olhos do Annie se escureceram, por causa do medo ou da incerteza, no estava seguro.
Conteve a respirao, esperando a resposta. Quando ela assentiu com a cabea de maneiraquase imperceptvel, Alex esteve a ponto de soltar um grito de alvio, o qual no teria sidoapropriado absolutamente, tendo em conta que no lhe iludia muito aquela promessa.
-Obrigado.
O marido acariciou de novo a preciosa boca da mulher com o polegar. Lhe fez um n noestmago ao ver que seu lbio inferior parecia estar ligeiramente inchado. Era muito provvelque ele tivesse apertado sua boca contra a dela, embora no recordava claramente ter feito talcoisa. Que galante era! Com um pouco de estmulo, tinha ido a por ela como um urso embusca de mel. 
Tinha muitas coisas que melhorar, sem dvida alguma. Mas soube de uma maneira instintivaque no devia deixar aquela tarefa para mais tarde. Se lhe dava muito tempo para refletirsobre o comportamento que ele tinha tido, o mais provvel era que a perspectiva de fazer oamor lhe inspirasse muito mais medo. O que menos necessitava naquele momento era teroutro obstculo que saltar.
Com toda doura, Alex baixou a mo ao pescoo do Annie, posando as pontas dos dedos sobre 
sua nuca. Depois de levar a gema do dedo polegar debaixo de sua frgil mandbula, fez-lheelevar a cara. Inclinou a cabea e roou a boca dela com sua boca. Durante um instante, a 
moa ficou tensa, mas ao ver que ele no exercia maior presso nem atirava dela para 
estreit-la entre seus braos de novo, comeou a relaxar-se por fim.
Est-o fazendo bem. Mas no era to singelo como parecia. Desejava-a. Deus santo, quanto adesejava! Com febril urgncia. No havia nada de delicadeza em seu desejo, nem nada decavalheirismo nos pensamentos que lhe aconteciam continuamente pela cabea. Beijar seuspeitos at lhe fazer perder o sentido. Provar a melosa umidade que aninhava entre suas coxassedosas. Cravar a lana em sua superfcie escorregadia. Mordiscar brandamente sua boca, 
quando o que realmente queria era devorar at o ltimo centmetro de seu corpo, no era omais fcil que tinha feito em sua vida.
Entretanto, finalmente obteve uma generosa recompensa por seus esforos. A tenso foidesaparecendo lentamente do corpo do Annie e, como uma menina em busca de calor, 
apertou-se contra ele. Alex se armou de valor para no ceder ao forte desejo de aproveitar-sede seu aquiescencia. Ainda no, advertiu-se a si mesmo. Tinha que ganhar terreno palmo apalmo, no a passos aumentados. Do contrrio, voltaria a assust-la. Se o fazia, no poderiaalcanar seu objetivo final, que era lhe fazer o amor. No amanh. Aquela mesma noite.
De modo que a beijou. Devagar. Docemente. Como se isso fosse tudo o que queria fazer no 



mundo. Um minuto... dois... Beijos to suaves como um sussurro e que ele logo que sentia. 
Como o aveludado roce das asas de uma mariposa. Quando Annie finalmente rodeou seu 
pescoo com os braos, ele apertou a cara contra seu cabelo durante um momento, inalando 
seu aroma, sonriendo com ternura ante a forma confiada em que a mulher se amoldava a seucorpo. Contudo cuidado, Alex rodeou sua cintura com um brao, e abriu a mo sobre seu 
flanco, apertando-a cada vez com mais fora. As costas do Annie se apoiou sobre o brao doAlex, e ela jogou a cabea ligeiramente para trs. O homem lhe beijou o pescoo, como se 
tomasse o pulso com a ponta da lngua. E o batimento do corao era rpido e irregular. Sorriude novo, deleitando-se com aquela pequena antecipao do sabor de seu corpo, e pensandonos outros lugares que esperava beijar. Deu um passo para trs para que ela pudesse v-lo. 
-No quero que passe frio, carinho. me deixe jogar um pouco de lenha ao fogo. 
Com uma expresso algo receosa no rosto, ela piscou quando a desceu de seu regao. Alexficou em p rapidamente e jogou uns lenhos  chamin, empurrando-os brandamente com 
uma bota para p-los em seu lugar. Umas fascas saltaram do tiro do lar. Em seguida, aschamas se apoderaram da lenha. Alex se esfregou as mos contra as calas, para limpar-lhe 
ao tempo que se voltava para sua esposa, que se encontrava ajoelhada sobre a catapora, comum aspecto muito inocente para permitir que houvesse tranqilidade em seu esprito. Banhadapela lu2 dourada da luz, com sua camisola comprido e solto, e o cabelo como uma nuvem ao 
redor de seus ombros, ela parecia uma figura religiosa. Ou um anjo. Tenro, incrivelmente 
tenro. O sentiu como se estivesse a ponto de profanar algo sagrado, e no era esta a sensaomais adequada quando sua conscincia estava em guerra com a paixo contida. Anglico ouno, ele tinha a inteno de possui-la, e ao diabo com seus escrpulos!
Lhe estendeu uma mo. 
-Vem aqui, Annie, carinho. 
Annie lhe escrutinou os olhos como se pressentisse suas intenes. Alex se inclinouligeiramente e a agarrou dos braos. Sem lhe dar a oportunidade de escolher, atirou dela para 
que ficasse de p.
-No quero que tenha frio -lhe disse enquanto a aproximava do fogo.
Olhos azuis que refletiam a cor dourada da luz da luz... Ao olh-los, Alex aceitou que ela tinhatoda a razo ao no confiar-se nele. Dado seu comportamento fazia uns minutos, tinha sortede que a pobre no estivesse aterrorizada. Annie lhe tinha dado toda sua confiana, o qual notinha sido nada fcil para ela, e ele esteve a ponto de trai-la. Naquele momento, embora no omerecia absolutamente, estava disposta a confiar nele uma vez mais.
Tudo isto ao Alex pareceu entristecedor. A confiana era um presente, e, vindo dela, um queno tinha preo. Percorreu-a com o olhar. Em meio de seu arrebatamento de paixo de faziaum momento, tinha-lhe desabotoado a camisola, o qual lhe evitou a molstia de ter que faz-lonaquele momento. Com uma despreocupao que no sentia, desabotoou-lhe um dos punhos, 
e comeou a lhe tirar o brao da manga. 
-vamos tirar te isto, vale? 
O cotovelo ficou entupido na cava da camisola. Alex o liberou rapidamente. Logo centrou toda 
sua ateno na outra manga. Com a extremidade do olho, viu seus lbios movendo-se e soube 
que, embora quisesse, no podia ignorar seus protestos. Deixou o que estava fazendo paraescrutinar seu olhar. 
Alex falou agora com voz curiosamente dbil.
-Meu amor, se tiver medo e quer que me detenha, s tem que me dizer isso Al volverse, a 
Alex le dio un vuelco el corazn. Aunque ella hizo el valeroso intento de ocultar su cuerpo conlos brazos cruzados y las manos abiertas, poco pudo cubrir. Su visin era como un sueo, conel cuerpo desnudo baado por la luz dorada de la lumbre. Sus pezones de color rosa seasomaban a travs de las cascadas de pelo azabache que caan sobre los senos. Incapaz deresistirse, Alex alarg una mano para rozar con sus nudillos la sensible cima de los senos. Alsentir su caricia, ella se sobresalt como si le hubieran clavado un alfiler. 

Estava quase seguro de que isto era precisamente o que lhe tinha estado dizendo, at o
momento em que a olhou aos olhos. Mas ento no disse nada. Ele esperou, em meio da
angstia e da incerteza, resolvido a voltar a lhe colocar o brao na manga, lhe grampear o
punho e aceitar seu rechao de bom grau. Em lugar disto, ela elevou o queixo ligeiramente,
respirou fundo e ficou direita. -No, no te detenha. 
Alex sabia quanto lhe havia flanco dizer estas palavras. Para ele, fazer o amor com ela era a
culminao natural de seu desejo, mas certamente ela no sentia o mesmo.
-No o lamentar. Juro-lhe isso. 
No querendo prolongar aquele momento de tortura, rapidamente lhe tirou o outro brao da 
manga da camisola. 




-J est. 
inclinou-se, agarrou a camisola com as mos e, evitando deliberadamente olh-la aos olhos, 
comeou a lhe elevar a saia. No segundo ltimo, o valor a abandonou. Sabendo o assustadaque devia estar ela, Alex esperava que lhe opor ao menos uma resistncia instintiva. E quandoAnnie tentou recha-lo e agarrou a saia com todas suas foras, deu um puxo ao tecido e 
obteve que ela a soltasse. Com um movimento suave, passou-lhe o vestido pela cabea e otirou. 
Ao voltar-se, ao Alex deu um tombo o corao. Embora ela fez o valoroso intento de ocultar 
seu corpo com os braos cruzados e as mos abertas, pouco pde cobrir. Sua viso era como 
um sonho, com o corpo nu banhado pela luz dourada da luz. Seus mamilos de cor rosaapareciam atravs das cascatas de cabelo azeviche que caam sobre os seios. Incapaz deresistir, Alex alargou uma mo para roar com seus ndulos o sensvel topo dos seios. Ao sentirsua carcia, ela se sobressaltou como se lhe tivessem parecido um alfinete. 
Ele baixou a vista, dominado pela ternura que lhe produzia ver seus desesperados intentos por 
ocultar mais territrio do que suas duas mos podiam cobrir. Pela maneira em que ela serodeava o corpo com os braos, sups que a inocente moa no sabia que parte era maisimportante ocultar: seu proeminente ventre, seu umbigo ou o tentador tringulo de cabelo 
negro que aparecia no vrtice das coxas.
Ao final, rodeou-se o ventre com um brao e ps a outra emano sobre o umbigo; deciso queno deixava de ser embaraosa para ele. Mas no desaprovou o resultado. Nenhum homem 
em seu so julgamento desejava ver o umbigo de uma mulher quando tinha uma vista perfeita 
de... 
No encontrou a palavra adequada para designar aquele tentador arbusto de cachos negros. 
No passado, Alex, como a maioria dos homens, referiu-se a aquela parte do corpo da mulhercom pouco respeito. A lista de nomes que lhe davam era to abjeta como larga. Atrever-sesequer a pensar que uma s dessas palavras pudesse ter alguma relao com o Annie, 
pareceu-lhe um sacrilgio.
Elevou a vista para seu ventre inchado. Uma perversa curiosidade despertou nele enquantoobservava a mo que ela se ps sobre o umbigo. Estava muito claro que se empenhava em 
ocultar algo, mas ele no sabia o que. Todo umbigo era muito parecido a outros. Convocando-
se de vontades de saber o que lhe envergonhava tanto como para querer ocultar-lhe sentiu atentao de lhe apartar as mos.
Mas, dado o banquete que lhe estava dando a seus olhos, decidiu que podia deixar que agarota tivesse ao menos um segredo. No momento, em todo caso. Depois no haveria lugarpara secretos entre eles.
At rodeando seu corpo com os braos da maneira em que o estava fazendo, uma grandeparte de sua pele ficava ao descoberto. De cor nata, parecia luminescente sob a luz projetadapelo fogo. Pura seda reluzente. Ou uma folha tremente...
Alex se sobressaltou ao cair na conta de que sua amada estava tremendo. Dirigindo em 
seguida o olhar para a do Annie, viu nas profundidades de seus olhos que estava a ponto desair correndo. E com toda a razo. Ele a estava olhando boquiaberto, como um condenadoidiota. Por Deus! Desde o comeo, ele no tinha podido dirigir bem a situao, e, a julgar pelaexpresso de seu rosto, as coisas foram de mal em pior a passos aumentados.
Apesar de toda sua experincia com mulheres ao longo daqueles anos, de repente se sentiucomo um toco. Terrivelmente nervoso. Com uma voz que no era mais que um vibrantesussurro, tratou de desculpar-se.
-me perdoe por... haver ficado te olhando, meu amor.  s que... meu deus, Annie,  to 
formosa... Logo que posso...
O pequeno rosto da jovem ficou de cor vermelha escarlate. Alex lanou um olhar a seuproeminente ventre e a seus magros braos, que em vo tentavam ocult-lo. Imbecil! Mil vezesimbecil! Esteve a ponto de golpear-se na frente com o dorso da mo. Annie estava em 
avanado estado de gestao. Era do mais natural que no se sentisse bonita.
Mas o era. A criatura mais formosa sobre a que ele tinha posado os olhos, sem exceo 
alguma. Ento, diga-lhe maldito imbecil. Alex tratou de umedec-los lbios com uma lnguaque estava to seca como uma parte de carne-seca de vitela. No era muito hbil com as 
adulaes. Nunca o tinha sido. Por alguma razo sempre se havia sentido um pouco parvo 
quando tentava ser romntico. 
-Annie, no te complexe por seu ventre. me parece... bonito.
Os grandes olhos azuis da grvida ficaram brilhantes por causa das lgrimas. Alex no podiasentir a catapora sob seus ps. Jesus! Ao menos ele podia ver-se os ps.
-Carinho, seu ventre  formoso. De verdade. De fato, agora que podia observar seu tamanho, 



dava-se conta de que tambm era extraordinrio. Ela parecia estar a ponto de estalar. Sob a
mo que tinha sobre o umbigo, uma linha de plo negro descendia para a plvis. 
-Annie... 
O se aproximou ainda mais. Com mos repentinamente trmulas, secou-lhe as lgrimas que
corriam por suas bochechas, desejando de todo corao saber o que lhe dizer. No se podia
negar o fato de que estava disforme e desproporcionada. Mas isto no conseguia apagar seu
desejo. Pelo contrrio, aumentava-o, se  que isto era possvel. Sua esposa levava um beb no
ventre. Para ele, aquilo era um milagre incomensurvel. Se lhe dava uma oportunidade, ele
beijaria reverencialmente at o ltimo centmetro de seu corpo. Mas no sabia como 
convencer a disso. 
Alex pensou que possivelmente estivesse fazendo as coisas mau. Annie no era estpida.
Sabia que sua figura feminina se deformou temporalmente, e as palavras bonitas no
conseguiriam convenc-la do contrrio. Poderia ser mais proveitoso que tratasse a situao
como um assunto insignificante e tirasse o sarro para lhe tirar um sorriso. Se ele parecesse 
tomar-se seu embarao com calma, possivelmente ela tambm conseguisse relaxar-se a 
respeito.
inclinou-se para lhe dar um beijo na ponta do nariz e esboou um suave sorriso.
-Acabo de me dar conta de que h algo que se interpe entre ns.
Ela abriu os olhos com alarme. Logo piscou, derramando mais lgrimas sobre suas pestanas. 
Quase sem que Alex se desse conta, Annie lhe ps uma mo no centro do peito e o empurrou
com surpreendente fora. Despreparado, cambaleou-se. A moa, sem deixar de rodear seu
ventre com um brao, lanou-se a agarrar sua camisola. Alex a agarrou pela boneca justo 
antes de que recuperasse o objeto. 
-No faa isso, meu amor -lhe disse, obrigando-a a endireitar-se-. Por favor. 
Tentou soltar-se de um puxo. Cuidando de no lhe fazer danifico, Alex a sujeitou com firmeza. 
-Annie... Est-te levando como uma parva. Como se eu nunca tivesse visto uma mulher 
grvida nua. -Esta era uma das mentiras maiores que havia dito em sua vida-. E, embora
no me cria, penso que est preciosa. De verdade!
Os lbios do Annie comearam a tremer. Um instante depois, o espasmo se estendeu a seu
pequeno queixo. Alex esteve a ponto de deixar escapar um grunhido. lhe soltando a boneca, 
agarrou-lhe a cara entre suas mos e empreendeu a tarefa de beij-la para fazer desaparecer
as lgrimas. Em meio dos beijos, deu um passo para trs para que ela pudesse lhe ler os 
lbios. 
-Sinto muito, carinho. Perdoa-me? No quis ferir seus sentimentos. Acredito que est muito 
bonita. Juro-lhe isso. 
Ela quis liberar seu rosto das mos do Alex.
-No estou bonita. Feia. Estou feia. 
-Feia? No, carinho. As mulheres grvidas so... especiais. -Alex esteve a ponto de fazer 
uma careta detrs dizer estas palavras. Especiais? Um verdadeiro gnio com as palavras, isso
era ele-. Para mim, verte nesse estado ... 
-No viu meu umbigo!
Alex percorreu o arco de suas sobrancelhas com os lbios. E logo se tornou para trs. 
-Estou seguro de que seu umbigo  precioso.
-Sobressai-se. 
-O que? 
-Sobressai-se! 
Msculos diminutos comearam a mover-se debaixo de seus olhos, claro indcio para o Alex de
que ela estava a ponto de chorar. Era evidente que seu umbigo lhe incomodava. lhe parecia
que, tendo em conta a impressionante circunferncia de seu ventre, no era mais que um 
pequeno ponto.
-Sobressai-se? O que quer dizer com isso? 
-Que sai para fora!
-Como? 
-sai-se para fora! -repetiu ela.
Alex baixou a vista para olhar entre seus corpos. Seguro de que seu complexo o fazia exagerar
as coisas, apartou-lhe a mo para poder ver o umbigo em questo. Com a boca e o queixo
tremendo, Annie baixou a vista para a protuberncia. A ele lhe caiu a alma aos ps ao ver a
angstia que se refletia em seu rosto.
-No  to terrvel, carinho. 
-Feio, feio, feio! 
-No! Como pode ser feio um umbigo? Acredito que em certo modo ... -interrompeu-se, 




procurando a palavra adequada-: Adorvel. Isso, sem dvida; o umbigo mais formoso que viem toda minha vida. 
Sem pensar em como poderia Annie perceber o passo que estava dando, aproximou-a para ele 
e apertou sua cara contra o cabelo dela. Passou uma mo por suas sedosas costas, 
reconhecendo sua coluna com as inquisitivas gemas dos dedos. Fechou os olhos ao serinvadido por uma quebra de onda de satisfao. Estreit-la entre seus braos daquela maneira,
sentir a suavidade de seu corpo apertando-se firmemente contra ele, era o mais perto do cu 
que esperava chegar.
-No chore, Annie, carinho. 
Alex caiu de repente na conta de que estava sussurrando ao ouvido de uma surda. A frustraose apropriou dele, e deu um passo para trs para que sua mulher pudesse lhe ver a cara. Aosentir um movimento entre eles, baixou a vista e viu que a garota estava pressionando seuprotuberante umbigo com a gema de um dedo, tentado sem xito voltar a coloc-lo em seu 
lugar. Temeroso de que se fizesse mal, Alex lhe apartou a mo e cobriu aquele sitio com a sua.
A ternura o alagou ao olh-la aos olhos.
-Quando chegar o beb, seu corpo recuperar sua forma habitual -lhe assegurou-. Atento, carinho, me acredite quando te digo que est preciosa. Com seu enorme ventre, o 
umbigo para fora e todo -lhe acariciou o cabelo com uma emano-. Eu no te trocaria por 
nada. Nem trocaria nada de seu atual figura. Quo nico faria seria te pr um sorriso no rosto. 
Annie lhe lanou um olhar de incredulidade. Claramente, suas palavras no acabavam deconvenc-la. 
- absolutamente perfeita -lhe assegurou.
Ela enrugou o nariz e negou com a cabea de novo. Alex a soltou e deu um passo para trs e a 
desafiou. 
-Insgnia me uma s parte de seu corpo que no seja perfeita.
Ela quis rodear seu prprio corpo com os braos uma vez mais, mas ele o impediu deagarrando a das bonecas e lhe fazendo baixar os braos. Logo, com o corao lhe doendo de 
tanto amor como sentia, caminhou ostentosamente em torno dela para observ-la desde todosos ngulos. Quando voltou para ponto de partida e ficou de novo frente a ela, ficou em jarras,
desafiante, posou o olhar na cara ruborizada do Annie e disse com absoluta franqueza:
-, sem lugar a dvidas, a garota mais bonita e encantadora que vi em toda minha vida.
Annie ps uma mo sobre seu ventre inchado, apartando o olhar. Alex se inclinou para ela, de 
tal maneira que voltassem a ficar frente a frente. 
-Ponha junto a quarenta mulheres fracas, me d a possibilidade de escolher a uma, e sem 
dvida nenhuma escolherei a ti. 
Ela se sorveu o nariz e se recolheu com a mo uma lgrima antes de que casse. Ao Alexinteressava mais agarrar outra lgrima que j tinha cansado e tinha deixado uma brilhante 
esteira sobre um de seus peitos at alcanar o mamilo. 
-Digo-o a srio, Annie, carinho. -As escuras sombras que cobriam seus olhos lhe fizeramdesejar ter maior facilidade de palavra-. Quero a ti, e s a ti, tal e como est neste mesmo 
momento. 
A jovem deixou escapar um dbil som que saiu do mais profundo de sua garganta. Alex lhetendeu uma mo. 
-Vem aqui, meu amor.
Annie ficou olhando fixamente a palma de sua mo durante segundos compridos. Logo, 
finalmente a cruzou com seus dedos delicados. Alex no podia falar e, embora tivesse podidofaz-lo, duvidava de que conseguisse expressar as emoes que o embargavam. Depois deatirar dela para aproxim-la a seu corpo, envolveu-a em um abrao. Durante comprido tempo 
a estreitou daquela maneira. Sabia de forma instintiva que ela necessitava tempo paraacostumar-se  cercania fsica, que precisava saber que ele queria dela muito mais que s seu 
corpo.
E assim era... Necessitava muitssimo mais. 
Quando notou que Annie comeava a relaxar-se um pouco, acariciou-lhe um peito. Ela gemeu 
e conteve a respirao. Brandamente, com toda doura, Alex brincou com o mamilo, que aindaestava mido pelas lgrimas que se deslizaram at ele. A idia de estar lhe tocando o peito,
molhado por suas prprias lgrimas, aumentou sua excitao ao mximo. Abraou-a aindacom mais fora.
-Deus santo!  incrivelmente preciosa.
Sabia que ela no podia lhe ouvir, mas, por um momento, sua habitual sensao de frustraodeu passo a um vago alvio. Ao t-la entre seus braos daquela maneira, quase no podiapensar, e muito menos medir suas palavras. Compreendeu que lhe fazer o amor a uma surda 



tambm tinha suas vantagens.
-Deus, como te desejo! Possivelmente seja uma bno que no saiba quanto me excita, meu 
amor. 
Annie se acurruc contra ele, ignorante do que dizia. Alex sorriu ao pensar que se sua amadapudesse lhe ouvir sairia disparada imediatamente para a porta. Logo suspirou e mordiscou de 
forma brincalhona a orelha de sua esposa, que voltou a gemer de prazer.
-Ah, voc gosta, no  verdade? -Agora se dedicava a beij-la no pescoo-. Estupendo, pois 
vou amar te e a saborear cada centmetro de seu corpo desta mesma maneira. -Fechou osolhos e se dedicou a degustar aquela pele suave, levemente salgada, enloquecedora-. Ah, 
Annie, meu amor... 
Quando ela jogou a cabea para trs, beijou-a. Annie emitiu um ruidillo parecido a um lamento,
e seu doce flego se derramou sobre os lbios do Alex. O homem colocou a lngua na midaboca da amada, e logo a retirou, uma e outra vez, emulando o ritmo das relaes sexuais, 
imaginando o que sentiria ao introduzir-se de verdade dentro dela. Os msculos de suas coxas 
se esticaram ao acarici-la com irrefrevel desejo, gozando de sua suavidade, da aveludadatextura de sua pele. Sem poder conter-se, agarrou as ndegas do Annie e a atraiu para si. Ante 
essa inesperada manobra, ela ficou tensa e apartou a boca, deixando de lhe beijar.
Alex elevou a cabea, deslizando uma mo do quadril do Annie at suas costas, para estreitla 
contra seu corpo, em caso de que ela perdesse o controle. Pela expresso de seu rosto e asfortes pulsaes que percebia em seu pescoo, sabia que a moa se estava alterando, que 
possivelmente rememorava o ocorrido nas cataratas. No era de sentir saudades, e no lhe 
surpreendia.
A enormidade do que estava a ponto de fazer o deixou perplexo. Um movimento equivocado,
uma palavra equivocada... 
-Annie, carinho, no te farei mal. Prometo-lhe isso. 
O olhar cheia de medo da moa se cravou em seus olhos. Alex se sentiu como se se estivesse 
afogando. Tragou saliva, e o rudo dessa simples ao retumbou em seus ouvidos, o que eraclara amostra de seus estado de nervos. Queria que fosse uma experincia formosa para ela.
Queria apagar tudas as ms lembranas de sua mente e remplazarlos com outros, 
maravilhosos. 
inclinou-se, elevou-a em seus braos e a levou a cama. depois de deit-la contudo cuidado setirou a camisa e as botas. Ela atirou da ponta da enrugado colcha para ocultar a parte inferiorde seu corpo. Alex sorriu e colocou um joelho junto a seu quadril. Plantou as mos a ambos oslados de seu corpo e se inclinou para lhe fechar os olhos com um delicado beijo. Logo, 
comeou a beij-la todo o rosto, brandamente, devagar. Queria que ela se sentisse admirada,
amada. Sentia que Deus lhe tinha enviado um anjo e tinha que lhe comunicar esse sentimento.
Annie grunhia de prazer e sorria. 
Alex tambm sorriu, pois advertiu que ela seguia aferrando-se desesperadamente  colcha que 
tampava a parte inferior de seu corpo. Falou-a em sussurros, com a boca sobre suas plpebras 
fechadas. 
-Fecha os punhos com fora e no solte o cobertor. Convm-me que tenha as mos ocupadas.
-Passeou a boca pela maravilhosa bochecha, logo baixou aos lbios e depois ao pescoo-. 
Quando tiver terminado, ter-te esquecido por completo dessa colcha, prometo-lhe isso.
Seguiu seu caminho descendente. Lambia-lhe brandamente a pele, aproximando-se cada vezmais aos seios, aos mamilos que desde fazia semanas povoavam seus sonhos, seus desejos. 
Chegou a um deles. A areola, torcida e pulsando com fora com cada pulsado, pareceu-lhe develudo ao entrar em sua boca. Ao sentir o primeiro movimento da lngua masculina, o corpo doAnnie se estremeceu de cima abaixo. Agarrou-lhe o cabelo, como querendo apart-lo. Alexcompreendeu que a jovem era muito mais sensvel do que tinha imaginado, e redobrou seusdelicados lametones, disposto a lev-la a mais alta topo da excitao. Quando considerou queela j estava preparada, atacou-a com mais fora. Ela deu um grito afogado e arqueou o corpo,
entregando-se a ele. Gemidos de desejo brotavam de sua garganta. A respirao lhe acelerouenquanto ele a acariciava uma e outra vez com a lngua.
Esta vez ao Alex no importava que sua esposa soltasse quantos gritos de paixo quisesse. A 
porta estava fechada com chave, e todos os criados, incluindo o Maddy, dormiam no outro 
extremo da casa. A ele no s no importava, mas tambm preferia que gritasse, pois seuschiados lhe excitavam. Agarrando a palpitante ponta de um mamilo entre seus dentes, deu-lheum pequeno puxo. Ela comeou a ofegar imediatamente. Ofegos agudos e suaves que erampara o Alex um capitalista afrodisaco. Em seguida, como para no lhe dar tempo a que seesfriasse, centrou toda sua ateno no outro peito e lhe deu o mesmo tratamento. 
Quando ela finalmente agarrou as orelhas do Alex, ele soube que tinha obtido seu primeiro 



propsito. Ela estava to excitada, que ele duvidava que pudesse pensar com claridade, emuito menos sentir medo. Ento, e s ento, arriscou-se a colocar uma mo debaixo da colcha. 
Para grande surpresa do Alex, Annie abriu as coxas, acolhendo as carcias de sua mo. O 
homem procurou com toda cautela o doce centro de seu corpo, sonriendo para ouvi-la gemer 
de prazer. Como aparas de metal atradas por um m, as gemas de seus dedos localizaram o 
objetivo e se dirigiram para os cachos da entrepierna feminina. Com toda doura e cuidado, 
abriu as sedosas dobras. Sexo ardente. Umidade escorregadia. Ao sentir a invaso de seus 
dedos, ela sacudiu os quadris e lhe soltou as orelhas para incorporar-se sobre os cotovelos.
Delicadamente, Alex a obrigou a voltar a apoiar as costas sobre a cama. Com sua cara a 
escassos centmetros da dela, sustentou seu olhar, que agora voltava a ser de medo. 
-Confia em mim, Annie -lhe sussurrou com voz rouca-. O far? S uns poucos minutos. 
Logo, se quiser que me detenha, farei-o. Prometo-lhe isso.
Ela juntou suas delicadas sobrancelhas para franzir o cenho. Mas, ao final, assentiu com acabea para dar seu consentimento.
Atendido pelos nervos, Alex encontrou as sensveis carnes femininas. Com suaves carcias,
conseguiu excit-la, observando as sutis mudanas da expresso de seu rosto. Agrad-la eraseu nico interesse. Annie era o primeiro. Com ele, ela sempre estaria em primeiro lugar.
A mulher nem sequer pestanejou quando lhe tirou a colcha. Sendo um homem que nodeixava passar nenhuma oportunidade, Alex se aproveitou de sua alienao. Ps em jogo aboca e lanou um suave mas implacvel ataque sensual para tomar posse de seu tesouro 
ertico. 
Com o primeiro movimento de sua lngua sobre suas sensveis terminaes nervosas, ela 
deixou escapar um grito. Com o segundo, gemeu do mais profundo de sua garganta. Com oterceiro, aferrou o lenol que se encontrava debaixo de seu corpo, cravou os tales no colcho 
e arqueou os quadris para que ele tivesse fcil acesso a seu corpo. Seus agudos ofegos eguturais gemidos eram os sons mais doces que Alex tinha ouvido em toda sua vida.
-Sim, sim, Annie -sussurrou com a voz entrecortada-. te Entregue a mim. 
-Ahhh! -Ela elevou ainda mais seus quadris, lhe oferecendo o que estava procurando. Suarespirao era cada vez mais acelerada e superficial-. Ahhh! Ahhh! 
Alex comeou a fazer girar a lngua, com lentido e firmeza. Ela o agarrou do cabelo e 
empurrou para cima, excitada at um extremo inimaginvel. Acelerando o ritmo, fez-aalcanar seu primeiro orgasmo, e se maravilhou do sensvel e desinhibida que tinha resultado 
aquela excitante criatura.
Quando ela finalmente apoiou todo seu corpo no colcho, esgotada e tremente, Alex se afastous o tempo suficiente para tir-los calas. Ato seguido, apostou-se entre suas coxas e lhe 
agarrou os quadris com fora, abrindo-a com os suaves golpes de seu membro viril. Annie o 
olhou com um sorriso prazenteiro, mdio inconsciente, com os olhos ainda escurecidos deprazer. Rapidamente, sem lhe dar tempo de dar-se conta de suas intenes, entrou nela comtoda suavidade. 
Alex viu seus olhos abrir-se ainda mais de assombro. Logo, durante vrios segundos, s foiconsciente da maravilhosa sensao de estar dentro de seu corpo. Annie estava preparadapara ele. Ardentes e umedecidas pelo desejo, as paredes de seu tero rodearam seu pnis semnenhum retraimento a causa do recente orgasmo. Requereu de um grande domnio de simesmo para no ejacular naquele mesmo instante.
Seus olhos voltaram a enfocar o pequeno rosto do Annie, e recordou que era o prazer dela oque devia lhe importar, no o seu. Cuidando de no esmag-la com seu peso, apoiou-se sobreos braos e conseguiu esboar um tranqilizador sorriso. Ato seguido, retirou-se ligeiramente 
para voltar a entrar no mais profundo de seu corpo. Ela deu um grito afogado e uma vez maisagarrou com fora o lenol. Alex se regozijou com sua reao, e acelerou o ritmo lentamente,
penetrando-a cada vez mais fundo e com major fora. No queria alcanar o orgasmo atcertificar-se de que ela tambm o tivesse alcanado.
A tenso se foi acrescentando lentamente. Os movimentos do Alex adotaram um ritmo 
constante, retirando-se para logo voltar a penetrar em suas profundidades, sempre atento expresso de seu rosto, para evitar lhe fazer danifico. No havia necessidade de que seinquietasse tanto. Com a natural despreocupao que o cativou desde o comeo, Annie 
arqueou a nuca, gemeu de prazer, e com suas esbeltas pernas rodeou os quadris do Alex paramover-se de forma circular e intensificar o prazer da penetrao. O desejo do Alex seconverteu em uma dor insuportvel.
As coisas melhor planejadas no sempre... Apesar de sua deciso de manter o controle,
quando ela gritou e o apertou com suas pernas, o desejo dentro dele estalou em um prazeralucinante que no se parecia com nada do que tinha experiente antes, que no tinha 



imaginado sequer que podia existir.
Annie... Seus ofegantes gritos revelaram ao Alex que estava alcanando o orgasmo com ele. 
Logo, as paredes de seu tero se contraram espasmodicamente. Uma luz vermelha se
acendeu dentro de sua cabea. Sem poder ver, nem tampouco pensar, entregou-se ao desejo
e se afundou com ela em um redemoinho de sensaes. 
Annie... Fogo e escurido. Em algum distante rinco de sua mente, Alex percebeu seus agudos 
gritos liberadores. Logo, totalmente desprovido de energia e de foras, inundou-se com ela na 
escurido da inconscincia. 


Annie voltou para a realidade como se sasse de um sonho, caindo pouco a pouco na conta doque tinha ocorrido e de onde se encontrava. Advertiu primeira a piscada de uma luz mbar,
logo a malha do lenol que se encontrava debaixo dela, o calor do corpo do Alex apertadocontra o seu, o calor do flego contra seu cabelo, o peso de seu brao sobre sua cintura. Um 
instante depois, pestanejou e despertou por completo, sentindo-se totalmente tranqila e maisfeliz que nunca.
Alex. Estava deitada com as costas apoiada sobre o peito dele, com o traseiro perfeitamenteacoplado na concavidade de seu corpo; e sentiu suas coxas, speros pelo plo que os cobria,
firmemente apertados contra a parte posterior das pernas dela. Annie aspirou profundamente,
com deleite, os perfumes do corpo de seu homem: dbeis vestgios de sabo e colnia, oaroma penetrante dos objetos de pele e seu masculino aroma de almscar. Sentiu o rudo surdodo corao viril, pulsando com fora e de forma regular. sentia-se maravilhosamente bem alideitada, acurrucada contra ele, com o corpo completamente depravado e os pensamentos em 
doce desordem. 
Alex. Desejava poder ouvir seu nome ao menos uma vez, desfrutar de seu som naquelemomento. Amava-o. Amava-o enormemente. 
Um rubor intenso subiu s bochechas do Annie ao recordar o que lhe tinha feito a seu corpo.
Uma estranha sensao de dor e formigamento se estendeu por seu sob ventre. Um sorriso seabriu passo em seus lbios, e no pde menos que desejar que seu amante despertasse e 
voltasse a lhe fazer todo aquilo. 
Com este propsito, deu-se a volta para ficar frente a ele. Sob a luz da luz, pareceu-lhe quenunca tinha visto um homem to arrumado como ele. Seu cabelo dourado caa em ondas 
desordenadas sobre a frente, e suas finas pontas apanhavam a luz. Dormindo daquelamaneira, seus rasgos delicadamente esculpidos pareciam quase infantis; as pestanasprojetavam sombras sobre as bochechas bronzeadas, o lbio inferior estava depravado etremia ligeiramente com cada uma de suas suaves respiraes. A cabea descansava sobre 
um de seus braos dobrados, cuja parte interna era ligeiramente mais branca, devido a quequase no se expor ao sol. Os grandes msculos e tendes desta parte de seu corpo faziamque a pele se estendesse tensa sobre eles. Cheia de curiosidade, p-lhe uma mo no peito e 
lhe acariciou o robusto plo. Logo se dedicou a explorar com cautela um de seus bicos damamadeira, que eram pequenas e de cor acobreada. Ao tocar uma viu que se endurecialigeiramente; e, sem saber muito bem por que, pensou que ele no devia sentir quo mesmoela. 
A jovem se sobressaltou quando elevou a vista e descobriu que seus olhos dourados seencontravam abertos. Olhada-las se cruzaram. Alex esboou um maravilhoso sorriso. 
-por que tenho a sensao de que minha esposa se sente como nova e est disposta a faz-lode novo? 
Annie sorriu, ensinando suas covinhas, voltou a tocar o bico da mamadeira do Alex e seu 
sorriso se fez mais profunda.
-Est-me pedindo que te devolva o favor? -perguntou-lhe ele. 
Annie lhe aproximou at que as pontas de seus mamilos roaram o peito de seu marido. Ante 
este contato, endureceram-se imediatamente. 
-Que desavergonhada !
Alex retirou o brao que nesse momento envolvia a cintura do Annie e lhe tocou o peito. Com 
uma carcia obteve que os mamilos ficassem mais eretos. Logo, aproximou a cabea aos 
mamilos para chup-los. Annie fechou os olhos. O prazer que sentia era to intenso, que teriapodido ficar ali tendida eternamente, deixando que ele a beijasse.
Mas Alex tinha outras idias. depois de lhe dar uns quantos beijos, deixou-se cair notravesseiro e a olhou com os olhos entrecerrados e um sorriso lbrico. 
-Se quiser mais, traz-o aqui. Estou cansado.
Annie sabia que ele no estava to cansado. O brilho de seus olhos lhe dizia algo muito 



distinto. Um pouco coibida de repente, olhou com desejo a boca de seu marido. Ao advertir seuolhar, os ombros do Alex se sacudiram por causa da risada, e a agarrou do brao para dobr-la. 
-Vem aqui -lhe disse-. Eu no remoo.
Para contradizer estas palavras, levantou-se de repente e a apanhou com cuidado ensinandoos dentes. Um movimento da lngua foi tudo o que se necessitou para obter que Annie se 
aproximasse. Com os braos apoiados a ambos os lados da cabea do Alex, baixou os peitospara que ele tivesse fcil acesso. Com preguiosa lentido, agradou-a at que a mulher 
comeou a tremer. de repente, Annie se soltou para beij-lo apaixonadamente.
Alex a abraou e se deu a volta com ela pega a seu corpo, cuidando de no esmag-la. Umavez que ficou de barriga para cima, Annie entrelaou suas pernas com as dele, pensando que 
lhe faria o amor de novo. 
-Ah, no... No to logo, Annie. Temos o resto de nossas vidas por diante, a que vem tanta 
pressa?
O resto de suas vidas... Ao Annie gostava dessa idia. Noite detrs noite nos braos do Alex. 
Promessa cumprida: indubitavelmente isto tinha sido muito melhor que o que tinham feitoaquele remoto dia na habitao dos meninos. 

CAPTULO 23 

O resto de suas vidas... 
Nos dias que seguiram, Alex no pde pensar em outra coisa. Sonhava constantemente com o 
grandioso futuro que Annie e ele poderiam ter juntos. No via nenhum motivo para que estes 
sonhos no pudessem fazer-se realidade. Em janeiro, pouco depois de Natal, nasceria seu filho.
A partir desse momento, eles seriam uma famlia. Ainda ficava por saber se Alex poderia termais filhos, mas isto j no parecia ter muita importncia. Menino ou menina, o primeiro filhoseria seu herdeiro, e isso era tudo o que lhe importava.
Na mente do Alex, o beb que Annie estava esperando era dele, e acreditava com a certeza deum homem que semeou a semente com suas prprias mos. J no pensava no Douglas nemno que tinha feito. Posto que Annie j tinha conseguido deixar atrs o acontecido, ele tambm 
pde faz-lo. O passado tinha sido esquecido. O futuro os esperava como uma brilhante 
promessa.
Amar ao Annie. Para o Alex, a jovem era um presente divino. Apesar da experincia que tevenas cataratas, tinha resultado ser uma amante muito mais sensvel do que jamais tivesseimaginado, e lhe custava muito lhe tirar as mos de cima. Felizmente, o sentimento parecia sermtuo. Uma vez que ela conseguiu vencer seu acanhamento, comeou a tomar a iniciativa 
quase com tanta freqncia como ele, e algumas vezes era muito mais criativa. Quando de 
sexo se tratava, Annie no parecia saber que havia certas coisas que uma dama nunca fazia.
Uma noite, enquanto se encontrava trabalhando em seu estudo, ele elevou a vista dos papis 
e viu os peitos nus do Annie a uns quantos centmetros de seu nariz. Um instante depois, seuspapis se encontravam dispersados pelo cho e sua esposa tombada de forma pouco elegante 
sobre o escritrio. 
Alex no demorou para compreender que Annie, a quem nunca lhe tinha exigido seguirhorrios e que no se regia por relgio algum, era uma criatura de impulsos. Uma noitedurante o jantar, imediatamente depois de que Maddy servisse a sobremesa de sorvete, ela se 
levantou da mesa e se dirigiu para ele com um sorriso sedutor que lhe esquentou o sangue torapidamente que pensou que sua sobremesa corria perigo de derreter-se. 
-O que quer, meu amor?
Com um movimento da mo, Annie apartou o prato de sorvete e ps seu voluptuoso traseiro 
em seu lugar. Os olhos entrecerrados da mulher tinham adquirido uma sedutora tonalidade 
azul. 
-Quero ser seu sorvete. 
-Meu sorvete? -perguntou Alex perplexo.
Ela se inclinou para frente e levou a ponta da lngua a sua bochecha, lambendo sua pele efingindo deleitar-se com seu sabor, tal e como ele o tinha feito com seu sorvete fazia apenasum instante. 
-Por Deus! -disse com um sussurro entrecortado-. Annie, meu amor... 
Estava a ponto de lhe explicar que a uma dama decente nunca lhe ocorreria fazer essa classe 
de proposies, quando a lngua dela encontrou sua orelha, e ele esqueceu tudo o que queriadizer. Embora em realidade no queria lhe dizer nada. Que homem em seu so julgamento 
quereria que sua esposa fosse uma dama decente de portas dentro? Alex sabia que muitoshomens tinham que viver com algemas dissimuladas que eram totalmente aborrecidas na 



cama. Era uma sorte que Annie tivesse chegado ao matrimnio sem idias preconcebidas emrelao ao que se considerava apropriado. Seria um completo idiota se lhe enchia a cabeacom um monto de convenes sociais. 
Com seus hbeis dedos, Alex lhe desabotoou o corpete e lhe desatou a camisa interiorrapidamente. Seus peitos saram como deliciosos meles inclinados sobre o bordo de umacesta. "Ataca j", pensou, enquanto seu ardente olhar se posava nos mamilos. Tinham uma 
cor delicada, de morango e nata... 
Enquanto ele estava absorto admirando seus abundantes forma, Annie alargava as mos para 
trs para agarrar o prato da sobremesa. Com grande assombro, Alex a viu colocar a delicada 
gema de um de seus dedos no sorvete que se derretia rapidamente e esfregar o frio doce 
sobre seu mamilo. Sua carne de cor rosa ficou rgida em seguida e pareceu erguer-se para suaboca, desejosa de cuidados. Como se queria lhe ensinar o que tinha em mente, ela se inclinou 
para diante de novo para lamber os lbios dele.
Alex, que sempre se orgulhou de ser muito gil, levantou-se da cadeira. No recordava havertalher nunca uma distncia to rapidamente como o fez com aquela que se estendia entre amesa e as portas do comilo. depois das fechar com chave para que ningum os incomodasse,
retornou para agradar a sua esposa, que naquele instante estava cobrindo de doce seu outropeito. 
Completamente excitado, mas tentando no demonstr-lo, Alex voltou a sentar-se em sua 
cadeira e esperou a ver que mais tinha ela em mente. Annie elevou a vista com expresso dedesejo. Olhando-o aos olhos, lambeu cada um de seus dedos at deix-los limpos. Ao Alex lheencolheu o estmago de pura excitao ertica, mas estava desfrutando enormementedaquele espetculo e no queria lhe pr fim to logo. Ainda no.
Tal e como ele esperava, Annie lhe aproximou seus peitos nus, lhe provocando com osmamilos quentes, doces e pegajosos, at que ele no pde resistir mais a tentao e comeoua lhe limpar o doce com a lngua. A pele de seus mamilos ficou dura imediatamente e pareceuencher-se de agudos puntitos. A esposa lhe acariciou o cabelo com as mos e arqueou as 
costas para fazer seus seios mais acessveis. Alex lambeu e chupou os sensveis pontos,
sonriendo para ouvir seus quejumbrosos ruidillos de prazer.
Os gemidos no demoraram para fazer-se mais fortes. Procurando provas detrs dela, eleencontrou o leno que tinha descartado e cobriu com ele a boca do Annie. Como se soubesse 
qual era seu propsito, ela o agarrou entre os dentes para silenciar seus gritos. 
Sem ter que preocupar-se mais pelos sons que ela pudesse fazer, Alex se concentrouunicamente em agradar a sua fmea. Enquanto procurava o leno, sua mo tinha tropeadocom o prato de sobremesa. Agarrou-o naquele momento e colocou as gemas dos dedos nosorvete derretido. Voltou a cobrir os mamilos do Annie de doce. Fresa com nata... Alex nunca 
tinha provado nada semelhante. Era deliciosamente perverso, a classe de erotismo com o quesonhava todo homem, mas que nunca conseguia experimentar. Mas com o Annie, quefelizmente ignorava as convenes, no havia nenhuma regra que acatar. S se deixava levarpelo prazer.
Isto sempre lhe tinha parecido bem ao Alex, mas nunca tanto como ento. Ouviu vagamente orudo que fizeram os pratos ao apart-los para que sua esposa se tendesse sobre a mesa.
Febrilmente, mas com estupidez, tratou de lhe tirar a roupa. Saias, anguas, calcinhas, ligas, 
meias. 
Jesus! Ao recordar a manh de suas bodas, quando ela se encontrava sentada no bordo do 
patamar do primeiro piso e exps seu corpo aos olhos vidos do Alex, desejou que naquelemomento levasse o mesmo singelo traje. Agora que sabia quo deliciosa era a combinao dosorvete com seu doce algema, queria provar essa mescla em outra parte do corpo feminino.
Quando lhe tirou suficiente roupa para encontrar o que estava procurando, Alex deu um passo 
para trs para observ-la por um instante com seus olhos cheios de paixo. As dobras de sua 
feminilidade o chamavam com seu mido fulgor. A delicada cor rosa daquela carne lherecordou os morangos uma vez mais... Os morangos, frutas que sempre requeriam nata. 
Sobre a enrugado guardanapo, os enormes olhos azuis do Annie procuraram seu olhar. Alex 
sorriu lentamente. Ela tinha comeado aquele jogo. Agora ele se propunha lhe dar uma nova 
dimenso. Enquanto o marido colocava as gemas dos dedos no sorvete, a esposa pareceuadivinhar suas intenes. Pelo visto, at o Annie compreendia que isto era levar as coisas 
muito longe.
-Ah... 
Sem muitas vontades, a jovem tratou de apartar-se. No houve indolncia alguma na reaodo Alex para det-la. depois de umedecer as gemas de seus dedos, encontrou seu centroardente e palpitante com hbil pontaria. O leno amorteceu seu grito de surpresa, enquanto 



ele lubrificava o sorvete sobre as sedosas dobras. Todo seu corpo se sacudiu quando ele 
agarrou entre seus dedos polegares e ndice a sensvel e pequena protuberncia que seencontrava ali oculta. Ao retorc-la, Alex viu que a mulher fechava os olhos. Annie gemeu do 
mais profundo de seu peito e levantou os quadris, claramente dobrada. 
Annie, de sobremesa. Era o final de comida mais doce que Alex tinha provado jamais. Se nofuturo lhe parecia que ele era mais apetecvel que a comida servida para o jantar, com todo 
gosto ficaria ao seu dispor. Era o menos que um marido podia fazer por seu doce, dcil einsacivel algema.
Annie... para ser uma mulher to pequena, tinha uma presena enorme na vida do Alex: enchiaseus dias de risadas, suas noites de sexo e seus sonhos de imagens formosas. 

Por volta de meados de dezembro, o doutor Muir lhes fez uma visita. Supostamente ia ver o 
Annie, mas em realidade queria falar em privado com o Alex. Temeroso de que Annie se 
alterasse durante o reconhecimento mdico, que necessariamente seria mais invasivo que o 
que Muir lhe tinha feito nos primeiros meses de seu embarao, Alex ficou junto a sua esposa
enquanto o mdico a examinava. Depois, os dois homens foram ao estudo a tomar um 
conhaque e a falar a respeito do que o doutor tinha encontrado.
Muir foi ao gro.
-Tudo parece estar normal, Alex. Deixa j de preocupar-se tanto.
Alex sorriu enquanto lhe dava uma bebida ao bom doutor.
-Sou muito pesado?
-Tomaste-lhe muito carinho. Isso  evidente. 
Alex apoiou um p sobre seu joelho. 
-Assim . 
-E como vo as lies? 
-Muito bem. Ela chegou a dominar um bom nmero de gestos e j conhece o alfabeto. A
semana passada terminamos de estudar o primeiro manual.
Muir elevou a taa. 
-Felicitaes. O que est fazendo  uma faanha.
Alex ps o p no cho e se inclinou para frente para apoiar os braos sobre seus joelhos. 
-Acredito que sim. Se quiser que te seja sincero, pensei que os aparelhos de surdez seriam 
mais teis do que resultaram.
Embora possa me ouvir com eles se lhe falar forte, no parece poder reproduzir os sons
corretamente. As poucas palavras que tentou dizer lhe saem muito distorcidas. Daniel assentiu
com a cabea. 
-Isso era de esperar. Perdeu o ouvido quando tinha apenas seis anos. Faz j quatorze que no
lhe permitem falar. esqueceu como faz-lo. Dada sua incapacidade auditiva, o mais seguro 
que se requeira algum tempo para que ela volte a aprender tudo o que esqueceu. 
Alex suspirou.
-No fao mais que me dizer essas mesmas palavras. -encolheu-se de ombros e sorriu-.
Agora que posso ler os lbios, conseguimos nos comunicar bastante bem.
-Mas o que passar quando nascer o beb? Seria conveniente que Annie chegasse a dominar
ao menos um pequeno vocabulrio antes de que ele comece a aprender a falar.
Alex refletiu um momento sobre essas palavras.
-Ter que ver como avanam as coisas.
Daniel deu um golpecito  taa, olhando ao Alex por cima de seu bordo. 
-Sei que quer o melhor para o Annie e o beb. 
-Certamente que sim.
-S me perguntava se estaria disposto a considerar a possibilidade de mand-la a uma
escola. 
-A uma escola? Daniel elevou as sobrancelhas. 
-Ela necessita uma educao especial, Alex. Sei que est fazendo milagres. No quero te 
subtrair mritos. Mas, para que realmente possa recuperar a fala, Annie deve contar com 
professores especializados, gente que saiba como ajud-la. A escola do Albany tem uma 
reputao irrepreensvel. Irene Small, a diretora,  uma fantstica professora e, alm de
atender s necessidades particulares de seus alunos, tambm se ocupa de enriquec-los
cultural e socialmente. Seria estupendo que Annie fosse ali, ao menos durante dois ou trs 
anos. No  muito tempo. Ainda ser jovem quando sair da escola. E pensa em quanto poderia
benefici-la-a experincia.
Alex sentiu como se lhe casse a alma aos ps. 




-Dois ou trs anos? 
Daniel sorriu. 
-Albany no est muito longe daqui. Parece que te tivesse sugerido que a mandasse a um
pas estrangeiro. -O tambm se inclinou para frente na cadeira. Seu olhar era franco e estava
cheia de preocupao-. Alex, ao menos pensa-o, por favor. Acredito que poderia convencer ao 
Irene de que lhe faa stio. Como vai ter um beb, poderia ser uma estudante no residente. 
Annie poderia ir viver ao Albany com ela. As duas poderiam alugar uma casita perto da escola. 
Um lugar que se encontre o suficientemente perto para que Annie possa ir andando s classes. 
Alex se levantou rapidamente da cadeira. O desassossego que o invadiu lhe fez derramar o
conhaque.
-No. Isso  totalmente impossvel. Estamos falando de minha esposa. No vou mandar a
nenhum lado dois ou trs anos. -passou-se uma mo pelo cabelo e comeou a andar de um 
lado para outro-. Por Deus, Daniel, no sei como pode sugerir sequer algo semelhante. Se crie 
que Annie necessita um professor especial, contratarei um. Mas ela ficar aqui, no Montgomery 
Hall, que  onde deve estar, e no se fale mais do assunto.
Daniel deixou de lado a bebida e ficou em p, agarrando sua maleta enquanto se levantava.
-Alex, apesar de todo seu dinheiro e de suas boas intenes, no pode comprar ao Annie as 
coisas que ela mais necessita. No Albany, os estudantes pem em cena suas prprias obras.
Fazem bailes, reunies sociais e musicais; todo isso est pensado expressamente para as 
pessoas surdas. Annie estaria rodeada de gente como ela pela primeira vez em sua vida. Por
mais que queira, no poder lhe proporcionar todas essas experincias.
Alex lhe lanou um olhar cheia de ira. 
-Possivelmente no. Mas me est pedindo que mande a minha esposa e a meu filho longe
daqui. No posso faz-lo. No o farei. No estaria bem.
-No estaria bem para quem, para ti ou para o Annie? Pensa-o, Alex. 
Daniel se dirigiu lentamente  porta do estudo. deteve-se antes de abri-la para olhar ao Alex 
por cima de seu ombro.
-Se realmente quiser  garota, e eu acredito que sim, terminar fazendo o que  melhor para 
ela. Estou com vencido de que assim ser. Como j te hei dito, acredito que posso convencer 
ao Irene de que a receba. Se quiser, falo com ela para confirm-lo. Acredito que Annie poderia
comear em maro. Nessa poca j se recuperou por completo do parto, e poder viajar e
fazer a mudana. 
Esforando-se por recuperar a compostura, Alex procurou uma resposta. 
-Suponho que no far nenhum dano que faa as averiguaes que cria necessrias. Sempre
que entender que  muito pouco provvel que eu considere a srio a possibilidade de faz-lo.
Daniel sorriu ligeiramente.
-Far o que  devido. Sempre o faz.
Depois de dizer estas palavras, Daniel saiu da habitao. 


Os dias que seguiram, Alex refletiu a respeito do que Daniel havia dito. Sua indeciso era togrande que falou inclusive com o Edie Trimble, quem esteve totalmente de acordo com o 
doutor Muir. Tambm lhe pareceu que mandar ao Annie a uma escola era uma idia 
maravilhosa. Por mais que lhe desse voltas ao assunto, no fundo sabia que sua sogra e omdico tinham razo. Em uma escola para surdos, todo um mundo novo se abriria para oAnnie. No s aprenderia a falar, mas tambm tambm a ler e a escrever, coisas que Alex noestava absolutamente seguro de poder lhe ensinar. Por outra parte, teria a oportunidade deestar com gente como ela. No Albany, poderia fazer amigos, algo que sempre lhe tinham 
negado.
Bailes... reunies... jogos... Em poucas palavras, teria uma vida social. Isto era algo que Alexno podia comprar. Se a obrigava a ficar junto a ele no Montgomery Hall, estaria-lhe tirando a 
oportunidade de ter essas experincias.
Por um breve perodo de tempo, Alex considerou a possibilidade de contratar a um capatazcompetente para que se ocupasse do Montgomery Hall. Desta maneira, ele poderia mudar-se 
ao Albany para estar junto ao Annie enquanto ela assistia  escola. Mas depois de pens-loseriamente, compreendeu que isto seria quase to egosta como obrig-la a permanecer noHooperville. Se ele ia se viver ao Albany, e estava sempre entre bastidores, sempre esperando,
ela se negaria a participar de todas as atividades sociais das que poderia desfrutar em suaausncia. Embora desejava estar com ela, no queria ser uma cadeia pendurada no pescoo 
de sua esposa. Outras pessoas podiam viver a vida em plenitude antes de adquirir ocompromisso que implicava um matrimnio. Annie merecia ter o mesmo privilgio. 



Dois ou trs anos... como Daniel disse, no era muito tempo. Se tudo saa bem, Annie teria 
apenas vinte e trs anos quando terminasse sua educao e voltasse a viver no Montgomery 
Hall. Enquanto isso, Alex poderia viajar ao Albany de vez em quando, e ela poderia ir casadurante as frias. Dessa maneira, seria mais fcil agentar a situao. Terei que faz-lo.
Pelo bem do Annie, no tinha mais remdio. 
Uma vez que tomou a deciso, Alex se apressou a falar com o Maddy. Embora  ama de 
chaves inicialmente no gostou da idia, ao final aceitou acompanhar ao Annie ao Albany paraajudar a cuidar de beb enquanto ela assistia  escola. Quando tudo esteve decidido, Alexcomeou a manter correspondncia com o Irene Small, para organizar todo o relacionado com 
a inscrio do Annie, lhe conseguir um alojamento fora do recinto escolar e pagar a matrculaadiantado. Ao terminar todos estes trmites, s ficava uma coisa por fazer: contar-lhe ao 
Annie. Alex decidiu que o melhor era no correr o risco de desgost-la com a notcia e esperarat depois do nascimento do beb.
Ao longo das semanas seguintes, Alex valorou cada momento que passou junto a ela, poissabia que seu tempo juntos estava destinado a chegar a seu fim em muito poucos dias. Largospasseios sob a chuva. Fazer o amor  luz da luz. Os planos para a chegada do beb. Alex fingiuem todo momento que tinham todo o tempo do mundo por diante. Nunca lhe deixou ter sabordo Annie que s vezes, ao olh-la, imaginava o vazia que seria sua vida sem ela.
A vida sem ela... Era uma possibilidade que Alex no podia descartar por completo. Annie no 
se converteu em sua esposa por eleio prpria, a no ser contra sua vontade. Com o tempo, ajovem tinha aprendido a quer-lo; no duvidava nem um instante da sinceridade de seussentimentos. Mas a verdade era que no tinha sido uma atrao foto instantnea. A maioriadas mulheres, e Annie no era diferente das demais, albergava idias romnticas sobre oamor. As jovens sonhavam conhecendo um homem especial que as levasse em braos paraviver felizes e comer perdizes. O fato de que esta fantasia durasse s at a lua de mel novinha ao caso, e tampouco impedia que elas seguissem com seus sonhos. 
E se...? Estas duas palavras rondavam a cabea do Alex, dormido ou acordado E se, quandoAnnie estivesse na escola, conhecia um homem surdo e se apaixonava locamente dele? 
Imaginava olhando ao menino perfeito diretamente aos olhos, em meio de uma habitaocheia de gente. Imaginava danando a valsa em seus braos, assistindo com ele a uma peade teatro, rendo-se com ele. Um homem sem rosto, sem nome, algum com quem Annie teria 
muitas coisas em comum, sobre tudo o mesmo impedimento e a compreenso natural detodas as dificuldades que suportava. No melhor dos casos, Alex s podia supor quo frustradadevia sentir-se ela algumas vezes por no poder comunicar-se com outras pessoas, por nopoder lhes ler os lbios se se voltavam enquanto lhe falavam. O fazia um enorme esforo.
Realmente o tentava. Mas por muito que queria entender como se sentia ela, sabia que nuncao obteria de verdade. Era impossvel sem viver em carne prpria a experincia de ser surdo.
Nos momentos mais escuros, Alex recordava o auto-retrato sem orelhas que Annie fez uma 
vez. No Albany, ela no seria diferente das demais pessoas. Se conhecia um homem ali, se se 
apaixonava por ele, quem poderia julg-la mal por no querer retornar ao Hooperville, onde as 
gente lhe causaram tanto dor e lhe fizeram sofrer tantas humilhaes? Alex sabia que ele nopoderia faz-lo. E esta era a razo principal de sua angstia. Era extremamente fcil amar auma mulher o suficiente para viver com ela toda uma vida. Am-la-o suficiente para deix-laem liberdade era algo completamente distinto.
Ao Alex pareceu que o tempo passava voando, levando-os inexoravelmente por volta do dia 
em que Annie o abandonaria. Chegou a poca de Natal. Dezembro lhe cedeu o passo a janeiro,
e eles comearam a contar os dias que faltavam para que Annie desse a luz. Na noite do 8, uns 
poucos dias antes da data em que Daniel tinha calculado que se produziria o parto, Alex seencontrava no quarto de banho, lavando-se antes de ir deitar se, quando ouviu os gritos do 
Annie. Com o corao na garganta, correu  habitao, para encontr-la frente ao armrio, 
com a cara lvida do susto e a camisola branca empapada de um lquido rosceo.
-Tudo vai bem, carinho. Acaba de romper guas, isso  tudo.
Jesus! O beb estava a ponto de nascer. Alex se apressou a abrir tudas as gavetas dopenteadeira em busca de uma camisola seca. Esforando-se por aparentar tranqilidade,
quando em realidade estava aterrorizado, ajudou-a a trocar-se e logo a meteu na cama antes 
de correr  planta desce em busca do Maddy. 
-lhe diga ao Henry que v procurar ao doutor Muir! -gritou-. Annie vai dar a luz. J tem 
quebrada guas. O beb est a ponto de nascer, Maddy. Temos que trazer para o Daniel. 
Rpido!
Maddy ficou olhando-o fixamente. 
-Senhor, acredito que ser melhor que se tranqilize. O mais provvel  que passem muitas 



horas antes de que nasa o beb.
Alex tragou saliva e se esfregou a cara com uma mo.
-Est completamente segura?
Maddy se tirou o avental sujo com toda calma e ficou um limpo.
- obvio que no estou segura. Mas entendo que isso  o que est acostumado a passar com


o primeiro beb.
Alex se tranqilizou um pouco e respirou fundo. 
-Suponho que tem razo. Estou fazendo um drama sem necessidade, no  verdade? -Fezuma careta e se Rio-. depois de tudo, s se trata de um beb que est a ponto de nascer.
Quer dizer... bom, as mulheres do a luz todos os dias, no? 
Maddy passou de comprimento por seu lado. Depois de abrir a porta da cozinha, apareceu acabea na habitao contiga.
-Henry! Baixa em seguida! J vai nascer o beb!
E a boa mulher falava de tranqilidade! Ao subir as escadas, Alex descobriu que, quandoMaddy estava assustada, podia deix-lo atrs perfeitamente, embora corressem costa acima. 
Tambm descobriu que, ao correr o um ao lado do outro, podiam ficar entupidos ao tratar de 
atravessar uma porta.
Em meio de todo aquele alvoroo, Annie se tinha sumido em um sonho intranqilo. Quando 
Maddy e Alex chegaram a seu dormitrio e a encontraram dormindo, aproximaram duascadeiras, uma a cada lado da cama, e se sentaram para observar com ateno seu ventre. devez em quando, Annie deixava escapar um fraco gemido, e Alex estava seguro de que nesses 
momentos lhe esticava o abdmen. Quando disse isto ao Maddy, ela se inclinou para observar 
o de perto. 
-Ai! Acredito que tem voc razo. J est tendo contraes leves. Alex olhou o relgio.
-So dez e quinze. me ajude a recordar a hora para que possamos cronometr-los com
preciso, vale?
Assim os encontrou Daniel: Annie dormia profundamente, enquanto Alex e Maddy levavam a 
conta de suas dores. Ao ver o mdico, Maddy falou. 
-Agora que chegou o momento, acredito que seria muito mais fcil pr um ovo. 
Daniel no pde menos que rir.
-Parece-me que ao Annie est indo muito melhor que a vs. Podem passar umas quantas
horas antes de que nos ponhamos a trabalhar a srio, sabem? Eu ficarei com o Annie enquanto 
vs dormem um pouco, se quiserem.
-Dormir? -perguntaram ao alimn. 
Daniel se Rio. 
-Suponho que no dormiro. -esfregou-se o queixo-. Hum... Bom, me chamem quando se 
produzir alguma mudana. irei deitar me um momento no estudo. Se vs no querem tratar de 
descansar um pouco, no vejo por que no deva faz-lo eu.
Justo antes do amanhecer, Alex baixou correndo ao estudo para despertar ao doutor.
-J vai nascer -lhe disse com voz trmula-. Date pressa, Daniel. Acredito que Annie est 
muito mal. 
O mdico se incorporou e se esfregou os olhos para tentar espantar o sonho, aparentemente 
sem pressa alguma.
-No me viria nada mal um caf. 
-Um caf? -Alex agarrou ao homem do brao e o fez levantar do sof de um puxo-. Minha
esposa est a ponto de dar a luz! No tem tempo para tomar o puetero caf. 
Dez horas depois e atrs de vrias taas de caf, Annie ficou de parto. Para desgraa do
Daniel, Alex se negou a apartar-se de seu lado. Pelo general, no permitia que os pais
assistissem ao parto. Sabia por experincia que a maioria dos homens ao final no podia
suport-lo e, at ento, Alex no tinha mostrado indcio algum de ser a exceo. Entretanto,
quando os dores do Annie pioraram, Alex interveio e cape bastante bem a tormenta, 
aparentemente sereno e fazendo todo o possvel por tranqilizar  moa quando sentiu medo.
-Tudo vai bem, meu amor -lhe disse uma e outra vez-. Eu estou aqui.
Ao v-los juntos, Daniel compreendeu que tinha subestimado o amor que sentiam o um pelo 
outro. Independentemente da intensidade da dor, Annie nunca apartou seu olhar do Alex nem
lhe soltou a mo. E, apesar de estar completamente exausto, ele no se afastou da garota em
nenhum momento. No o fez para comer nem para descansar, nem sequer para estirar as 
pernas.
No obstante, o que mais comoveu ao Daniel foi v-los comunicar-se por gestos. mais de uma
vez, viu o Alex movendo os dedos sobre a palma da mo do Annie, lhe falando de uma maneira 
ntima que ningum mais poderia interpretar. Daniel imaginou que lhe estava dizendo que a 


amava. 
Quando por fim o momento culminante chegou, Daniel trouxe para o mundo ao beb, mas foiAlex quem deu apoio ao Annie ao longo da dura prova; foi seu marido quem lhe secou a cara e 
lhe arrumou o cabelo; foi ele quem ps ao beb em seus braos. 
- menino, Annie -disse com voz rouca-.  precioso, verdade? Temos um filho. 
Quando Daniel viu as lgrimas nos olhos do Alex Montgomery, soube que era o momento desair da habitao para que o casal pudesse ter um pouco de privacidade. Uma vez no corredor,
apoiou-se cansativamente na parede e cravou seu olhar vazio no cho. No podia deixar de 
pensar no Annie, no Alex e em seu matrimnio. At aquele dia tinha acreditado que s era umacordo de convenincia. S ento compreendeu que no o era. Se alguma vez tinha visto duaspessoas profundamente apaixonadas, eram aquelas. 
Albany... em maro, Annie partiria para assistir a uma escola especial, deixando atrs a seumarido. Daniel sinceramente tinha acreditado que isso era o melhor para a garota. Mas j noestava to seguro. 

Ao ver o rosto do Alex enquanto olhava a seu filho, Annie se encheu de uma alegriaindescritvel. O tinha de uma vez um ar de ternura e uma atitude ferozmente protetora. Cadauma das linhas de seu rosto se esticou pela emoo. Entendia perfeitamente seussentimentos, pois ela tambm os estava experimentando. Seu beb. Seu prprio pequenobeb. Em um breve espao de tempo, j queria tanto a aquela personita que tanto amor era 
quase aterrador.
Alex se ajoelhou junto  cama e os rodeou aos dois com um brao. Pestanejando para manteros olhos abertos, pois estava totalmente esgotada, Annie olhou o rosto de seu amado e sorriu. 
Nunca se havia sentido to cheia de felicidade. Naquele momento, deu-lhe a impresso deque, pela primeira vez em sua vida, podia amar sem reservas. Havia duas pessoas que anecessitavam. Realmente a necessitavam. Nunca antes se havia sentido necessitada. 
De menina a mulher... Annie sentiu que tinha feito esta transio muito rpido, da noite para odia. Mas era maravilhoso. Meio dormida, percorreu com o olhar as formosas linhas do rostomoreno do Alex. Logo, olhou a seu filho. O calor de seu corpo diminuto apertado contra seupeito era a sensao mais maravilhosa que tinha experiente em sua vida. Concluiu que separecia com seu pai. Estupendo. Seria uma pena que se parecesse com ela de maior. 
depois de que este pensamento lhe passasse pela cabea, fechou os olhos, perdendo a batalhacontra o esgotamento. Enquanto se deixava levar pelo sonho, sentiu que tinha uma meta navida. Durante muitos anos, escapuliu-se no apartamento de cobertura para fingir que eraalgum. A partir daquele momento, j no precisaria fingir. Graas a aquele homem e aomenino tinha encontrado o sentido de sua vida. 
Annie Montgomery... esposa e me. Era algum. 

-Graas a Deus que sou estril -disse Alex ao Daniel pouco depois, quando se encontraram 
no estudo-. Nunca mais. No quero que ela tenha que voltar a passar por uma experincia 
semelhante. 
Daniel sorriu para seus adentros e se recostou na parede de pedra da chamin.
-No quero ser a voz do destino, meu amigo, mas e se no o for? 
-me castre. 
Daniel jogou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.
Alex o fulminou com o olhar. 
-No sei o que te parece to gracioso. Pobre garota. meu deus, nunca tinha visto nada
semelhante. -Os olhos lhe escureceram de inquietao-. Se curar? Quer dizer, voltar a 
ficar como antes? 
Daniel refletiu sobre esta pergunta.
-Bom, produziu-se um estiramento bastante considervel. Uma mulher nunca pode voltar a 
rodear o corpo de seu marido com a mesma fora quando os bebs comeam a chegar.
Um brilho ardente apareceu nos olhos do Alex.
-Por Deus, Daniel! No me importa ter que me atar uma tabela de dois por quatro ao traseiro
para no me afundar em seu corpo. Isso no era o que te estava perguntando. Quero saber se
ela for sanar por dentro. O parto causou alguma ferida permanente?
-Certamente que no. Ela estar perfeitamente bem em quatro semanas. Se de verdade est
decidido a no pr mais po em seu forno, v a minha consulta antes de que transcorra este 
tempo e te ensinarei algumas medidas preventivas. No tem que preocupar-se por isso agora. 




Alex se deixou cair em uma cadeira e suspirou.
-No tenho que me preocupar por isso, e ponto.
-Entretanto, se no querer ter mais filhos, sugiro-te que tome medidas.  verdade que teve
caxumba e que surgiram complicaes. Mas vi a outros homens recuperar-se de casos piores
que o teu e ter filhos um tempo depois.
-Eu no posso. Sou estril, asseguro-lhe isso.
-S tiveste relaes com prostitutas, Alex. Essas mulheres sabem como proteger-se. Como
demnios pode saber que  estril?
-Como sabe com que classe de mulheres tive relaes? 
-Pelos rumores. 
-Rumores? 
Muir sorriu ligeiramente.
- uma boa partida, e no muito dado a ter um comportamento promscuo. Nas estranhas 
ocasies em que foi ao povo, a gente falava de ti durante todo um ms. Eu supus que foi 
cliente da casa do Kate. Estava equivocado?
Alex se passou a mo pela cara.
-No, no estava equivocado. -Agora que pensava nisso, Alex caiu na conta de que as
garotas do Kate certamente tomavam medidas para evitar ficar grvidas-. E  possvel que
tenha razo, Daniel. Suponho que h uma mnima possibilidade de que eu no seja estril. -
Dedicou um olhar cheia de angstia ao mdico-. Que Deus me ampare. Se voltar a deixar 
grvida a essa pobre garota, pegarei-me um tiro.
Daniel no pde menos que sorrir ao ver a expresso de horror em seu rosto. 
-A prxima vez ser mais fcil para ela, filho. me acredite, ela poderia ter at doze bebs
perfeitamente ss.
-Doze? Por Deus! -Alex se levantou da cadeira e comeou a andar de um lado para outro-.
Ento, j est. No voltarei a toc-la. Possivelmente seja uma boa coisa mand-la a essa 
escola, depois de tudo.
Daniel se afastou da chamin e se meteu as mos nos bolsos. Tinha ouvido muitos homens 
fazer aquela mesma promessa justo depois de que suas algemas dessem a luz ao primeiro
filho. 
-J trocar de parecer quando passar o tempo.
Alex negou com a cabea.
-No, no permitirei que ela volte a sofrer dessa maneira. No voltar a passar por esse 
transe se posso evit-lo. No tenho nenhuma dvida a respeito.  simples questo de
abstinncia. 
Ao Daniel fez graa a reao do Alex. 
-O que pensa fazer? Ir ao povo todos os sbados de noite? Annie poderia ter algo que dizer a 
respeito.
-Minhas noites no povo j so coisa do passado. Sou um homem casado, pelo amor de Deus! 
Daniel sorriu. 
-J veremos o que acontece. Como te disse, pode tomar precaues. Quando Annie venha a 
te visitar ou voc v ao Albany a v-la, a abstinncia pode ser como... uma camisa de fora. 
Alex se voltou para olhar ao mdico por cima do ombro.
-Essas precaues so completamente eficazes?
-Nada  completamente eficaz.
-Ento prefiro sofrer.
Era uma promessa que Alex tinha a inteno de cumprir. 


CAPTULO 24 

Durante o primeiro ms de sua vida Bartholomew Alexander Montgomery, a quem lhe puseram

o nome do pai do Alex, crescia a um ritmo impressionante. O leite de sua me e o ilimitadoamor que lhe prodigalizavam todos quo adultos conformavam seu mundo lhe sentavamestupendamente. Mas apesar dos centmetros que tinha crescido depois de quatro semanas,
ainda no era to largo como seu nome. Entretanto, o que no tinha em longitude, tinha-o empotncia pulmonar. Quando chorava, todos na casa, menos sua me, ouviam-no e acudiamcorrendo a seu lado. 
"Pequeno Bart", chamava-o Alex. Este era um nome que sofria mudanas sutis quando o 
menino despertava ao Alex s trs da manh. Enquanto tirava seu filho do bero para andarcom ele de um lado para outro da habitao, Alex lhe sussurrava:
-Pequeno chato. Nem sequer estamos a metade da noite. 


Bart, igual a sua me, no parecia ter noo do tempo e era uma criatura regida pelosimpulsos. Fazer vida social antes do amanhecer nunca tinha sido uma das atividades favoritasdo Alex. Mas, depois de quatro semanas, tinha que reconhecer que este costume estavacomeando a lhe gostar de. Possivelmente muito para sua tranqilidade de esprito. J era 10de fevereiro, e s faltavam trs semanas para em 1 de maro.
Por distintas razes, Alex tinha esperado para lhe dizer ao Annie que tinha a inteno demand-la a uma escola. Em primeiro lugar, no queria que o pouco tempo que ficava paraestar juntos se visse embaciado pela tristeza e tinha a certeza de que, apenas o contasse ao 
Annie, os dois foram sentir se tristes. Por outra parte, sabia que Annie no receberia muito 
bem a notcia, e no via do que podia servir fazer que se desgostasse semanas antes de quefosse necessrio. Durante quatorze anos, tinham-na obrigado a viver isolada. Para ela noseria nada fcil que de repente a forassem a sair ao mundo, que agora, sbitamente, 
esperassem que assistisse a aulas e fizesse vida social.
E, alm disso, estava o fato inegvel de que Alex tinha resultado ser mais covarde do queacreditava. Em resumidas contas, no tinha vontades de lhe falar com o Annie de sua deciso 
porque sabia que ela ia odiar o por isso. Ir a uma escola no Albany era o melhor para ela. Alex 
estava convencido disto e, com o tempo, Annie o compreenderia. Mas, igual a uma medicina 
amarga, o que era melhor para uma pessoa no sempre resultava muito apetecvel.
Alex tinha pensado com muita antecipao em centenas de maneiras distintas de lhe dar anotcia; mas, quando finalmente chegou o momento, as palavras que tantas vezes tinharepetido lhe escaparam como penugens da flor do dente de leo levadas pelo vento. Estavam 
no estudo, um tabuleiro de xadrez se encontrava desdobrado sobre a mesa que os separava, e

o beb dormia muito bem abrigado sobre o sof de crina de cavalo, perto deles. Fazendo 
proviso de valor, Alex olhou os preciosos olhos azuis de sua esposa.
-Tenho uma surpresa maravilhosa para ti, Annie.  algo que quero te dizer h j vrias 
semanas. 
Baixo a lhe pisquem luz da luz, seu sorriso lhe pareceu ainda mais radiante que de costume.
Ao olh-la, Alex soube que nunca em sua vida tinha visto uma mulher mais formosa que ela.
Fazia dois dias que a costureira tinha terminado de lhe fazer o guarda-roupa para o perodo de 
posparto, e estava espantoso com sua saia de cor rosa intenso e sua blusa de algodo rosa
plido, com mangas de volantes. O vestido se ajustava a sua figura, ensinando seu, de novo,
magra cintura e seus quadris ligeiramente voluptuosos.
-Uma surpresa? O que ? Um perrito? 
Ao Alex lhe fez um n na garganta. No tinha esquecido que ela queria um co. antes de tomar 
a deciso de mand-la ao Albany, tinha pensado comprar um para Natal. Agora isto teria que 
esperar at que ela tivesse terminado a escola.
-No, no  um co, meu amor. -obrigou-se a esboar um sorriso-.  algo melhor. - 
Inclinando-se sobre o tabuleiro de xadrez, olhou-a profundamente aos olhos-. decidi te 
mandar a uma escola, Annie. Uma escola para surdos. 
Os olhos do Annie se escureceram, e uma expresso de desconcerto apareceu a seu pequeno 
rosto. 
-A uma escola? -Sorriu vacilante-. Quando? 
-Em trs semanas -disse Alex com voz rouca-. Te vai encantar, Annie. Os estudantes pem
em cena suas prprias peas de teatro. Estou seguro de que voc o far muito bem. Leva
muitos anos te disfarando e representando obras no apartamento de cobertura! E tambm
fazem bailes nesse lugar. Dance de verdade. Poder te pr vestidos bonitos e danar a valsa 
at cair. Isso ser muito divertido, no te parece?
As sombras abandonaram seus olhos para ser substitudas por um brilho de emoo.
-Bailes? 
-Certamente! Com msica e tudo. -Enquanto a olhava, Alex rogou de todo corao que as
expresses de seu prprio rosto no fossem to reveladoras como as dela; para que a pobre
nunca adivinhasse que lhe estava partindo o corao com cada palavra que dizia-. Far
muitos amigos, Annie. Pessoas surdas como voc. Gente que sabe falar por gestos. Aprender
a ler e a escrever sem nem sequer te dar conta disso. No te parece magnfico? 
Ela apertou as mos contra seu peito.
-Sim, estupendo. Em trs semanas? Quanto tempo so trs semanas? 
-No  muito tempo. Uns vinte dias. -Isto no era suficiente tempo, ao menos a seu modo de 
ver-. Te partir o 28. Desta maneira, ter tempo para te instalar antes de que comecem as 
classes. 
O sorriso de emoo lhe gelou na cara. Olhou-lhe fixamente durante vrios segundos. 
-Partir ? 


Alex tragou saliva.
-Sim. A escola est no Albany. Ir de trem. Maddy te acompanhar, assim no ter nenhum
problema. Enquanto esteja na escola, durante o dia, ela cuidar do Bart. 
Annie no deixou de olh-lo fixamente. 
-Quanto tempo?
Alex sabia perfeitamente o que lhe estava perguntando, mas decidiu fingir que no.
-Quanto tempo? Refere-te  viagem em trem? Vrias horas. Terei que lhe jogar uma olhada 
ao horrio. Albany se encontra a uns trezentos quilmetros daqui. -Sorriu de novo-. Quer
dizer, trs vezes cem, em caso de que lhe esteja perguntando isso. Parece um comprido viaje, 
mas em realidade no o , no em nossos dias e com os meios de transporte modernos.
O olhar dela se fez mais angustiosa. 
-No... O que quero saber  quanto tempo estarei na escola.
-S o tempo que se requeira para que aprenda tudo o que precisa saber. Como falar, como ler
e escrever, como fazer operaes matemtica.
-Muito tempo.
-No... Sero dois ou trs anos como mximo, Annie. Dado que voc ficou surda quando j
tinha a fala adquiridas e a linguagem, ultrapassar rapidamente a outros estudantes.
Graduar-te antes de que te d conta. Enquanto isso, visitaremo-nos com freqncia. No nos 
parecer muito tempo.
Durante um terrvel instante, Alex pensou que ela poria-se a chorar. Mas elevou o queixo, ficou
direita e esboou um sorriso que no transformou a expresso de seus olhos.
-Que emocionante. Morro de vontades de ir a essa escola. 
Depois de dizer estas palavras, ela se levantou da cadeira, evitando olh-lo aos olhos, mas
sempre dirigindo a cara para ele para que pudesse lhe ler os lbios. 
-Acredito que estou muito emocionada e no posso seguir jogando xadrez. Por favor, me 
desculpe. 
-Annie! -Gritou Alex-. Espera, carinho...
Agarrando ao beb rapidamente, a jovem se dirigiu para a porta. No se voltou em nenhum 
momento, nem tampouco olhou para trs. Enquanto ela saa do estudo, Alex se deixou cair na 
cadeira de novo e fechou os olhos. Logo, com um amplo e brusco movimento do brao, atirou 
violentamente ao cho o tabuleiro de xadrez. 


Annie tinha ao Bartholomew amorosamente apertado contra seu peito, e seu olhar estava fixo 
no fogo. As pontas de suas sapatilhas tocavam o cho com regularidade para manter omovimento da cadeira de balano. No olhava nem para a esquerda nem para a direita, nem 
tampouco acima ou abaixo; s  frente. A dor que sentia no peito era to intenso que tinha 
dificuldades para respirar.
Assistir a uma escola... durante dois ou trs anos. No Albany, onde aprenderia a falar, ler, 
escrever e fazer operaes matemtica. No Albany, onde no formaria parte da vida do Alexat que tivesse uma formao o suficientemente completa como para no lhe fazer acontecervergonha.
Annie, a idiota... 
Fechou os olhos, resolvida a no chorar, apesar de toda a dor que sentia. No podia culp-lopela deciso que tinha tomado. De verdade que no podia faz-lo. Ela sabia desde o comeoque no era a mulher adequada para ele, que sua surdez lhe impedia de ser uma esposaidnea. Se ia  escola, poderia aprender a falar. Na isso verdade seria de grande ajuda.
Quando Alex a levasse a povo, seria menos provvel que a gente ficasse olhando-os fixamentee dissesse coisas em voz baixa se ela podia falar. Tambm seria melhor para o Bartholomew. 
No queria que se mofassem dele porque sua me era uma idiota. Sabia quanto doa que seburlassem constantemente de um. 
Albany... uma escola para surdos. Onde poderia fazer amigos. Um lugar especial, onde todosoutros tambm eram idiotas. Um lugar onde os idiotas punham em cena peas de teatro,
foram a bailes e fingiam ser normais. Um lugar ao que Alex podia mand-la para que a genteno o visse com ela todo o tempo e no se riera dele. 
Bartholomew comeou a retorcer-se. Abrindo os olhos, Annie se desabotoou o corpete dovestido e aproximou a boca do beb a seu peito. Enquanto ele se acomodava para mamar, elaacariciava sua sedosa cabecita com as gemas dos dedos. Balanando-se, balanando-seconstantemente. dentro de sua cabea, a palavra Albany se converteu em um sonsonete. Em 
trs semanas viajaria a essa cidade. Em trs anos, se aprendia rpido, poderia voltar paracasa. Era to singelo e to horrvel como isso. 



Cric falncia, cric falncia, cric falncia. Este som era suficiente para voltar louco ao Alex. 
encontrava-se sentado no bordo da cama, esperando pacientemente a que Annie terminasse 
de amamentar ao Bart para poder lhe falar a respeito da escola. Pelo olhar que tinha visto emseus olhos anteriormente, soube que ela acreditava que ele no queria t-la a seu lado, que aestava mandando longe de ali para tirar a de no meio.
E no era verdade absolutamente. Amava-a mais do que jamais tinha amado a ningum. A sidia de passar um dia sem ela era um verdadeiro tortura, no digamos vrios... Prefeririacortar um brao. 
Da vantajosa posio em que se encontrava, podia v-la com toda claridade. Fazia j muito 
tempo que Bart se aborreceu de chupar leite e estava simplesmente atuando de formarotineira, nada mais. Mamava com inapetncia, mordiscando a ponta do mamilo. Annie 
permanecia ali sentada, lhe deixando fazer, empurrando ritmicamente com seus piececitos 
para manter a cadeira de balano em movimento. Cric falncia, cric falncia, cric falncia. Alex 
esteve tentado de agarrar a condenada cadeira e atir-la pela janela. Mas, em lugar de fazeristo, ficou ali sentado, como a personificao mesma da pacincia, desejando com todas suasforas que sua esposa ao menos se dignasse olh-lo.
Bart comeou a ficar dormido ao fim. Agarrando seu mamilo entre os dedos indicadores e 
mdio, Annie tentou incitar a seu boquita a seguir mamando. Era reacia a deixar de 
amamentar a seu beb e assim ficar sem uma desculpa para seguir ignorando a seu marido.
Enquanto a olhava, Alex se viu obrigado a apertar os dentes com fora, no porque ela oestivesse ignorando, mas sim porque o fato de ver seus peitos nus o estava voltando louco. 
levantou-se da cama e comeou a andar de um lado para outro. Quatro semanas era muitotempo para abster-se de tocar a sua esposa. Entre o rudo da cadeira chiando sem cessar, somque ela no percebia, e v-la toquetearse, estava a ponto de estrangul-la ou de lanar-se 
sobre ela para lhe fazer o amor. Esta ltima opo parecia muito mais tentadora.
Agora que a terrvel experincia do Annie no parto se desvaneceu um pouco em sua mente, aoAlex j no horrorizava tanto a idia de engendrar outro filho. O doutor Muir lhe tinha 
assegurado que a segunda iluminao no seria to difcil para o Annie, e que ela estava emperfeitas condies para ter muitos filhos. Como se houvesse a mais mnima possibilidade deque isto passasse... Se era verdade que ele no era estril, parecia muita casualidade quenunca tivesse deixado um regalito em nenhuma parte. No era possvel que as esponjasempapadas em vinagre que as prostitutas utilizavam fossem um mtodo infalvel paraacautelar um embarao. 
dirigiu-se  janela a grandes pernadas e correu a cortina de cor marfim para deixar que seuolhar se perdesse na escurido que reinava ali fora. Olhar fixamente para nenhuma parte tinhaque ser melhor que seguir atormentando-se daquela maneira. depois de uns interminveisinstantes, olhou para trs, esperando e rogando que ela se grampeou o corpete. Mas,
certamente, no o tinha feito. Tpico do Annie. Entretanto, j tinha deixado de tentar ao Bart 
para que seguisse mamando. Alex agradecia estas pequenas bnes.
voltou-se para dirigir-se para ela com passo resolvido. Ao advertir que ele se aproximava, elaelevou seus olhos azuis. Um olhar da mulher bastou para fazer que sua irritaodesaparecesse. Sua deciso de mand-la a uma escola longe de ali a tinha feridoprofundamente. Tinha que lhe fazer entender de algum jeito que tambm lhe doa oafastamento. 
inclinou-se sobre ela, levantou o menino em seus braos e o levou ao bero. Ato seguido,
agachou-se junto  cadeira de balano, observando com a boca seca como voltava a met-los 
peitos na camisa interior e fazia um lao com os cordes. 
-Annie... -Agarrou-a do queixo e a obrigou a olh-lo-. Eu no quero que te parta. Sei que 
isso  o que est pensando. No o negue. Juro-te, meu amor, que est completamenteequivocada.
Com os olhos brilhantes pelas lgrimas no derramadas e com uma grande dor na alma, elapermaneceu imvel, fulminando-o com o olhar.
Alex tinha um mau pressentimento.
-Eu te amo, maldita seja! No quero te mandar a essa escola para me desfazer de ti. - 
Agarrando as mos de sua mulher, enumerou todas as razes que o levaram a tomar essadeciso. E terminou com uma frase terminante-. No quero te tirar a possibilidade de viveressas experincias, meu amor. Se o fizesse, seria o bode mais egosta que jamais tenhaexistido. 
-Te ocorreu pensar no que eu quero? -perguntou ela finalmente. 



Alex deixou escapar um suspiro. 
-Carinho, voc no sabe o que quer. No te d conta? Como pode saber se preferiria ficar
aqui ou ver uma pea de teatro? Nunca na vida viu uma. E o que me diz dos bailes?  fcil 
pensar que nenhuma dessas coisas te importa, mas isto se deve unicamente a que nunca as
tem feito. Eu sim. -inclinou-se para olh-la aos olhos, dirigidos ligeiramente para o estou
acostumado a-. Sei o que te perdeste, Annie, meu amor. E quero que experimente a vida 
plenamente. Quero que faa amigos e te divirta com eles. Que possa ir a uma escola, como
fazem outras pessoas. Quando estiver ali, todo esse mundo te vai encantar. Prometo-lhe isso. 
Ela negou com a cabea e assinalou seu entorno.
-Esta  a vida que quero. Estar aqui contigo. Ser sua esposa.
-Pensa isso porque nunca experimentaste outra coisa. -Alex respirou fundo. Necessitava
foras. Era muito tentador, terrivelmente tentador, permitir que Annie ficasse com ele-. Me 
ocorre uma idia. Faamos um trato. Voc vai  escola e agenta todo um ano. Se depois
desse tempo, ainda quer vir a casa, eu...
Ela se levantou da cadeira de um salto. depois de afastar-se vrios passos, girou sobre seus 
tales para cravar nele os olhos cheios de lgrimas. Elevando as mos, gritou.
-Voc no me quer aqui. Essa  a verdade. E tampouco me ama. No me ama como eu amo a
ti! Se me amasse, no poderia fazer algo assim.
Alex ficou em p.
-Isso no  verdade. Amo-te tanto que me di. A s idia de que te parta provoca nuseas. Eu 
no... 
Ela se levou as mos aos olhos. 
-Vete j!
O salvou a distncia que os separava e lhe fez baixar as mos. 
-Annie, carinho, por favor, no faa isto mais difcil do que j .
-Vete! No me quer. Eu tampouco te quero. Assim vete j. 
-Eu sim te quero. 
Ela torceu a boca, e as lgrimas que lhe enchiam os olhos se transbordaram sobre suas negras 
pestanas e correram por suas bochechas.
-No, no me quer. Nem sequer tornaste a me beijar.
Alex sentiu esta acusao como um murro no estmago. Era verdade: no havia tornado a 
beij-la. Temia que se o fazia perderia o controle e acabaria lhe fazendo o amor. E o que
passaria se em realidade no era estril? Quando pensava as coisas racionalmente, o qual lhe
resultaria impossvel se a beijava, sabia que deix-la grvida era um risco que no queria
correr. Outro beb... Ela no poderia ir  escola se voltava a deix-la grvida. Se o doutor Muir 
tinha razo, se havia sequer uma mnima possibilidade...
Com a voz alterada por culpa do desejo que no podia saciar, falou quase em sussurros.
-Nada eu gostaria mais que te beijar, Annie, meu amor. Mas se o fao certamente quererei
fazer muito mais. Se fizermos o amor, poderia ficar grvida de novo.
Ela abriu os olhos como pratos e se levou uma mo  cintura.
-De um beb? 
- obvio, de um beb. 
-Fazer o amor  o que traz para os bebs ao mundo?
Alex tragou saliva.
-Bom, sim. O que pensava voc? Com uma terrvel expresso de aflio no rosto, ela
sussurrou algo que ele no conseguiu entender. O que? 
-As fadas -repetiu a jovem-. Minha me me disse que as fadas os traziam.
Annie acreditou que lhe ia estalar a cabea.
-As fadas? -Alex soltou uma risada instintiva, mas sem alegria alguma-. Voc no ter
acreditado isso, Annie. Quer dizer, certamente ao pensar nisso voc... -interrompeu-se,
olhando fixamente seu plido rosto e dando-se conta de que sim o tinha acreditado-. Eu,
isto... Suponho que talvez, se ningum te explicou como eram as coisas, seja compreensvel 
que voc no...
interrompeu-se, olhando-a com desgosto enquanto ela dirigia um olhar de angstia para o
bero. Depois de um momento de inquietante silncio, Annie ficou to tensa como se algum 
lhe tivesse pego e logo fechou os olhos. Um dbil som agudo saiu de sua garganta. Alex 
alargou as mos para agarr-la, mas ela o rechaou. Quando finalmente abriu os olhos de 
novo, lanou-lhe um olhar devastador. 
-Mentiu-me. 
Alex sentiu um picor na nuca. 
-No, Annie. No te menti. 




Ela tinha comeado a tremer de uma maneira terrvel, aterradora. 
-Douglas! 
-Annie... 
A moa girou sobre seus tales e, antes de que Alex pudesse det-la, saiu correndo. A porta sefechou de uma portada detrs dela. O estrpito fez que Bart despertasse sobressaltado ecomeasse a armar um formidvel escndalo. Alex saiu ao corredor. S alcanou a ver uma 
mancha de cor rosa no outro extremo do corredor e sups que Annie se dirigia ao apartamentode cobertura, seu esconderijo favorito. Correu ao patamar e chamou o Maddy para que subisse 
a ocupar do beb. 

O apartamento de cobertura estava to escuro como uma cova. Com as idias amontoando-se 

o na cabea, Alex elevou o abajur enquanto se dirigia para o saloncito do Annie. Esperava 
encontr-la chorando, acurrucada em um rinco. Finalmente chegou e a viu sentada na velha 
cadeira de balano. Depois de mover o abajur para lhe iluminar o rosto, observou-oatentamente, tentando pensar em algo que pudesse lhe dizer para tranqiliz-la. Mas nohavia nada que pudesse consol-la. Nenhuma s condenada palavra poderia apaziguar atormenta interior que se desatou nela.
Depois de pr o abajur na cambaleante mesa do salo, sentou-se em uma das cadeiras.
Durante um comprido momento, ficaram olhando-se fixamente aos olhos. os do Alex refletiam 
arrependimento, e os dela ardiam com o fogo das acusaes no expressas. Olhando as coisasdesde seu ponto de vista, Alex pde entender o que Annie estava pensando: que lhe tinha 
oculto a verdade deliberadamente. O mais lamentvel de todo aquilo era que ningum setomou sequer a molstia de lhe mentir. Nem ele, nem seus pais. No o tinham consideradonecessrio, pois todos eles tinham acreditado que estavam tratando com uma idiota.
Posteriormente, quando Alex se inteirou da verdade, a identidade do pai biolgico do meninolhe pareceu irrelevante. Alex considerava em seu foro interno que ele era o pai, e isto era tudo
o que parecia lhe importar.
Com voz vibrante, Alex lhe explicou todo isso. Annie seguiu olhando-o em meio de umacusador silncio. O marido suspirou, esfregou-se as mos, apertou-se o sobrecenho.
-Ao princpio, minha inteno era permanecer casado contigo s at que o beb nascesse.
Logo, pensava me divorciar de ti e criar ao menino como se fosse meu. Desde os primeiros 
dias, muito antes de que comeasse a te amar, Annie, j considerava a esse beb como meu. 
Quando te disse isso, no estava mentindo, s te estava dizendo as coisas como eu as via. - 
Em poucas palavras, falou-lhe das caxumba que contraiu quando tinha pouco mais de vinteanos-. Aps, pensei que era estril, que no podia ter filhos. Recentemente, o doutor Muir me 
disse que poderia estar equivocado, mas isto no vem ao caso. A noite em que seu pai veio ame contar que estava esperando um filho de meu irmo, eu pensava de todo corao quenunca poderia ter um filho prprio. Vi seu filho como a resposta a minhas oraes. Era ummenino que estava aparentado comigo e que eu poderia criar como se fosse meu.
-Foste roubar a meu beb? -Annie tinha agora uma expresso de horror no rosto. Alex 
grunhiu.
-Eu no o via como um roubo naquela poca. Voc foi... eu pensava que voc foi incapaz decriar ao menino, que foi uma discapacitada mental. Quando comecei a me dar conta de quepodia sentir carinho, que podia querer ao beb e inclusive jogar o de menos, decidi permitir 
que ficasse vivendo no Montgomery Hall. 
-E por isso me deixou ficar aqui? Para poder compartilhar ao beb?
-No! -Alex se esfregou a cara com uma mo-. No... Isso foi ao princpio, Annie. S ao 
princpio. Logo, comecei a me apaixonar por ti. Tudo trocou depois... Tudo... -Soltou umagargalhada nervosa e fez gestos com uma mo-. At o ponto de que agora estou deixando 
que Bart parta contigo longe daqui. Se ele fosse tudo o que me importasse, crie realmente que 
o permitiria?
Ela se mordeu o lbio inferior e dirigiu o olhar para as vigas do teto.
-Eu acredito que me est mandando a essa escola porque te envergonha de mim, porque noquer que siga a seu lado enquanto no deixe de me comportar como uma idiota.
-No, Annie. -Alex se levantou em seguida da cadeira e atravessou a habitao paraaproximar-se dela. agachou-se, apoiando-se em um joelho, agarrou-a dos ombros. Os olhos delhe pareceram de veludo-. No te estou mandando  escola porque me envergonhe de ti.
Amo-te com todo meu corao, e estaria orgulhoso de ir a todas partes contigo obstinada ameu brao. Tal e como ! me envergonhar eu? -Negou com a cabea-. Nunca, nem em ummilho de anos. O que passa  que te perdeste muitas coisas na vida. Coisas divertidas. Coisas 


maravilhosas. Porque te amo tanto, quero que tenha uma oportunidade das fazer, e isso no possvel aqui. Isso  tudo.
-Est seguro? -perguntou ela com os lbios trmulos.
-Ai, carinho, sim, certamente que estou seguro.
Sem que Alex se desse conta sequer do que estava fazendo, beijou-a apaixonadamente. Uminstante depois, ela se derreteu em seus braos. dentro da cabea do Alex seu pulso soava 
como um rufo de tambor. No o faa. No o faa, parecia lhe dizer. Mas Alex j no ouviaadvertncias. J no lhe importava ser precavido. Com tantas outras emoes assediando-o, aremota possibilidade de um embarao nem sequer lhe passava pela cabea. 
Annie... atirando dela, fez que se levantasse. O sentia como se tivesse o muito mesmo cuentre os braos. Percorreu o corpo do Annie com suas mos, familiarizando-se com sua forma, 
que tinha trocado do parto. Uma cintura magra. Quadris ligeiramente acampanadas. Deus 
santo, queria abra-la at deix-la sem flego. Levou as mos a seus peitos, amassando-os,
deleitando-se com seu calor. Ao sentir estas carcias, ela gemeu dentro de sua boca. Este som, 
cheio de desejo, afastou-o de todo pensamento racional.
Alex lhe desabotoou torpemente os botes do corpete. Enquanto o tecido caa, ele se 
equilibrou sobre os cordes de sua camisa interior. Pele suave e clida. Mamilos erguidos,
procurando ansiosamente as carcias de seus dedos. A boca do homem se transladou ao 
pescoo, e logo baixou ainda mais. Ela arqueou as costas oferecendo-se a ele. Alex no 
necessitou convite alguma.
Enquanto se levava um mamilo  boca, a doura de seu leite lhe derramou sobre a lngua.
Rodeando sua cintura com as mos, levantou-a ligeiramente, chupando com veemncia ummamilo, e logo o outro, excitando-os com seus dentes e sua lngua. Ela deixou escapar um uivo 
comprido e grave que se foi apagando at converter-se em um gemido.
Alex lhe tirou a roupa como quem descascamento uma fruta deliciosa. Os lbios seguiam aesteira que deixavam as mos para saborear cada centmetro de seu corpo no instante mesmoem que o desentupia. Quando a despiu por completo, ficou adorando-a com o olhar duranteum momento. Quando estava grvida, lhe pareceu formosa de uma maneira que no poderiadescrever com palavras. Mas agora... Era o sonho de todo homem, com seus peitos turgentescom pontas de cor rosa, sua magra cintura, seus generosos quadris e suas pernas largas etorneadas. At o ltimo centmetro de seu corpo era perfeito. Era to bela que quase tinhamedo de toc-la e de uma vez to tentadora que no podia resistir. Desejava-a, tinha quepossui-la, Y... ao diabo com todos os motivos que tinha para no faz-lo.
Alex lhe fez apoiar as costas na cadeira de balano, abriu-se a braguilha de um puxo eenterrou o membro na ardente umidade de seu sexo. Annie rodeou sua cintura com as pernas,
indo a seu encontro com cada investida. O movimento da cadeira de balano acelerou seu 
ritmo. Cric falncia, cric falncia, cric falncia. Alex era vagamente consciente deste som, mas,
por alguma razo, j no lhe crispava os nervos.
Um tempo depois, recuperou a razo e se deu conta de que estava tendido no cho doapartamento de cobertura, com sua preciosa esposa nua tombada sobre ele e a cara apertada 
contra seu pescoo. Quando saiu da sonolncia e se esclareceu vista, encontrou-se olhando 
fixamente um par de ojitos redondos e brilhantes. Um camundongo estava sentado no magro 
ombro do Annie. Alex piscou, mas em seguida sorriu e acariciou  diminuta criatura com agema de um dedo.
Que loucura. Faziam o amor em um apartamento de cobertura infestado de ratos! Fechou osolhos. No lhe importava enlouquecer enquanto a mulher que estreitava entre seus braosestivesse com ele. 
Trs semanas. Poderia estreit-la e am-la durante trs semanas mais. Tinha a inteno de 
tirar o melhor proveito possvel de cada segundo junto a ela. Tinha falado com o doutor Muir a 
respeito das maneiras de evitar que Annie ficasse grvida, e tomaria todas as precauesnecessrias. Mas no deixaria de am-la. Tanto como pudesse, todo o tempo que fossepossvel.
Trs semanas mais... Depois, sua esposa e seu filho partiriam, e seus braos ficariam vazios. 
Como sua vida. 

CAPTULO 25 

Trs semanas depois, quando Alex levou ao Annie e ao Maddy  estao do Medford para 
despedir-se deles, a manh estava fria, sombria e mida; um reflexo perfeito de seu estado denimo, que era pssimo, por no dizer outra coisa. Tinha estado temendo aquele momentodesde fazia mais de dois meses; no queria enfrentar-se a ele, e pde ter pensado em uma 



dzia de razes para dar meia volta e levar-se a casa a sua esposa e a seu filho.
-Tem os bilhetes? 
Fazendo uma careta, Alex caiu na conta de que estava gritando para que Annie pudesse lhe 
ouvir por cima do rudo da locomotiva. Colocando a mo debaixo das grossas dobras da capa
de l que ela levava, agarrou-a do brao e a obrigou a deter-se. Ato seguido, inclinou-se para
que ela pudesse lhe ver a cara enquanto lhe repetia a pergunta. Ela abriu uma bolsa de seda
azul bordado com miangas negros e comeou a rebuscar em seu catico interior. Alex 
alcanou a ver algo pequeno e marrom movendo-se entre os papis. antes de que pudesse cair
na conta do que era ou reagir, a criatura saiu da bolsa de um salto. 
-Nooo! -chiou Annie. 
-Jesus! -exclamou Alex. 
-Um camundongo! -gritou uma dama gorda.
A partir desse instante, armou-se a de Deus  Cristo. As mulheres comearam a chiar e a
equilibrar-se para os bancos, os homens pisavam no cho com fora para tratar de esmagar
com os saltos de seus sapatos  escorregadia criancinha. Alex se meteu em meio da refrega,
sem saber muito bem o que esperava conseguir, alm de ficar como um perfeito imbecil.
Duvidava que o pobre camundongo ficasse imvel para que ele pudesse agarr-lo em meio 
daquele barulho. Mas com o olhar de adorao do Annie cravada nele e a expresso de seu
rosto aclamando-o como seu heri, no podia ficar ali sem fazer nada.
O camundongo se refugiou entre um cubo de lixo e um poste. E ento uma mulher, com a saia
recolhimento sobre os tornozelos, lanou um ataque contra o esconderijo do camundongo,
fazendo oscilar sua bolsa com fria. Alex s pensou em que aquela mulher poderia esmurrar ao
mascote do Annie at mat-la ante seus prprios olhos. lanou-se entre a agressora e o cubo 
de lixo, recebendo a pior parte do castigo em seus ombros, e obtendo assim que os golpes no
lhe fizessem mal algum ao bichinho. Quando as gemas de seus dedos tocaram um cuerpecito 
peludo uns dentes diminutos se cravaram em seu dedo indicador. 
-Joder! Ingrato camundongo de mierda! 
-No diga palavres, senhor!
Cataplum. A bolsa da mulher o golpeou em uma orelha. Enquanto se levantava, Alex elevou
um brao para proteg-la cara.
-Como se atreve voc a soltar um camundongo em meio de um lugar pblico? -Gritou a
dama-. Quase me d um ataque ao corao!
Ao Alex pareceu que aquela bruxa estava perfeitamente bem. Esquivou outro ataque de sua
bolsa. 
-Senhora, tenha a amabilidade de deixar de me atacar com sua bolsa. 
Por toda resposta, golpeou-o no ombro.
-Como se atreve a perturbar a paz, a aterrorizar a gente inocente? E um homem adulto, nada
menos. Estas travessuras de meninos. Mas voc? Tenho vontades de ir denunciar o. Os 
roedores transmitem enfermidades. Tm a raiva! A peste! Como se atreve a expor s demais
pessoas A...?
Alex apertou ao camundongo resgatado contra a lapela de seu casaco. 
-Este no  um camundongo normal.  um... -disse as primeiras palavras que lhe vieram  
mente- genus attica.  um animal muito estranho. Minha esposa no se desprenderia dele 
embora lhe dessem mil dlares. 
A mulher piscou.
-Diz voc que  um animal estranho? 
-Nem se imagina quanto.
Ela franziu a boca. Este movimento fez que a ponta do nariz lhe movesse nervosamente e que
as janelas lhe alargassem.
-E diz que vale mil dlares?
-E inclusive mais. 
-Ai, Deus... -levou-se uma mo ao pescoo-. Ai, sinto-o muito. A primeira vista, parecia um 
camundongo comum.
-Senhora. -Alex recorreu a um sorriso estudado-, s um idiota exmio atravessaria correndo 
uma estao de trem para tratar de agarrar a um camundongo comum. Deve dar graas ao 
cu por no lhe haver feito mal.
A mulher levantou suas sobrancelhas pintadas e se inclinou para olhar atentamente a mo
cavada do Alex. 
-No me diga! Um genus attica? Sabe? Agora que o diz, j tinha ouvido falar desses animais. 
De fato, acredito que vi um na feira do ano passado. Sim, sim, estou segura... um genus attica. 
Sim, isso era. Isto  absolutamente extraordinrio! 




-Posso-lhe assegurar que no encontrar voc a muita gente que leve uma em sua bolsa. 
Lhe fez gestos a um hombrecito enxuto para que se aproximasse. 
-Horace, vem ver uma coisa. Este homem tem um genus attica. No te parece incrvel? 
Vimos um na feira do ano passado, recorda?
Retorcendo o bigode e balanando-se para trs sobre os saltos de seus sapatos, ao Horace 
pareceram lhe surpreender estas palavras.
-Isto... Ah, sim. Um genus... o que h dito? 
-Um genus attica! So extremamente valiosos. Claro que o recorda.
-A senhora se aproximou do Alex-. Posso v-lo?
Outras pessoas comeavam a congregar-se em torno deles. Alex sujeitou ao camundongo
entre suas mos e separou os dedos polegares para que a mulher pudesse jogar uma miradita. 
Ela adotou a atitude de algum muito entendido no tema e assentiu com a cabea. 
-Ah, sim. Ao examinar o de perto, posso ver que, em efeito, no  um camundongo comum. 
As orelhas do genus attica so bastante peculiares, no  verdade?
Um homem bem vestido se inclinou para frente para olhar ao camundongo por cima do ombro
da mulher. 
-O focinho tambm  muito significativo. meu deus,  um milagre que qualquer imbecil no o
tenha esmagado.
-Ai, no  uma macacada? -Gritou outra mulher-. Paul, eu gostaria de ter um desses 
bichinhos. Seria um tema de conversao estupendo. Onde o comprou voc, senhor?
-A verdade  que eu no o comprei -respondeu Alex-. Se poderia dizer que o consegui
atravs de uma relao especial. J sabe, contatos. Como lhe disse, no todo mundo tem um. 
Annie se aproximou correndo naquele preciso instante. Alex lhe deu o camundongo. Ela o
levou a bochecha, com doces ndulos arrulladores. Nenhum dos espectadores pareceu pensar
que isto era estranho, agora que acreditavam que o camundongo era um estranho e custoso 
genus attica. 
Alex sabia quando era prudente retirar-se. Agarrou ao Annie do brao para afastar-se daquele 
lugar a toda pressa. Viu o Maddy junto  escalinata de um vago e se dirigiu para ela. 
-Conseguiram agarrar a esse condenado camundongo? -perguntou ao v-los aproximar-se.
-Baixa a voz -sussurrou Alex-. A mulher que est ali esteve a ponto de chamar as
autoridades. Disse que os ratos eram um risco para a sade, entre outros disparates.
-Pois, v! -exclamou Maddy. 
-A partir deste momento,  um genus attica. Muito estranho, muito valioso. Do contrrio, 
poderiam encontr-lo mais tarde e lhes fazer descer do trem. 
Maddy dirigiu o olhar para o Annie, que contudo cuidado estava voltando a guardar seu 
mascote na bolsa. 
-No podemos ficar com esse inseto. 
-No, no podemos. 
-Um genus attica. -Maddy assentiu com a cabea-. Soa bem. J tm os bilhetes? 
Ao Alex saltou o corao ao ver o Annie abrir a bolsa de novo para tirar os bilhetes, mas esta 
vez agarrou ao camundongo com uma mo enquanto os buscava. Quando ela finalmente os
encontrou, ele esteve a ponto de dar um suspiro de alvio. Se Maddy e ela perdiam aquele 
trem, no poderiam viajar ao Albany at o dia seguinte. E, embora lhe teria encantado que
ficassem em casa um dia mais, no acreditava poder suportar uma nova despedida. A noite
anterior, ao estreitar ao Annie entre seus braos sem saber quanto tempo passaria antes de 
voltar a v-la, tinha sido um verdadeiro martrio. 
depois de agarrar os bilhetes, Alex se assegurou de que ela tivesse guardado bem o 
camundongo.
-No o tire o trem -lhe advertiu-. No todo mundo tem debilidade por... -baixou a voz-os
ratos, sabe? De fato, a algumas pessoas desagradam terrivelmente.
-Viajantes ao trem! -gritou o chefe de estao.
Alex agarrou ao Annie do brao, atirando dela para tratar de alcanar ao Maddy, que estava 
fazendo caso das chamadas do empregado ferrovirio.
-Viajantes ao trem! Viajantes ao trem! -voltou a gritar o homem. 
Quando conseguiram alcanar ao Maddy, Alex lhe colocou os bilhetes na mo e agarrou ao 
pequeno Bart para lhe dar um ltimo abrao. As lgrimas lhe alagaram os olhos enquanto
apartava a manta e apertava uma bochecha contra o cabelo sedoso do beb. depois de
devolver ao menino aos braos espectadores do ama de chaves, voltou-se para o Annie. Seus 
lbios estavam tremendo e tinha os olhos alagados de lgrimas.
-Escreverei-te -lhe assegurou-. No ser to terrvel, meu amor. J o ver. Uma vez que
comece a estudar, te vai encantar. 




Ela assentiu com a cabea. Tinha tal ar de tristeza e desamparo que se sentiu tentado de 
suspender aquela viagem. 
-Amo-te, Annie. Te vou sentir falta da cada segundo de todos os dias.
Alex se inclinou para beij-la, e em seguida a estreitou entre seus braos. Fechou os olhos, 
apertou a cara contra seu cabelo e respirou fundo, tratando de memorizar seu aroma. Estava 
tremendo quando a afastou de seus braos.
-No quero partir -disse ela. 
Fingindo no ter advertido que lhe tinha falado, Alex a beijou na frente. Logo, voltou-se para o 
Maddy. 
-Escrever-me? Ao menos uma vez  semana! 
-Certamente. J lhe disse, senhor, que lhe escreverei todas as semanas sem falta. -O ama
lhe deu os bilhetes ao cobrador. Logo, embalando ao beb em um de seus braos, agarrou ao 
Annie da boneca-. Vamos j, mulher. O trem vai sair sem ns.
-Se ocorrer algo, me envie um telegrama. Chegarei ali em seguida.
-No se preocupe -lhe gritou Maddy-. Lhe enviarei um telegrama se o necessitar.
Alex apertou os dentes e dirigiu o olhar para o Annie. Seus grandes olhos azuis se aferravam a 
ele. Enquanto Maddy comeava a subir os degraus, Annie estirou o pescoo para seguir
olhando-o. Alex elevou uma mo para lhe dizer adeus. Um segundo depois, ela j tinha
desaparecido.
Ele ps-se a andar junto ao trem para tentar ver sua cara atravs de um dos guichs. O
comboio comeou a mover-se. Ele acelerou o passo, procurando-a desesperadamente,
resolvido a v-la uma vez mais. S uma vez. Quando o trem saiu da estao, deteve-se 
cambaleando-se, olhando-o fixamente enquanto se afastava. sentiu-se mais desconsolado que
em qualquer outro momento de sua vida. 


Quando Alex retornou ao Montgomery Hall, a casa parecia estar sumida em um silncio 
absoluto. Sentindo-se inefablemente sozinho, comeou a percorrer todas as habitaes da 
moradia. Via o Annie e ao beb em todas partes. partiram-se. Ao chegar a seu estudo, sentou-
se frente  chamin, ficou olhando fixamente a caixa do fogo enegrecida pela fuligem, e 
pensou que a escurido era um pressgio. partiram-se, e o mais provvel era que nunca
retornassem. Por difcil que fosse, tinha que aceit-lo.
Frederick bateu na porta do estudo. 
-Quer voc que lhe traga algo, senhor? Uma taa de caf, talvez? Peo a uma das criadas que
lhe traga a comida?
Alex deixou escapar um suspiro. 
-Em realidade, no tenho fome, Frederick. Obrigado, de todos os modos.
O mordomo entrou na habitao. Ao chegar  chamin, fez algo sem precedentes: sentou-se
na cadeira que se encontrava frente  de seu amo. 
-Sei que no  um consolo, senhor, mas tem feito voc o correto.  difcil, sei. Mas, ao final, 
ser o melhor para ela e para o beb.
Compreender isto no era muito reconfortante. Alex no disse nada. 
-Maddy lhe escrever com freqncia. Estou seguro. E, em muito pouco tempo, Annie 
comear a escrever suas prprias cartas.
Alex assentiu com a cabea. 
-Suponho que tudo ser mais fcil ento. Mas passar uma boa temporada antes de que ela
aprenda a ler e a escrever, Frederick. 
-Sim, senhor, sei. -O homem ficou calado um momento, com as mos estendidas para a
chamin, para as esquentar, embora no houvesse fogo nela.
-O que voc necessita agora  ter projetos que o mantenham ocupado. Uma coisa que
poderamos nos propor  fazer uma jaula para ratos. Eu no gosto de me queixar, mas desde 
que Annie fez saltar todas as armadilhas do apartamento de cobertura, estamos infestados 
desses insetos. Encontrei excremento no cho da cozinha esta manh, nem mais nem menos. 
-meu deus! Espero que o tenha atirado. 
-Bom, senhor, no exatamente. Dado que a essas criaturas parece lhes encantar, eu, isto...
levei-o acima. Pensei que ao melhor... bom, pois se tiverem comida ali, possivelmente no
voltem para a cozinha.
Alex grunhiu e se esfregou a frente. Logo, soltou uma gargalhada pouco entusiasta. 
-Frederick, isso  um disparate. Dar de comer aos ratos do apartamento de cobertura? Tem
alguma idia do rpido que se multiplicam estes animais? No posso recordar as cifras exatas
que aprendi na universidade, mas  incrvel. 




-Tem voc razo, certamente.  um disparate dar de comer aos ratos. -Olhou ao Alex de
soslaio-. Ento, pedirei-lhe que tenha a amabilidade de voltar a pr as armadilhas. 
Alex grunhiu de novo.
-No posso faz-lo. O mais seguro  que apanhe a um de seus favoritos. Talvez tenha razo. 
Terei que lhes fazer uma jaula. -Recordou o acontecido na estao de trens e contou a 
histria ao Frederick-. Talvez podemos montar um negcio para vender esses indesejveis
insetos -disse em brincadeira-. Quinhentos dlares por cabea. Toda uma ganga!
Frederick sorriu. 
-Eu me contentaria os dando de presente, senhor.
-No h problema. Esta manh me teria podido desfazer com facilidade de duas dzias.
Incrvel, verdade? S tem que dizer s pessoas que algo  muito estranho e valioso para que 
em seguida o queiram.
-Se quiser voc ajuda para fazer uma jaula, eu sou muito hbil com o martelo e os pregos.
-Obrigado, Frederick. Agradeo-te seu amvel oferecimento.
-Quando tivermos enjaulado aos amiguitos do Annie, possivelmente possamos voltar a pr as 
armadilhas. 
- uma boa idia. 
-Quanto  rpida reproduo desses insetos, talvez eu possa... -O mordomo pigarreou e
baixou a voz-... me desfazer discretamente das crias no desejadas.
-Teremos que fazer algo. -Alex assentiu com certa tristeza, e voltou a dirigir o olhar para a 
chamin. 
-Mas no fique assim, senhor. Voc pode ir visitar a quando queira.
-No posso ir ver a no momento. Tenho que lhe dar o tempo necessrio para que se adapte,
ou me suplicar que a traga para casa, e para te ser franco, no sei se poderia me negar a
faz-lo, tal e, como me sinto agora. Em todos os rinces da casa h algo que recorda ao Annie 
ou ao Bart. No deixo de pensar em tudo o que me perderei. O trocar muito entre uma visita
e outra.  possvel que no o reconhea quando for v-lo.
O que mais incomodava ao Alex era que sem dvida ao menino lhe aconteceria o mesmo. Esta
s idia esteve a ponto de lhe partir o corao. Finalmente tinha um filho, mas no podia
formar parte de seus primeiros anos de vida.
Frederick suspirou e ficou em p.
-Sou um bom jogador de xadrez, se quiser voc ter um pouco de companhia de vez em
quando...
Este oferecimento fez sorrir ao Alex. 
-Voc parece estar to triste como eu.
-Sim, bom... As coisas aqui no sero iguais para mim sem o Maddy... entende voc? 
Alex elevou a vista. depois de escrutinar o olhar do mordomo durante um bom momento, Rio
entre dentes. 
-V, v! 
Frederick se ruborizou. 
-Espero que no lhe diga nada. No me declarei ainda. Nossa Maddy  o bastante... 
suscetvel. 
-Meus lbios esto selados. 
O mordomo se alisou a jaqueta negra e logo se tirou um penugem imaginrio da manga. 
-S o mencionei porque... -pigarreou-, bom, como diz um antigo refro, senhor: a
companhia na misria faz a esta mais suportvel, e sem uma dose de humor irlands, ao
menos uma vez ao dia, para lhe pr sal a minha vida, sentirei-me algo triste. 
-Quando for ao Albany s visitar, voc gostaria de vir comigo? 
Frederick se sorveu o nariz. 
-No  uma m idia, se minha agenda me permitir isso.
Quando o mordomo saiu do estudo, Alex se levantou da cadeira e perambulou pela habitao
sem propsito algum. Foi junto ao rgo, passou a mo sobre sua brilhante superfcie. Logo, 
deteve-se junto s cascavis para tocar um par de notas. Finalmente, dirigiu-se a seu
escritrio. Um dos aparelhos de surdez do Annie se encontrava sobre a pasta. Agarrou-o, ficou 
olhando-o durante um momento e logo fechou os olhos ao sentir que o invadia uma dor to 
forte que se sentiu fisicamente mal. 


A partir daquele dia, o nico interesse na vida do Alex eram as cartas do Maddy. A primeira 
chegou uma semana e meia depois. encerrou-se em seu estudo e a abriu com mos trmulas. 
"Bom, j estamos aqui -lhe escrevia Maddy-. Apesar de ser um povo pequeno, Annie estava 



aterrorizada quando chegamos, mas j est comeando a adaptar-se e parece que estdesfrutando de suas classes". 
Alex tragou saliva. Maldio! No queria que gostasse daquele lugar. Depois de pensar isto, osentimento de culpa se apropriou dele. obrigou-se a seguir lendo.
"Os professores parecem ser muito amveis e, do primeiro dia, ela fez vrios amigos. Quer ir-
se a casa, certamente. Todas as tardes, quando vou procurar a  escola para lev-la a casa, oprofessor me diz que Annie expressa constantemente seu desejo de partir. Estou segura deque isto lhe passar com o tempo, mas neste momento  muito difcil para ela, e para mimtambm. No posso menos que compadecer a pobre menina".
Logo, Maddy o punha  corrente de todo o relacionado com o Bart, e tambm lhe descreveu o 
pequeno povo do Albany e a casa onde viviam. Alex leu a carta, voltou a l-la, e logo a leu uma 
vez mais. Era uma missiva curta, e pouco depois j se aprendeu de cor at a ltima palavra aliescrita. 
Notcias do Annie. Crnicas sobre o Bart. Alex sabia que era uma loucura, mas de verdadesentia que no ficava nada mais pelo que viver. Edie Trimble passou uma tarde por sua casa. 
Alex lhe ensinou a carta do Maddy. depois de l-la, ela elevou a vista e sorriu timidamente. 
-Imagino quanto deve jogar os de menos -disse. 
Alex o duvidava. No era s que sentisse falta da sua esposa e a seu filho. Sentia como se lhetivessem arrancado o corao do peito.
- muito... difcil. H momentos nos que no estou seguro de ter tomado a deciso correta.
Edie se aproximou para lhe tocar a mo.
-No o duvide, nem por um instante. Este  o presente mais valioso que lhe tenha podido dar,
Alex. Ela no o entende agora, mas o far. depois de um tempo, far-o.
Alex s podia esperar que assim fosse. 
Uma semana depois chegou outra carta do Maddy. Annie se encontrava bem, dizia, e Bart 
estava crescendo a passos aumentados. Fazia um calor anormal para a poca do ano em queestavam e as flores j se aberto no jardim. Em relao  escola, s tinha surto uma dificuldadeat o momento: quando Annie usava a lngua de signos, muitos dos movimentos que fazia com 
as mos eram incorretos. No era nada grave, s ligeiras variaes. O professor do Annie dizia 
que, dada a situao, Alex fazia um trabalho excelente. Que simplesmente tinha interpretadomal as instrues dos manuais, coisa bastante freqente e muito fcil de corrigir. Entretanto, 
Annie se negava a cooperar, e dizia a seu professor, uma e outra vez, que, se fazia os gestos 
de uma maneira distinta, Alex no poderia lhe entender.
Isto fez que ao Alex lhe saltassem as lgrimas. Em seguida respondeu ao Maddy, lhe pedindo 
que dissesse ao Annie que no devia preocupar-se de que no lhe entendesse. Enquanto ela seencontrava na escola, pediria ao Irene Small que lhe mandasse o material didtico apropriadopara aprender a usar corretamente a lngua de signos. Imediatamente depois de fechar o sobre 
dirigido ao Maddy, escreveu uma nota  senhora Small para levar a cabo sua promessa.
Por volta de meados de abril, Alex recebeu uma carta que, de acordo com o carimbo, desviou-
se e tinha ido parar a So Francisco. Quando leu atentamente as letras torpemente escritas no 
sobre, no lhe surpreendeu que isto tivesse passado. Hopevile Orgen. E, alm disso, no havia 
remete. No pde reconhecer a letra. Rasgou o sobre e tirou uma folha de papel rajado que se 
encontrava dobrada. Enquanto estendia o papel, o fechamento da carta atraiu sua ateno. 
Um avraso, Ani. Lhe caiu a alma aos ps. Incrdulo, fez um grande esforo para tratar deentender as frases grosseiramente redigidas, maravilhando-se de tudo o que ela tinhaaprendido em to pouco tempo. Voc esho de menos, kiero ir a kasa. Por fabor. 
Na ltima linha escreveu: Voc esho de menos muito. Alex leu estas ltimas palavras atravsdas lgrimas que empanavam seus olhos. deixou-se cair no bordo de seu escritrio e se levou 

o papel ao nariz. O leve perfume de rosas se aferrou a ela. Fechou os olhos, imaginando o quesentiria naquele momento ao estreit-la entre seus braos, ao ocultar a cabea na doce curvade seu pescoo. O desejo que se apropriou dele era to forte, que todo seu corpo ficou a 
tremer. 
Quando conseguiu recuperar a compostura mnimamente, redigiu uma carta de resposta,
escrevendo as palavras com letra de imprensa e fazendo frases curtas e singelas. Uma notaalentadora, animando-a a trabalhar muito na escola e a desfrutar das atividades sociais. 
Aquelas curtas frases foram as mais difceis que escreveu em toda sua vida.
Com a pontualidade de um relgio, as cartas do Maddy comearam a chegar uma vez semana a partir de ento. Ela mantinha ao Alex  corrente de tudo o que acontecia, mas noera muito. Ao Annie estava indo bem na escola. O beb estava crescendo. Os trs se 
encontravam bem. 
Em 1 de maio, Alex recebeu outra carta do Annie. Esta vez, alm de lhe suplicar que a 


deixasse voltar para casa, ela escreveu trs frases que fizeram que lhe gelasse o sangue nasveias. Tenho um nuebo amigo.  surdo. Nos reimos musho. 
A primeira reao do Alex, um profundo medo, finalmente cedeu o passo a um conformismofatalista. Se Annie encontrava a outra pessoa, se se apaixonava, ento isto significava queaquele matrimnio no estava destinado a durar. Ao longo de toda sua vida, lhe tinhamnegado tudo o que as demais pessoas davam por sentado. Se ele a amava, se realmente aamava, no permitiria que seus desejos egostas a privassem daquela oportunidade de ter umavida normal. 
Pouco depois, chegou outra carta do Maddy. Descrevia ao novo amigo do Annie, Bruce, comoum jovem simptico e arrumado. " evidente que a adora, e  incrivelmente amvel com obeb, o qual lhe granjeia o carinho dela". depois de ler a carta, Alex permaneceu sentado em 
seu estudo, com o olhar perdido no vazio. Estaria Maddy lhe fazendo uma advertncia? A idia 
lhe produziu uma profunda dor. Bruce... Embora nunca tinha visto esse homem, Alex odetestava. De maneira que incrivelmente amvel com o beb, verdade? Canalha desprezvel.
Estava utilizando ao menino para ganhar o afeto do Annie. Era o truque mais antigo do mundo. 
O que assustava ao Alex era que pudesse sortir efeito.
Estaria a ponto de perder ao Annie? Sem ela nem o beb, no estava seguro de que merecesse 
a pena viver.
Muito preocupado por esta notcia, dirigiu-se  cavalaria e ficou a trabalhar at altas horas danoite, obrigando-se a seguir at virtualmente desabar-se de esgotamento para poder dormir.
Quando finalmente se deixou cair na cama, os sonhos comearam a atorment-lo. Sonhou com 

o Annie... danando a valsa nos braos de outro homem. 
Em 15 de maio chegou outra carta do Annie. depois da sutil advertncia que Maddy lhe fez 
sobre o bom do Bruce, Alex tinha medo de abrir o sobre. dentro dele s havia um desenho. 
Enquanto o desdobrava sobre o escritrio para olh-lo, franziu o cenho. Tal e como fizesse um 
dia j remoto na habitao dos meninos, Annie tinha desenhado os rostos deles dois. Mas, 
neste desenho, Annie tinha orelhas e Alex no. No havia nenhuma mensagem. Nada queexplicasse os desenhos. S um retrato dele sem orelhas.
Alex observou o desenho at no poder mais, sem saber o que pensar. Logo, como se uma 
mula lhe tivesse dado um coice em meio dos olhos, finalmente entendeu o que ela estavatratando de lhe dizer. 
Kiero ira kasa, tinha escrito. Voc esho de menos muito. E ele tinha feito caso omisso de suas 
splicas. Escreveu-lhe como se nunca tivesse lida sua mensagem, animando-a a seguirestudando e a desfrutar das atividades sociais. Em sua determinao de fazer o queconsiderava melhor para ela, fazia ouvidos surdos ao que ela pensava e queria, como se seussentimentos e desejos no contassem absolutamente.
Tinha tratado de pr o mundo a seus ps e, no intento, tinha-lhe tirado o mais importante de 
tudo: o direito a escolher. 
-Santo Deus, Annie, meu amor... 
O arrependimento se apropriou dele e fechou os olhos. Nunca deveu fazer caso ao doutor Muir 
nem ao Edie Trimble. Ningum conhecia o Annie melhor que Alex. Ningum a entendia como 
ele. Ningum a queria mais.
Em um abrir e fechar de olhos, viu-se si mesmo junto a ela no apartamento de cobertura, umaj remota tarde, recolhendo os fragmentos quebrados da porcelana, pensando para seus 
adentros que o ch tinha terminado, mas que a vida do Annie acabava de comear. Naquelemomento, jurou fazer tudo o que estivesse em suas mos para que todas suas fantasias sevoltassem realidade. Olhando para trs, reconstruiu a cena mentalmente. Um salo acolhedor. 
Annie, servindo o ch em taas de porcelana desiguais. Annie, danando nos braos do homem 
de seus sonhos, ao compasso de uma msica imaginria. Sem grossos livros. Sem sales de 
classe. Sem uma multido de desconhecidos em torno dela. S um mundo pequeno e singelo,
arrumado a seu gosto, habitado por pessoas que lhe permitiam ser algum.
Uma vida normal... Esse era seu sonho. Ser reconhecida como uma pessoa com desejos,
pensamentos e sentimentos. Ser amada. Ser aceita como era. Em lugar de lhe dar tudo isto,
ele tinha tratado de troc-la. por que o tinha feito era um mistrio para ele, pois amava aoAnnie tal e como era. 
Imagens dela passaram rapidamente por sua cabea, e todas fizeram aflorar um sorriso a seuslbios. Annie, procurando um ovo entre a roupa da cama. Annie, sentada sobre seus joelhos,
com a boca franzida e os olhos cheios de perplexidade, enquanto lhe desabotoava a camisainterior. Annie, tocando uma e outra vez a mesma nota no rgo, com uma expresso degrande felicidade no rosto. Annie, tombada de forma pouco elegante sobre a mesa do comilo,
com a saia por cima da cintura e um guardanapo na boca para que ningum ouvisse seus 


gritos enquanto ele a levava a orgasmo. Annie, farta de sexo, com um camundongo 
acomodado no ombro. Annie, com seus olhos luminosos e seu doce sorriso. 
Perfeita, tal e como era. Absolutamente perfeita. 

CAPTULO 26 


Alex se encontrava frente  porta branca da perto e olhava fixamente a enorme casa Branca. 
Situada longe da rua, tinha verdes pradarias de grama em declive, arriates de flores bem 
cuidados e grandes rvores de sombra, um dos quais tinha um balano pendurado de uma de 
suas grosas ramos. No alpendre, vrios jovens estavam sentados em cadeiras de vime,
bebendo o que parecia ser ch gelado e mantendo uma animada conversao. Ao ver os
rpidos movimentos de suas mos, Alex sorriu ligeiramente. Era bvio que tinha que praticar 
muito se queria dirigir com tal facilidade a lngua de signos. 
A porta chiou com fora quando a abriu. Nenhuma das pessoas que se encontravam no
alpendre se voltou para ele. Enquanto Alex subia pelo caminho de entrada, escrutinava com o 
olhar as janelas da casa, esperando ver o Annie. Ao chegar  escada, um arrumado jovem
advertiu sua presena e ficou em p para receb-lo. 
-Ol. Posso ajud-lo em algo? Sobressaltado, Alex vacilou um momento detrs apoiar o p no
primeiro degrau. O homem falava com voz montona e curiosamente fanhosa, mas
pronunciava cada palavra  perfeio e com toda claridade.
-Ao melhor. Sou Alex Montgomery. Minha esposa, Annie, estuda aqui.
Os olhos azuis do homem se avivaram para ouvir o nome do Annie. Sorriu, sem deixar de 
observar com evidente curiosidade ao Alex. 
-No  voc to bonito como ela diz. 
Este comentrio desconcertou ao Alex, e soltou uma gargalhada.
-Lamento decepcion-lo.
-No estou decepcionado. Eu o considero a voc como meu rival. -Um inconfundvel brilho 
iluminou seus olhos. Tendeu a mo direita-. Me chamo Bruce Johnson. 
Alex ficou olhando a mo estendida. depois de vacilar um momento, a estreitou.
-Soa-me esse nome. Minha ama de chaves, Maddy, mencionou-o em vrias cartas. Entendo 
que esteve voc cortejando ativamente a minha esposa.
Bruce se Rio. 
-Tentei-o. 
-teve um pouco de sorte?
-Ainda no. 
Alex se Rio a seu pesar. Embora no gostava de reconhec-lo, aquele homem lhe resultava
simptico.
-Tranqiliza-me sab-lo. 
-Annie  muito fiel. Somos bons amigos, nada mais.
Alex seguiu subindo as escadas.
-Ela est aqui, verdade?
-Est em classe neste momento. -Tirou um relgio do bolso de seu colete-. Em dez minutos 
ter terminado. 
Alex no queria esperar dez minutos, mas sups que no ficava mais remdio. apoiou-se 
contra o corrimo do alpendre e cruzou os braos. 
-Quanto faz que estuda voc aqui?
-Sou professor.
-Ah. 
Bruce sorriu abertamente. 
-Muitos dos professores desta escola so surdos. Embora no o cria, isso facilita nosso
trabalho. Entendemos melhor a situao. Tambm h professores que no so surdos.
Necessitamo-los para as classes de pronncia. Como  bvio, eu no poderia saber se um 
estudante est pronunciando corretamente uma palavra.
Alex assentiu com a cabea. 
-Como vai ao Annie? 
Ao Bruce lhe apagou o sorriso da cara.
-Ela  muito inteligente, e tem a vantagem de ter ouvido em algum momento de sua vida.
Mas no est aprendendo to rpido como poderia.
-Ah. Esteve-me mandando cartas. As palavras no esto muito bem escritas, mas eu... -Alex
se encolheu de ombros-. Naturalmente, supus que devia estar aprendendo a passos 
aumentados. 




Bruce se ruborizou de vergonha.
-Sim, bom, eu a ajudava um pouco. -Seus lbios se moveram nervosamente-. Mas no
corrigia sua ortografia. Se visse voc quanto se esfora para riscar cada letra de uma palavra,
entenderia por que. No tinha valor para lhe fazer escrev-lo tudo de novo, e pensei que voc
preferiria ter uma carta que ela mesma tivesse escrito, com enganos e tudo, a uma que eu
tivesse corrigido.
Alex no soube o que dizer. No bolso da camisa tinha todas as cartas do Annie. Tinha 
percorrido cada palavra com as gemas dos dedos centenas de vezes. 
-Annie sente falta de seu lar. Alm de entregar-se  escritura de cartas, no lhe ps muito 
entusiasmo aos estudos. 
Alex olhou ao Bruce aos olhos. 
-por que tenho a sensao de que est voc advogando por ela?
-Possivelmente porque  o que ocorre. Todos ns poderamos aprender mais, inclusive voc.
Que tal  seu latim? 
-Pssimo. 
Bruce elevou as sobrancelhas. 
-Ento, possivelmente deva ir voc a uma escola durante uns quantos anos para aprender o
idioma. Quando seu latim seja perfeito, pode voltar para casa e viver com sua esposa.
O homem estava misturando-se em algo que no era assunto dele, mas Alex no conseguia 
zangar-se.
-De acordo. -Sorriu ligeiramente-. Mas o sermo no era necessrio. vim a me levar isso a
casa. depois de mand-la a esta escola, compreendi meu engano.
Os olhos azuis do Bruce se escureceram. Alex pde ver que a notcia da partida do Annie o 
afetava muito. Mas em seguida se reps.
-Me alegro de que tenha trocado de opinio. Pelo Annie. -Elevou um ombro-. Para que
aprender a falar se a pessoa com a que algum quer conversar se encontra muito longe? O
corao do Annie no est aqui. Nunca o estar. Deixe-a aprender todo o necessrio em casa,
a um ritmo mais pausado.  ali onde deve estar.
Depois de dizer estas palavras, o jovem comeou a afastar-se. Alex alargou a mo para lhe 
agarrar o brao. 
-Eu gostaria de lhe dar uma surpresa. No lhe diga que estou aqui, por favor.
Bruce sorriu. 
-ia procurar a para me despedir. Quando o vir a voc, alegrar-se tanto que... -Elevou as
mos-. Ento, dir-lhe voc que lhe mando uma saudao?
-Com muito prazer. -Alex exibiu um grande sorriso, mas em seguida ficou srio-.
Passaremos a noite aqui no Albany e agarraremos o trem da manh. por que no janta voc
conosco? Desta maneira poder despedir-se e passar um pouco de tempo com ela antes de 
que parta. 
Bruce se alegrou de que Alex lhe fizesse este convite. Olhou-o atentamente durante um minuto
antes de voltar-se para entrar na casa.
-Chega voc a resultar simptico com o tempo -disse por cima do ombro.
Alex se Rio e tirou o relgio para olhar a hora. A classe do Annie terminaria em trs minutos, os 
quais se converteram em cento e oitenta segundos, e cada um deles foi o mais comprido de 
sua vida. 
Quando a porta principal finalmente se abriu e os estudantes comearam a sair ao alpendre, 
Alex se ergueu. O corao lhe saltava cada vez que via uma cabea de cabelo negro. Saram 
dois homens jovens e logo trs mulheres. Mas no aparecia Annie. Alex caiu na conta de que 
estava tremendo e tinha o estmago como se se tragou um punhado de rs saltarinas. 
E ao fim se fez visvel, como se fosse uma apario. Alex ficou paralisado em seu lugar,
absorto, com os olhos cravados nela. Seu cabelo azeviche, sua pele como o marfim, seus olhos
to claros e to imensamente profundos como um cu do vero. Levava um monto de livros
em um brao e estava tratando de fech-la capa. Outro estudante saiu detrs dela e, sem
querer, deu-lhe um golpe no ombro. Ao apartar do caminho, ela ficou justo em frente do Alex.
Entretanto, no elevou a vista. 
-Annie... 
No houve resposta alguma. A jovem estava olhando fixamente seus sapatos. Elevou a vista
lentamente. Quando seus olhos descobriram o rosto do Alex, ficou completamente paralisada.
No esboou um sorriso. No manifestou surpresa alguma. S ficou olhando-o fixamente, com
a boca ligeiramente aberta e uma mo suspensa no ar, sobre o fechamento da capa. Durante 
um terrvel momento, 
Alex se perguntou se seus sentimentos para ele teriam trocado, se ela no se alegraria de v




lo. 
Um instante depois, ela deixou cair os livros, que chocaram contra o cho do alpendre com 
grande estrpito, mas s Alex pareceu ouvir este som. Uns papis se esparramaram no cho, e
alguns deles foram arrastados pelo vento escada abaixo.
-Bata as asas! 
Depois de dizer isto, ela se lanou a seus braos. Alex a estreitou contra seu peito. Enquanto a
abraava com fora, soube que ali era onde ela devia estar, onde sempre deveu estar.
Soluando e tremendo terrivelmente, Annie jogou os braos ao pescoo. 
-Bata as asas! 
A forma em que ela pronunciava seu nome era imperfeita, mas, para o Alex, aquele era o som
mais formoso que tivesse ouvido jamais.
Annie... balanou-se com ela entre os braos, to feliz que sentia uma profunda dor. No lhe
importou que as pessoas que estavam no alpendre ficassem olhando-os. Tampouco lhe
importou sentir lgrimas correndo por suas bochechas. Estava estreitando seu mundo entre os
braos. Tinha sido um parvo ao apartar a de seu lado. Nunca voltaria a cometer esse enorme 
engano.
Com um brao rodeando seu corpo com firmeza, arrastou-a escada abaixo. Quando ela
advertiu que o vento estava esparramando seus papis, Alex lhe impediu de ir recolher os.
-lhe deixe disse. 
Annie o olhou intensamente. Os olhos dela estavam alagados em lgrimas.
Alex a aproximou ainda mais a seu corpo e lhe agarrou o queixo. 
-J no os necessitar. Vamos a casa. 
-A casa? 
-A casa -reafirmou ele-. Voc, eu e o beb. A casa. No voltar para a escola. Contratarei
um professor particular.
-A casa, para sempre? 
-para sempre.
Alex abriu a porta do jardim com o quadril. No queria solt-la nem por um instante. Elevou a
vista para olhar a rua bordeada de rvores e logo voltou a dirigir o olhar para sua doce cara. 
-A casa, para sempre.
Enquanto dizia estas palavras, invadiu-o uma paz que no tinha sentido em muitos meses. A
casa, onde os esperava um futuro juntos. A casa, onde as fantasias podiam voltar-se realidade. 
Seguindo um impulso, levou ao Annie a dar uns passos de valsa. O vento elevou a capa da
jovem. Ela jogou a cabea para trs com expresso de grande alegria no rosto. Alex sabia que
ela estava imaginando que danavam ao compasso de uma melodia. O estranho foi que ele
tambm acreditou ouvi-la. Apenas perceptvel, cadenciosa, escorregadia. 
A cano do Annie, e agora tambm a sua, mgicas notas que s eles podiam ouvir. 


EPLOGO 

O sol entrava em torrentes pela janela do comilo, formando uma aurola dourada em tornode Annie, que se encontrava sentada  mesa, com a cabea inclinada e o olhar fixo em algoque tinha sobre o regao. Inclusive depois de trs anos de matrimnio, Alex no deixava de lheagradecer a Deus que tivesse bento sua vida com algum to doce, e vacilou um momento naentrada para observ-la durante um momento. A julgar pelo aspecto do prato, ela haviatornado a deixar seu caf da manh quase intacto por terceiro dia consecutivo.
um pouco preocupado, Alex cruzou a habitao a grandes pernadas. Gabby, o lanzudo co 
branco que Alex lhe tinha agradvel ao Annie fazia j dois anos, deveu sentir os passos de seuamo vibrando atravs do cho, pois despertou sobressaltado e comeou a dar saltos em tornoda cadeira da mulher, ladrando estridentemente. Ao perceber este som, Annie apartou a vista 
do que Alex ento pde ver que era um bordado.
-bom dia -disse ela com um carinhoso sorriso. 
-bom dia. 
Alex dirigiu seu olhar para o bulioso co. Posto que o agudo latido do animal era um dos 
poucos sons que sua esposa podia ouvir, absteve-se de queixar-se pelo escarcu. Embora oco no servisse para nada mais, sempre ladrava para alertar ao Annie quando Bart comeava 
a chorar, e isto fazia que a peluda criatura valesse seu peso em ouro. Gabby, nome que era 
perfeito para ele, tambm ladrava para avisar ao Annie de que algum a estava chamando a 
ela ou  porta, lhe permitindo a sua ama responder ante rudos que de outra maneira no teria 
advertido. 
Com uma suave risada, Annie deixou a um lado seus trabalhos e se inclinou para levar uma 



mo ao focinho do Gabby. 
-J basta -lhe disse ao co docemente. 
Gabby, que adorava a sua ama quase tanto como o marido, comeou a tremer e a girar emtorno dela, to contente de que o houvesse meio doido que parecia haver-se voltado louco dealegria. Alex entendia este sentimento. Deixando escapar um suspiro, tirou uma cadeira da 
mesa e se sentou. Ato seguido, dirigiu o olhar uma vez mais para o prato do caf da manh de 
sua esposa. 
-Annie, meu amor, tem que comer, ultimamente nunca toma o caf da manh. Encontra-te 
mau ou o que? 
Dirigindo o olhar para seu prato, ela enrugou o nariz e se levou uma mo  cintura.
-No,  s que no quero comer, estou engordando.
-Essas no so mais que tolices, se alguma vez...
Alex se interrompeu. Annie tinha inchado as bochechas, tentando que sua cara parecesse 
rellenita. Este gesto lhe recordou tanto aquela inesquecvel noite em que ele compreendeupela primeira vez quo inteligente era ela, que lhe ps a carne de galinha. Olhouprofundamente seus cndidos olhos azuis. No... No era possvel. Jogou uma olhada a suacintura. No era um pouco maior que de costume?, perguntou-se. Ou o estava imaginando?
Quando voltou a elevar a vista, teria podido jurar que tinha visto um sorriso fugaz aparecendoa doce boca de sua esposa. 
-Annie? Carinho, est...? 
Ela levantou suas formosas sobrancelhas. Sem dvida havia um sorriso brincando em sua 
boca, concluiu Alex. Um sorriso picasse. Sentiu como se o estmago lhe tivesse cansado aocho. No era possvel. J tinha tudo o que um homem poderia desejar: uma esposaabsolutamente maravilhosa e um filho precioso. Desejar mais... bom, embora Alex adorava osmeninos, nunca se tinha permitido albergar a esperana de ter mais filhos, mais que nada 
porque temia sofrer uma decepo. 
-Annie, no tire o sarro -advertiu com ar de gravidade-. No brinque com algo assim. Estgrvida?
Os olhos do Annie se iluminaram de modo suspeito enquanto assentia lentamente com acabea. Alex no pde conter a alegria repentina que estalou dentro dele. Sem pens-lo duasvezes, levantou-se da cadeira e estreitou ao Annie entre seus braos. O bordado saiu voando 
pelo ar. Gabby se tirou de no meio rapidamente, enquanto Alex arrastava a sua esposa portoda a habitao ao compasso de uma valsa imaginria.
-Est grvida! -gritou-. No posso acredit-lo!
Aferrando-se a seus braos, Annie lhe permitiu que a fizesse girar sem que seus ps tocassem

o cho. A jovem soltou uma estridente gargalhada quando ele a estreitou contra seu peito paraabra-la. 
-Tome cuidado! -advertiu-lhe-. No me aperte com tanta fora!
Alex em seguida moderou seu desmedido entusiasmo.
-Perdoa, meu amor. 
inclinou-se para beij-la. No instante mesmo em que os lbios se tocaram, ela se derreteu emseus braos, fazendo que Alex pensasse em todas as vezes em que tinham comeado destamaneira e tinham terminado fechando as portas do comilo com chave para poder fazer o 
amor. 
-Amo-te. Deus santo, quanto te amo! -murmurou Alex. 
Acabava de fazer esta declarao quando ouviu uns murmrios. Ps fim ao beijoabruptamente, olhou por cima da cabea do Annie e viu que Frederick, o mordomo, 
encontrava-se no comilo, levando ao Bart a cavalo sobre seus ombros. 
-O que acontece, Frederick? 
antes de que o mordomo pudesse falar, Maddy apareceu sua vermelha cabea por um dos 
flancos do corpo do Frederick. 
-J o h dito? 
Alex sentiu que Annie se movia e, ao olhar para baixo, viu que ela estava negandocategoricamente com a cabea e levando um dedo  boca. Em resposta, Maddy fez uma 
careta. Para o Alex estava muito claro que o ama de chaves e o mordomo j sabiam que Annie 
estava grvida. como sempre, o marido era o ltimo em inteirar-se. Contrariado, franziu ocenho, mas a verdade era que no podia zangar-se. Em seus trs anos de matrimnio, Annie 
tinha chegado a considerar o Maddy como uma segunda me. No podia lhe reprovar quetivesse compartilhado suas inquietaes ntimas com a mulher maior. Infelizmente, desde seumatrimnio com o Frederick, fazia j um ano, Maddy tinha adquirido o molesto costume de 
contar-lhe tudo, embora se tratasse de um segredo. 


-Beb! -disse renda o pequeno Bart. Logo, estalando a lngua como se estivesse fustigando 
um cavalo, atirou do cabelo do Frederick e deu patadas com seus pequenos ps-. Arre, 
Frederick! Arre! 
Sempre disposto a agradar ao jovem amo da casa, Frederick comeou a correr sem mover do 
stio, saltando tanto como podia para satisfazer a seu intrpido cavaleiro.
-Sinto muito, senhor, mas eu me inteirei antes que voc s porque...
-Eu o contei -disse Maddy detrs deixar escapar um bufo-. Alm disso, no  algo que terei 
que manter em segredo, no  verdade?
O ama de chaves deixou ao Alex sem argumentos. No era nenhum secreto, era mas bem um
presente precioso, uma notcia maravilhosa que terei que proclamar aos quatro ventos. Voltou 
a estreitar ao Annie em seus braos, to feliz que no podia express-lo com palavras.
Felizmente, ela pareceu entender isto e lhe devolveu o abrao. Com a extremidade do olho,
Alex viu o pequeno Bart saltando sobre os ombros do Frederick. Maddy sorria com orgulho, 
como se aquele beb que ainda no tinha nascido fosse seu neto. Alex sups que, dadas as 
circunstncias, isso era o mais apropriado. Maddy era como uma me, tanto para sua esposa 
como para ele.
"Quero uma menina", pensou Alex. J tinha um formoso filho. Sim, queria uma filha. Embora
em realidade no lhe importava se era menino ou menina, enquanto estivesse so. Mas, no
fundo, no mais profundo de seu corao, queria uma pequena. Uma menina de sedoso cabelo 
azeviche e enormes e incrivelmente expressivos olhos azuis. A feliz gritaria de vozes pareceu
apagar-se pouco a pouco enquanto Alex olhava o rosto precioso de sua esposa.
Sim, uma menina idntica ao Annie... 


FIM 


A cano de Anie,
